Foram muitos e sempre marcantes os papéis desempenhados por Thereza Celina Diniz de Arruda Alvim ao longo dos seus 90 anos. Não queremos pensar aqui na pessoa que o Brasil perdeu, com o falecimento de Thereza, mas na sorte que tivemos de tê-la tido entre nós por um tempo longo e prolífico.
Dra Thereza manteve-se, na medida do possível, ativa até o fim. A idade avançada e a saúde debilitada não a impediram, por exemplo, de aceitar meu convite, nos primeiros meses deste ano, para produzir um artigo sobre sua trajetória. Seria difícil levar a missão a cabo. Eu logo soube. Mas contamos - ela e eu - com a ajuda inestimável de Rosane Arruda Alvim, que tratou de conduzir as conversas com Thereza e redigir o texto. Um texto, como Rosane diz, construído por duas cabeças.
O artigo faz parte do livro "Liderança Feminina na Advocacia", que está em fase de edição e será lançado em outubro, na Fenalaw. O texto produzido por Thereza e Rosane Arruda Alvim acabará se convertendo em merecida homenagem. Ao mesmo tempo que o meu coração, hoje, se entristece com a perda desse verdadeiro ícone da advocacia brasileira, sinto-me muito grata e privilegiada por ter podido conviver só um pouquinho com ela, por intermédio da Rosane, nos últimos meses.
Para quem não a conheceu ou para relembrar, transcrevo aqui um trechinho do artigo, ainda inédito: "Quem gosta de Thereza gosta desde o primeiro dia, porque ela não chega de forma mansa; tudo nela é intenso, profundo e belo". Rosane P. Santos Arruda Alvim apresenta-se como aluna, amiga, sócia e, por último, nora da Dra. Thereza.
Várias gerações de estudantes foram impactadas pelos ensinamentos de Thereza Alvim. Como professora, como autora de livros, parecerista, jurista, ela foi referência e das grandes. Sobre parecer, aliás, ela dizia que dava "opinião legal", quando lhe encomendavam um parecer, porque o juiz não tem tempo para ler "romance" numa peça processual. Esse era o espírito dessa mulher que, na faculdade, era vista por professores - inclusive por um tio do seu futuro marido - como excessivamente "profissionalizante".
Naquele tempo, contou Thereza em uma entrevista, muitas mulheres entravam nas faculdades de Direito, mas bem poucas realmente advogavam. Ela, como se casou muito cedo, embora pudesse ser ajudada pela família, buscou logo produzir renda, junto com seu colega de turma, José Manoel de Arruda Alvim Netto. Os dois faziam apostilas sobre assuntos jurídicos e as vendiam a outros alunos.
Acompanhei de perto parte da trajetória de Thereza. Desde 2009, ela figurou onze vezes entre os advogados Mais Admirados do Brasil, nos rankings do ANÁLISE ADVOCACIA, e esteve presente em cinco edições do ANÁLISE ADVOCACIA MULHER, publicado desde 2021.
Pessoalmente, eu só estive com Thereza uma vez. Foi logo depois dela entrar no ranking dos advogados Mais Admirados pela primeira vez. A conversa com ela foi tão agradável e inspiradora, que sua imagem nunca mais saiu da minha memória. E foi assim também com outros integrantes da equipe Análise, que a conheceram.
De verdade, ela funcionou para mim como uma incentivadora do nosso trabalho, mostrando-se uma entusiasta da nossa proposta de contribuir com a produção de informação e de dados de qualidade sobre e para o mercado da advocacia no Brasil. Um sinal, para mim, de que Dra. Thereza sempre valorizou o que a Análise produz.
A Dra. Thereza Celina Diniz de Arruda Alvim representou muita coisa. Foi aprovada em primeiro lugar no concurso de procuradora do estado de São Paulo, em 1970, fundou e lecionou em cursos de mestrado e doutorado na PUC São Paulo ou na Universidade Estadual de Londrina, além de ter sido uma das fundadoras da Faculdade Autônoma de Direito de São Paulo, a Fadisp. Nas palavras da ministra do STJ Nancy Andrighi, Thereza abriu caminho para muitas mulheres no Direito Cível, "para que hoje pudéssemos ter congressos inteiros de mulheres processualistas".
Sobre de onde teria surgido sua predileção pelo Processo Civil, o artigo produzido em conjunto com Rosane traz uma resposta, no mínimo, inesperada. "Não foi paixão pelo Processo, foi paixão pelo Arruda Alvim", teria afirmado Thereza em uma entrevista. Essa foi Thereza. Como ressalta Rosane, cada pessoa que travou relação com ela foi tocada de forma indelével. "Ela é uma força da natureza: a tudo resiste e de tudo acha graça." Hoje, Thereza descansou. Mas sua força está eternizada neste mundo em muitas pessoas e de muitas formas.
O meu desejo é que o legado dessa mulher, que foi e fez tanto, siga vivo, norteando a todos que tiveram o privilégio de conviver com ela. E siga inspirando a todos que tomem contato com sua história. Deixo aqui meu abraço, em meu nome e no de toda a equipe Análise, aos familiares, amigos e colaboradores de Thereza Arruda Alvim.
Silvana Quaglio diretora-presidente e publisher da Análise Editorial. Jornalista com mais de 20 anos de experiência, foi repórter nos veículos VEJA, O Globo e BBC, além de repórter, coordenadora e colunista no jornal Folha de S. Paulo e editora no jornal Valor Econômico.

