O advogado das causas bilionárias aposta na inteligência artificial | Análise
Análise
Buscar escritórios e advogados

O advogado das causas bilionárias aposta na inteligência artificial

Para Arnoldo Wald Filho, a inteligência artificial deveria fazer o advogado cobrar mais: quanto mais rápido e eficiente ele resolve o problema do cliente, maior o valor do serviço.

16 de Outubro 12h27
Arnoldo Wald Filho, sócio do Wald, Antunes, Vita e Blattner Advogados (Imagem: Divulgação)

Cheguei a esta entrevista preparado para falar de resultados de um escritório extraordinário: as recuperações judiciais que a banca administrou, as ações bilionárias, a arbitragem que a casa ajudou a formatar no Brasil. Arnoldo Wald Filho mudou o rumo da conversa logo no começo. Apontou para o futuro, e o futuro, para ele, é a inteligência artificial.

Quem diz isso é quem passou por uma prova que é um desafio e um privilégio: suceder o próprio pai, o jurista Arnoldo Wald, um dos nomes de referência do direito empresarial no Brasil, conhecido por causas bilionárias. Ele assumiu uma banca assim e também a comparação.

O escritório atravessou essa troca de geração, cresceu e manteve a influência. Hoje são 45 advogados, com sede em São Paulo e unidades no Rio de Janeiro e em Brasília, e ele prefere não crescer mais. A definição que dá da casa é curta: boutique altamente especializada em resolução de conflitos complexos. O nível de complexidade é muito alto. A casa administrou a primeira recuperação judicial da Oi, aberta em 2016 com dívidas de R$ 65,4 bilhões, a maior do país até então, e a da Samarco, a mineradora do desastre de Mariana. As outras causas vêm de setores em que o problema é grande e o cliente é sofisticado (aviação, planos econômicos, mineração, telecomunicações).

Fora do escritório, Wald Filho é conselheiro federal da OAB desde 2010 e preside a Comissão Especial de Mediação e Conciliação do Conselho Federal.

Nesta entrevista, ele explica por que a eficiência trazida pela máquina deveria aumentar o honorário em vez de reduzi-lo. Diz também por que, com 90% do serviço feito pela inteligência artificial, a advocacia vai se nivelar por alto e empurrar os advogados para os nichos. Conta como o estagiário deixou de ser mão de obra barata para virar futuro sócio e defende a simplificação das leis num país com mais de 75 milhões de processos. Da arbitragem, diz que ficou cara e lenta, mas funciona.

No meio da conversa, avisou que não comenta caso pendente em que esteja envolvido. Foi o que fez com a Oi: registrou o placar do julgamento, um voto pela falência e um pedido de vista, e parou aí. A conversa foi gravada em 17 de julho. Em 25 de agosto, o Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro confirmou a falência da companhia (ver box).

A entrevista foi concedida a Alexandre Secco, editor e sócio da Análise Editorial.

Arnoldo Wald Filho, 62 anos, nasceu no Rio de Janeiro em 13 de dezembro de 1963 e formou-se em direito pela Universidade Cândido Mendes em 1986. É sócio do Wald, Antunes, Vita e Blattner Advogados, escritório fundado em 1954, com sede em São Paulo, na avenida Presidente Juscelino Kubitschek, unidades no Rio de Janeiro e em Brasília e 45 advogados. A banca atua em cível, recuperação judicial e falências, direito de família, administrativo, ambiental e infraestrutura. Ele foi administrador judicial da recuperação judicial da Oi¹, encerrada em dezembro de 2022, e da Samarco². É conselheiro federal da Ordem dos Advogados do Brasil desde 2010, preside a Comissão Especial de Mediação e Conciliação do Conselho Federal e a Comissão de Recuperação Judicial e Falência da OAB-SP, e preside o Centro de Mediação e Arbitragem da Câmara Portuguesa de Comércio no Brasil. É membro do Comitê Brasileiro de Arbitragem da CCI e árbitro da Câmara de Arbitragem e Mediação da Fiesp. É cônsul honorário de Mônaco no Brasil desde 2015 e conselheiro do Hospital Albert Einstein desde dezembro de 2022. É filho do jurista Arnoldo Wald; o irmão, Alexandre de Mendonça Wald, também é sócio da casa.

Alexandre Secco: Eu percebi que a inteligência artificial estava sendo levada a sério quando um advogado me contou que o cliente ligou para ele com esta pergunta: a sua produtividade aumentou, quem é que vai ficar com essa fatia do bolo? Precisamos rediscutir honorários. Imagino que essa conversa já tenha chegado à sua mesa.

Arnoldo Wald Filho: Não, isso não ocorre no meu escritório, porque o meu escritório está no nicho de altíssima complexidade. Eu acho que a inteligência artificial é mais um instrumento para facilitar a vida do advogado. Mas acho o contrário: quanto mais eficiência e mais rapidez você conseguir para resolver o problema do cliente, mais você pode cobrar. A minha tese é contrária. Por quê? Por que ele vai me pagar mais para eu demorar mais e ser menos eficiente? Ele tem que pagar mais para eu resolver mais rápido e com mais eficiência.

Pergunta: Vocês não fazem advocacia de massa. Numa banca de causa complexa, com cliente sofisticado, essa ferramenta encosta em quanto do trabalho?

Arnoldo Wald Filho: Impacta, impacta muito. Impacta em 90% do serviço. Os 10% é que fazem toda a diferença. Mas a inteligência artificial vai impactar na vida de todos nós. Nós estamos ficando obsoletos muito rápido.

Pergunta: Você fala de obsolescência no plural, mas parece estar falando de você.

Arnoldo Wald Filho: Outro dia eu tive um lapso: em vez de falar pendrive, falei disquete³. Eu já sou absolutamente obsoleto. Mas, independentemente de estar obsoleto, a minha visão estratégica de solução de problema continua sendo importante para os clientes. E os mais jovens usam todos esses instrumentos para me municiar.

Pergunta: Se os mais jovens, com essas ferramentas, dão conta dos 90%, o que sobra para diferenciar um escritório do outro?

Arnoldo Wald Filho: Você vai nivelar por alto, porque esses 90% a inteligência artificial utilizada por um advogado mediano vai fazer. Com isso vai subir o nível da advocacia, e os advogados vão ter que descobrir nichos em que eles façam a diferença. As especializações serão cada vez mais necessárias.

Pergunta: Em muitos casos, o Judiciário chegou à inteligência artificial antes dos escritórios. Quem está empurrando a adaptação, o mercado ou a Justiça?

Arnoldo Wald Filho: Eu acho que a Justiça está obrigando os escritórios a se adaptarem. O impulso maior vem de lá. Antes se falava em digitalização. Agora eu nem sei mais como é que se fala.

Pergunta: O maior negócio jurídico feito no Brasil hoje não aconteceu dentro de um escritório. Foi a fundação da Enter⁴, uma empresa de inteligência artificial que automatiza processos de escritórios. Na advocacia, onde estão os grandes negócios?

Arnoldo Wald Filho: Os grandes negócios estão justamente em todas essas novas fintechs, startups e afins que a inteligência artificial está criando. Existe todo um universo novo que vai dar origem a negócios jurídicos.

"Hoje o estagiário deixa de ser mão de obra barata para ser um aprendiz, um sucessor, um futuro sócio."

Pergunta: Se a máquina faz o trabalho de base, sobra menos espaço para quem está começando. Escritórios grandes estão cortando pela metade os processos de contratação de estagiários, e alguns estão eliminando. Se não tem estagiário e não tem júnior, onde é que se forma a mão de obra da advocacia?

Arnoldo Wald Filho: O estagiário era visto por muita gente como mão de obra barata quando, na verdade, é uma mão de obra que você tem que municiar e qualificar para te suceder. Essa primeira parte, a mão de obra barata, não precisa mais. Há muito tempo não precisa mais. Eu me lembro de quando comecei a advogar, e eu era estagiário: o meu trabalho era ir ao fórum pegar os processos e às lojas onde tinham máquina de xerox. O pessoal nem imagina o que é isso. Eu dava notícia do fórum, eu levava ficha de orelhão para dar as notícias urgentes. O mundo está muito diferente, e hoje o estagiário deixa de ser mão de obra barata para ser um aprendiz, um sucessor, um futuro sócio.

Pergunta: E esse aprendiz já chega com a inteligência artificial nas mãos…

Arnoldo Wald Filho: A inteligência artificial vai melhorar o nível da advocacia, porque qualquer mediano se servindo dela vai conseguir prestar um serviço de excelência.

"Há um excesso de leis, um excesso de normas."

Pergunta: São mais de 75 milhões de processos em tramitação no Brasil⁵. Alguém já me convenceu de que isso é razoável de algum ponto de vista, mas a conta não fecha. Até onde a inteligência artificial mexe nesse número?

Arnoldo Wald Filho: Teria como, dentro dos limites em que você aplicasse isso na origem do processo. Você já teria um filtro, e na decisão você faria aquelas decisões vinculantes que atendem a 95% dos casos.

Pergunta: Só que de um lado eu tenho a Constituição dizendo que o acesso à Justiça é livre, e do outro eu tenho o juiz com autonomia para decidir segundo os próprios princípios, a despeito de decisão vinculante e de jurisprudência. Todo mundo pede o que quer e todo mundo decide como quer.

Arnoldo Wald Filho: É isso que está errado. Você tem que decidir conforme a lei e a jurisprudência. Nos Estados Unidos, inclusive, a jurisprudência é mais importante do que a lei.

Pergunta: Isso é mudança de cultura, e cultura demora a mudar.

Arnoldo Wald Filho: Cultural, legal, e por que não constitucional? Nós vamos ter que atualizar as leis e a Constituição.

Pergunta: Atualizar em que direção?

Arnoldo Wald Filho: Há um excesso de leis, um excesso de normas. Temos que simplificar os nossos sistemas trabalhista, tributário e processual. As coisas têm que ser mais simples e mais inteligentes. Nós herdamos dos portugueses o sistema cartorário⁶, e isso caiu em desuso.

"Quanto menor o escritório, mais sex appeal tem para mim."

Pergunta: Do sistema para a sua casa. Enquanto os grandes escritórios disputam quem tem mais advogados, vocês seguem pequenos.

Arnoldo Wald Filho: Hoje nós somos 40. Na verdade, somos 45. Mas eu acho que less is more: quanto menor o escritório, mais sexy appeal tem para mim.

Pergunta: Hoje todo escritório se chama especializado. O que a palavra quer dizer no seu caso?

Arnoldo Wald Filho: Altamente especializado em resolução de conflitos. Conflitos complexos.

Pergunta: Vocês estão em São Paulo, no Rio e em Brasília. A unidade de Brasília é escolha ou obrigação?

Arnoldo Wald Filho: É impossível, para um escritório que faz contencioso específico, não estar presente em Brasília, onde estão as cortes superiores.

Pergunta: Em Brasília circula uma piada, quase sempre maldosa, segundo a qual nos tribunais superiores pesa mais o parentesco do advogado com quem julga do que a tese que ele leva. Como você vê isso?

Arnoldo Wald Filho: Não é verdade. Eu vejo um Judiciário sério, preparado, e fazendo um trabalho de excelência.

Pergunta: Em todas as instâncias.

Arnoldo Wald Filho: Quando não acontece, é a exceção — e normalmente é corrigido.

"A arbitragem deixou de ser rápida e eficiente."

Pergunta: Não vou deixar de perguntar sobre arbitragem. Esta banca ajudou a formatar a base legal da arbitragem no Brasil⁷. Trinta anos depois da lei, que arbitragem saiu dali?

Arnoldo Wald Filho: Dá para ver o copo meio vazio e meio cheio. As coisas evoluíram muito. A arbitragem deixou de ser rápida e eficiente. Surgiram muitos conflitos entre árbitros que se tornaram famosos e que tumultuaram um pouco, e até tiraram um pouco a credibilidade da arbitragem.

Pergunta: Credibilidade é um problema diferente de velocidade.

Arnoldo Wald Filho: Eu acho que a arbitragem tem que ser que nem a mulher de César⁸: não basta ser, tem que parecer também. O árbitro tem que ser de confiança das partes. As partes elegem o árbitro.

Pergunta: Isso não ajuda a imagem da instituição. E hoje se vê grande empresa dizendo que deixou de usar cláusula arbitral.

Arnoldo Wald Filho: Eu acho que, apesar de tudo, funciona.

Pergunta: E mais caro.

Arnoldo Wald Filho: É caro, é lento, mas funciona.

As recuperações e a Oi

Pergunta: Aproveitando que você é muito objetivo nas respostas: o instituto da recuperação extrajudicial.

Arnoldo Wald Filho: Eu acho que tem sido utilizado por várias empresas, principalmente considerando o patamar de juros que a nossa política monetária fixou. Acho que tem sido bem utilizado e está funcionando bem.

Pergunta: Em que frente o escritório está hoje, na recuperação judicial ou na extrajudicial?

Arnoldo Wald Filho: Extrajudicial e judicial.

Pergunta: A recuperação da Oi, que o escritório administrou e que foi encerrada em dezembro de 2022, parecia ter resolvido a demanda criada por aquele processo…

Arnoldo Wald Filho: Não, a da Oi está pendente de um julgamento em que temos um voto convertendo a recuperação judicial em falência, e um pedido de vista⁹.

Pergunta: É um caso muito antigo. Um bom exemplo de como se usam esses institutos.

Arnoldo Wald Filho: É a segunda recuperação judicial. É a segunda.

O desfecho que veio depois da entrevista

Quando esta conversa foi gravada, em 17 de julho de 2026, o julgamento estava suspenso por pedido de vista, como o entrevistado registra. Em 25 de agosto de 2026, a 1ª Câmara de Direito Privado do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro rejeitou por unanimidade os recursos de Itaú e Bradesco e confirmou a falência da Oi. O voto condutor é da desembargadora Monica Maria Costa Di Piero; o pedido de vista que havia adiado o julgamento fora do desembargador Augusto Alves Moreira Junior.

A falência tinha sido decretada em novembro de 2025 pela 7ª Vara Empresarial do Rio de Janeiro, por descumprimentos sucessivos do plano. O acórdão encerra uma sequência que começou em 2016 com a primeira recuperação judicial da companhia, encerrada em dezembro de 2022 e administrada pelo escritório do entrevistado, e foi retomada em 2023, com a segunda. A decisão determina que se preservem as vendas de ativos feitas no período da segunda recuperação enquanto se apura a responsabilidade de administradores e acionistas, que os serviços essenciais sejam transferidos e que os créditos trabalhistas e financeiros sejam habilitados.

Notas de rodapé

¹ A Oi pediu recuperação judicial em 20 de junho de 2016, na 7ª Vara Empresarial do Rio de Janeiro, com dívidas de cerca de R$ 65,4 bilhões. O processo foi encerrado em dezembro de 2022. Saiba mais em https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2016-06/oi-recorre-justica-do-rio-com-pedido-de-recuperacao.

² A Samarco, mineradora controlada pela Vale e pela BHP, pediu recuperação judicial em abril de 2021, na 2ª Vara Empresarial de Belo Horizonte, com dívidas de cerca de R$ 50 bilhões. O processo foi encerrado em agosto de 2025. Saiba mais em https://g1.globo.com/mg/minas-gerais/noticia/2025/08/12/recuperacao-judicial-da-samarco-e-encerrada-apos-dois-anos-de-execucao.ghtml.

³ Disquete: mídia magnética de armazenamento portátil utilizada entre a década de 1970 e o início dos anos 2000. O modelo mais popular, de 3,5 polegadas, tinha capacidade de apenas 1,44 MB.

⁴ A Enter é uma empresa brasileira de tecnologia jurídica fundada em setembro de 2023, que usa inteligência artificial para automatizar contencioso de massa. Em maio de 2026 foi avaliada em US$ 1,2 bilhão numa rodada liderada pelo Founders Fund, tornando-se o primeiro unicórnio de inteligência artificial jurídica da América Latina. Leia mais em https://analise.com/opiniao/a-enter-e-o-lado-brilhante-de-um-grande-fracasso?sep=analise.

⁵ Segundo o relatório Justiça em Números, do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), divulgado em 2026, o Brasil encerrou 2025 com 75.011.830 processos em tramitação. Saiba mais em https://www.cnj.jus.br/judiciario-inicia-2026-com-o-menor-estoque-de-processos-pendentes-em-seis-anos/.

⁶ O sistema cartorário é o modelo de registros públicos delegados a particulares (tabelionatos e cartórios de registro), herdado da administração portuguesa e mantido no Brasil pelo artigo 236 da Constituição, que o submete a concurso público e à fiscalização do Judiciário.

⁷ A Lei 9.307, de 23 de setembro de 1996, é a Lei de Arbitragem brasileira. Arnoldo Wald, pai do entrevistado e fundador do escritório, participou da elaboração do anteprojeto e é um dos nomes de referência da matéria no país.

⁸ "À mulher de César não basta ser honesta, deve parecer honesta" é a fórmula atribuída a Júlio César ao repudiar a mulher, Pompeia, envolvida num escândalo de que não se provou culpada.

⁹ O julgamento foi concluído depois da entrevista. Ver box.

Alexandre SeccoArnoldo Wald Filho