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FGV Direito SP apresenta estudo inédito sobre IA generativa aplicada ao Direito brasileiro

Relatório revela adoção acelerada da tecnologia na rotina jurídica, mas expõe gargalos na revisão de peças, na mensuração de ROI e na criação de políticas internas em escritórios e departamentos jurídicos

8 de May 23h29
(Imagem: Análise Editorial/Reprodução)

A revolução da Inteligência Artificial (IA) generativa no mercado jurídico brasileiro já ultrapassou a fase da experimentação e consolidou-se como rotina. É o que revela uma pesquisa inédita desenvolvida pelo Centro de Ensino e Pesquisa em Inovação (CEPI) da FGV Direito SP, ujos resultados foram apresentados nesta quinta-feira (8), no auditório da FGV Direito SP. 

O evento foi aberto por Oscar Vilhena, diretor FGV Direito SP, Marina Feferbaum, coordenadora do Centro de Ensino e Pesquisa em Inovação (CEPI) da FGV Direito SP, Mario Engler, coordenador do Mestrado e Doutorado Profissional da FGV Direito SP e Ana Paula Camelo, líder de pesquisa do Centro de Ensino e Pesquisa em Inovação (CEPI) da FGV Direito SP. A abertura foi seguida da Apresentação dos resultados da pesquisa pela equipe do CEPI. Para encerrar o evento, houve uma discussão dos resultados com especialistas do mercado jurídico. Entre eles estavam Caitlin Sampaio Mulholland, professora da PUC-Rio, Emerson Fabiani, diretor executivo do FGV LAW, José Mauro Decoussau Machado, sócio do Pinheiro Neto Advogados e Tayná Carneiro, professora do Ibmec, vice-presidente da Comissão de Inteligência Artificial da OAB/RJ e consultora científica da FutureLaw. 

Os resultados

O levantamento demonstra que cerca de 80% dos profissionais do setor já utilizam a IA com alta frequência, sendo que 58% o fazem diariamente.

Apesar da adoção massiva para tarefas como pesquisa jurídica, automação e rascunho de documentos, o cenário corporativo interno das bancas e departamentos jurídicos acende um sinal de alerta para a segurança institucional e a qualidade técnica das entregas. Durante o evento de apresentação do relatório "Inteligência Artificial Generativa no Direito: Oportunidades e Desafios no Brasil", ficou claro o paradoxo gerado pela tecnologia: ganho de escala frente a potenciais riscos sistêmicos.

Um dos dados mais alarmantes aponta para a tendência à automatização de conteúdo em áreas desconhecidas pelo usuário: 75% dos profissionais utilizam a IA tanto para temas que dominam quanto para aqueles que não dominam.

Para Ana Paula Camelo, líder de pesquisa do CEPI e uma das responsáveis pelo estudo, esse é um vetor de risco crítico. "Acaba sendo um ponto sensível da garantia da qualidade do resultado e de pensar nas políticas e nos processos, tanto na qualidade do que entra quanto do que está sendo gerado ali", explica a pesquisadora. Segundo ela, esse indicador exige atenção sob diversas perspectivas, desde o letramento individual até o investimento de tempo e recursos da organização.

"É um indicador sensível para a gente prestar atenção no que pode ser a porta de entrada de algumas vulnerabilidades."

O desafio do ROI e a Governança em construção

Enquanto a ponta da operação adota as ferramentas de maneira voraz, as lideranças patinam na mensuração de resultados. A ausência de estruturação afeta diretamente o caixa e a percepção de valor: 77% dos profissionais relatam que suas empresas não sabem informar ou não atingiram o Retorno Sobre o Investimento (ROI) esperado com a tecnologia.

Ana Paula avalia que a dificuldade de traduzir o ganho de tempo em rentabilidade financeira é fruto da velocidade das transformações. "É um processo muito rápido, muito profundo, e isso faz com que não só o ROI, mas desempenho e eficiência precisem de metodologia", pondera. A pesquisadora ressalta que essas métricas não nascem prontas e estão sendo desenvolvidas na prática. "Nesse momento, de fato, poucos estão conseguindo medir, mas a tendência é que, com as experimentações, todo esse esforço se materialize em indicadores. Lembrando que talvez nem tudo seja medido quantitativamente; a gente pensa também em indicadores qualitativos dessas mudanças".

Seja para garantir retorno financeiro ou qualidade técnica, a solução passa pela estruturação interna. A pesquisadora frisa que o sucesso não depende apenas da máquina. "A gente precisa olhar para as pessoas, para os processos e para os dados para fazer diferença nesses resultados de qualidade", afirma, destacando que a simples ausência de IA não garante um trabalho melhor se não houver um domínio técnico e um bom processo de revisão humana no fluxo.

O ponto cego do ESG e a universalidade dos gargalos

O afã pela eficiência tem deixado de lado uma pauta crucial para o mercado corporativo atual: a sustentabilidade. O estudo revelou que 80% dos respondentes ignoram o impacto ambiental (como o alto consumo energético e hídrico) gerado pelo uso de IA generativa.

Para a líder da pesquisa, a falta de discussão já é, por si só, um resultado importante do estudo. "Essa é uma dimensão muito sensível e que, nesse momento, não é prioridade. A pauta ainda está chegando, sobretudo institucionalmente", observa Camelo. Ela alerta que o uso responsável da tecnologia passa obrigatoriamente pela questão ambiental, um equilíbrio que o mercado ainda precisará descobrir como fazer.

Embora o Brasil possua dimensões continentais e uma advocacia extremamente heterogênea, o cruzamento dos dados quantitativos e qualitativos da pesquisa revelou uma padronização nas dores do mercado. Do pequeno escritório às grandes bancas e departamentos judiciários, as dificuldades se repetem.

"Apesar das diferenças das organizações, desafios, gargalos e práticas são compartilhados", conclui Ana Paula. "A gente não tem desafios únicos, todos têm enfrentado gargalos comuns: o letramento, a governança e a adoção da tecnologia não por ela mesma. Isso faz com que a gente possa amadurecer o debate e ir para além da camada superficial, entendendo por que esses problemas estão acontecendo com todo mundo".

O estudo está disponível gratuitamente no repositório da FGV. Acesse através desse link.

Ana Paula CameloFGVNotícias