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Entenda como as empresas podem impulsionar o impacto social e a mudança cultural

Especialistas em direito corporativo apontam que o departamento jurídico deixou de ser um 'apagador de incêndios' e passou a ser peça central na arquitetura de uma cultura empresarial com responsabilidade social real, mensurável e defensável

11 de March 18h55
(Imagem: Análise Editorial/Reprodução)

Durante décadas, o departamento jurídico das empresas operou nas margens: era acionado quando o problema já havia chegado — um processo trabalhista, uma autuação ambiental, uma crise de reputação. Esse modelo reativo, embora ainda presente em muitas organizações, perdeu espaço para uma atuação mais estratégica e preventiva, impulsionada pelo avanço das agendas ESG (Environmental, Social and Governance) no mundo corporativo.

A sigla, que representa os pilares ambiental, social e de governança, tem reorganizado a forma como empresas são avaliadas por investidores, reguladores e pela sociedade. E no centro dessa transformação, o jurídico passou a ocupar um papel de arquiteto institucional — não apenas fiscalizando normas, mas ajudando a construir as estruturas que tornam o impacto social algo concreto, rastreável e sustentável.

O jurídico como estrategista de impacto

Para Francisco Paludo, advogado na Tahech Advogados, essa evolução acompanhou o crescimento das normas e a maior complexidade do ambiente regulatório. "O jurídico evoluiu quando passou a participar opinando em reuniões no preventivo", afirma. Antes chamado apenas para resolver, passou a ser chamado para antecipar — orientando desde a compra de outras empresas (que podem carregar passivos ambientais) até a criação de centros de custos que responsabilizem os gestores por infrações trabalhistas evitáveis.

Luis Castelo, sócio da Lopes e Castelo Sociedade de Advogados, reforça essa leitura. Segundo ele, o advogado deixou de ser apenas um guardião da conformidade para atuar como um estrategista que ajuda a integrar o impacto social ao modelo de negócio e à tomada de decisões. Isso inclui a estruturação de políticas internas, mecanismos de governança, programas de diversidade e canais de denúncia.

"O advogado deixa de ser apenas o guardião da conformidade e passa a atuar como tradutor entre risco jurídico, reputação, cultura organizacional e geração de valor", afirma Dione Assis, fundadora do BlackSisters in Law e sócia do Galdino Advogados.

Para Dione, a mudança é ainda mais profunda. Em sua visão, não basta mais dizer o que a empresa não pode fazer; o jurídico passou a ser cobrado também por desenhar caminhos seguros para a empresa fazer o que precisa ser feito, com impacto social consistente e defensável. Ela cita as Diretrizes da OCDE como referência dessa nova lógica — baseada em devida diligência, prevenção e remediação, e não apenas reação ao dano.

Medir o "S": o desafio dos indicadores sociais

Se o pilar ambiental do ESG se beneficia de métricas mais tangíveis — emissões, resíduos, consumo energético —, o componente social ainda enfrenta resistência por parecer subjetivo demais. Os especialistas ouvidos pela reportagem discordam dessa percepção.

Paludo menciona ferramentas como o Global Reporting Initiative (GRI) e o Impact Management Project como frameworks de mensuração que o jurídico pode adotar. Já Castelo aponta indicadores concretos: transparência salarial por gênero e representatividade de grupos diversos em cargos de liderança. Também destaca o funcionamento efetivo de canais de denúncia e o tratamento adequado de casos de assédio ou discriminação.

Dione amplia o leque: taxa de promoção e retenção de grupos sub-representados, remuneração comparativa, tempo de apuração de denúncias, reincidência de condutas inadequadas e rotatividade em áreas críticas. No Brasil, segundo ela, a agenda regulatória da CVM e as exigências de transparência da B3 têm ampliado esse nível de escrutínio.

Diversidade com robustez jurídica — e sem "social washing"

Programas de cotas e diversidade afirmativa são, ao mesmo tempo, um dos pilares mais visíveis do impacto social e um dos mais vulneráveis a críticas — tanto jurídicas quanto reputacionais. Para os advogados ouvidos, a chave está no método.

Castelo destaca que políticas afirmativas precisam partir de um diagnóstico real: entender quais grupos estão sub-representados e em quais níveis hierárquicos isso ocorre.

Assis vai além: para ela, o risco do "social washing" emerge justamente quando a empresa monta uma vitrine de diversidade sem redistribuição real de poder, oportunidade e proteção institucional. A política precisa vir acompanhada de trilha de desenvolvimento, critérios de permanência, ambiente inclusivo e responsabilização da liderança. Sem isso, a empresa até contrata, mas não transforma.

A cadeia de fornecedores como extensão da cultura

O impacto social de uma empresa não termina nos limites do seu crachá. Os especialistas são unânimes: a responsabilidade se estende à cadeia de valor, e o contrato com fornecedores é um instrumento central nessa governança.

Castelo recomenda que os contratos incorporem cláusulas sobre padrões trabalhistas, direitos humanos, combate à discriminação e saúde e segurança, com mecanismos de auditoria, exigência de certificações e consequências claras para violações — desde planos de correção até rescisão contratual.

"O contrato precisa funcionar como instrumento de indução cultural: ele deve prever padrões, evidências, consequências por descumprimento e planos de adequação. Não basta comprar do fornecedor; é preciso governar a relação com ele", destaca a fundadora do BlackSisters in Law.

ESG como diferencial no mercado de capitais

Para empresas que buscam crédito ou investimento, a cultura de impacto social deixou de ser um atributo opcional. Fundos e bancos analisam passivos trabalhistas, riscos reputacionais e falhas de governança porque esses elementos podem derrubar o preço das ações ou precipitar pedidos de recuperação judicial.

"A atuação no mercado de capitais exige transparência e ética, demonstrar isso é o mínimo", afirma Paludo. Para ele, o diferencial competitivo virá da velocidade com que a empresa consegue mostrar o que é verdade na organização, sem enrolação ou "maquiagem verde (greenwashing)".

O resultado é prático: melhores condições de financiamento, maior facilidade para atrair investidores e valorização em processos de fusões e aquisições. Dione reforça que, quando o jurídico ajuda a transformar a pauta social em política, indicador, governança e accountability, a empresa melhora sua narrativa perante bancos, fundos, auditorias e rating agencies — reduzindo a assimetria informacional e fortalecendo a confiança do mercado.

Letramento jurídico: do chão de fábrica à diretoria

Um dos pontos no qual os três especialistas convergem é o papel do departamento jurídico na educação interna. Treinamentos sobre assédio moral e sexual, igualdade salarial, ética corporativa, canais de denúncia e responsabilidade com fornecedores são ferramentas essenciais. Eles transformam norma em cultura organizacional.

Paludo sugere uma abordagem segmentada: o RH deve se valer do jurídico já na contratação. Gerentes precisam de reuniões periódicas com o advogado sobre as contingências mais frequentes. A diretoria deve ter uma conversa franca, com o profissional do direito tendo voz para dizer o que é certo legalmente.

Castelo reforça que essas iniciativas não devem se limitar a eventos pontuais, mas fazer parte de um processo contínuo de conscientização. Devem estar integradas com RH e compliance. Assis distingue treinamento protocolar de pedagogia institucional. Chão de fábrica, média liderança e alta administração precisam ser alcançados de formas diferentes. Linguagem, exemplos e responsabilidades devem ser proporcionais a cada grupo.

O futuro da regulação do "S" no Brasil

A perspectiva dos três especialistas sobre o futuro regulatório é convergente: a exigência vai aumentar. O que diverge é o ritmo, o caminho e o quanto as empresas brasileiras estão, de fato, preparadas para responder.

No plano normativo, os sinais já estão dados. A Resolução CVM 193 incorporou o reporte de sustentabilidade com base em padrão internacional, e a B3 tem induzido maior transparência sobre diversidade e governança. Para Dione Assis, embora o padrão hoje esteja mais amadurecido no recorte climático, a tendência é de pressão crescente também sobre temas sociais — especialmente quando conectados a direitos humanos, capital humano e cadeia de valor.

Paludo, porém, faz uma ressalva: o Brasil já é um país exigente em normas ESG, mas com fiscalização insuficiente. Apertar ainda mais as regras sem estrutura de enforcement, na sua visão, corre o risco de onerar o empresariado sem produzir evolução cultural real. O caminho mais eficaz, defende, passa por incentivos — tributários, trabalhistas e financeiros — que tornem o cumprimento atrativo, não apenas obrigatório.

Castelo aponta outro obstáculo igualmente relevante: a maturidade desigual das empresas brasileiras. Há evolução no discurso, mas ainda faltam dados, governança e mecanismos de controle. O verdadeiro desafio não é regulatório — é transformar compromissos declaratórios em estruturas concretas e auditáveis de gestão do impacto social. O recado dos especialistas, no conjunto, é claro: regulação sem cultura é letra morta. E cultura sem estrutura é apenas discurso. O "S" do ESG só ganhará peso real quando as empresas brasileiras aprenderem a tratar o impacto social não como vitrine — mas como gestão.

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