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IA no Direito expõe distância entre adoção e produtividade no Brasil e no mundo

Estudo da NBER aponta que 89% das empresas globais não registraram ganhos de produtividade com a IA, levantando dúvidas sobre o impacto da tecnologia no Brasil

24 de Março 12h33
(Imagem: Análise Editorial/Divulgação)

Durante muito tempo, discutiu-se como a Inteligência Artificial (IA) iria transformar a sociedade, com impactos profundos em empresas e escritórios de advocacia. As promessas de uma revolução tecnológica aceleraram uma corrida corporativa pela adoção da melhor ferramenta como estratégia de ascensão no mercado. Contudo, o entusiasmo inicial parece ter dado lugar a um cenário de estagnação e, para alguns, até mesmo de frustração.

O levantamento "Firm Data on AI", publicado pelo National Bureau of Economic Research (NBER), vai ao encontro com essa percepção. A pesquisa, que consultou cerca de 6.000 diretores financeiros (CFOs), CEOs e executivos nos Estados Unidos, Reino Unido, Alemanha e Austrália, revelou que 89% dos entrevistados não tiveram impactos na produtividade com a adoção da IA nos últimos três anos.

Neste cenário, surge um questionamento inevitável sobre a realidade do setor: esse ceticismo em relação à IA restringe-se aos mercados pesquisados ou já atinge empresas e escritórios de advocacia em território brasileiro?

O avanço da IA na advocacia brasileira

Segundo dados do anuário ANÁLISE ADVOCACIA 2026, dos 723 escritórios eleitos Mais Admirados, 47% afirmaram ter incorporado o uso de Inteligência Artificial internamente. O indicador demonstra como a advocacia nacional abraçou a tecnologia como uma ferramenta estratégica, capaz de proporcionar benefícios operacionais e competitivos às bancas.

Um exemplo dessa tendência é o BKM Advogados, com o projeto LIMATRIX. Para se manter à frente do cenário de digitalização, o escritório desenvolveu um ecossistema de IA generativa voltado à automação de tarefas jurídicas, preservando a identidade técnica da banca. Treinados com dados próprios, os robôs realizam análises e redações em ambiente privado. Isso garante a segurança das informações e a conformidade com a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD).

A iniciativa elevou a produtividade da área cível em 140% e reduziu o prazo médio de conclusão dos serviços de sete para cinco dias. Como reflexo dessa agilidade, o Net Promoter Score (NPS), indicador que marca a fidelidade do cliente, saltou para 88 pontos, permitindo que o corpo jurídico da banca se dedicasse a entregas mais estratégicas. O desempenho rendeu ao escritório o 1º lugar na categoria de IA em escritórios no Prêmio Análise DNA+Fenalaw 2025. Esse avanço, na visão de Caio Kuster, sócio-diretor do escritório, foi viabilizado por uma postura vanguardista da banca frente à resistência do mercado.

"Enquanto outras bancas criavam núcleos para restringir o uso de IA na elaboração de peças, nós estabelecemos uma regra clara: ‘É obrigatório passar pela IA antes da revisão humana’. Incentivamos que nossa equipe utilizasse e dominasse a ferramenta muito antes dessa movimentação massiva do mercado", relembra Kuster.

Além do hype

Esse case, por si só, já contraria o estudo da NBER, segundo Caio Kuster. Para o sócio-diretor do BKM Advogados, embora o ecossistema LIMATRIX tenha trazido ganhos expressivos para a banca, no cenário geral, a Inteligência Artificial caminha para deixar de ser um diferencial competitivo, uma vez que a tecnologia já está sendo adotada em maior ou menor escala por todo o mercado.

No entanto, mesmo com esse olhar pragmático sobre a ferramenta, Kuster destaca o fator que realmente garantirá a competitividade das bancas no futuro. O foco, segundo o advogado, deve migrar da simples adoção da inteligência artificial para a sofisticação da implementação.

"O que fará a diferença é quem conseguir utilizar a Inteligência Artificial com maior profundidade e for capaz de automatizar processos de forma mais abrangente. Dessa forma, é possível reduzir a necessidade de interferência humana constante no fornecimento de comandos à IA. Isso pode tornar o fluxo de trabalho verdadeiramente autônomo", complementa o sócio-diretor.

Adesão estratégica nas empresas brasileiras

Segundo dados do anuário ANÁLISE EXECUTIVOS 2026, a adoção da Inteligência Artificial já ocorre entre os executivos brasileiros eleitos Mais Admirados. Segundo o levantamento feito pelo anuário, a maior adesão provém do setor jurídico, com 50%, seguido pelas áreas de compliance (43%) e financeiro (42%). Entre os profissionais que atuam nas áreas tanto do jurídico, quanto do compliance, 38% dizem fazer uso da ferramenta.

Atualmente, diversas organizações que implementaram a tecnologia internamente já apresentam resultados concretos. Um exemplo é o da CI&T Brasil, com o projeto Smart Legal. Para agilizar processos internos no departamento jurídico, a companhia utilizou IA generativa para desenvolver "Personas" especializadas em contratos, societário, trabalhista e legislação. Dessa forma, eles puderam criar estruturas específicas para dar suporte consultivo e operacional ao departamento jurídico.

Como reflexo dessa implementação, o projeto gerou um aumento de 150% na produtividade do volume de análises de acordos de não divulgação (NDAs) e uma redução de 97% no tempo dedicado à análise legislativa. Além da economia de 100% em honorários externos, com a IA assumindo o trabalho equivalente a quatro headcounts. Devido a esses resultados, o case ficou entre os primeiros lugares na categoria de IA para departamentos jurídicos no Prêmio Análise DNA+Fenalaw 2025.

Para Marcela Masiero, general counsel & compliance officer da CI&T Brasil, e uma das responsáveis pela criação do Smart Legal, o sucesso do projeto decorre de um olhar pragmático sobre a tecnologia. Ao focar na resolução de dores operacionais específicas, a companhia alcançou uma escala de eficiência que, segundo a executiva, serve como uma lição de maturidade digital para todo o mercado jurídico brasileiro.

Cultura de uso: da experimentação à automação integral

De acordo com o levantamento "Firm Data on AI", 41% dos executivos entrevistados utilizam a Inteligência Artificial por até uma hora semanal, enquanto 28% afirmam não adotar a ferramenta em sua rotina. Apenas 7% dos entrevistados superam a marca de cinco horas semanais. 

Na CI&T, Marcela Masiero aponta que esse cenário de não uso da tecnologia está muito distante da realidade da companhia. Ela ressalta que a organização dissemina o uso diário da ferramenta em todos os níveis hierárquicos, do estagiário à diretoria, operando em um ecossistema seguro denominado "CIT Flow".

Essa cultura de uso contínuo permitiu que o aprendizado evoluísse para a criação de agentes especialistas. A executiva destaca o exemplo do Data Privacy, que realiza o assessment de riscos para a LGPD e sugere ações mitigadoras, assumindo 100% dessa atividade após rigorosos testes contra alucinações. Marcela acredita que a consolidação dessa metodologia que permitiu à empresa alcançar os atuais patamares de produtividade.

"Aprimoramos o processo continuamente com o envolvimento de todo o time. Desde estagiários até a diretoria, utilizamos a IA diariamente, e não apenas por uma hora. Parávamos uma vez por semana para criar e revisar prompts, identificando falhas até chegarmos ao modelo seguro que operamos hoje", destaca Masiero.

Conservadorismo americano

Apesar dos investimentos massivos em Inteligência Artificial nos Estados Unidos — exemplificados pelo "Projeto Stargate", que prevê aportes de US$ 500 bilhões (aproximadamente R$ 2,6 trilhões) —, as organizações norte-americanas ainda não registraram retornos proporcionais ao capital empregado. Segundo o estudo do NBER, embora 78% das empresas dos EUA utilizem IA em seus processos internos, 91% delas não relataram ganhos de produtividade.

Grande parte desse ‘atraso’ se deve à resistência à inovação, que repercute negativamente nos índices de eficiência, refletindo uma cultura corporativa mais reticente ao uso de novas tecnologias — algo que não parece se reproduzir com a mesma intensidade no mercado brasileiro.

Na visão de Solano de Camargo, sócio da Lee, Brock, Camargo Advogados (LBCA) — banca que possui desk nos EUA —, os problemas de adaptação enfrentados pelas empresas americanas não são reproduzidos com a mesma intensidade no Brasil, onde a abertura ao novo costuma ser mais dinâmica.

Solano atribui o baixo impacto inicial da IA nos EUA ao uso limitado da ferramenta e à resistência em alterar fluxos de trabalho consolidados. Segundo ele, para que ocorram ganhos reais de produtividade, é necessária a criação de uma nova arquitetura focada no capital humano. Sob essa ótica, a IA não substitui o profissional, mas reconfigura sua atuação ao delegar tarefas repetitivas e de baixa complexidade, preservando a estratégia, a coordenação e a revisão como funções humanas essenciais.

"A inovação não consiste em incorporar a inteligência artificial para realizar o que você já faz bem. Na verdade, o segredo está em reformular o fluxo de trabalho de modo a executar as mesmas tarefas de maneira distinta, otimizando a produtividade com o suporte tecnológico. É nesse ponto que vislumbro uma reconfiguração profunda de diversas carreiras, especialmente na profissão jurídica", destaca o sócio da LBCA.

O "vale da desilusão" na Europa

A pesquisa "Firm Data on AI" também estendeu sua análise à Europa para investigar a tendência de baixa produtividade no continente. Entre os executivos entrevistados no Reino Unido e na Alemanha, 90% afirmaram que suas organizações não apresentaram ganhos significativos nos últimos três anos. O impacto com a IA aferido foi residual, variando entre 0,24% na economia alemã e 0,29% no mercado britânico, evidenciando uma estagnação temporária na curva de eficiência tecnológica.

Atento a esse movimento e visando exportar soluções para o mercado jurídico, o Viseu Advogados estabeleceu a V+Tech, um hub especializado em Legal Operations e IA aplicada ao Direito, com atuação nacional e internacional. Paulo Henrique Fernandes, head de produtos e tecnologia do hub, sustenta uma tese sobre o porquê de as nações europeias ainda não terem traduzido a adoção de ferramentas em produtividade real.

Fernandes acredita que a IA atravessa atualmente o "pico das expectativas infladas", caracterizado por um excesso de promessas e escassez de resultados. Segundo ele, o mercado entra agora no "vale da desilusão", um período de testes com baixa efetividade que pode durar de dois a cinco anos até que se alcance o "platô de produtividade". Contudo, Paulo ressalta que para essa evolução acontecer, é preciso que a IA deixe de ser encarada como experimento para ser integrada, como método, aos processos corporativos.

"A questão central não é a ferramenta, mas a forma de adoção. A maioria das empresas que implementaram a inteligência artificial o fizeram de maneira experimental, e não metodológica. Muitas vezes, a organização apenas disponibiliza uma assinatura de IA para auxiliar o colaborador como um assistente isolado. Isso não é mensurável, pois a tecnologia não está efetivamente inserida no fluxo de trabalho da empresa", alerta Fernandes.

Assimetria regulatória

Existem diferenças estruturais profundas entre a Europa e o Brasil no que tange à adoção da Inteligência Artificial. Para Paulo Henrique Fernandes, o mercado europeu encontra-se em um estágio mais avançado devido à implementação de regras rigorosas de proteção de dados e ao AI Act, o que confere mecanismos de controle mais sólidos ao ecossistema digital.

Em contrapartida, no Brasil, o uso da tecnologia ainda é visto como experimental e arriscado, dada a ausência de uma legislação específica e de fiscalização contra usos nocivos. Enquanto os europeus operam sob normas técnicas consolidadas, os brasileiros ainda buscam segurança jurídica para adotar a ferramenta de forma plena. No entanto, em relação à forma como cada região usa, Fernandes é bastante categórico:

"Tanto no Brasil quanto na Europa, essa tecnologia ainda é experimental. Cada organização precisa encontrar sua própria maneira de transformar a IA em produto e eficiência operacional, respeitando seu modelo de negócio. Esse processo de maturação certamente demanda tempo", complementa Fernandes.

A produtividade em xeque: métricas e cultura corporativa

A resposta para o dilema sobre a produtividade da Inteligência Artificial é relativa. Ao menos é o que defende Claudio Wilberg, sócio-diretor da Legal Manager — empresa focada em soluções de gestão para escritórios de advocacia e departamentos jurídicos. Segundo Wilberg, a percepção de baixo impacto ocorre pela ausência de indicadores precisos para mensurar os impactos da IA. Contudo, isso não sinaliza uma estagnação da tecnologia no Brasil, mas uma carência de monitoramento.

"Em poucos casos, independentemente de serem escritórios de grande, médio ou pequeno porte, temos visto iniciativas sérias de incorporação da inteligência artificial ao processo produtivo. Normalmente isto se dá pela vontade de um ou outro sócio que tomou as rédeas do processo por conta própria e foi trazendo a equipe junto", ressalta Cláudio.

Apesar desse estágio embrionário, o interesse é crescente e mensurável. De acordo com enquete exclusiva realizada pela Análise Editorial sobre perspectivas jurídicas para 2026, 62% dos 281 representantes de escritórios de advocacia brasileiros afirmaram que suas bancas pretendem intensificar investimentos em IA. No setor corporativo, o movimento é similar: 55% dos 42 executivos de grandes empresas nacionais indicaram que as organizações focarão no tema.

Essa tendência evidencia uma demanda reprimida por automação diante do massivo volume de dados processuais no país. Para Wilberg, essa característica do Judiciário brasileiro cria um cenário de oportunidades para que o Brasil se destaque globalmente na aplicação prática da tecnologia. "O volume de ações repetitivas, com seus respectivos históricos e conclusões, constitui um ambiente fértil para que as IAs brasileiras prosperem acima da média mundial", destaca.

Do entusiasmo à eficiência estrutural

Cláudio Wilberg estabelece um paralelo entre a adoção da Inteligência Artificial e outras revoluções tecnológicas históricas. Na visão dele, as oportunidades reais de mercado surgirão somente após a estabilização das expectativas atuais. Para Cláudio, esse amadurecimento do setor filtrará o ruído do entusiasmo inicial, permitindo que a tecnologia seja aplicada onde ela realmente gera valor.

"A IA irá, de fato, eliminar trabalhos repetitivos e executará atividades secundárias de forma mais eficiente do que os profissionais que hoje exercem estas funções. Por outro lado, o capital humano se reinventará em frentes que hoje são subutilizadas ou em novas demandas que surgirão a partir dessa transformação", aponta Wilberg.

O sócio-diretor da Legal Manager acredita que embora o Brasil ainda possua uma régua de qualidade técnica e regulatória inferior aos mercados europeu e norte-americano, o cenário é de evolução. Ele finaliza com uma perspectiva otimista, acreditando que a tecnologia pode ser o catalisador necessário para reduzir esse hiato de competitividade nos próximos anos.

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