Sinal de alerta: confira as especialidades que tiveram queda no último ano | Análise
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Sinal de alerta: confira as especialidades que tiveram queda no último ano

O Análise Advocacia Mulher 2026 apresenta as especialidades que tiveram maior recuo no último ano, em número de Mais Admiradas

3 de April 9h15

O crescimento da liderança feminina no Direito não elimina disparidades internas. O ANÁLISE ADVOCACIA MULHER 2026 apresenta 21 especialidades pesquisadas. Dentre elas, nove tiveram queda, mas três chamam atenção pela queda no número de Mais Admiradas no último ano: Propriedade Intelectual, Tributário e Operações Financeiras.

Esse cenário indica que determinados segmentos continuam menos permeáveis à ascensão de advogadas. Isso pode ocorrer pelo perfil tradicional da área, pela dinâmica de mercado ou pela menor visibilidade estratégica dessas práticas.

As especialidades de Propriedade Intelectual, Tributário e Operações Financeiras ficaram abaixo da média de expansão, junto com outras seis que apresentaram queda sutil: Agrário, Trabalhista, Imobiliário, Previdenciário, Societário (Inclusive Fusões e Aquisições) e Regulatório.

Propriedade Intelectual perde fôlego no ranking

Essa é uma área marcada por alta especialização técnica e atuação estratégica em ativos intangíveis, como marcas, patentes e direitos autorais, exigindo atualização constante diante das transformações tecnológicas e regulatórias, como evidencia a sócia Claudia Soares Garcia, do Peixoto e Cury Advogados. Ela credita a redução de advogadas Mais Admiradas à desaceleração global nas agendas corporativas relacionadas à diversidade e ESG. Esse movimento impacta diretamente a suavização da pressão institucional que estava sendo estimulada em soluções paritárias.

Em contrapartida, os protagonistas dessas transações — como bancos e fundos — ainda exercem liderança no processo. São instituições ainda marcadas pela masculinização do mercado financeiro, que buscam em sua rede histórica de relacionamentos a confiança para performar a transação, segundo Garcia.

No contexto da advocacia, isso acaba refletindo na forma como as equipes são estruturadas e na escolha de assessores em operações financeiras, tradicionalmente concentradas em círculos profissionais já estabelecidos, em sua grande maioria masculinos.

"Cabe aos escritórios de advocacia atuar de forma mais enfática para equilibrar essa balança, adotando medidas que vão além de políticas formais. Ampliar a exposição de advogadas em ecossistemas historicamente masculinos, incentivar trajetórias de liderança mais diversas e desenvolver ambientes corporativos nos quais talentos, independentemente do gênero, tenham acesso às condições necessárias para o seu crescimento profissional", diz a sócia.

Ana Paula Kothe, advogada do Gusmão & Labrunie, analisa o dado com esperança: "Mas é possível enxergar um movimento positivo. A redução da presença feminina na Propriedade Intelectual pode não indicar apenas dificuldades, mas também uma redistribuição de talentos em um mercado jurídico cada vez mais plural e diversificado".

Além disso, a própria Propriedade Intelectual passou por transformações significativas ao longo dos anos. Hoje, observa-se uma atuação muito mais segmentada, com especialistas dedicados a nichos específicos, como proteção de dados, entretenimento e tecnologia. Esses segmentos, inclusive, passaram a ser reconhecidos e ranqueados de forma autônoma, muitas vezes desvinculados da classificação tradicional de Propriedade Intelectual.

Tributário registra primeira queda desde 2022

A sócia Mônica Ferraz Ivamoto, do Ferraz Ivamoto e Furlan Sociedade de Advogados, atribuiu a redução de advogadas Mais Admiradas ao fato de que hoje há mais oportunidades para as mulheres no direito. A especialidade registra sua primeira queda desde 2022, com redução de aproximadamente 9,1% em relação à edição de 2025.

O mercado jurídico se encontra mais aberto, seja em escritórios, consultorias ou mesmo no setor público, por meio de concursos, analisa Mônica. Mesmo não observando o recuo da especialidade em seu próprio escritório, Ivamoto acredita que mulheres que antes concentravam seu interesse no tributário estejam agora diversificando e migrando para outras áreas.

"Eu tenderia a associar essa redução muito mais à ampliação de oportunidades em outras áreas do que necessariamente a um problema específico de retenção no tributário. Hoje as mulheres têm mais possibilidades de atuação, e isso naturalmente pode gerar uma redistribuição entre as especialidades", analisa Ferraz Ivamoto.

No entanto, ainda existe certo grau de machismo estrutural no universo jurídico. Não se pode negar que algumas barreiras de gênero persistem. Por outro lado, as mulheres têm respondido a isso com dedicação intensa ao aprimoramento técnico, à formação acadêmica e à busca por experiências no Brasil e no exterior, de acordo com a sócia.

Operações financeiras lideram retração entre as especialidades

Na edição de 2025, o número de admiradas na especialidade era 85, caindo 24,7% na edição atual. Operações Financeiras envolvem uma atuação intensa com bancos e instituições financeiras, o que normalmente exige jornadas de trabalho bastante extensas e um ritmo muito acelerado.

Ana Carolina Gentil, sócia fundadora do Gentil & Kluge Advogados, vincula o declínio ao momento de carreira. Muitas mulheres passam a conciliar objetivos profissionais com questões pessoais, como maternidade e família. A carga de trabalho exigida por essa especialidade pode acabar sendo um fator de afastamento.

"Além disso, o ambiente financeiro ainda apresenta menor diversidade quando comparado a outras áreas do direito. É um ecossistema predominantemente masculino, o que também pode influenciar o interesse e a permanência de mulheres na área", disse Gentil.

Ana Carolina aponta duas hipóteses que ajudam a explicar o movimento. Por um lado, a migração de profissionais para outras áreas estratégicas, como Societário e Compliance, que ganharam espaço e oferecem dinâmicas diferentes de atuação. Entretanto, há menor promoção feminina dentro das equipes de operações financeiras, o que impacta a consolidação de lideranças na área.

Ademais, é importante considerar o momento econômico atual. Com um menor volume de operações financeiras, houve menor movimentação na bolsa de valores e maior foco do mercado em renda fixa. Essa retração no volume de operações também pode ter contribuído para a redução do número de profissionais — inclusive mulheres — atuando especificamente nessa especialidade.

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