#TrendingTopics para a modernização do jurídico | Análise
Análise

#TrendingTopics para a modernização do jurídico

Por Maria Alicia Lima Peralta, sócia-fundadora da LegalStudio, e Paulo Samico, legal counsel business support da Mondelēz Brasil

19 de April de 2022 8h

Instabilidade. Nos últimos dois anos, o mundo tem enfrentado um desafio atrás do outro, mostrando a importância da disrupção para as empresas. Nas áreas de negócios, o ecossistema de inovação está inserido. A logística está munida de dashboards e gráficos para mapear rotas inteligentes. A área de vendas utiliza a inteligência de mercado para o público consumidor. O RH usa dados dos seus colaboradores rumo à melhoria organizacional contínua; além disso, aproveitam o modelo de trabalho remoto para flexibilizar e criar uma nova cultura, no qual a distância física não é mais um critério limitador na contratação de candidatos.

No jurídico, a postura inovadora é recente, traduzida não apenas por softwares, mas por uma nova maneira de enxergar as funções do advogado, no movimento denominado "Advocacia 4.0". Ainda que as opiniões acerca da inovação no universo jurídico não sejam unânimes, a verdade é que a tecnologia viabilizou suas atividades nos meses mais críticos de isolamento. No entanto, a chamada Quarta Revolução Industrial ainda é ignorada, uma vez que muitos advogados foram solicitados no retorno para a atividade presencial integral.

A Deloitte elencou as "5 principais barreiras para a modernização do departamento jurídico". São elas:

  1. Ausência de um projeto estratégico: a falta de um business case claro, com métricas para demonstrar os benefícios de modernização e tecnologias dificulta a aprovação de um orçamento;
  2. Ausência de intersecção entre as áreas do jurídico: sistemas segregados, competências de avaliação disformes e falta interação entre o contencioso e consultivo dificultam a gestão data-driven e quebram a colaboração organizacional;
  3. Métricas inadequadas ou ausentes: os medidores de desempenho (KPIs) não são usados na avaliação de performance individual e/ou da equipe;
  4. Confusão na gestão de documentos e de conteúdo: não há o uso de um sistema de gerenciamento de documentos e tomada de decisões, facilitando a perda de histórico de informações e a desgovernança;
  5. Falta de conhecimento sobre Gestão de Mudanças (GMUD ou Change Management, no termo em inglês): entender sobre a razão das transformações, o que será preciso mudar, potenciais riscos e quais os recursos necessários para o processo de modernização e implementação de novas tecnologias é cada vez mais essencial.

O jurídico também foi associado como um dos últimos a passar pela transformação digital. A presença de uma única barreira é, muitas vezes, suficiente para ficar de fora das tendências do mercado. Investir na inovação é indispensável para que se aproxime das estratégias de negócios e da própria organização, criando insights e planos focados na produtividade e de um trabalho de alta qualidade.

Por onde começar?

Antes de elencar as #trendingtopics que já fazem parte da realidade de algumas empresas, é necessário começar pelo POR QUÊ. Simon Sinek ensina por meio de um desenho simples e genial:

                                                          Start With Why: A Book Review | Cooler Insights

Por que o Jurídico é indispensável? A resposta pode parecer óbvia, mas a verdade é que muitos gestores jurídicos levarão algum tempo elaborando a resposta. Muitos consideram apenas as tarefas (o "produto") e a maneira (o "como") através da qual irão executá-las. É essencial estabelecer o propósito do departamento jurídico que construirá a forma como este deve ser alcançado e quais produtos serão entregues.

Em seguida, os demais setores da empresa devem responder: como o jurídico é definido? Por que é necessário? Os advogados são vistos como facilitadores ou associados à burocracia, lentidão e falta de clareza nos posicionamentos?

O que se quer, evidentemente, é que o jurídico seja visto como visionário ante à estratégia e os objetivos da empresa. Parceiro do negócio, agregador de eficiência e segurança. Assim, é importante direcionar o olhar para as mudanças a curto e longo prazo, avaliar o tipo de gestão e identificar barreiras e futuros possíveis. O letramento digital e a cultura da tecnologia inclusiva tornaram-se competências fundamentais para que o gestor jurídico possa  abraçar algumas das principais transformações da advocacia nos próximos anos:

  1. A consolidação da área de Legal Operations: desenvolver a área de LegalOps, núcleo de profissionais multidisciplinares voltados para a execução de tarefas a partir de dados, geração de insights, gestão de indicadores, orçamento e parceiros. Uma das ferramentas disponíveis no mercado é a LawOp, solução de monitoramento da Sem Processo, que promete tornar o jurídico mais eficiente, diminuindo os custos e imprevistos das operações;
  2. Ampliação do modelo Legal Business Partner: combinar técnica jurídica com o entendimento do negócio, dar suporte para decisões, ter apetite por boas entregas, utilizar dados para o mapeamento de riscos e promover a cultura do não-litígio são algumas de suas características;
  3. Gestão orientada a dados e por objetivos mensurados: "Os dados são o novo petróleo". A frase, do matemático Clive Humby, define que o uso interligado de dados não pode mais ser desprezado. As estatísticas e as probabilidades devem fazer parte da tomada de decisão do jurídico. A atividade de Data Analytics ou Legal Intelligence calcula as chances de êxito nas ações, filtra a geografia das demandas, os pedidos e toda a representatividade financeira da ação, como gastos com escritório, custas processuais e possíveis impactos. Ainda, sustentar por meio de números, a representatividade do jurídico para toda a organização (passivo, quantificação dos resultados por consultorias, cost avoidance, entre outros) é atribuição do gestor jurídico considerado inovador. A tecnologia da AskLisa é um exemplo de apoio à gestão na automação de consultorias e criação de um banco de dados confiável;
  4. Workflows automatizados e uso de Inteligência Artificial: trocar e-mails para colher as informações e construir a defesa? Investir na Gestão Eletrônica de Documentos (GED) para automatizar fluxos e manter o histórico em torno de ações judiciais — incluindo as decisões — é solução essencial; e não só para o contencioso. O consultivo pode utilizar um workflow automatizado para aprovar as iniciativas e a conformidade regulatória, por exemplo. Em relação à inteligência artificial, é notável o progresso na criação de aplicações que aceleram tarefas repetitivas, tais como o preenchimento de minutas contratuais ou defesas judiciais sobre o mesmo tema. O atingimento do potencial verdadeiro da IA ainda está longe de ser alcançado, mas conhecê-la é importante para estar inserido nas novidades do mercado;
  5. Equilíbrio entre vida profissional e pessoal ou "worklife balance": a automação reduz as atividades repetitivas e operacionais, para que o colaborador tenha mais tempo para se dedicar às atividades que agreguem valor. Assim, o colaborador tem flexibilidade para investir na vida pessoal, praticar esportes e conviver mais com a família. A Universidade de Oxford diz que colaboradores que trabalham felizes são 13% mais produtivos;
  6. Formação de times diversos e retenção de talentos:  diferentes visões de mundo, gêneros, histórias, etnias e orientação sexual são exemplos de estratégias de Diversidade & Inclusão que alavancam uma organização e impactam financeiramente. De acordo com a McKinsey, empresas com mais de 30% de mulheres executivas apresentam melhores resultados. Além de mais representatividade significar resultados mais expressivos, uma empresa que retém talentos é sinônimo de sucesso e preserva seu DNA. Investir na efetivação de estagiários, criar planos de desenvolvimento e preparar advogados em início de carreira para ser a liderança no futuro são boas medidas para reter pessoas e fazer do jurídico um celeiro de bons profissionais;
  7. Legal Phygital e Cultura: o termo vem da fusão das palavras físico e digital. As experiências de retomada ao ambiente presencial incentivam tecnologias imersivas e espaços físicos conectados. Um jurídico inovador deve defender este modelo, capaz de atender os clientes internos em uma estrutura omnichannel (em múltiplos canais), oferecendo inovações sensoriais e permitindo interações mais intuitivas, adequando o ecossistema tech para a implementação do metaverso. Quanto à cultura, revisar o portfólio de parceiros é algo fundamental para conferir se os escritórios estão alinhados a esses valores. Não adianta pensar em inovação e simplificação e atuar com parceiros que não são adeptos de assinaturas eletrônicas e assinam contratos manualmente;
  8. Acompanhamento legislativo: em setores regulados, estar atento às novas normas é essencial para evitar surpresas. O Jurídico e a área de Relações Governamentais precisam estar vigilantes e sintonizados com os movimentos institucionais;
  9. Metodologia ágil: para suportar múltiplas entregas e garantir a qualidade, é necessário adotar uma metodologia de equipe. Há algumas soluções especializadas em metodologia ágil voltada para advogados e departamentos jurídicos, caso da lawtech Lawgile;
  10. Educação e o futuro do Direito: garantir que todos do jurídico estejam na mesma página e com o espírito de somar ao negócio, não é fácil. Para contornar o grupo do "nós sempre fizemos assim" e o time "isso nunca vai mudar", investir na atualização da cultura organizacional é fundamental. A Future Law é uma edtech que pode auxiliar a conexão entre o jurídico e o futuro do Direito, ajudando a definir a missão, os valores e o perfil do time que irá (re)nascer.

Alguns desses tópicos são projetados pela KPMG nas funções do jurídico para 2025. No estudo, os dados apostam que os advogados poderão perder espaço dentro das empresas para os especialistas em tecnologias; isso porque as demandas jurídicas, em maioria, serão alvos de processos padronizados. Também previram que a entrega jurídica terá foco no U.X. (experiência do usuário) e que LegalOps poderá assumir uma função maior, atendendo toda a organização.

Portanto, é fundamental avaliar como a aplicação dos #trendingtopics elencados neste artigo podem contribuir para a modernização do jurídico. Há mais de dois mil anos, o filósofo Heráclito de Éfeso, "pai da dialética", disse que "nada é permanente, exceto a mudança". Entender o presente para projetar desdobramentos prováveis e construir um time de advogados preparados para a transformação digital nunca foi tão necessário.

Segundo a futuróloga Yvette Montero Salvati, "o futuro se baseia no presente e, ao agirmos no presente estamos criando possíveis futuros. Ainda que talvez pensemos no futuro de forma inconsciente, devemos tornar isso parte consciente do processo decisório para que os passos adicionais que damos hoje nos levem ao futuro que desejamos construir." Que este artigo sirva como inspiração para deixar-se de lado o ceticismo e a aversão às novas tecnologias no mundo jurídico, de forma que advogados possam ser associados à inovação, agilidade e eficiência para todos na organização.

Advocacia 4.0Departamento JurídicoDisrupçãoExperiência do UsuárioInovaçãoJurídicoLegalOpsLegaltechLetramento DigitalMaria Alicia Lima PeraltaModernizaçãoNova CulturaPaulo SamicoTecnologiaTransformação DigitalTrending TopicsU.X.User Experience