O que você fica sabendo aqui
- Colocamos lado a lado os números de receita do Mattos Filho, único escritório brasileiro que abre suas contas, e os do Kirkland & Ellis, o maior escritório de advocacia do mundo.
- Aplicamos a mesma régua aos 2.926 advogados eleitos Mais Admirados na edição 2026 do anuário ANÁLISE ADVOCACIA.
- Mesmo operando em mundos e realidades diferentes, os advogados do Mattos Filho geram mais receita que o americanos, em pelo menos um indicador
Antes dos números, entenda o que fizemos aqui
Colocamos lado a lado, linha por linha, os números divulgados pelo Mattos Filho e os do Kirkland & Ellis, o maior escritório de advocacia do mundo em faturamento. O Mattos Filho entrou na conta por um motivo simples: é o único escritório brasileiro que publica receita, estrutura societária e número de advogados. O Kirkland entrou porque é o topo absoluto do outro lado.
O resultado não autoriza nenhuma conclusão sobre qualidade técnica, rentabilidade ou eficiência de uma banca sobre a outra. Não é disso que se trata, e nenhum dos dois relatórios permite esse tipo de leitura.
A comparação serve a outra coisa: mostrar duas realidades em dois mundos. Um mercado concentrado e um mercado pulverizado, medidos com a mesma régua, para que o leitor saiba de que ordem de grandeza se está falando quando se fala do topo do mercado brasileiro de prestação de serviços jurídicos.
Um número, porém, surpreende. Por pelo menos um critério, a receita gerada em relação ao tamanho da economia em que cada banca opera, o advogado do Mattos Filho fatura bem mais que o colega americano. Duas vezes e meia mais.
Dois mundos, duas realidades
De um lado, o Mattos Filho: banca full service com sede em São Paulo, cerca de 700 advogados e 138 sócios de equity, com escritórios em Campinas, Rio de Janeiro, Brasília e Nova York. É há anos a referência nacional em transparência financeira. A banca publica sua receita, estrutura societária e indicadores operacionais em relatório anual: o Pulso Mattos Filho, Relatório Integrado. Essa postura é rara no Brasil e trivial no exterior, e é ela que torna este exercício possível.
Do outro lado, o Kirkland & Ellis: banca full service fundada em 1909 em Chicago, com 4.239 advogados, 595 sócios de equity e operação em dezenas de países. Foi escolhido por ser o maior escritório do mundo em faturamento e por publicar seus resultados todos os anos, auditados pelo ranking da The American Lawyer.
Um detalhe de contexto antes das cifras, e ele importa mais do que parece: o Produto Interno Bruto (PIB) dos Estados Unidos é 13,5 vezes maior que o do Brasil. Além disso, o Kirkland opera globalmente; enquanto o Mattos Filho atua essencialmente dentro do território nacional.Mas guarde o número 13,5, ele volta no fim e é a chave da conclusão mais interessante deste levantamento.
O quadro, linha por linha
Receita bruta anual — US$ 10,6 bilhões contra US$ 318 milhões (33x)
O Kirkland faturou US$ 10,6 bilhões em 2025, segundo a The American Lawyer. O Mattos Filho declarou R$ 1,78 bilhão, o equivalente a US$ 318 milhões pelo câmbio adotado neste levantamento. São necessários 33 escritórios do porte financeiro do Mattos Filho para chegar ao faturamento do americano. Ainda assim, convertida em dólares, a receita brasileira não é pequena na régua de lá: as 100 firmas que ocupam da 101ª à 200ª posição do ranking americano somaram US$ 29,4 bilhões em 2025, uma média de US$ 294 milhões por escritório.
Com US$ 318,3 milhões, o Mattos Filho ficaria acima dessa média, fora do Am Law 100, cujo corte de entrada superou os US$ 557,5 milhões, mas confortavelmente instalado no pelotão intermediário americano. Para efeito de escala: 62 escritórios americanos passaram de US$ 1 bilhão de receita em 2025. Nenhum brasileiro se aproxima disso. E a concentração é o tema também lá: o Kirkland, sozinho, responde por 35,9% de toda a receita das 100 firmas da segunda centena.
Sócios de equity — 595 contra 138 (4,3x)
A sociedade do escritório americano é 4,3 vezes maior do que a banca brasileira. Essa é a menor das distâncias de estrutura do quadro, e a mais reveladora quando comparada às linhas seguintes: o Kirkland pode ter um pouco mais de quatro vezes o número de sócios do Mattos Filho, mas ainda detém 33 vezes a receita.
Total de advogados — 4.239 contra 700 (6,1x)
Em gente, a diferença é de 6,1 vezes entre os escritórios. O Mattos Filho tem o tamanho de uma banca americana de porte médio-alto; enquanto o Kirkland, o porte de uma multinacional. Vale lembrar que o headcount do americano está distribuído por dezenas de jurisdições, enquanto o brasileiro está concentrado em cinco praças, sendo quatro delas no Brasil.
Receita por advogado — US$ 2,5 milhões contra US$ 455 mil (5,5x)
Este é o indicador que sustenta todo o resto do levantamento. Cada advogado do Kirkland gera, em média, US$ 2,5 milhões por ano. Enquanto cada advogado do Mattos Filho, US$ 455 mil. A diferença é de 5,5 vezes. Uma disparidade grande, mas menor do que a diferença de receita total (33x) e menor, como se verá, do que a diferença entre as duas economias.
Receita por sócio — US$ 17,7 milhões contra US$ 2,3 milhões (7,7x)
Cada sócio do Kirkland responde por US$ 17,7 milhões de receita bruta; enquanto cada sócio do Mattos Filho, por US$ 2,3 milhões. Traduzido em pessoas, o efeito impressiona: um único sócio do Kirkland fatura o equivalente a 39 advogados brasileiros produzindo na média do Mattos Filho.
Advogados por sócio — 7 contra 5 (1,4x)
A pirâmide americana é mais larga na base. O Kirkland mantém cerca de sete advogados por sócio; o Mattos Filho, cinco. É uma diferença de desenho de estrutura, não de desempenho, e ela explica parte de por que a distância por sócio (7,7x) é maior que a distância por advogado (5,5x).
PIB do país — US$ 30,8 trilhões contra US$ 2,3 trilhões (13,5x)
Nenhum dos dois escritórios escolheu o tamanho do mercado em que nasceu. A economia americana é 13,5 vezes a brasileira. Esse é o piso e o teto de qualquer comparação entre os dois.
PIB em relação à receita bruta — 2.917x contra 7.163x
A última linha do quadro faz a pergunta ao contrário: quantas vezes o PIB do país cabe na receita da banca? Nos Estados Unidos, 2.917 vezes, já no Brasil, são 7.163 vezes. A razão entre esses dois números é 2,46. e é dela que sai o achado do próximo bloco.
Onde o Mattos Filho brilha
A conta é simples e vale a pena fazê-la devagar. A receita por advogado do Kirkland é 5,5 vezes maior que a do Mattos Filho. Mas a economia americana é 13,5 vezes maior que a brasileira. Ou seja: a distância entre os dois escritórios é menos da metade da distância entre os dois países.
Medida contra o tamanho do mercado em que cada um opera, a receita por advogado do Mattos Filho é 2,5 vezes superior à do Kirkland. O caminho inverso, na última linha do quadro, dá o mesmo resultado: o PIB americano equivale a 2.917 vezes a receita do Kirkland, enquanto o PIB brasileiro equivale a 7.163 vezes a receita do Mattos Filho, uma razão de 2,46.
A leitura possível é que os escritórios do topo do mercado brasileiro capturam uma fatia proporcionalmente maior da sua economia do que os escritórios do topo do mercado americano capturam da deles. Isso não diz nada sobre qualidade nem sobre margem. Diz que o teto do mercado brasileiro é mais baixo porque o mercado é menor, e não porque a produtividade individual esteja proporcionalmente atrasada.
Os mais admirados na mesma régua
Aplicada a receita por advogado do Mattos Filho aos 2.926 advogados eleitos Mais Admirados na edição 2026 do anuário ANÁLISE ADVOCACIA, o grupo geraria US$ 1,3 bilhão. A cifra equivale à produção de 75 sócios do Kirkland, ou 12,6% da sociedade do escritório americano.
Na hipótese mais generosa possível, todos os 2.926 eleitos faturando como sócios do Mattos Filho, o grupo chegaria a US$ 6,7 bilhões: 64% da receita do Kirkland, ou US$ 3,8 bilhões abaixo dela. Para empatar nesse patamar seriam necessários 4.588 advogados brasileiros faturando como sócios do Mattos Filho, 1,6 vez todo o contingente eleito no anuário.
Vale frisar que nada disso mede talento, técnica ou eficiência. Mede escala, concentração e o tamanho das economias em que cada escritório opera.
O que esse exercício deixa
Este levantamento só existe porque um escritório brasileiro decidiu abrir seus números. Tudo o que está acima foi construído sobre uma única fonte primária nacional.
Com dez ou vinte bancas divulgando receita, sociedade e headcount, o mercado brasileiro teria séries históricas, comparações válidas entre pares e um debate real sobre produtividade, preço e estrutura. Teria também a chance de descobrir que a distância para o exterior é diferente da que se imagina, como sugere a conta dos 5,5 contra 13,5.
Por enquanto, o setor conhece a si mesmo pelo "Fator Mattos Filho".
A metodologia por trás dos números
Este levantamento realizado pela Data Análise coloca Kirkland & Ellis e Mattos Filho lado a lado a partir de dados do exercício de 2025, convertendo números absolutos em indicadores comparáveis.
A receita bruta do Mattos Filho foi convertida para dólares pela taxa de câmbio adotada no período do levantamento, de R$ 5,59 por US$ 1,00. A partir dela foram calculados receita por advogado, receita por sócio e proporção de advogados por sócio nas duas bancas.
A coluna "K/MF" do quadro apresenta a divisão entre os indicadores do Kirkland e os do Mattos Filho. A razão de 33x em receita indica que o faturamento da firma americana é 33 vezes maior; os 5,5x em receita por advogado, que a média por profissional americano é 5,5 vezes superior.
O indicador que relaciona faturamento e tamanho da economia calcula quantas vezes o PIB do país-sede supera a receita da respectiva banca, 2.917 vezes no caso americano, 7.163 no brasileiro, com uma razão entre esses dois valores de 2,46. E é isso o que sustenta a afirmação de que o advogado do Mattos Filho gera 2,5 vezes mais receita em relação ao tamanho da sua economia.
Para projetar a dimensão econômica do topo do mercado nacional, a receita por advogado do Mattos Filho foi aplicada ao contingente de 2.926 advogados eleitos no anuário ANÁLISE ADVOCACIA 2026.
Os dados de receita agregada do mercado americano, o total da segunda centena do ranking e o número de firmas acima de US$ 1 bilhão, vêm da edição 2026 do Am Law 100 e do Am Law 200, publicados pela The American Lawyer com base no exercício de 2025. Os números do Mattos Filho vêm do Pulso Mattos Filho - Relatório Integrado 2025.
O que é o "Fator Mattos Filho"?
O indicador
O "Fator Mattos Filho" é um indicador criado pela Análise Editorial para medir a advocacia empresarial brasileira a partir da única fonte oficial de dados publicada no país sobre receita e lucro de um escritório de advocacia. Ele converte os números divulgados pelo Mattos Filho em métricas por advogado e por sócio, e usa essas métricas como régua para estimar a dimensão econômica do topo do mercado nacional.
A inspiração
A lógica vem do Índice Big Mac, criado pela revista The Economist em 1986. Sem uma base comparável de preços entre países, a revista adotou um produto padronizado, o lanche do McDonald's, vendido em toda parte com a mesma receita e o mesmo tamanho, e passou a comparar economias pelo preço desse item. Dessa forma, o item vira a unidade de medida.
Como funciona aqui
No Brasil não existe base pública de receita da advocacia. Existe um escritório que abre suas contas todo ano. O "Fator Mattos Filho" trata a produtividade financeira dessa banca como o item padronizado, aplica esse padrão a outros recortes do mercado, como os 2.926 advogados eleitos Mais Admirados na edição 2026 do anuário ANÁLISE ADVOCACIA, e o transforma em um dado isolado dentro de uma escala de leitura.
O que ele não é
Assim como o Big Mac não mede a qualidade da comida em cada país, o "Fator Mattos Filho" não mede qualidade técnica, margem nem eficiência de banca alguma. O que ele mede é a ordem de grandeza. E depende de uma premissa: a de que a produtividade do Mattos Filho serve de proxy para o topo do mercado brasileiro de prestação de serviços jurídicos. Cada novo escritório que divulgar seus números torna essa premissa menos necessária e o indicador mais preciso.

