A revolução da Inteligência Artificial (IA) generativa no mercado jurídico brasileiro já ultrapassou a fase da experimentação e consolidou-se como rotina. É o que revela uma pesquisa inédita desenvolvida pelo Centro de Ensino e Pesquisa em Inovação (CEPI) da FGV Direito SP, ujos resultados foram apresentados nesta quinta-feira (8), no auditório da FGV Direito SP.
O evento foi aberto por Oscar Vilhena, diretor FGV Direito SP, Marina Feferbaum, coordenadora do Centro de Ensino e Pesquisa em Inovação (CEPI) da FGV Direito SP, Mario Engler, coordenador do Mestrado e Doutorado Profissional da FGV Direito SP e Ana Paula Camelo, líder de pesquisa do Centro de Ensino e Pesquisa em Inovação (CEPI) da FGV Direito SP. A abertura foi seguida da Apresentação dos resultados da pesquisa pela equipe do CEPI. Para encerrar o evento, houve uma discussão dos resultados com especialistas do mercado jurídico. Entre eles estavam Caitlin Sampaio Mulholland, professora da PUC-Rio, Emerson Fabiani, diretor executivo do FGV LAW, José Mauro Decoussau Machado, sócio do Pinheiro Neto Advogados e Tayná Carneiro, professora do Ibmec, vice-presidente da Comissão de Inteligência Artificial da OAB/RJ e consultora científica da FutureLaw.
Os resultados
O levantamento demonstra que cerca de 80% dos profissionais do setor já utilizam a IA com alta frequência, sendo que 58% o fazem diariamente.
Apesar da adoção massiva para tarefas como pesquisa jurídica, automação e rascunho de documentos, o cenário corporativo interno das bancas e departamentos jurídicos acende um sinal de alerta para a segurança institucional e a qualidade técnica das entregas. Durante o evento de apresentação do relatório "Inteligência Artificial Generativa no Direito: Oportunidades e Desafios no Brasil", ficou claro o paradoxo gerado pela tecnologia: ganho de escala frente a potenciais riscos sistêmicos.
Um dos dados mais alarmantes aponta para a tendência à automatização de conteúdo em áreas desconhecidas pelo usuário: 75% dos profissionais utilizam a IA tanto para temas que dominam quanto para aqueles que não dominam.
Para Ana Paula Camelo, líder de pesquisa do CEPI e uma das responsáveis pelo estudo, esse é um vetor de risco crítico. "Acaba sendo um ponto sensível da garantia da qualidade do resultado e de pensar nas políticas e nos processos, tanto na qualidade do que entra quanto do que está sendo gerado ali", explica a pesquisadora. Segundo ela, esse indicador exige atenção sob diversas perspectivas, desde o letramento individual até o investimento de tempo e recursos da organização.
"É um indicador sensível para a gente prestar atenção no que pode ser a porta de entrada de algumas vulnerabilidades."
O desafio do ROI e a Governança em construção
Enquanto a ponta da operação adota as ferramentas de maneira voraz, as lideranças patinam na mensuração de resultados. A ausência de estruturação afeta diretamente o caixa e a percepção de valor: 77% dos profissionais relatam que suas empresas não sabem informar ou não atingiram o Retorno Sobre o Investimento (ROI) esperado com a tecnologia.
Ana Paula avalia que a dificuldade de traduzir o ganho de tempo em rentabilidade financeira é fruto da velocidade das transformações. "É um processo muito rápido, muito profundo, e isso faz com que não só o ROI, mas desempenho e eficiência precisem de metodologia", pondera. A pesquisadora ressalta que essas métricas não nascem prontas e estão sendo desenvolvidas na prática. "Nesse momento, de fato, poucos estão conseguindo medir, mas a tendência é que, com as experimentações, todo esse esforço se materialize em indicadores. Lembrando que talvez nem tudo seja medido quantitativamente; a gente pensa também em indicadores qualitativos dessas mudanças".
Seja para garantir retorno financeiro ou qualidade técnica, a solução passa pela estruturação interna. A pesquisadora frisa que o sucesso não depende apenas da máquina. "A gente precisa olhar para as pessoas, para os processos e para os dados para fazer diferença nesses resultados de qualidade", afirma, destacando que a simples ausência de IA não garante um trabalho melhor se não houver um domínio técnico e um bom processo de revisão humana no fluxo.
O ponto cego do ESG e a universalidade dos gargalos
O afã pela eficiência tem deixado de lado uma pauta crucial para o mercado corporativo atual: a sustentabilidade. O estudo revelou que 80% dos respondentes ignoram o impacto ambiental (como o alto consumo energético e hídrico) gerado pelo uso de IA generativa.
Para a líder da pesquisa, a falta de discussão já é, por si só, um resultado importante do estudo. "Essa é uma dimensão muito sensível e que, nesse momento, não é prioridade. A pauta ainda está chegando, sobretudo institucionalmente", observa Camelo. Ela alerta que o uso responsável da tecnologia passa obrigatoriamente pela questão ambiental, um equilíbrio que o mercado ainda precisará descobrir como fazer.
Embora o Brasil possua dimensões continentais e uma advocacia extremamente heterogênea, o cruzamento dos dados quantitativos e qualitativos da pesquisa revelou uma padronização nas dores do mercado. Do pequeno escritório às grandes bancas e departamentos judiciários, as dificuldades se repetem.
"Apesar das diferenças das organizações, desafios, gargalos e práticas são compartilhados", conclui Ana Paula. "A gente não tem desafios únicos, todos têm enfrentado gargalos comuns: o letramento, a governança e a adoção da tecnologia não por ela mesma. Isso faz com que a gente possa amadurecer o debate e ir para além da camada superficial, entendendo por que esses problemas estão acontecendo com todo mundo".
O estudo está disponível gratuitamente no repositório da FGV. Acesse através desse link.

