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Modelos de IA especializados ganham espaço nos escritórios de advocacia

Especialização e menor custo consolidam modelos de linguagem personalizados como ferramentas indispensáveis na advocacia

15 de June 16h50
(Imagem: Análise Editorial/Freepik)

Atualmente, a Inteligência Artificial (IA) se tornou um componente essencial do dia a dia tanto das empresas quanto dos cidadãos. Prova disso é que 68% dos brasileiros em todo o território nacional fazem uso da ferramenta em suas rotinas cotidianas. Os dados são da Read AI, empresa que oferece assistentes virtuais e uma espécie de de copiloto focado em produtividade corporativa e automação do trabalho. Esse uso massivo impulsionou as big techs e outras companhias de tecnologia a oferecerem um volume cada vez maior de modelos para atender à crescente demanda mercadológica.

No ambiente corporativo, a inteligência artificial ganha ainda mais relevância devido à automação e à eficiência geradas nos processos, o que torna a sua adoção praticamente obrigatória para quem deseja se manter relevante no mercado. Diante desse cenário de ampla oferta, surge o desafio de como escolher a ferramenta ideal para suprir as necessidades internas. É exatamente nesse ponto que entram os SLMs (Small Language Models, ou Pequenos Modelos de Linguagem).

O que são SLMs?

Diferentemente das inteligências artificiais mais populares do mercado, como o ChatGPT, por exemplo, os SLMs são modelos de linguagem mais compactos, rápidos e focados em tarefas específicas. Essas características os tornam ferramentas ideais para sanar gargalos operacionais e proporcionar um atendimento mais ágil e eficiente para os usuários e clientes.

Os SLMs costumam ser oferecidos em um formato pré-configurado. No entanto, por exigirem menos recursos computacionais, esses modelos se mostram ideais para uma personalização rápida e perfeitamente ajustada a domínios específicos de atuação, permitindo que a tecnologia se adapte à empresa, e não o inverso.

Para Elias Donizetti Gonçalves, cofundador e CEO da Tools.Law — ecossistema de legaltech focado em IA e análise de dados para o setor jurídico —, os SLMs são ideais para as bancas de advocacia, já que "o processo de implementação de agentes de IA acompanha o fluxo completo da operação dentro do escritório, e não apenas uma parte isolada do todo."

Ao analisar a governança de agentes tecnológicos, o CEO afirma que a melhor estratégia para adotar as inteligências artificiais é estruturar a implementação de forma arquitetada em todo o fluxo corporativo. Essa esteira abrange desde a captação do processo, momento em que a banca toma conhecimento da demanda do cliente, até a elaboração final da tese jurídica. "Todo esse fluxo do escritório precisa ser intermediado por agentes que o tornem mais fluido, mais assertivo e mais ágil, com ganhos reais de produtividade", destaca Gonçalves.

SLM como diferencial competitivo

Todo escritório de advocacia possui um fator essencial que o diferencia da concorrência: a sua expertise. Esse repertório acumulado de casos e atuações faz com que as bancas não apenas detenham uma bagagem única no mercado, mas também enfrentem desafios operacionais específicos que variam de negócio para negócio.

Um exemplo prático desse cenário é o Mendes & Mendes Advogados, que realizava cálculos judiciais de forma totalmente manual. Devido à alta complexidade das operações, a atividade demandava muitas horas de trabalho da equipe e ainda apresentava margem para falhas humanas. Para solucionar o problema, o escritório decidiu eliminar esse gargalo operacional e automatizou o processo por meio de um SLM treinado especificamente para interpretar decisões e aplicar parâmetros legais de forma integrada aos sistemas internos da banca.

"Eu ganhei tempo com a ferramenta, pois o advogado deixou de fazer o cálculo do zero. Com isso, ele passou a revisar se o cálculo realizado pela IA estava correto, dentro dos critérios de análise processual", revela Damiana Alves, sócia e CEO do escritório.

A sócia ressalta que a ferramenta foi alimentada com o banco de dados interno do escritório construído ao longo de dois anos, o que permitiu levar mais previsibilidade aos clientes. Dessa forma, com os processos pré-calculados, a banca se tornou capaz de projetar com precisão os custos financeiros para o encerramento das ações tanto no curto quanto no longo prazo.

O verdadeiro patrimônio dos escritórios

Ricardo Alves, sócio e head de inovação do Fragata e Antunes Advogados, segue a mesma linha de raciocínio sobre o valor dos dados. O escritório desenvolveu a Eficiênc.IA, uma estrutura transversal focada em governança e inteligência artificial aplicada diretamente ao contencioso. Desenvolvido em parceria com legaltechs, o projeto automatizou o cadastro de processos e o reembolso de custas, além de otimizar a elaboração de defesas e detectar fraudes documentais em nuvem corporativa.

Para elevar a eficiência dessa estrutura tecnológica, a banca estruturou a iniciativa batizada de "Base Perfeita", que consiste em um banco de dados unificado, sem duplicidades, erros de digitação ou variações de nomenclaturas. Para isso, Ricardo argumenta que a organização sólida de dados, documentos e decisões cria um ativo estratégico capaz de alimentar esses modelos especializados de IA que operam em escala, gerando ganho de velocidade, qualidade e resultados aos clientes.

Integração tecnológica e inteligência corporativa

Para implementar um SLM dentro do fluxo de trabalho de uma banca, o primeiro passo consiste em identificar o principal gargalo operacional da organização. No caso do Mandaliti Advogados, o desafio central era gerenciar uma carteira com mais de 20 mil processos cíveis de um cliente do setor financeiro. Visando otimizar essa demanda volumosa, o escritório integrou a tecnologia de IA generativa à sua operação técnica.

A solução adotada estruturou dados complexos por meio de três módulos especializados de agentes virtuais: Copiloto Jurídico, Análise de Risco e Acordos Judiciais. Essa inovação eliminou gargalos operacionais crônicos, mitigou riscos jurídicos e garantiu alta escala com precisão técnica, permitindo que a equipe de advogados passasse a focar em defesas e teses de cunho estratégico.

De acordo com Karina Batistuci, diretora jurídica do JBM Advogados e Mandaliti Advogados, para alcançar esse patamar de eficiência a banca utilizou dados estruturados de formulários e automações desenvolvidos desde 2022 para alimentar os módulos de IA. O objetivo central era obter ganho de escala e padronização por meio do treinamento da ferramenta com manuais internos e vídeos de orientação, respeitando rigidamente as regras de negócio sem realizar a inserção direta de dados sensíveis do cliente.

Com essa base de conhecimento consolidada, a inteligência artificial auxilia em tarefas complexas como provisão de risco e análise de acordos, operando sempre sob a validação técnica de um advogado. Batistuci afirma que essa abordagem garantiu maior velocidade, eficiência e controle aos fluxos, transformando a tecnologia em um assistente rápido capaz de otimizar análises jurídicas corporativas.

O trunfo do SLM contra vazamentos

De acordo com dados do anuário ANÁLISE ADVOCACIA 2026, somente 23% dos 723 escritórios eleitos Mais Admirados afirmaram possuir políticas institucionalizadas e voltadas à governança de IA. Ainda de acordo com a pesquisa da Análise Editorial, 31% das bancas ainda estão desenvolvendo essas diretrizes normativas. Esse índice tímido no que se refere à criação de barreiras formais contra o vazamento de informações demonstra como o tema ainda demanda maior maturação por parte do mercado jurídico nacional.

Contudo, a segurança da informação é justamente o ponto onde o SLM se destaca em comparação a modelos mais abertos. Ricardo Alves acredita que por mais que as big techs invistam em cibersegurança, o risco de incidentes nunca é totalmente nulo. "Você compartilha dados com a garantia de que não serão utilizados para treinar o modelo — mas ninguém é infalível, e essa segurança não é absoluta". Em contrapartida, com o uso de modelos personalizados e focados, a vulnerabilidade a vazamentos é drasticamente reduzida.

"Com o SLM, é possível manter um ambiente controlado: opera-se com data center próprio, com equipamentos que oferecem backup, sem depender da internet nem de VPN para compartilhar dados com empresas que, efetivamente, também estão sujeitas a vazamentos", ressalta Alves.

Elias Donizetti Gonçalves afirma que é justamente essa arquitetura fechada que torna o SLM benéfico para setores que lidam com informações estritamente sigilosas, como o ecossistema da advocacia. A tecnologia permite que todo o volume de dados tratados permaneça alocado de forma exclusiva dentro da própria estrutura de servidores do escritório.

"É possível criar uma infraestrutura básica dentro do próprio ambiente — até fisicamente, se for o caso, para estratégias de maior porte — e permitir que os SLMs processem apenas nesse ambiente fechado. Isso é totalmente condizente com as principais práticas de segurança da informação no contexto da LGPD", complementa Gonçalves.

Estratégia central de competitividade

Os SLMs são projetados a partir de dois pilares principais que justificam a sua concepção. O primeiro aspecto diz respeito à especialização da inteligência artificial para que ela atenda com exatidão a demandas corporativas específicas; o segundo fator envolve a otimização de custos operacionais. Ambas as verticais podem ser direcionadas diretamente aos escritórios de advocacia que buscam eficiência.

Na visão de Elias Donizetti Gonçalves, quando o assunto é especialização, torna-se viável desenvolver um agente focado em uma demanda restrita por um custo menor, agregando centralização de dados e ganhos em segurança da informação — o que configura uma terceira vertical relevante para o setor. "Vejo os SLMs como diretamente ligados aos escritórios justamente por sua arquitetura: ela foi concebida para mercados como o de advocacia."

Diante disso, esse modelo de IA não figura apenas como um diferencial financeiro concreto, mas surge como um recurso essencial para a sustentabilidade de qualquer negócio no segmento jurídico. Gonçalves acredita que essa tendência levará as bancas a reduzirem custos operacionais com agentes especializados, permitindo direcionar o corpo de advogados para a camada que ainda não possui concorrência tecnológica: a validação analítica e a expertise humana.

Em última análise, esse modelo de linguagem se mostra ideal devido ao seu alto potencial de personalização e à capacidade de maximizar os resultados financeiros das bancas, cumprindo o objetivo central de qualquer implementação de tecnologia. É por esse motivo que Elias conclui com um convite à reflexão direcionado aos sócios gestores das instituições.

"A inteligência artificial já não é mais uma simples ferramenta tecnológica — é um diferencial de negócios e, hoje, mais do que isso, é essencial para que todos os escritórios deem o próximo passo que o mercado vai exigir. Espero que todos os escritórios comecem a se atentar para isso", finaliza Gonçalves.

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