O Espírito Santo permanece como a menor praça jurídica da Região Sudeste no ANÁLISE ADVOCACIA REGIONAL 2026 e concentra o menor número de escritórios e advogados Mais Admirados do Brasil. O recorte revela um mercado concentrado e marcado pela predominância das bancas de perfil abrangente.
Neste ano, o estado soma 14 bancas no ranking de escritórios Mais Admirados. Com isso, a participação capixaba no total nacional de escritórios reconhecidos oscilou minimamente para baixo. A retração, porém, não altera a configuração principal do mercado local: nove dos 14 escritórios eleitos atuam na categoria abrangente, enquanto as boutiques somam quatro representantes e o modelo full service aparece com uma banca.
Entre os profissionais, o desenho é semelhante. Pelo segundo ano consecutivo com ranking de advogados Mais Admirados, o Espírito Santo reúne 24 nomes reconhecidos. A predominância dos abrangentes também se repete nesse recorte: 17 dos 24 advogados eleitos atuam nessa categoria. As boutiques aparecem em seguida, com seis nomes, enquanto o modelo full service conta com apenas um profissional reconhecido.
A tecnologia como vetor de concorrência externa
Parte da retração nos números locais pode ser explicada pela diluição das fronteiras geográficas provocada pela transformação digital. Para Leandro Pompermayer Farias, sócio do Sarcinelli Garcia & Advogados Associados e eleito Mais Admirado, a virtualização dos processos e a consolidação do atendimento remoto encurtaram as distâncias entre os departamentos jurídicos capixabas e os grandes centros do país.
"Isso faz com que as empresas ampliem o leque de possibilidades de contratação, optando por escritórios com atuação regionalizada ou mesmo nacional, e não apenas vinculada ao Espírito Santo", complementa Farias.
Esse movimento amplia a concorrência sobre as bancas locais e ajuda a explicar por que a consolidação do mercado capixaba convive, ao mesmo tempo, com maior pressão externa por clientes e reconhecimento.
Entre o generalismo e a estratégia
Diante da concorrência externa, as bancas de perfil abrangente consolidam-se como o principal modelo da advocacia capixaba reconhecida. Em 2026, elas representam 64% dos escritórios e 71% dos profissionais eleitos no ranking estadual. A liderança desse formato revela diferentes leituras sobre a maturidade do mercado jurídico no Espírito Santo.
Para Werner Rizk, sócio do Zouain, Rizk, Colodetti & Advogados Associados e Mais Admirado na edição, a predominância dos abrangentes reflete uma base profissional ainda marcada pela formação generalista. "É difícil encontrar mão de obra local com experiência exclusivamente em uma área. Em geral, os advogados chegam com formação mais generalista, e isso acaba se refletindo também no perfil dos próprios escritórios", argumenta Rizk.
Sandro Vieira de Moraes, sócio-fundador do Schneebeli, Vieira de Moraes & Pepe Advogados e eleito Mais Admirado, enxerga o mesmo fenômeno por outro ângulo. "Acredito que o modelo abrangente consegue aliar uma captação endógena de clientes com a atuação em processos estratégicos, o que favorece sua permanência como modelo predominante no mercado local."
Moraes pondera, contudo, que o surgimento de novos nomes no topo do ranking tende a ocorrer em ritmo mais lento em praças concentradas. Segundo ele, quando a maior parte dos escritórios relevantes já foi identificada pelo mercado, o crescimento posterior passa a ser naturalmente mais gradual.
Especialização e cooperação: o horizonte de crescimento
Mesmo em menor escala, as boutiques especializadas mantêm relevância no mercado capixaba e ocupam a vice-liderança local. Em 2026, o segmento responde por 29% das bancas reconhecidas e por 25% dos profissionais Mais Admirados do estado. O resultado indica que, embora o Espírito Santo tenha uma estrutura jurídica mais enxuta, a especialização segue como uma frente de competitividade para escritórios que buscam atuar em demandas técnicas e em mercados além da praça local.
Para Leandro Pompermayer Farias, sócio do Sarcinelli Garcia & Advogados Associados e eleito Mais Admirado, a menor extensão territorial do estado não limita o potencial técnico da advocacia capixaba.
"Isso não afasta o estado de contar com bancas preparadas, especializadas e com uma visão que vai além do mercado local — alcançando o mercado brasileiro e até o internacional", afirma.
Na avaliação de Farias, as boutiques capixabas têm condições de manter sua relevância e até ampliar participação, embora esse crescimento também dependa de fatores externos ao esforço individual dos escritórios. "Acredito que há espaço para que haja crescimento em vez de retração; creio na força da economia capixaba e na qualidade da advocacia que se pratica aqui", argumenta Farias.
Advocacia autofágica
Desde a terceira edição do ANÁLISE ADVOCACIA REGIONAL, os escritórios full service registram a menor quantidade de reconhecimentos no Espírito Santo. O melhor desempenho do segmento ocorreu em 2025, quando duas bancas figuraram no ranking de Mais Admirados. Neste ano, apenas uma banca foi reconhecida: o Gomes, Melotti, Tedesco e Bermudes Advogados Associados.
Para Breno J. Bermudes Brandão, sócio do escritório, a baixa visibilidade dos full service e das demais categorias da advocacia capixaba está ligada a fatores regionais, como a falta de incentivo, de informação e de articulação institucional para projetar o mercado local no cenário nacional.
"Na minha opinião, essa baixa visibilidade está ligada à falta de incentivo e de informação no mundo jurídico — envolvendo a própria OAB e os advogados — em relação ao destaque que precisamos ter no âmbito nacional. Acredito que faltam divulgação, informação e um networking regional mais consolidado", enfatiza Brandão.
Segundo ele, parte da dificuldade também decorre da pouca comunicação entre as bancas capixabas. Mesmo os escritórios de maior porte, afirma, ainda atuam de forma isolada, sem uma articulação capaz de fortalecer a imagem conjunta da advocacia local diante das empresas do estado.
"Mesmo os escritórios grandes aqui atuam de forma quase solitária. Por conta disso, empresários locais ainda buscam advogados em outros estados em vez de recorrer a escritórios da região", afirma o sócio.
Brandão define essa dinâmica como autofágica, por enfraquecer a construção de um ambiente mais sustentável para a advocacia. Apesar disso, ele avalia que os escritórios começaram a perceber os efeitos da retração regional e passaram a buscar maior cooperação, ainda que de forma incipiente.

