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Eu fiz o contrário e deu certo

Em 1983, quando todo mundo ia para São Paulo, Marcelo Zarif foi advogar em Salvador, levou à Bahia o modelo de sociedade de advogados e criou um escritório de sucesso.

13 de Outubro 11h
Marcelo Cintra Zarif, sócio do Menezes, Magalhães, Coelho & Zarif Sociedade de Advogados (Imagem: Divulgação)

Em 1983, ano em que Marcelo Cintra Zarif trocou São Paulo por Salvador, a Bahia tinha três faculdades de direito: a Católica e a Federal, na capital, e uma em Itabuna. Dez anos depois, pelas contas dele, eram 60 ou 70. Hoje ele diz que nem sabe quantas existem. O neto entrou na melhor faculdade de direito do estado e, no segundo ano, trocou o curso por engenharia da computação. "Logo depois entendemos que ele está muito melhor assim", conta.

Paulista do interior e formado pela Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, Zarif chegou a Salvador para montar uma banca ligada ao TozziniFreire Advogados¹ sem conhecer ninguém na cidade. Ficou conhecido dando aula na Universidade Católica do Salvador, fez carreira como procurador do estado e chegou a conselheiro federal da Ordem. A parceria seguinte, com o Demarest Advogados², acabou no dia em que a Braskem, cliente dos baianos, recebeu a citação de uma ação da Suzano, que tinha esse parceiro como advogado. Dali saiu o Magalhães, Coelho & Zarif Sociedade de Advogados (MMC & Zarif), que tem hoje 44 advogados.

A mulher dele, a desembargadora Sílvia Zarif³, foi a primeira mulher a presidir o Tribunal de Justiça da Bahia, entre 2008 e 2010. Nesse período, volta e meia alguém o procurava achando que o casamento resolvia processo. Zarif aprendeu a cortar a conversa no começo, com a mesma frase: "Não é por aí. Nós não vamos para lugar nenhum". Diz que ainda hoje, com ela aposentada, continua ouvindo esse tipo de pedido.

Ele conta com números o que mudou na profissão. Lembra do cliente que pagava R$ 60 por pasta e quis baixar para R$ 20, e do escritório que ofereceu parecer por R$ 9. Da ação que moveu contra um jornalista, em Brasília, conta que perdeu e reconhece que "era um direito que ele tinha, de fazer uma crítica".

A entrevista foi concedida a Alexandre Secco, editor e sócio da Análise Editorial.

Marcelo Cintra Zarif é sócio do Menezes, Magalhães, Coelho & Zarif Sociedade de Advogados, ou MMC & Zarif Advogados, com sede em Salvador, fundado em 2002 e com 44 advogados, que atua nas áreas cível e trabalhista empresarial. É formado pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP) e mestre pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), onde deu aula. É procurador do Estado da Bahia aposentado. Foi conselheiro estadual da Ordem dos Advogados do Brasil na Bahia (OAB-BA) e conselheiro federal da OAB por vários mandatos.

Alexandre Secco: Em 1983, você trocou São Paulo por Salvador numa época em que o advogado do Nordeste fazia as malas para o Sudeste. Na Bahia, construiu uma reputação e ajudou a implantar a sociedade de advogados. Olhando para trás, quanto custou apostar nessa mudança?

Marcelo Cintra Zarif: O mercado de trabalho em São Paulo é maior, sem dúvida nenhuma. Tenho vários ex-alunos que estão em São Paulo brilhando, atuando maravilhosamente bem, e o mercado de Salvador é bastante restrito. Mas eu fiz o contrário e deu certo. Consegui me implantar aqui de uma forma boa e satisfatória, e isso me trouxe felicidade.

Pergunta: Com que bagagem você saiu de São Paulo?

Marcelo Zarif: Comecei a advogar em São Paulo, no escritório que a gente brincava que era a Arca de Noé, onde trabalhavam o doutor Noé Azevedo, o doutor Negrão (Theotônio Negrão) e o Lauro Malheiros. Ficava na Rua Riachuelo, pertinho da Faculdade de Direito, num prediozinho de cinco andares.

Pergunta: Uma arca de Noé só de leões.

Marcelo Zarif: Pois é, era um aprendizado fora do comum, uma experiência de vida e profissional muito grande. Foi uma escola primorosa.

Pergunta: Depois da Arca, para onde você foi?

Marcelo Zarif: Trabalhei em empresa e em banco. Comecei no Banco Comercial do Estado de São Paulo, que depois virou Itaú, e fui para o Itaú. Passei no concurso da procuradoria e fui procurador municipal durante algum tempo, até que, em 1983, resolvi vir para a Bahia.

Pergunta: Por quê?

Marcelo Zarif: Conheci minha mulher, e ou ela ia para São Paulo ou eu vinha para cá. Ela já era juíza, e em São Paulo, na época, não havia mulheres na magistratura. Por isso eu preferi vir (para a Bahia).

Pergunta: Como foi deixar a capital paulista?

Marcelo Zarif: Eu nunca gostei muito de morar em São Paulo, na capital. Sou do interior, vivi muito pelo interior e sempre achei a vida na cidade muito estressante. Quando apareceu a oportunidade, achei formidável.

Pergunta: A oportunidade tinha nome.

Marcelo Zarif: O pessoal do TozziniFreire, o Zé Luiz (José Luis de Salles Freire) especificamente, teve a ideia: "Olha, nós estamos querendo ampliar e montar um escritório em Salvador". Eu vim e, num primeiro momento, montamos o escritório com o TozziniFreire. Depois a coisa evoluiu.

Pergunta: Um paulista montando escritório em Salvador, sem ninguém na cidade. Por onde se começa?

Marcelo Zarif: Era muito difícil. Quando você começa, tem colegas de turma, de faculdade, amigos. Eu cheguei aqui e não tinha nada. A Sílvia, na época, era juíza do interior, e a gente não tinha tanto contato em Salvador. Aí comecei a dar aula na Católica, e dando aula fui me tornando conhecido. Os alunos foram se formando, seguindo carreira.

Pergunta: A sala de aula foi uma porta. E a outra?

Marcelo Zarif: A Ordem. Eu já participava da OAB em São Paulo e aqui me integrei com o pessoal. Fui conselheiro estadual e, mais adiante, conselheiro federal por vários mandatos. Isso me ampliou o conhecimento e os contatos.

Pergunta: De onde vieram os primeiros clientes?

Marcelo Zarif: Muitos escritórios de São Paulo precisavam de um apoio aqui, e a parceria funcionou bastante bem. Eu tinha o guarda-chuva do TozziniFreire. Muitos clientes deles tinham atividades na Bahia, a gente integrava, e fomos desenvolvendo muito, muito lentamente, até eu me tornar conhecido e formar um círculo de amizades e de relações profissionais.

"Os escritórios aqui eram individuais, cada um por si."

Pergunta: O que mudou nessa parceria?

Marcelo Zarif: Quando eu vim, a ideia dos grandes escritórios de São Paulo era criar nos estados não filiais, mas escritórios semelhantes, interligados ao de São Paulo. Com o tempo essa filosofia mudou. Os grandes escritórios preferiram estar por inteiro nesses lugares, integrando a Bahia, Pernambuco e outros estados à própria rede, como parte de ser grande nacionalmente. Entendemos que era preferível mudar aquela composição, nos desligamos, e eu fiquei só com o escritório daqui.

Pergunta: Qual foi o passo seguinte?

Marcelo Zarif: Os escritórios da Bahia começaram a se desenvolver, e havia um que estava crescendo, o Menezes, Magalhães e Coelho Advogados, que fazia parceria com o Demarest Advogados. Tiveram interesse em juntar os três e a minha pessoa, e fizemos o escritório. Naquele primeiro momento, também interligado com o Demarest. Usavam-se os logos dos dois escritórios, buscavam-se os clientes comuns. Com o tempo, essa ideia não funcionou muito.

Pergunta: O que deu errado?

Marcelo Zarif: Principalmente o conflito de interesse. Eu me lembro de um episódio. Nós atendíamos o polo petroquímico, na época especificamente a Braskem. A Braskem teve um litígio com a Suzano, e a Suzano foi representada pelo Demarest Advogados. No dia em que a citação chegou na Braskem, aquele papel foi logo lá para cima e causou uma revolução: "Vocês são nossos advogados e estão movendo uma ação contra nós?". Até explicar o que era e o que não era, foi difícil. Com isso, preferimos criar uma vida própria, uma identidade própria, e ganhou força o escritório atual, o Menezes, Magalhães, Coelho & Zarif Sociedade de Advogados.

Pergunta: Com que tipo de cliente o escritório nasceu?

Marcelo Zarif: Sempre teve a visão empresarial, porque o escritório deles atuava muito com as empresas do polo petroquímico, principalmente na área trabalhista. Com a minha incorporação passamos a ampliar para a área cível, mas sempre com essa visão empresarial.

Pergunta: Como o mercado baiano recebeu esse modelo?

Marcelo Zarif: Causava estranheza uma advocacia em que todos os sócios contribuíam para uma empresa. É complicado a gente falar em empresa de advogado, porque dá uma ideia torta em relação ao senso profissional, de preocupação comercial. Mas era essa a ideia. Os escritórios aqui eram individuais, cada um por si. Quando muito, se juntavam para ratear o espaço e uma secretária, mas cada um tinha a sua vida. Não existia essa personalidade jurídica de sociedade de advogados.

Pergunta: E hoje?

Marcelo Zarif: A gente acabou ajudando a desenvolver a sociedade de advogados, que hoje existe pelo Brasil afora e, aqui na Bahia, muito fortemente. O Cesa⁴, por exemplo, começou em São Paulo, com os grandes escritórios, e se espalhou pelo Brasil todo, inclusive aqui. Chegou-se ao entendimento de que essa era a melhor forma de atuar.

Pergunta: O Nordeste foi um dos polos de crescimento econômico do país nas últimas décadas. Quanto disso passou pelo escritório?

Marcelo Zarif: O escritório alavancou muita coisa no Nordeste. E, com o tempo, a ideia que a gente implantou aqui acabou contagiando outros escritórios, da Bahia, de Recife, de Alagoas. Estamos falando de pelo menos 30 anos atrás. Nesses 30 anos se formaram excelentes escritórios novos, com gente jovem que amadureceu no mercado.

Pergunta: Outra mudança que eu vejo em São Paulo é a volta do escritório especializado. Advogados experientes deixam bancas que viraram empresas de 250 advogados e montam escritórios de dois, três, cinco advogados, em nichos muito segmentados, o que antes a gente chamava de boutique. O que explica esse movimento?

Marcelo Zarif: Principalmente uma situação provocada pela pandemia. A pandemia trouxe o home office, e o home office facilitou esse tipo de atividade.

Pergunta: Quantos dias por semana você vai ao escritório hoje?

Marcelo Zarif: Claro que eu já estou com mais idade, e acabo não indo todos os dias. Vou em momentos importantes, duas, três vezes por semana no máximo, num período do dia. O resto eu prefiro trabalhar em casa, onde produzo muito mais. A Sílvia se aposentou, meus filhos vivem por conta própria, e o escritório de casa é só meu. No escritório tem sempre mais movimento, mais interrupção.

Pergunta: Antes de 2020, como era?

Marcelo Zarif: A pandemia fez com que eu montasse um ritmo de trabalho que eu gostaria de ter e tinha vergonha de propor antes dela. Há cinco anos, se alguém dissesse "vou trabalhar de casa", a resposta era: "Você não quer trabalhar". Até hoje tem gente que pensa que ficar em casa é sinônimo de não trabalhar.

Pergunta: Como trabalha o resto do escritório?

Marcelo Zarif: Tem atividade que depende de presença física. A nossa área trabalhista vem todinha diariamente ao escritório, e os sócios responsáveis por ela também. Na minha área cível, o pessoal vem quase todo dia, mas é um grupo muito pequeno. É muito fácil a gente se comunicar por telefone, por vídeo e em dois, três encontros. Esse novo mundo criou até facilidades, eu diria.

"Como é que alguém dá um parecer por 9 reais?"

Pergunta: Esse novo momento da advocacia também ajudou a multiplicar escritórios e a concorrência. Pelas contas da ANÁLISE ADVOCACIA, nascem uns dez escritórios de direito empresarial por mês no país. Como isso chega ao seu balcão?

Marcelo Zarif: A concorrência aumentou muito. Hoje há muitos outros escritórios fazendo bons serviços em áreas parecidas com a nossa. A gente conseguiu manter uma vinculação muito forte com a área trabalhista empresarial, que é bem forte aqui no escritório, e com a cível empresarial, que é a minha área. Conseguimos manter porque temos um nível de qualidade e de atenção que destaca o escritório de qualquer outro que atue nessa atividade.

Pergunta: Onde essa concorrência mais aparece?

Marcelo Zarif: No marketing, que hoje se usa muito para fazer essas divulgações. "Olha, prêmio de não sei o quê, alguém conseguiu não sei o que mais." Isso é divulgado nas redes sociais de uma forma muito grande e às vezes causa algum impacto.

Pergunta: Vocês também passaram pelo contencioso de massa.

Marcelo Zarif: No começo o escritório atendia todas as atividades, inclusive a advocacia de massa. Com o tempo, a concorrência fez o preço do serviço ser cada vez mais rebaixado. Uns 20 anos atrás, a gente tinha um cálculo de que, com um volume grande, pagando mensalmente por processo, por pasta, o valor razoável seria de 60 reais.

Pergunta: E o cliente...

Marcelo Zarif: Tivemos um cliente que discutiu muito: "Mas eu posso pagar 30, ainda é vantajoso para vocês". Aceitei, com a condição de revermos isso. "O orçamento da empresa está difícil, mas no ano que vem a gente vai ter um orçamento melhor e rediscute." No ano seguinte, a rediscussão era para baixar para 20.

Pergunta: Como terminou essa negociação?

Marcelo Zarif: Quando a gente não aceitou, a concorrência entrou no meio, porque sempre tem gente que oferece 10, que oferece menos que isso. Já teve escritório fazendo propostas absurdas, de 9 reais por pasta, até para dar parecer. Como é que alguém dá um parecer por 9 reais? Isso não paga nem meia hora de estudo do estagiário.

Pergunta: Com o preço nesse nível, quem faz a peça?

Marcelo Zarif: A inteligência artificial veio colaborar muito com esse tipo de atividade, porque simplificou e padronizou a atuação desses escritórios. No começo eles ainda precisavam de advogados recém-formados, pelo menos para fazer o estudo, a separação e o encaminhamento. Hoje o computador faz tudo. Não tem nem o que pensar.

Pergunta: Por que a empresa topa correr esse risco?

Marcelo Zarif: As empresas entendem que é mais barato pagar essa quantia muito baixa. Se algum caso fugir da regra e gerar indenização por erro, ainda sai mais barato do que contratar um bom escritório para fazer o serviço em todos os estados. Isso atrapalha demais a atividade.

Pergunta: Quem responde quando um desses escritórios erra?

Marcelo Zarif: Fica bem complicado. Um escritório com renome que atende uma empresa dessas tem um nome a zelar se der problema. Mas hoje há uma série de escritórios que nem nome têm, são meras siglas. Se der problema, quem sabe quem fez?

Pergunta: Aqui em São Paulo eu tenho ouvido falar em centavos por pasta, com a entrada de grupos como a Enter⁵ (leia mais sobre esta startup jurídica), capazes de lidar com centenas de milhares de processos.

Marcelo Zarif: Eu imaginava que tinha chegado a isso.

"Em muita conversa eu tive que cortar logo no início. Não é por aí."

Pergunta: Na outra ponta das siglas está o advogado cujo nome pesa no tribunal. Para mim, prestígio pessoal é ser valorizado pelo que você sabe e pelo peso da sua palavra, e é isso que cria no juiz o dever de ouvir. Sua mulher presidiu o Tribunal de Justiça da Bahia. Imagino que nem todo mundo que batia à sua porta pensasse assim.

Marcelo Zarif: Tem gente que confunde, ou quer confundir. Quando a Sílvia foi presidente do tribunal, muitas vezes eu era procurado por alguém que achava que ia resolver alguma coisa por ela ser presidente. Em muita conversa eu tive que cortar logo no início. Não é por aí, nós não vamos para lugar nenhum. Até hoje, com ela aposentada, eu continuo vendo isso.

Pergunta: Conhecer o tribunal por dentro muda o quê?

Marcelo Zarif: É claro que conhecer os desembargadores todos faz uma certa diferença. Alguns deles foram até meus alunos, na faculdade ou em curso de pós-graduação. Isso cria pelo menos a condição de ser ouvido. Eu brinco muito que, quando vou fazer sustentação oral, chego na lista e peço preferência pela idade.

Pergunta: Na porta do gabinete, como é?

Marcelo Zarif: O atendimento, é claro, é facilitado. Se eu vou a um desembargador, ele me atende. Mas para me ouvir, não para resolver problema nenhum.

Pergunta: Quando você faz isso, empresta ao cliente uma reputação que demorou décadas para ser construída. Nem sempre o cliente entende o peso disso.

Marcelo Zarif: Ou então as pessoas querem maliciar, querem detonar, e usam isso achando que o resultado veio porque o juiz é seu amigo, ou por causa da Sílvia, desembargadora. No fim de semana saiu uma notinha sobre um processo nosso, até pessoal, uma ação de muitos, muitos anos atrás, envolvendo um prédio. O sujeito, para impressionar, publica que a questão vai ser definida finalmente depois de 20 anos e cita um dos autores da ação, Marcelo Zarif. Como se isso tivesse alguma relevância.

Pergunta: O denuncismo virou uma praga. Em que momento ele chega ao advogado?

Marcelo Zarif: Principalmente quando você, por alguma razão, sobressai. Para tentar inverter a situação, começam a publicar notas insinuando que você está obtendo vantagens ilícitas. Que as decisões favoráveis que você consegue não vieram pelo mérito da questão, mas porque você está usando tráfico de influência.

Pergunta: Quem fica com o estrago?

Marcelo Zarif: Isso desgasta demais, tanto a figura do advogado quanto a do juiz. Já houve casos em que o desembargador preferiu se afastar do processo para não continuar vendo o nome dele maltratado na imprensa.

Pergunta: E você?

Marcelo Zarif: Eu já criei casca grossa para isso. Uma certa ocasião cheguei a entrar com um processo em Brasília contra um jornalista, e o pior de tudo é que perdi. Era um direito que ele tinha, de fazer uma crítica.

Pergunta: Tenho a impressão de que o denuncismo virou parte ativa do processo. Levanta, entre aspas, provas e fatos, sem nenhum dever de se ater a eles.

Marcelo Zarif: Basta afirmar. Faz a afirmação como se fosse verdade, e as pessoas começam a aceitar e engolir isso sem pensar, sem raciocinar.

Pergunta: Tudo isso gira em torno do contato pessoal. O que se diz é que o processo eletrônico acabou com a distância, que tanto faz o advogado estar em Salvador ou em São Paulo.

Marcelo Zarif: O mundo digital tem uma contribuição extremamente valiosa para a advocacia. Facilita atuar no Brasil inteiro de um só lugar. Hoje eu recebo as publicações de processos de qualquer tribunal do país de dentro do meu escritório. Isso ajuda no serviço de massa. Mas o serviço que envolve responsabilidade precisa do advogado local, por causa do contato.

Pergunta: Quem contrata você para um processo na Bahia está atrás do quê?

Marcelo Zarif: Eu atuo muito, mas muito mesmo, em processos daqui por isso. São escritórios, ou empresas com departamento jurídico interno e processos na Bahia, que querem a minha atuação. Às vezes quem procura acha que você vai fazer um serviço de despachante: levar a petição, despachar a petição. Não é isso.

Pergunta: É o quê, então?

Marcelo Zarif: É um trabalho conjunto, que envolve corresponsabilidade na elaboração e na apresentação das peças. E funciona principalmente nos memoriais e na sustentação oral.

Pergunta: Então o que impede o cliente de mandar o próprio advogado de São Paulo sustentar em Salvador?

Marcelo Zarif: O bom advogado de São Paulo sustenta tranquilamente aqui. Mas a atuação pessoal pesa por um motivo, a credibilidade, que você constrói com o tempo de atividade. Hoje eu sou bastante conhecido no tribunal, e sabem que, se eu estiver dizendo alguma coisa, não é mentira e não tem nenhum tipo de armação por trás.

"Ninguém mais quer estagiar, e ninguém precisa mais do estagiário."

Pergunta: Credibilidade pessoal não se transfere. Uma marca jurídica, sim, mas o Brasil ainda não se deu conta do valor dela. Quando o fundador se retira, a marca costuma definhar, ou até sumir, e eu acho isso uma grande pena.

Marcelo Zarif: Agora veja que as grandes marcas continuam atuando independentemente das pessoas. O TozziniFreire hoje não tem lá nem o Tozzini, nem o Salles. O Demarest Advogados e todos esses grandes escritórios montaram uma estrutura que permitiu aos sócios irem se afastando e saírem de vez da sociedade, e a sociedade continuar funcionando.

Pergunta: Como isso anda na Bahia?

Marcelo Zarif: Essa visão, eu diria, não chegou à Bahia, e eu não consegui fazer esse convencimento no escritório aqui. O afastamento tem uma grande vantagem, que é permitir que novos sócios assumam o comando da instituição. Você mantém a marca, com outras pessoas atuando na frente. Mas é muito difícil, porque o sistema não permite que você saia e alguém chegue no seu lugar.

Pergunta: O sistema não permite, ou o advogado não tolera a ideia de trabalhar numa instituição que não carregue o nome dele na porta?

Marcelo Zarif: Eu diria que os advogados têm dificuldade de sair, de se aposentar, porque não se preparam para isso. No TozziniFreire os sócios puderam se desligar porque foi montado algum tipo de estrutura que permitiu ao escritório sobreviver e ao sócio sair continuando a receber.

Pergunta: Onde mais você viu isso funcionar?

Marcelo Zarif: Vi algo parecido num escritório grande do Rio de Janeiro, em que os sócios majoritários disseram: "Nós vamos sair e vender a nossa participação para os sócios que estão chegando". Vocês compram, vocês assumem, e eu continuo recebendo o valor que vocês me pagam pelas cotas, em vez de simplesmente transferir. São sistemas que cada um pode criar para permitir essa mudança.

Pergunta: Só que uma sucessão depende de ter gente chegando.

Marcelo Zarif: E aí tem outro detalhe importante, que vem da inteligência artificial: hoje ninguém tem mais estagiário. Houve uma época, há 30 anos, em que a gente planejava ter aqui no escritório uma espécie de cursinho de preparação de estagiários, para que eles depois se integrassem como advogados e, eventualmente, como sócios. Tivemos vários assim. Alguns ainda estão aqui. Outros saíram, fundaram os próprios escritórios e se desenvolveram por aí.

Pergunta: Quem faria esse cursinho hoje?

Marcelo Zarif: Isso não existe mais. Ninguém mais quer estagiar, e ninguém precisa mais do estagiário. Praticamente não se precisa nem do advogado para saber o andamento do processo. É só acessar o tribunal.

Pergunta: Como era no seu tempo de estagiário?

Marcelo Zarif: Eu tinha um grande amigo e sócio, que você conheceu bastante, o Antônio Carlos Malheiros. O Malheiros criou um sistema com um pequeno gravador. Ia para o fórum com o gravador e narrava o que tinha acontecido no processo naquele dia, "o juiz despachou tal coisa", para a secretária transcrever numa ficha do processo quando ele chegasse ao escritório. Imagina. Hoje isso é engraçado, transcreve direto.

Pergunta: Sem estágio e sem vaga de júnior, onde o recém-formado aprende a advogar?

Marcelo Zarif: Tem um buraco, tem um buraco. Eu morro de pena dos advogados que estão começando hoje, do recém-formado. Há uns vinte anos, o Calmon de Passos⁶ dizia na faculdade e nas palestras da OAB: olha o que estão fazendo com a faculdade de direito. Era uma enganação jurídica: botar o sujeito para estudar, pagar, se formar e depois não conseguir exercer a atividade. Isso é cada vez mais verdadeiro.

Pergunta: O Brasil é pródigo na formação de advogados.

Marcelo Zarif: E o número de faculdades de direito só aumenta. Quando eu estava na OAB, a gente tentou muito barrar esse crescimento desenfreado. Para você ter uma ideia, quando cheguei à Bahia, em 1983, havia três faculdades de direito no estado todo: a Católica e a Federal, em Salvador, e uma em Itabuna. Dez anos depois, esse número passou para 60, 70. Hoje eu nem sei quantas tem. Ficou muito fácil entrar e fazer o curso, e depois não tem o que fazer.

Pergunta: Esse diploma fácil…

Marcelo Zarif: Vi uma reportagem num fim de semana sobre Feira de Santana. Havia advogados envolvidos com o crime, usando as prerrogativas de advogado para entrar em presídio, levar mensagem para preso, coisas desse tipo. Na verdade, não são advogados. São pessoas que fizeram esses cursos do jeito que puderam, conseguiram de alguma forma passar no exame da Ordem e tiraram a carteira de advogado. São criminosos que se formaram em direito para ampliar a atividade criminosa. É um problema que preocupa muito.

Pergunta: Quando você era estudante, o que se aconselhava a um jovem?

Marcelo Zarif: O conselho da minha época era estudar para ser engenheiro, advogado ou médico. Quando muito, administrador de empresas, que era uma coisa secundária. Hoje ninguém mais quer saber disso.

Pergunta: Na sua família, inclusive.

Marcelo Zarif: Eu tenho um neto que entrou na melhor faculdade de direito da Bahia. Ele tem toda uma história na família, os avós, a mãe advogada. Fez o primeiro ano e, no segundo, disse: "Não é isso que eu quero, quero engenharia da computação". E foi. No primeiro momento, causou um certo impacto na gente. Como assim, você não vai ser advogado? Logo depois entendemos que ele está muito melhor assim do que estaria na advocacia, com dificuldade para conseguir estágio e, depois, para exercer a profissão.

Pergunta: Quem da família ficou na advocacia?

Marcelo Zarif: Tenho uma filha em São Paulo que trabalhou muito tempo no tribunal, assessorando desembargador. Acabou saindo, e aí, o que faz da vida? Começou a divulgar o trabalho e, devagarzinho, atendendo muito lentamente, consegue se desenvolver um pouco mais na área de que gosta, o direito de família. Mas é difícil. Esses casos são cada vez mais raros. A tendência é não conseguir nada.

Notas de rodapé

¹ TozziniFreire Advogados: sede em São Paulo, fundado em 1976, com 732 advogados.

² Demarest Advogados: sede em São Paulo, fundado em 1948, com 315 advogados.

³ A desembargadora Sílvia Carneiro Santos Zarif foi a primeira mulher a presidir o Tribunal de Justiça da Bahia (TJBA), exercendo o cargo no biênio de 2008 a 2010.

⁴ Cesa é o Centro de Estudos das Sociedades de Advogados, entidade criada em São Paulo em 1983 que reúne escritórios organizados como sociedade.

⁵ A Enter é uma empresa brasileira de tecnologia que usa inteligência artificial para automatizar defesas em contencioso de massa.

⁶ José Joaquim Calmon de Passos, processualista baiano e professor da Universidade Federal da Bahia.

Marcelo Cintra ZarifMMC & Zarif