O século da confiança: como a governança e a tradição forjaram a elite jurídica | Análise
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O século da confiança: como a governança e a tradição forjaram a elite jurídica

As bancas centenárias revelam que a perenidade exige mais do que excelência técnica: demanda confiança institucionalizada, adaptação tecnológica e uma engenharia societária capaz de sobreviver aos fundadores

2 de July 11h30

Sobreviver a um século no Brasil é mais do que um feito estatístico: é um teste de resiliência empresarial. Em um país que, ao longo das últimas dez décadas, testemunhou mudanças profundas - só de moeda o Brasil trocou oito vezes nos últimos 52 anos - e vivenciou períodos de grande instabilidade entremeados com a promessa sempre otimista de futuro melhor, longevidade empresarial é um dos ativos mais raros.

No mercado jurídico, essa resiliência ganha contornos ainda mais desafiadores. A advocacia, inerentemente personalista em suas raízes, esbarra no gargalo da sucessão. Bancas nascem com grandes teses, crescem sob o brilho de nomes e, não raro, definham junto com o ocaso de seus fundadores, vítimas de disputas societárias ou da simples incapacidade de ler e se adaptar aos novos ventos do mercado corporativo.

Contudo, um seleto grupo de escritórios destacados no ANÁLISE ADVOCACIA REGIONAL 2026 desafia essa gravidade institucional. Os oito escritórios centenários eleitos Mais Admirados na edição têm ao menos uma característica comum: todos operam no eixo Rio-São Paulo. Ao focar no principal eixo de decisões empresariais do país, observa-se que o amadurecimento econômico regional não apenas exigiu, mas forjou instituições jurídicas capazes de blindar o patrimônio de seus clientes por gerações.

A continuidade dessas bancas revela que o maior ativo da advocacia não é o vanguardismo, mas a capacidade de construir uma confiança institucionalizada, resistente ao tempo e capaz de transformar a relação cliente-advogado em uma aliança secular.

A geografia da resiliência: o eixo histórico e econômico

O mapa da excelência centenária possui uma assinatura geográfica clara, refletindo a própria evolução da concentração econômica nacional. O Rio de Janeiro, por seu histórico como capital federal e centro de estatais e companhias estrangeiras, concentra a maior fatia das bancas mais antigas do ranking. A capital fluminense abriga escritórios como Candido de Oliveira Advogados, fundado em 1891; Dannemann Siemsen Advogados, de 1900; Villemor Amaral Advogados, nascido em 1909; Kasznar Leonardos Advogados, de 1919 e Pinheiro Guimarães, estabelecido em 1922.

Em paralelo, o vigor industrial e financeiro de São Paulo ditou a formação de instituições longevas para atender a uma elite empresarial em expansão. No território paulista, destacam-se o Granadeiro Advogados, fundado em 1893, a Advocacia Fernando Rudge Leite, de 1910, e o Fernando José da Costa Advogados, estabelecido em 1923. Essa concentração no eixo Rio-São Paulo não é obra do acaso: a complexidade crescente dos negócios dessas duas regiões exigiu a criação de estruturas jurídicas que transcendessem a atuação individual e passassem a operar como verdadeiros parceiros de negócios a longo prazo.

Sucessão e governança: modelos distintos, o mesmo legado

A travessia do tempo impõe o desafio mais letal para qualquer organização: a passagem de bastão. Ao analisar como essas bancas sobreviveram à terceira, quarta ou até quinta geração de lideranças, nota-se que não existe uma fórmula única, mas sim uma clareza absoluta sobre o que deve ser preservado.

Para alguns, a chave reside na hiperprofissionalização da gestão. Representando o Kasznar Leonardos Advogados, a sócia Luciana Minada é categórica sobre esse modelo: "Entendemos que a perenidade institucional não depende de individualidades, mas sim de uma estrutura de governança robusta e profissional". Essa visão de governança corporativa permitiu ao escritório ser pioneiro na certificação de Sistema de Gestão da Qualidade, institucionalizando processos para que a alternância de lideranças não afete a qualidade técnica.

Na mesma linha de pensamento, Gustavo Granadeiro, sócio do Granadeiro Advogados, enxerga a continuidade institucional como uma arquitetura pensada a longo prazo. "A sucessão é um processo, não um evento. Ao longo da nossa história, construímos uma governança baseada em princípios claros, que permanecem independentemente das pessoas que ocupam posições de liderança", afirma. O executivo destaca que a perpetuidade se dá pela "criação de mecanismos formais de governança, com decisões estratégicas tomadas de maneira colegiada, permitindo que a liderança evolua sem rupturas".

Por outro lado, bancas com assinatura familiar pronunciada encontram na cultura interpessoal seu escudo. O advogado criminalista Fernando José da Costa, do Fernando José da Costa Advogados, ilustra um modelo mais orgânico, onde a cultura é transmitida pelo convívio. "Acredito que a continuidade de uma banca centenária depende muito mais dessa transmissão diária de valores do que de modelos formais de governança", explica o sócio. Para ele, "o que preserva a identidade do escritório é a forma de trabalhar, a seriedade com o cliente, o rigor técnico e o compromisso com a advocacia", atributos forjados no acompanhamento diário de casos complexos entre as gerações.

O portfólio evolutivo e a fidelização transgeracional

Manter clientes por 50 ou 80 anos exige que o escritório evolua na mesma velocidade que seus conselhos de administração. A introdução de pautas como ESG, LGPD e novos marcos regulatórios poderia ser um risco para escritórios clássicos, mas funcionou como alavanca.

A expansão de portfólio nessas bancas não ocorre por ruptura, mas por complementaridade. Luciana Minada explica que, no Kasznar Leonardos, as novas áreas não substituem as tradicionais. Quando as demandas por Privacidade de Dados e ESG surgiram, a expertise prévia os permitiu atuar com a profundidade necessária. "Dessa forma, as novas áreas complementam as clássicas, permitindo-nos oferecer uma assessoria 360º perfeitamente alinhada com os desafios modernos", relata.

Fernando José da Costa vivenciou uma transição semelhante. Embora o coração do escritório seja o Direito Penal, a experiência pública do sócio permitiu expandir a atuação para as áreas cível, societária, trabalhista e administrativa. "Ampliar a atuação, portanto, nunca significou abandonar nossa história, significou colocar a experiência de décadas a serviço de uma realidade jurídica mais complexa", pondera Costa.

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