No Distrito Federal, a advocacia empresarial está concentrada nas chamadas boutiques. Em 2026, 35 dos 59 escritórios Mais Admirados afirmam manter atuação especializada. Entre os profissionais, o resultado se repete: 66 dos 157 nomes reconhecidos estão vinculados a boutiques.
Há espaço para bancas com atendimento abrangente ou full service, mas, de acordo com os entrevistados, a predominância do atendimento especializado reflete a própria dinâmica jurídica de Brasília. Sede dos tribunais superiores, de órgãos reguladores e dos principais centros decisórios do país, a capital federal concentra disputas que exigem conhecimento técnico aprofundado e trânsito institucional. Áreas como Regulatório, Infraestrutura, Administrativo, Concorrencial e Constitucional aparecem entre as com maior número de profissionais e bancas Mais Admiradas desta edição.
Especialização decide nas instâncias superiores
Luciano Andrade Pinheiro, sócio do Corrêa da Veiga Advogados, defende que a atuação especializada se relaciona à própria dinâmica da advocacia em Brasília. Segundo ele, quando um caso chega à capital federal, seja no TST ou no STJ, costuma estar em uma fase crítica, que exige atuação técnica, combativa e altamente especializada.
"Vejo essa como a principal característica do escritório boutique: atuar no último suspiro do processo e entregar um trabalho diferenciado. Por isso, quanto mais especializado for o escritório em Brasília, maior a chance de destaque do profissional", complementa Pinheiro.
Para Marcos Vinicius Ottoni, sócio-fundador de Ottoni Advogados, a força das boutiques também está relacionada à busca das empresas por atendimento personalizado. Segundo ele, nem mesmo a inteligência artificial substitui essa relação direta, já que a ferramenta oferece respostas amplas, mas nem sempre adaptadas à condução individualizada dos casos.
"O escritório de massa passa a impressão de que a causa da pessoa não será conduzida de forma individualizada. O que está se consolidando é a boutique — onde o cliente tem a certeza de que sua causa será conduzida por um advogado experiente, ou ao menos por alguém que vai lidar diretamente com ela", destaca Ottoni.
A tendência das bancas abrangentes
Apesar de reunirem 22 escritórios admirados, o equivalente a 37% das bancas reconhecidas no Distrito Federal, os abrangentes registraram em 2026 o menor número de representantes desde 2023. A categoria, que tinha 25 bancas naquele ano e chegou a 30 na edição passada, perdeu espaço em um mercado marcado pela especialização.
Para Orlando Maia Neto, sócio do Ayres Britto Consultoria Jurídica e Advocacia, a retração pode estar ligada ao avanço do processo eletrônico e da atuação remota. Segundo ele, a virtualização ampliou as opções de contratação das empresas e aumentou a concorrência entre escritórios de diferentes praças.
"Penso que a expertise técnica, a vivência próxima dos tribunais, o conhecimento de causa e a experiência possam ter falado mais alto no último ano — e isso pode ter levado a esse fenômeno de redução ou de concentração dos escritórios mais admirados nesse segmento", argumenta Maia Neto.
Entre os profissionais, porém, o movimento é menos acentuado. O ANÁLISE ADVOCACIA REGIONAL 2026 registrou 62 advogados vinculados a bancas abrangentes no Distrito Federal, o equivalente a 40% dos nomes reconhecidos no DF. O resultado ficou apenas três nomes abaixo da edição anterior, quando a categoria somava 65 profissionais.
Francisco Antônio Salmeron Jr., sócio do FYS Advogados, avalia que o modelo ainda preserva espaço no mercado brasiliense por combinar estrutura robusta e atendimento personalizado. Para ele, as empresas buscam bancas com foco, proximidade e conhecimento específico sobre suas demandas, sem necessariamente recorrer a estruturas full service.
"As empresas não procuram apenas escritórios de grande porte ou abrangentes que atuem em todas as frentes, elas valorizam a alta especialização e o foco. O cliente deseja o respaldo de profissionais que acompanhem o seu ritmo e detenham expertise em suas demandas; não que a banca vá atendê-lo em absolutamente todas as áreas, mas que traga a melhor solução para o seu core business", ressalta Salmeron Jr.
Grandes estruturas buscam espaço em mercado especializado
Dos 59 escritórios Mais Admirados do Distrito Federal, apenas dois são full service. O número repete o resultado da edição anterior e confirma a presença restrita desse modelo em uma praça marcada pela força das boutiques.
Entre os profissionais, a tendência é semelhante. O DF reúne 29 advogados vinculados a escritórios full service, a mesma quantidade da edição anterior, equivalente a 18% dos nomes reconhecidos.
Para Carlos Vieira Filho, sócio do Queiroga, Vieira, Queiroz & Ramos Advocacia (QVQR), a baixa presença dos full service está ligada ao perfil do mercado local, historicamente voltado a modelos especializados. Apesar desse predomínio, ele avalia que o modelo pode encontrar espaço no Distrito Federal, especialmente entre grandes empresas que valorizam marcas institucionais e equipes multidisciplinares.
"Para a grande empresa, a contratação de uma marca que engloba vários profissionais traz uma segurança jurídica maior do que a contratação de uma única pessoa. Se um indivíduo comete um erro, perde-se a credibilidade naquele profissional que é o sócio único, e não em uma marca que representa um escritório inteiro. Por isso, vejo o cenário de maneira positiva", finaliza Vieira Filho.

