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Evento do ANÁLISE EXECUTIVOS 2026 debate impactos e limites da IA nos negócios

Lançamento do anuário reúne lideranças para debater o impacto da tecnologia na receita das bancas e os riscos do uso ético da ferramenta

3 de June 17h58
Da esq. para dir.: Eduardo Oinegue, sócio da Análise Editorial, Marina Feferbaum, coordenadora do Centro de Ensino e Pesquisa em Inovação da FGV e Reinaldo Pamponet Filho, cofundador e CEO da Itsnoon, durante a palestra (Imagem: Análise Editorial/Claudio Rossi)

Nesta terça-feira, 2 de junho, ocorreu o lançamento do anuário ANÁLISE EXECUTIVOS 2026 em um evento fechado que reuniu executivos, patrocinadores e lideranças do mercado corporativo. Antes da cerimônia de premiação da 12ª edição do ANÁLISE EXECUTIVOS MAIS ADMIRADOS, Eduardo Oinegue, sócio da Análise Editorial e âncora do Jornal da Band, conduziu uma palestra voltada a debater o efeito da inteligência artificial (IA) nos negócios.

A plenária contou com a participação de Marina Feferbaum, coordenadora do Centro de Ensino e Pesquisa em Inovação da Fundação Getulio Vargas (FGV), e de Reinaldo Pamponet Filho, cofundador e CEO da Itsnoon. Conduzido com o senso de humor característico de Oinegue, o painel debateu pontos cruciais sobre o impacto da IA no ambiente corporativo, abordando como as empresas devem se planejar para extrair valor da tecnologia e avaliar se estão dispostas a arcar com os custos dessa transição.

Produtividade convertida em responsabilidade

Mesmo com as promessas de ganho de produtividade e eficiência, as ferramentas de inteligência artificial não possuem autonomia completa. Essa característica exige que profissionais humanos realizem a validação final dos resultados gerados pelas ferramentas para evitar erros ou as chamadas "alucinações" tecnológicas.

Reinaldo Pamponet avalia ser perfeitamente comum recorrer à IA para conduzir pesquisas, organizar dados e estruturar minutas de documentos. Contudo, o executivo ressalta que a supervisão de um especialista técnico para revisar as informações e chancelar as entregas da plataforma permanece indispensável.

"Precisamos exigir que aplicações da IA em situações humanas tenham uma responsabilidade humana atribuída. Caso contrário, chegaremos a um mundo em que todos os problemas serão delegados ao sistema", destaca Pamponet.

É exatamente nessa lacuna de supervisão que a advocacia assume um papel de destaque. Para o CEO da Itsnoon o profissional jurídico adquire a função de revisor crítico e de garantidor do conteúdo que assina, atuando como o responsável direto por validar a decisão e assumir os impactos dela sobre o público.

"A IA pode pegar a informação passada, replicá-la e apresentá-la como se fosse o presente. Mas o para-brisa é o advogado. É ele quem dirá: 'Não, vamos por este caminho.' A visão é humana, ainda é algo que precisamos preservar", ressalta Pamponet.

A transformação geracional

O processo de aprendizagem das novas gerações de profissionais e de jovens advogados também enfrenta os impactos dessa evolução tecnológica. Como coordenadora do Centro de Ensino e Pesquisa em Inovação da FGV, Marina Feferbaum reconhece desafios estruturais na formação acadêmica atual. 

"Os alunos são absolutamente intermediados pela inteligência artificial: debatem em grupo com a IA e até fazem trabalhos com ela. A IA é, basicamente, a sala de aula", aponta Feferbaum, reforçando: "Precisamos, portanto, trabalhar processos pedagógicos muito mais profundos."

De acordo com a coordenadora, o avanço da IA não se limita a impactar a rotina de estudos, mas traz reflexos diretos no início da carreira. Para ilustrar esse cenário, Feferbaum cita uma tendência de retração na contratação de estagiários e profissionais juniores impulsionada pela adoção em larga escala da IA generativa. Os dados foram tirados do estudo "Inteligência Artificial Generativa no Direito: Oportunidades e Desafios no Brasil", lançado recentemente pela FGV e disponível para acesso na íntegra clicando aqui.

"Esse é um fenômeno que não se deve exclusivamente à tecnologia, mas também a mentalidade das empresas. No entanto, isso ainda resultará em uma profunda transformação na estrutura das companhias nos próximos anos", analisa Feferbaum.

O uso indiscriminado

Recentemente, um caso impactou o cenário jurídico brasileiro. No Pará, duas advogadas utilizaram a técnica de prompt injection — comandos inseridos de forma oculta para tentar manipular sistemas de IA — em um processo trabalhista para supostamente favorecer seus clientes. Apesar de as instruções terem sido inseridas com fonte na cor branca, o que impossibilitava a leitura a olho nu, a inteligência artificial Galileu, utilizada pela Justiça do Trabalho, conseguiu identificar a tentativa de fraude.

Esse episódio ilustra o risco do uso nocivo da ferramenta, voltado não para trazer eficiência, mas para manipular processos e sentenças. Diante disso, Feferbaum aponta que a utilização sem critérios da tecnologia vem gerando distorções, como o aumento artificial do volume de sentenças. 

Para a coordenadora, essa realidade leva o ecossistema jurídico para além do debate puramente ético, consolidando um cenário em que a qualidade e a confiabilidade do uso tecnológico passam a ser uma preocupação central para todo o sistema judiciário brasileiro.

"Precisamos estruturar políticas claras e uma regulação que não mate a inovação, mas que garanta transparência. É necessário pensar em como regular, navegar de forma ética e informar os clientes. Mas tudo isso ainda está em construção", complementa Feferbaum.

Os desafios da IA

Complementando o panorama regulatório, dados do anuário ANÁLISE ADVOCACIA 2026 mostram que 47% dos escritórios já incorporaram a Inteligência Artificial no seu dia a dia. Das 322 bancas que responderam à pesquisa desta edição, 96% apontaram que obtiveram ganhos expressivos de eficiência em seus processos internos.

Diante desse cenário de rápida adoção, Oinegue questionou os participantes se essa ampla utilização da Inteligência Artificial gerará um aumento na receita geral do mercado ou se provocará o inverso: uma queda no faturamento das bancas e honorários menores devido à redução das horas faturáveis trabalhadas. Na visão de Reinaldo Pamponet, essa provocação traz uma pergunta essencial para a própria sobrevivência das estruturas tradicionais desse mercado.

"Há aplicativos hoje que, por valores acessíveis, entregam um projeto de ambiente, por exemplo. O mercado está se fragmentando e se desvalorizando em muitas camadas. Nossa indignação diante disso pode não ser a trava necessária — pode ser apenas o sinal de que estamos num processo de transformação profunda e de que precisamos pensar mais rápido do que gostaríamos", destaca Pamponet.

"O meu chamado é: vamos entender o que está em jogo. Vamos ter cuidado", finaliza Pamponet.
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