A Justiça brasileira recebeu 40,9 milhões de ações novas em 2025, o maior volume apurado desde o início da série histórica do Conselho Nacional de Justiça, em 2009. No mesmo período em que essa fila engrossava, uma empresa fundada em setembro de 2023 para automatizar contencioso alcançou a marca de primeiro unicórnio de inteligência artificial da América Latina. Os dois fatos compartilham da mesma raiz.
Startups crescem quando atacam problemas caros e persistentes. A Enter posicionou seu modelo sobre um gargalo crônico: o volume de litígios no país. O sucesso da empresa decorre diretamente da paralisia de um ecossistema que se mantém atolado em demandas repetitivas e de pequeno valor, sobrecarregando da primeira instância aos tribunais superiores.
A definição desse fracasso é operacional: a incapacidade do sistema de criar mecanismos que resolvam conflitos em tempo adequado. O CNJ mede isso. Um processo baixado em 2025 levou, em média, 2 anos e 4 meses. O acervo pendente acumula 3 anos e 7 meses. Na fase de execução, a média chega a 4 anos e 9 meses; na execução fiscal, a 8 anos e 2 meses. A taxa de congestionamento fechou o ano em 62,6%, de cada dez processos em tramitação, seis atravessaram para o ano seguinte sem desfecho.
Uma demanda de pequeno valor que aguarda anos por uma sentença fica parada na burocracia de cartório, e a rotina forense classifica essa inércia como andamento regular. Foi exatamente nessa engrenagem travada que a Enter encontrou espaço para crescer.
A conta do fluxo
Os números a seguir são referências livres, empregadas para ilustrar ordens de grandeza. Não saíram de balanços oficiais da Enter, que não divulga preço médio por processo nem margem operacional. A cobrança combina remuneração pelo software com fatias variáveis indexadas ao êxito dos casos.
No contencioso de volume, cada processo é tratado como pasta. A banca assume lotes contratuais mediante remunerações fixas que oscilam conforme o acordo comercial. Para efeito de ilustração, adote-se uma faixa entre R$ 500 e R$ 2.000 por pasta.
O modelo financeiro depende da dinâmica do contrato. Em um arranjo comum de mercado, o valor do processo é pago em taxa única, sem mensalidades continuadas; à medida que a demanda é baixada, cessa a receita atrelada a ela. Operações desse tipo dependem da entrada constante de novos lotes, e a projeção de faturamento futuro fica subordinada à manutenção do volume geral de ações.
Essa vinculação direta ao fluxo por vezes gera conclusões equivocadas. Escritórios de contencioso de massa não torcem por mais processos. Se essas bancas não tivessem estruturado equipes e investido recursos ao longo de décadas para absorver tais demandas, a Justiça, as empresas e os demandantes enfrentariam um colapso muito maior. Elas absorvem um volume que a estrutura estatal sozinha não conseguiria movimentar.
Tomando como parâmetro os dados divulgados pela Enter, que relata mais de 300 mil processos passando por sua plataforma a cada ano, a faixa exemplificativa geraria entre R$ 150 milhões e R$ 600 milhões em receita anual. Uma margem teórica de 30% reservaria de R$ 45 milhões a R$ 180 milhões por ano. Mantido esse ritmo por dez anos e corrigido pela taxa DI de 13,90% ao ano, o montante ficaria entre R$ 866 milhões e R$ 3,46 bilhões.
Em uma hipótese extrema em que uma única companhia assumisse a totalidade dos 40,9 milhões de casos novos anuais do país, a receita oscilaria entre R$ 20,45 bilhões e R$ 81,8 bilhões por ano. A mesma margem de 30% daria entre R$ 6,13 bilhões e R$ 24,54 bilhões de lucro anual. Em dez anos corrigidos pelo mesmo DI, o acumulado ficaria entre R$ 118 bilhões e R$ 472 bilhões. Frente à avaliação de mercado da empresa em US$ 1,2 bilhão (cerca de R$ 6,4 bilhões), o problema que ela ataca é dezoito vezes maior do que a própria companhia.
O ritmo de escala
Para avançar dos 300 mil casos anuais divulgados e atingir os 40,9 milhões que entram na Justiça, a Enter precisaria multiplicar sua operação por 136.
Adotando a premissa de dobrar de tamanho a cada ano, habitual em empresas de tecnologia, essa cobertura total demandaria 7,09 anos: 600 mil pastas no primeiro ciclo, 2,4 milhões no terceiro, 9,6 milhões no quinto e 38,4 milhões no sétimo, ultrapassando 76 milhões no oitavo.
Sete anos representam pouco mais que o dobro da idade atual da startup. Mas a meta é móvel, pois a entrada de novas ações cresceu 3,5% no último ano. Mantido esse avanço anual na judicialização, a convergência se desloca para perto de 7,5 anos.
O acervo das bancas e o peso da prática
A ascensão da Enter provocou inquietações nos escritórios tradicionais de contencioso, sobretudo pela pouca visibilidade sobre o funcionamento prático da ferramenta. O material público detalha o EnterOS em termos gerais, sem apresentar números de resultado processual ou taxa de êxito. O mercado enxerga o valuation, o grupo de investidores e um conselho com nomes como Luís Roberto Barroso, ex-ministro do Supremo Tribunal Federal, o tributarista Roberto Quiroga Mosquera, do Mattos Filho, e Luciano Huck.
Do outro lado, os escritórios de advocacia contam com ativos que nenhum algoritmo fornece. Essas bancas investiram pesado — em pessoas, infraestrutura e tecnologia — para ajudar as empresas a gerenciar e mitigar litígios. Acumularam jurisprudência mapeada, equipes treinadas em teses repetidas, leitura do perfil de cada turma recursal e décadas de relacionamento institucional. Essa experiência acumulada no balcão forense não se compra em rodadas de investimento.
A Enter cumpre suas etapas iniciais de produto, enquanto escritórios consolidados dispõem de números práticos iguais ou superiores para apresentar aos departamentos jurídicos. O cliente sabe que teses bem estruturadas no papel podem quebrar na segunda instância, e essa segurança processual sustenta o valor da advocacia tradicional.
A produção dos números
O relatório Justiça em Números 2026 expõe a dimensão do quadro: 40,9 milhões de novos processos em 2025. A Justiça estadual concentrou 28,3 milhões; a federal reuniu 6,4 milhões (alta de 19,8%); a trabalhista registrou 5,2 milhões, e os tribunais superiores receberam 891 mil feitos. O Supremo Tribunal Federal recebeu mais de 85 mil processos no período, sendo 62% deles recursos.
O Judiciário produziu. Baixou 45,2 milhões de processos no mesmo ano — superando a entrada de casos novos —, o estoque geral recuou para 75,5 milhões e a taxa de congestionamento atingiu a menor marca da série. O acervo do STF fechou 2025 em 20.315 processos, o menor nível em 31 anos. O Judiciário trabalha, mas a mecânica processual impede que o esforço esvazie o passivo acumulado.
O paradoxo da engrenagem
A sustentação das receitas em modelos atrelados ao fluxo depende de duas variáveis simultâneas: ganho de participação de mercado e a persistência de um alto volume de litígios no país.
Aí reside a contradição da engrenagem. Caso o Judiciário e as empresas adotassem métodos prévios eficazes de resolução de disputas, reduzindo à metade as ações em curso, o mercado da automação de contencioso encolheria na mesma proporção. Enquanto escritórios conseguem equilibrar receitas sob carteiras estáveis, valuations bilionários de tecnologia exigem curvas de crescimento alimentadas por volume contínuo.
Essa mecânica é puramente aritmética e não embute juízo de valor. A Enter encontrou uma demanda pronta e opera dentro dela com tecnologia sofisticada.
O problema de fundo não é a garantia de acesso à Justiça prevista no artigo 5º, inciso XXXV, da Constituição Federal. A disfunção está no incentivo à propositura automática de ações, em que conflitos rotineiros são despejados nos tribunais sem que se tente, antes, qualquer composição direta entre as partes.
Mecânica emperrada
Não há vilões individuais nesse enredo. A Enter identificou um mercado ineficiente e construiu um negócio em torno dele. Juízes e servidores mantêm índices elevados de baixa processual. E as bancas garantem a sustentação técnica das teses, amparadas em investimentos contínuos e relacionamentos institucionais de longo prazo que a tecnologia não substitui.
A raiz do problema é o ecossistema emperrado: a lentidão dos ritos, o excesso de recursos formais, a rotina pesada dos cartórios e a conduta corporativa de empurrar disputas para o Judiciário. A inteligência artificial atua como um lubrificante eficiente sobre peças travadas: movimenta a engrenagem e gera valor, mas só vale bilhões porque a máquina continua enguiçada.
O que é a Enter
Mateus Costa-Ribeiro fundou a Enter em setembro de 2023 com Henrique Vaz e Mike Mac-Vicar. Em maio de 2026, a empresa levantou mais de US$ 100 milhões em rodada liderada pelo Founders Fund, acompanhado por Ribbit Capital, Sequoia, ONEVC, Atlantico e Kaszek, atingindo avaliação de US$ 1,2 bilhão.
A plataforma EnterOS organiza autos, localiza documentos, rascunha minutas e submete as peças à revisão humana. Segundo a empresa, mais de 300 mil casos passam anualmente pelo sistema, que atende a mais de 40 companhias de grande porte. Em 2025, a receita recorrente anualizada declarada foi de R$ 50 milhões, operando sob modelo híbrido de software e taxa de sucesso.
Fontes
- Conselho Nacional de Justiça, Justiça em Números 2026, divulgado em 28 de junho de 2026 — 40,9 milhões de casos novos em 2025, 75,5 milhões pendentes, 45,2 milhões baixados, congestionamento de 62,6%, despesa de R$ 164,6 bilhões. https://www.cnj.jus.br/justica-em-numeros-2026-estoque-de-processos-cai-em-ano-de-maior-demanda-da-serie-historica/
- Abertura por ramo de Justiça (estadual 28,3 mi, federal 6,4 mi, trabalhista 5,2 mi, superiores 891 mil), alta de 3,5% e tempos médios de tramitação (2 anos e 4 meses nos baixados, 3 anos e 7 meses nos pendentes, 4 anos e 9 meses na execução, 8 anos e 2 meses na execução fiscal), a partir do mesmo relatório. https://judit.io/blog/noticias/justica-numeros-2026-recorde-processos/
- Conjur, 19 de dezembro de 2025 — STF recebeu mais de 85 mil processos em 2025, 62% recursos, acervo de 20.315, o menor em 31 anos, balanço de Edson Fachin. https://www.conjur.com.br/2025-dez-19/stf-encerra-2025-com-o-menor-estoque-processual-dos-ultimos-31-anos/
- InfoMoney, 7 de maio de 2026 — perfil da Enter, fundação em setembro de 2023, mais de 300 mil processos por ano, cerca de 40 clientes, ARR de R$ 50 milhões em 2025, modelo de cobrança com parte variável. https://www.infomoney.com.br/mercados/startups-quem-e-a-enter-unicornio-brasileiro-de-ia-do-setor-juridico/
- CNN Brasil, 5 de maio de 2026 — rodada de mais de US$ 100 milhões liderada pelo Founders Fund, avaliação de US$ 1,2 bilhão, fundadores e clientes. https://www.cnnbrasil.com.br/economia/negocios/startup-brasileira-de-ia-juridica-enter-alcanca-us-12-bi-em-valuation/
- Plancorp — conversão da avaliação para cerca de R$ 6,4 bilhões. https://www.plancorp.com.br/post/unic%C3%B3rnio-de-ia-enter-%C3%A9-avaliada-em-r-6-4-bi
- Brasil Indicadores — taxa DI de 13,90% ao ano, posição de 5 de agosto de 2026. https://brasilindicadores.com.br/cdi
- JOTA, 5 de maio de 2026 — Luís Roberto Barroso, Roberto Quiroga e Luciano Huck no conselho da Enter. https://www.jota.info/justica/ia-juridica-avaliada-em-us-12-bi-tera-barroso-roberto-quiroga-e-luciano-huck-em-conselho
- Mattos Filho, página institucional de Roberto Quiroga Mosquera, consultada em 31 de agosto de 2026. https://www.mattosfilho.com.br/en/professional/roberto-quiroga-mosquera/
Alexandre Secco é sócio e editor da Análise Editorial e consultor em comunicação estratégica.

