Hollywood não cansa de retratar o advogado como um dos profissionais com o dia a dia mais emocionante e excêntrico. Os enredos dos filmes e séries frequentemente envolvem casos que ganham notoriedade na imprensa, seja pelo cliente que cometeu algum crime ou pelo próprio advogado, que passa a ser visto como um super-herói. Mas, o que é possível aprender com os casos de grande repercussão midiática? Veja a seguir um manual de boas práticas para advogados com a imprensa e saiba como transformar casos de grande repercussão em oportunidades para fortalecer sua imagem profissional e a de seu cliente.
1. Seja discreto
De acordo com David Rechulski, advogados devem tratar casos que chamam a atenção da mídia com cautela e evitar "bate-boca" público. "Quando você está em uma situação como essa, não deve ficar batendo boca com o promotor, juiz ou delegado", diz.
Além disso, ele comenta, como um dos primeiros itens deste manual de boas práticas, que os advogados devem se posicionar diante dos microfones de maneira estratégica e explicativa para evitar erros. "Você defende o seu cliente a partir do momento em que o tira da mídia. Estrategicamente, em algum momento, será necessário que o cliente se manifeste", diz Rechulski. "Eu já ouvi, no momento de contratação de grandes casos, o cliente valorizar o meu jeito low profile" .
Nos dias de hoje, as redes sociais têm um impacto significativo nas notícias e na imagem pública. No entanto, para advogados que lidam com casos de grande repercussão, é essencial que o uso dessas plataformas seja cauteloso. O advogado deve evitar postagens impulsivas ou que possam ser mal interpretadas pela opinião pública.
2. Explique o caso
Questões técnicas podem passar despercebidas em meio à miríade de informações — ou desinformações —, opiniões e apelo público que casos de repercussão geram. Por isso, sempre explique e detalhe os procedimentos pelos quais o advogado e sua parte passam.
"Já falei muito com jornalista, explico o caso, detalho e trago uma série de pontos, sempre para trazer a visão correta do caso e não falar para aparecer", conta David Rechulski. "Às vezes, você tem que falar com a imprensa e dar a sua perspectiva como forma de autoproteção, isso sob a perspectiva de levar clareza, transparência e complementos para a boa condução do caso".
3. Respeite a privacidade
A velocidade da informação — e a sua fácil propagação — transforma a privacidade não apenas em uma questão de ética profissional, mas também em um componente de manutenção da confiança e eficácia da defesa, segundo a advogada criminalista, Joyce Roysen, proprietária de escritório de mesmo nome.
"O excesso de comunicação pode criar uma interferência muito negativa e um impacto no julgador", diz. "O impacto da mídia sobre o julgador é muito grande. Muitas vezes, a mídia, ao analisar a informação, distorce a forma com que o advogado ou o cliente tentam se expressar."
4. Projete uma imagem positiva
Controlar a narrativa durante casos de repercussão passa por manejar uma imagem positiva do cliente. Por quê? Tanto a reputação do advogado quanto a de quem precisa de defesa estão em jogo. Ao buscar mostrar o lado positivo, o advogado balanceia possíveis visões negativas de ambas as partes.
"Primeiro, a preservação da intimidade e, em segundo, busco passar uma imagem positiva, o que é muito difícil", diz Joyce. "Independentemente do caso, a forma como a mídia mostra pode incomodar muito, mesmo que as pessoas sejam absolvidas, como, por exemplo, quando filmam funcionários de uma empresa ou aparece o logo dela."
Além de lidar com a mídia no momento do caso, o advogado deve trabalhar para construir uma narrativa positiva sobre a profissão e seus clientes ao longo do tempo. Isso significa manter uma presença constante e transparente na mídia, com a intenção de reforçar a imagem positiva de quem ele representa.
5. Trabalhe em equipe
É comum que grandes casos envolvam múltiplas áreas do direito, além de exigirem conhecimento em setores específicos, como finanças e tecnologia. Portanto, em escritórios de estrutura full service, o trabalho em equipe se torna uma ferramenta essencial, segundo Mario Panseri Ferreira, sócio do Pinheiro Neto.
"Depois que você está dentro do Pinheiro Neto, vai entender que esse espírito do ‘eu fiz’ não acontece", diz. "Eu mesmo, quando escrevo um e-mail, coloco ‘nós do Pinheiro’, porque juntos somos mais fortes. Essa é uma política básica do escritório."
6. Evite ser protagonista
Uma frase fora de contexto ou até mesmo um titubeio na comunicação pode gerar um efeito indesejável. Por isso, Panseri diz que é preciso treinar o cliente para falar com a imprensa. E o que é melhor: o advogado ou o cliente deve ficar em frente às câmeras? Na visão dele, quando o cliente se posiciona, a credibilidade aumenta.
"Eu prefiro que o advogado, diante de uma crise, evite o contato direto com a mídia", diz. "Essa é uma estratégia que nós utilizamos, porque o próprio cliente deve ser o porta-voz da notícia. Mas, se necessário, o advogado poderá e até mesmo deverá falar ativamente."
Embora seja tentador se posicionar como um herói diante da mídia, um dos princípios mais importantes deste manual de boas práticas é que o advogado deve lembrar que o foco principal é sempre o cliente. O advogado deve evitar o protagonismo, direcionando a atenção para o caso em si, sem que sua figura se sobreponha à do cliente ou ao processo em questão.
7. Liberdade de expressão com responsabilidade
Entre os itens de grande relevância no manual de boas práticas para advogados, está o de sempre lembrar que a liberdade de expressão deve ser exercida de forma responsável. Embora a mídia tenha o direito de divulgar informações, o advogado deve atuar para garantir que essas informações sejam precisas e não prejudiquem seu cliente.
"Fazer com que as informações fluam de forma clara e precisa é um dos maiores desafios da comunicação com a mídia. Quando isso é bem feito, a confiança pública no processo é mantida", conclui Joyce Roysen.

