Marina Coelho Araújo é pós-doutora pela USP e professora do Insper, e acha que nada disso, sozinho, traz um cliente ao escritório. "Não tem mais essa de 'o fulano é o professor, tem que ser ele'", diz. As empresas, conta, comparam vários advogados e olham produtividade, efetividade e preço. E o discurso não é o de quem promete tratar bem. "Eu vou atrás dizendo assim: eu já fiz o que você precisa que seja feito e já sei que resultado pode dar. E também já sei se não pode dar resultado."
Ela diz que pertence a uma geração que não pegou o tempo em que o cliente vinha até o advogado. Os nomes do direito penal que viveram dessa espera ainda existem e têm escritório, mas, na conta dela, são de outra geração. Captar cliente, expressão que boa parte da advocacia ainda evita, não é palavrão para Marina. "Vender serviço, para mim, é um pouco expor a sua experiência como advogado."
A outra mudança que ela descreve vem da Lava Jato. Durante a operação, criminalista andava de jatinho, ia a Brasília e voltava, e tributaristas mudaram de área atrás dos honorários. Marina convive no dia a dia com os maiores escritórios de penal e diz que esse padrão ficou no passado. No lugar dele veio o que ela chama de batidão empresarial, e o trabalho preventivo já responde por cerca de 30% do escritório. Com o acordo de não persecução penal, a maior parte dos casos de direito penal econômico pode terminar antes do processo, e o advogado precisa cobrar por uma negociação que o cliente enxerga como um papel assinado.
Marina fundou em 2025, com a sócia Helena Lobo da Costa, o Coelho Araújo Lobo da Costa Advogados, banca de cinco advogados em São Paulo. Fala rápido, emenda um caso no outro e avisa, perto do fim, que sabe disso. "Você viu que eu falo muito." E é uma conversa boa de ouvrir.
A entrevista foi concedida a Alexandre Secco, editor e sócio da Análise Editorial.
Marina Coelho Araújo é advogada criminalista e sócia do Coelho Araújo Lobo da Costa Advogados, escritório com sede em São Paulo, fundado em 2025 e com cinco advogados. Tem 26 anos de advocacia. É pós-doutora pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP) e professora no Insper. É vice-presidente do Instituto dos Advogados de São Paulo (IASP) (2025/2028) e coordena o grupo de trabalho do júri do Instituto de Defesa do Direito de Defesa (IDDD).
Alexandre Secco: Figuras muito conhecidas do direito, gente de perfil acadêmico forte, advogados de casos rumorosos, todos me repetem a mesma cartilha: o cliente não vem mais até nós. Até no criminal o advogado saiu da cadeira para se apresentar e mostrar portfólio.
Marina Coelho Araújo: Eu já vim de uma geração que não pegou esse momento de "o cliente vem até a gente". Essas figuras do direito penal ainda existem, têm escritório e tudo mais, mas são de uma outra geração. A minha geração já é mais business.
Pergunta: Do lado de quem contrata, muda o quê?
Marina Coelho: Eu vejo essa proporcionalidade também nas empresas. O pessoal das empresas está muito consciente de quem são as pessoas e do serviço que elas prestam. Tem muita gente boa, como você falou, então vou analisar várias pessoas. Não tem mais essa de "o fulano é o professor, tem que ser ele". Não é assim. Hoje o mercado está focado em produtividade, efetividade e preço.
Pergunta: Você é pós-doutora e dá aula. Quanto isso pesa na hora da contratação?
Marina Coelho: É muito simples você falar: bom, eu sou pós-doutora, dou aula, tenho todo um histórico acadêmico. Mas no dia a dia da advocacia o que conta são os 26 anos de experiência prática. Esse tempo em que eu já vi muita coisa. Então eu consigo ir até o cliente olhando a dor dele. Então é um pouco isso que a gente tem que fazer: você tem que ir atrás.
Pergunta: Ir atrás do cliente com que conversa?
Marina Coelho: Não é ir atrás com o discurso de "eu sou bobo, vou te tratar bem". Eu vou atrás dizendo assim: eu já fiz o que você precisa que seja feito e já sei que resultado pode dar. E também já sei se não pode dar resultado. E também te conto isso.
Pergunta: Captar cliente continua sendo uma expressão proibida na advocacia. Eu não acho que seja, mas muita gente pensa de outra forma.
Marina Coelho: Eu também não acho. A gente tem que vender o trabalho. Você não trabalhou mais de 20 anos para ficar escondido atrás da mesa. E como você vende? Você tem que falar com as pessoas, mostrar o que você faz, mostrar resultado. Vender serviço, para mim, é um pouco expor a sua experiência como advogado.
Pergunta: Onde fica a linha divisória a ser respeitada?
Marina Coelho: Se você está expondo a sua experiência por um lado positivo, sem expor a privacidade das pessoas, sem quebrar sigilo, sem fazer com que isso atrapalhe os processos, não tem nenhum problema. O problema é o contrário. Eu vejo muita gente vendendo o trabalho de forma fraudulenta. Aí sim.
"O que diferencia um advogado do outro é o tanto de problema a que ele já se expôs, que já resolveu e em que já trabalhou."
Pergunta: A outra face dessa moeda me diverte. Advogado se vende dizendo que faz um trabalho ético e dá atendimento integral ao cliente. Ninguém anunciaria o oposto. O que diferencia, de fato, o advogado A do advogado B?
Marina Coelho: Essa pergunta eu me faço todos os dias, porque é a pergunta do milhão na advocacia. Faz uns 18 meses, mais ou menos, que isso tem acontecido comigo. Estou falando da advocacia em geral, não de mim. E até saiu um artigo na semana passada, do Eduardo Salomão1, no Valor Econômico, sobre o que é o advogado do futuro.
Pergunta: O que ele escreveu?
Marina Coelho: Vou resumir. Ele diz que a advocacia não vai acabar, mas que a gente vai ter um refinamento dos melhores advogados, e essas pessoas vão ter que ter as skills. E as skills têm um tripé, que é conhecimento, experiência e comunicação.
Pergunta: Desse tripé, qual pesa mais quando um caso chega à sua mesa?
Marina Coelho: Quando eu sento nos casos graves, a pessoa me conta e eu começo a pensar em várias coisas em que já trabalhei, coisas muito parecidas. Aonde chegou? Qual é a identidade com isso? O que diferencia dos outros casos graves? Como a estratégia foi levada, como ela pode ser levada aqui? Quando a pessoa vai me contando, eu já começo a passar um filme na minha cabeça, um monte de coisa que já aconteceu. Isso, para mim, é experiência.
Pergunta: Experiência costuma ser um outro nome para idade.
Marina Coelho: O que diferencia um advogado do outro é o tanto de problema a que ele já se expôs, que já resolveu e em que já trabalhou. E não precisa ser idade, porque tem gente que é muito mais velha e não trabalhou tanto, não fez tanta coisa, então não se expôs a tanto problema.
Pergunta: No seu escritório, isso se traduz como?
Marina Coelho: Aqui eu acho que esse é um ponto em que a gente tem muita vantagem. A gente é acadêmico, mas vive da advocacia. São 25 anos trabalhando todos os dias em todos os tipos de casos, desde o menos complexo até o mais complexo. Isso vai te dando uma cancha.
"Agora é o batidão, e o batidão é empresarial."
Pergunta: Os 25 anos de vocês atravessaram a Lava Jato2. Quando eu me formei, diziam que quem queria uma vida divertida e ficar pobre ia para o penal, e quem queria uma vida chata e ficar rico ia para o tributário. Na Lava Jato eu vi o contrário: tributarista virando criminalista atrás de honorários que deixavam qualquer advogado rico. Essa farra acabou?
Marina Coelho:Sempre que tem uma grande operação, com prisão de pessoas que têm dinheiro, acaba gerando um pouco essa questão. Mas eu vejo que esse padrão Lava Jato ficou totalmente no passado. E não só eu. Se você conversar com as pessoas do mercado, esse padrão ficou no passado. O serviço criminal é um serviço que naturalmente envolve um resultado muito grave para o seu cliente, então esse resultado está envolvido em alguma coisa de custo.
Pergunta: O tributarista que mudou de área foi atrás de quê?
Marina Coelho: Do glamour, Alexandre. Quem era advogado da Lava Jato ia para cá, ia para lá, pegava jatinho, ia para Brasília e voltava. Eu convivo no dia a dia com os maiores escritórios de penal, e isso daí não tem mais. Acabou, acabou.
Pergunta: O que ficou no lugar do jatinho?
Marina Coelho: Agora é o batidão, e o batidão é empresarial. Tem muito problema penal no Brasil, muito. Se eu pensar em tributário, consumidor, ambiental e em estelionato e fraudes em que a empresa é vítima, só nessas quatro coisas já tem um mundo de coisas.
Pergunta: Fora dessas quatro?
Marina Coelho: Aí eu vou para o outro lado, que é o financeiro. A gente aqui tem um know-how muito forte em sistema financeiro. Se você pensar hoje em toda essa parte de meios de pagamento, tem uma regulação gigante, tem um monte de coisa envolvida, e isso tem muita questão penal. Então eu tenho muito trabalho penal, mas ele acabou entrando na linha das outras áreas. Também foi, de alguma forma, moldado pelo business.
"O cliente hoje não quer pagar mais aquela fortuna para ninguém."
Pergunta: A sua geração, a do business, é cobrada pelo quê?
Marina Coelho: É uma geração muito focada em business, focada em resultado: o que você vai entregar para o tanto que está cobrando. E hoje tem muita coisa de tecnologia. A gente está orbitando em todo esse ambiente de buscar efetividade, melhorar os resultados do trabalho jurídico num custo menor e ainda enfrentando a tecnologia. O mercado do advogado está super complexo.
Pergunta: Tanta complexidade assusta muita gente.
Marina Coelho: Eu vou te falar, Alexandre, eu sou muito otimista, porque eu amo direito, eu amo ser advogada. Eu não tenho nenhum receio de que a advocacia vá acabar. Nenhum. Estou bem tranquila com isso. Os problemas estão ficando mais complexos. Talvez para os problemas mais simples a gente tenha coisas para fazer. Mas hoje eu vejo uma importância gigante de advogados que tenham experiência e consigam transitar nesses três elementos que eu falei.
Pergunta: Comecemos pela efetividade.
Marina Coelho: É pensar nisso como um business só, não como uma atividade de consulta, como ela era lá atrás, a pessoa que é a de confiança. Isso tem que estar dentro do business, dentro da efetividade. Você tem que entregar isso. Isso é pressuposto.
Pergunta: E a tecnologia?
Marina Coelho: Você tem que transitar na tecnologia.
Pergunta: Falta o custo. Muito advogado ainda se queixa de que não dá para pôr preço em criatividade e experiência. A publicidade ouviu essa queixa há 40 anos, quando entrou nas mesas de compra das empresas. A resposta foi que há várias criatividades no mercado, e entre dez agências é legítimo abrir uma competição com critérios objetivos.
Marina Coelho: Você tem que ter uma questão de custo que seja razoável. O cliente hoje não quer pagar mais aquela fortuna para ninguém. Acabou isso daí, acabou. O preço mudou muito. Então a advocacia mudou. E eu vou te dar um exemplo que, para a gente no criminal, é muito importante: hoje existe o acordo de não persecução penal.
Pergunta: O que ele mexeu no trabalho de vocês?
Marina Coelho: Ele trouxe para dentro do direito penal brasileiro, de uma forma mais ampla, o direito negocial. Não é que não existia antes. É um acordo prévio ao processo: as pessoas vão cumprir aquela condição e acaba o procedimento. Quer dizer, o processo nem começa. E 99% dos crimes de direito penal econômico estão dentro dos casos em que cabe acordo de não persecução penal.
Pergunta: Isso tira o chão de quem sempre cobrou pelo processo.
Marina Coelho: Pense comigo: como os advogados vão trabalhar e cobrar hoje se não vai ter processo, não vai ter testemunha para ser ouvida? Tá certo que o acordo tem que ser firmado, eu não estou dizendo que não vai ter. Estou dizendo que essa hipótese existe. Agora, para fechar um acordo desse, você tem que ter um know-how gigante.
Pergunta: De que tipo?
Marina Coelho: Quem vai fechar os melhores acordos? Quem for o melhor negociador. Quem tiver conteúdo, entender tudo o que se passa na legislação para poder aportar. Quem souber fazer uma investigação prévia dentro de casa para entender todos os elementos. Você não vai ter um processo de cinco anos, mas vai ter que cobrar num acordo todo esse trabalho.
Pergunta: O cliente enxerga só um papel assinado.
Marina Coelho: É difícil explicar para o cliente, porque ele acha que você vai lá, faz um acordo, ele assina e acabou. Não: são processos longos de negociação, e isso tem que ser cobrado. Só que é óbvio que mudou o paradigma. Agora eu preciso ter um paradigma de efetividade, de resultado, com baixo custo, com business envolvido, porque o cliente também está pensando assim: onde nós vamos chegar?
"O mercado global está preocupado com mitigação de risco."
Pergunta: Esse paradigma de efetividade e baixo custo esbarra numa característica do penal. Existem pouquíssimos grandes escritórios criminais no Brasil. Já ouvi várias explicações para isso e queria ouvir a sua.
Marina Coelho: Eu penso que é porque ele sempre vai estar ancorado nas pessoas que têm a maior experiência. Mesmo no meu escritório, em que eu tenho trabalho de massa, eu sempre vou estar de alguma forma ancorada naquilo: a pessoa quer falar comigo. Por mais que você tenha pessoas muito boas trabalhando com você, tem uma questão que é ligada à pessoa, e você não vai dar conta de estar em todos aqueles lugares. Então é muito difícil ter um negócio muito grande.
Pergunta: Eu tenho a impressão, sem números para provar, de que as grandes firmas estão se separando e de que nasce uma leva de escritórios especializados, cada um na sua área. Quero ver o que isso vai fazer com o custo e com o honorário.
Marina Coelho: Eu vejo que essa característica do penal, em vez de ser o contrário, está se revertendo nas outras áreas, numa coisa parecida.
Pergunta: Você falou em trabalho de massa. Como se divide o trabalho aí dentro?
Marina Coelho: Ele é dividido em três partes. A gente tem o contencioso penal: ações penais, inquéritos, investigações. É o que eu chamo de trabalho de bombeiro. Já pegou fogo, e a gente vai tentando ajustar.
Pergunta: E a segunda parte?
Marina Coelho: É um trabalho que vem antes disso, que é o preventivo. Esse trabalho, Alexandre, quando eu comecei a advogar, era perto de zero. Era muito pouco, e hoje ele atinge cerca de 30% do trabalho.
Pergunta: De perto de zero para 30%. O que mudou do lado das empresas?
Marina Coelho: O mercado global está preocupado com mitigação de risco. Então, quando eu falo de business, estou falando de mitigar risco globalmente, e isso está sendo muito falado e muito executado. O mercado financeiro dá essa regra: ele só dá dinheiro, só vai impulsionar negócio para quem mostra que mitiga o risco. Isso acabou virando uma coisa muito bem precificada. Eu preciso ter isso para poder vender mais e ter mais benefícios do meu negócio.
Pergunta: O penal entra nessa conta por onde?
Marina Coelho: O penal hoje é uma coisa que tem um risco alto. Empresas que têm uma preocupação em se vender, IPO e todas essas coisas, têm que estar muito bonitinhas e alinhadas na mitigação de risco penal. A gente tem bastante trabalho de mitigação específica de operações. O sujeito chega e fala assim: olha, eu tô pensando em fazer isso aqui, o que você acha? Aí eu olho e falo: isso é uma simulação, amigo, você não vai fazer.
"PCC como organização terrorista para os americanos tem um impacto gigante no compliance das empresas."
Pergunta: Os programas de compliance viveram da Lava Jato.
Marina Coelho: A gente teve um boom pós-Lava Jato, depois deu uma caída, e agora está voltando de novo. Toda essa questão do PCC3como organização terrorista para os americanos tem um impacto gigante no compliance das empresas.
Pergunta: Deixa eu fazer um puxadinho. Imagino que o risco seja descobrir que uma empresa idônea está fazendo negócio com outra envolvida com o PCC. Amanhã eu tenho a minha empresinha bonitinha e descubro que o meu fornecedor ou o meu cliente está envolvido. É um perereco.
Marina Coelho: É um perereco, e a gente é neurótico. Para você ter uma ideia, eu fui contratar uma pessoa para tocar na festa de 15 anos da minha filha e tive que fazer mil investigações, porque eu ia contratar um MC. A Helena4 brincava: "Vice-presidente do IASP envolve-se com MC do PCC". (risos)
Pergunta: A empresa que está envolvida de fato, o problema é dela. Me preocupa a de boa-fé, que se enrosca por desconhecimento.
Marina Coelho: Às vezes a empresa nem está envolvida com o PCC, mas tem uma triangulação: aquela empresa que pagou para você também fez contato com o PCC. Aí eles já falam que você fez. Então tem que estabelecer alguns procedimentos para tentar mitigar isso.
Pergunta: Quem ensina esses procedimentos dentro da empresa?
Marina Coelho: Eu e a Helena já temos esse know-how de comunicação, então a gente faz muito treinamento. A gente treina executivos, treina a base. É um trabalho que não está ligado ao contencioso, mas que antevê todo esse problema de risco.
"O direito penal no Brasil é roubo e tráfico."
Pergunta: Falta a terceira parte.
Marina Coelho: É o direito penal que se envolve com questões de massa. A gente sempre trabalhou com essa área, e eu gosto dela porque te traz muito a realidade da vida. Hoje a gente tem um trabalho de subsidiar a polícia com informações do meu cliente sobre transações financeiras e dados cadastrais. Eu respondo o que a polícia vai me perguntando sobre as informações que o meu cliente tem.
Pergunta: Visto de fora, parece trabalho de despachante.
Marina Coelho: É um trabalho de que eu me alimento muito. Isso envolve Marco Civil da Internet, tecnologia, transação bancária, e eu tenho que ter um cuidado master, porque há sigilo bancário, sigilo fiscal, sigilo telemático. Tem muito volume, mas é um trabalho super relevante. Ele te mostra como a polícia está investigando, que instrumental ela tem, como as empresas se organizam, qual é a concretização do Marco Civil da Internet. Isso é muito legal, só que dá um trabalhinho, porque é massa.
Pergunta: O que eu tenho visto são escritórios médios e pequenos entregando suas carteiras de volume, porque não aguentaram a concorrência de empresas como a Enter5, que massificaram o serviço e levaram o honorário lá para baixo. Carteira de volume costuma ser de tese repetida, quase trabalho de gestão. No penal, como fica essa conta na última linha do balanço?
Marina Coelho: No penal, essas questões são muito delicadas, então ainda vale um pouco a pena. É um pouco diferente do nosso. A gente sempre trabalhou no mercado financeiro, já trabalhou na carteira de massa do Itaú. E eu acho que é um trabalho interessante, porque a gente se aproxima bastante da realidade, de como as coisas estão sendo investigadas. Na advocacia, você tem que ter os grandes casos, mas também tem que ir enchendo o saco com as migalhas do dia. Não migalhas, a palavra está errada.
Pergunta: Migalhas no sentido de casos de complexidade menor. Por que eles importam?
Marina Coelho: Porque eles também te trazem para a realidade.
Pergunta: Onde entra o pro bono?
Marina Coelho: É um trabalho muito relevante para a gente. A gente é do IDDD6, o Instituto de Defesa do Direito de Defesa. A Helena é conselheira, e eu sou coordenadora de um grupo de trabalho do júri. E a gente faz trabalho pro bono aqui direto também, porque o penal tem isso muito forte. O direito penal no Brasil é roubo e tráfico. As cadeias estão cheias com esses dois crimes. A gente trabalha muito pouco com eles, mas nos casos pro bono, sim.
Pergunta: O que um caso de roubo ensina a quem defende executivo?
Marina Coelho: Geralmente a gente está falando de estratégia de defesa, de estrutura e de conhecimento de como o sistema trabalha. Quanto mais você faz esses casos, mais fica antenado nas questões do sistema jurídico. Mas são casos muito diferentes, as estratégias são muito diferentes, porque essas investigações são muito curtas. Nos casos empresariais, geralmente as investigações são longas, tem muita coisa.
"Raramente a gente trabalha sem perícia."
Pergunta: Com tecnologia no meio, complica.
Marina Coelho: Hoje a gente tem uma problemática em cima da cadeia de custódia da prova, porque tem muita tecnologia envolvida, e a polícia tem que dar conta de fazer todo esse trabalho rastreável. Isso é super difícil. Trabalhar hoje no empresarial é bem complexo. Raramente a gente trabalha sem perícia. Raramente.
Pergunta: Vejo no jornal, quase todo dia, um caso arquivado no STJ porque a prova era uma cópia de tela de WhatsApp, coisa que até pouco tempo atrás os tribunais aceitavam. Parece que puseram o pé no chão.
Marina Coelho: Muito mais, muito mais. Eles estão anulando tudo, Alexandre. Tudo. Estão anulando mesmo, porque a polícia não está nem aí: vai lá, pega, abre, mexe no WhatsApp das pessoas, no telefone, sem qualquer registro. Na hora em que isso vai para o STJ, anula a prova inteira. Isso está tendo uma reação em cadeia, e agora, nas investigações, eles estão muito mais cuidadosos.
Pergunta: A defesa mudou o quê?
Marina Coelho: A gente já está incluindo assistente técnico desde o começo, porque daí você já vai produzindo a prova toda.
Pergunta: Hoje há ferramentas de preservação de prova, token, ata notarial digital…
Marina Coelho: Funcionam totalmente. Nem precisa mais só da ata notarial, porque a ata notarial é cara. O Verifact⁷ já é aceito, amplamente aceito. A gente faz tudo pelo Verifact.
Pergunta: Deixa eu puxar outro fio. Em Brasília, virou piada de corredor que o escritório não contrata mais o advogado, contrata o sobrenome. No criminal, quanto vale o sobrenome?
Marina Coelho: O criminal é um pouco diferente, porque a turma criminal é menor. No STJ são duas turmas, a Quinta e a Sexta, que formam uma seção. No STF, claro, todos julgam. Às vezes a gente precisa contratar alguém lá para ajudar no trabalho, porque a gente não está em Brasília e às vezes tem que ir rápido. Hoje, cada vez menos, porque a gente consegue fazer muita coisa. Eu ouço falar muito disso no cível, mas no criminal eu não me deparei com esse problema ainda.
Pergunta: Quem vai ao gabinete?
Marina Coelho: Eu, particularmente, faço muito trabalho pessoalmente. Eu mesma vou aos tribunais, marco despacho, vou despachar. É um trabalho direto, direto mesmo. A gente tem poucos julgadores em Brasília, e as questões que chegam lá são muito técnicas. Elas envolvem menos dinheiro, porque não é uma questão de dinheiro, é uma questão de liberdade.
Pergunta: O que me incomoda é ver gente sendo criminalizada por ter boas relações nos tribunais. Advogado precisa de relações civilizadas, republicanas, e quem não soube construí-las ao longo da carreira, o problema é seu. Hoje eu vejo os bem relacionados no mesmo balaio dos que buscam relações para outras finalidades.
Marina Coelho: Lógico, até porque são muitas pessoas. Se você tem conteúdo, se é uma pessoa que trabalha direito, faz as coisas, e pede para falar, a pessoa vai falar com você. O que tem hoje é que eles estão com pouco tempo. Como eu falei, são duas turmas só de penal no STJ, e cada um recebe uma média de 70 habeas corpus por dia. Imagina receber 70 habeas corpus por dia, e amanhã vêm mais 70, tirando todo o resto que você tem para fazer.
Pergunta: O que sobra para o advogado?
Marina Coelho: Sobra menos tempo para falar com os advogados. Por isso uma demanda que a gente tem hoje, muito justa a meu ver, é ter mais espaço para conversar com os julgadores, em todos os tribunais: Tribunal de Justiça de São Paulo, STJ, STF. Eu não tenho essa experiência de que, porque você contratou o filho de um, o parente do outro, você vai. Para mim existe uma dificuldade muito importante de despachar com ministros, que não é minha, não é do outro, é do sistema. Setenta HCs por dia inviabilizam o trabalho. Mas a gente insiste, pede por favor, manda mais um e-mail, mostra relevância. E aí vai.
"Nada vai substituir o livro."
Pergunta: Lá atrás você disse que o advogado tem que transitar na tecnologia. Onde ela entra nessa experiência toda?
Marina Coelho: O desafio da advocacia como um todo é usar a tecnologia para ampliar o nosso potencial de trabalho. O cliente tem que vir até mim, eu tenho que fazer a reunião. Mas eu posso, de repente, ter um exponencial dessa experiência se conseguir desenvolver a tecnologia para me ajudar nisso. Não sei se você, que fala com muito advogado, concorda.
Pergunta: Concordo, e acho que a advocacia está atrasada no uso da tecnologia. Toda virada tecnológica acabou multiplicando empregos, mas quem vivia da carroça ou do rádio pagou a conta. Que perspectiva tem uma Marina que sai da faculdade hoje?
Marina Coelho: Por coincidência, eu tenho um filho que faz direito. Ele tem 20 anos, faz FGV e está no terceiro ano. Lá eles têm aula de manhã e à tarde, então não conseguem trabalhar, só a partir do quarto ano. Mas ele quis fazer um estágio de férias agora, num escritório pequenininho de dois sócios que saíram do BMA8. Ele queria uma parte específica de recuperação judicial. É um lugar de cinco pessoas, considerando os dois sócios.
Pergunta: O que ele encontrou lá?
Marina Coelho:Eles são totalmente focados em tecnologia, usam o Claude9 ao máximo e fazem muita coisa com IA. E, ao mesmo tempo, são pessoas com uma qualidade extrema de conteúdo. Então ele acabou vendo como está funcionando a prática, como eles estão trabalhando com isso. Eu não sei como vai ser quando ele se formar, porque a pessoa vai sair da faculdade tendo feito pouco estágio.
Pergunta: A lógica do estudante sempre foi passar pela faculdade e aprender no escritório.
Marina Coelho: E não é verdade. Eu sou um pouco suspeita, porque na faculdade eu não queria trabalhar no mercado de escritórios. Eu sempre gostei de estudar, e o mercado não me deixava estudar. Queriam aquele estágio maluco, em que você ficava até de madrugada e não estudava. Eu falei: não vou. Acabei fazendo pouco estágio, no Ministério Público. Quando saí da faculdade, eu não tinha trabalhado na advocacia criminal ainda. Comecei logo na sequência, e aí me apaixonei. Eu sabia muito pouco de advocacia, mas sabia bastante a matéria.
Pergunta: A matéria te deu o quê que o escritório não daria?
Marina Coelho: O que eu estudei me diferencia. Na hora em que eu sento para pensar num problema, o que eu sei, o que eu conheço do sistema faz muita diferença. Então eu tenho a impressão de que nós vamos voltar um pouco no tempo, para uma coisa que vai ser boa para os alunos: está fazendo a faculdade, vai estudar. Nesses últimos 40 anos o pessoal ficou muito preso a "onde eu vou fazer estágio". Eu sempre falo: vai estudar.
Pergunta: Minha filha fez o programa do Innocence Project¹⁰, da Dora Cavalcanti. A garotada concluiu que não precisava redigir um montão de coisa que a IA podia fazer por eles, e com o tempo que sobrou foram visitar o local do caso. Me pareceu uma saída para essa geração: usar o tempo que sobra para melhorar a qualidade do que a máquina escreve.
Marina Coelho: Só que eu sempre falo: nada vai substituir o livro. Você pode pedir para ela escrever para você, mas vai ter que ter lido e vai ter que dizer o que ela vai escrever, porque ela não vai te dizer tudo. O livro você vai ter que ler. Estudar, para mim, não vai mudar.
Pergunta: E você, o que pede à máquina?
Marina Coelho: Eu adoro IA. Gosto de fazer pesquisa. Às vezes eu falo: quero estudar poesia inglesa do século 15. Aí coloco lá e fico me divertindo. Mas eu sempre dou uns inputs meus: olha, eu quero tal coisa aqui, porque eu vi lá na Inglaterra, li um texto assim, assado. Isso enriquece. Se eu não tiver isso, ela não vai.
Pergunta: Quem não tem repertório para dar fica onde?
Marina Coelho: Ontem eu estava conversando com uma sócia de uma dessas grandes auditorias, das big four¹¹. Ela está usando muito IA, o Claude. Eles compraram para todo mundo. E ela me falou o seguinte: eu conheço muito a minha área, então eu automatizo. Falo para ele: você pega isso, isso e isso, coloca assim, pega essa lei e faz isso. Eu consigo fazer, porque conheço, tenho 20 anos trabalhando com isso. O meu assistente não consegue, porque não sabe.
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Box: o acordo de não persecução penal
O acordo de não persecução penal entrou no Código de Processo Penal com a Lei 13.964, de 2019, o chamado pacote anticrime, e está no artigo 28-A. Antes disso, uma resolução do Conselho Nacional do Ministério Público, de 2017, já previa o instrumento. Ele vale para infrações cometidas sem violência ou grave ameaça, com pena mínima inferior a quatro anos, desde que o investigado confesse o crime formalmente. O Ministério Público propõe as condições, como reparar o dano, prestar serviço à comunidade ou pagar prestação pecuniária, e o juiz homologa o acordo em audiência. Cumpridas as condições, a punibilidade é extinta e não há ação penal. O acordo não gera antecedentes criminais, mas impede um novo acordo pelos cinco anos seguintes.
Notas de rodapé
1Eduardo Salomão é sócio do Levy & Salomão Advogados, escritório com sede em São Paulo, fundado em 1989 e com 38 advogados. O artigo citado é "O advogado empresarial do futuro, e de futuro", publicado no Valor Econômico em 30 de junho de 2026: valor.globo.com/legislacao/coluna/o-advogado-empresarial-do-futuro-e-de-futuro.ghtml
2 A Operação Lava Jato foi deflagrada pela Polícia Federal em março de 2014, em Curitiba, para investigar um esquema de corrupção e lavagem de dinheiro em contratos da Petrobras, com empreiteiras e políticos entre os investigados. A força-tarefa do Ministério Público Federal no Paraná foi dissolvida em fevereiro de 2021.
3 O Primeiro Comando da Capital (PCC) é a facção criminosa que surgiu nos presídios paulistas no início dos anos 1990. A entrevistada se refere à classificação da facção como organização terrorista pelo governo dos Estados Unidos, em maio de 2026.
4Helena Lobo da Costa é sócia de Marina Coelho Araújo no Coelho Araújo Lobo da Costa Advogados (CALC Advogados) e conselheira do IDDD: linkedin.com/in/helena-lobo-da-costa-b262a5195
5 A Enter é uma empresa brasileira de tecnologia que usa inteligência artificial para automatizar defesas em contencioso de massa. Leia mais sobre esta startup jurídica.
6 O Instituto de Defesa do Direito de Defesa (IDDD) é uma organização da sociedade civil, com sede em São Paulo, dedicada à defesa do direito de defesa e à atuação em casos de pessoas sem acesso a advogado.
7 O Verifact é uma plataforma brasileira de captura técnica de conteúdo digital, como páginas da internet e conversas de aplicativos de mensagem, que registra metadados da coleta para preservar a integridade da prova.
8 BMA Advogados: sede em São Paulo, fundado em 1995, com 332 advogados.
9 O Claude é o assistente de inteligência artificial desenvolvido pela empresa americana Anthropic.
10 O Innocence Project Brasil atua na revisão de condenações de pessoas que alegam inocência. Foi fundado em 2016 e tem entre os fundadores a advogada criminalista Dora Cavalcanti.
11 As quatro maiores firmas de auditoria e consultoria do mundo: Deloitte, PwC, EY e KPMG.
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