Região Norte tem queda de 42% no número de Mais Admiradas | Análise
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Região Norte tem queda de 42% no número de Mais Admiradas

Pesquisa com executivos jurídicos e financeiros aponta retração no reconhecimento de advogadas nortistas, mas profissionais da região revelam os caminhos para reverter o cenário

30 de March 8h25

Há dados que funcionam como espelhos. Alguns refletem com nitidez o que já se suspeitava; outros devolvem uma imagem que perturba justamente porque confirma o que se preferia não ver. A queda de 42% no número de advogadas da Região Norte reconhecidas no ANÁLISE ADVOCACIA MULHER 2026, em relação à edição anterior, é desse segundo tipo. O número não cria o problema — ele o identifica. E identificar o problema, no campo do Direito como em qualquer outro, é o primeiro passo para resolvê-lo.

O mercado jurídico brasileiro ainda carrega em sua estrutura a memória de décadas de assimetria. No caso do Norte, essa assimetria se desdobra em duas camadas sobrepostas: a desigualdade de gênero e a desigualdade regional. Quando esses dois eixos se cruzam, o efeito não é simplesmente a soma de dois obstáculos — é a criação de um terreno mais árido, onde visibilidade e reconhecimento precisam ser conquistados com esforço desproporcional.

O que está por trás da queda

A queda registrada no ANÁLISE ADVOCACIA MULHER 2026 não deve ser lida de forma isolada. Rankings como esse capturam a percepção do mercado em determinado recorte de tempo e método — e qualquer variação expressiva exige análise cuidadosa antes de conclusões apressadas. O dado revela, antes de tudo, uma tensão estrutural entre a qualidade da advocacia praticada na Região Norte e o grau de visibilidade que essa prática alcança nos circuitos nacionais de reconhecimento.

Para Victoria Cardoso, sócia do Pedro Câmara Advogados, o número precisa ser interpretado com cautela: "Esse percentual não indica, necessariamente, um enfraquecimento da advocacia feminina na região, mas evidencia como fatores estruturais ainda moldam a distribuição de visibilidade no mercado jurídico brasileiro."

Maísa Mesquita de Almeida, associada do Silveira, Athias, Soriano de Mello, Bentes & Lobato, reforça essa leitura ao destacar que relatórios da OAB Nacional indicam que as mulheres são maioria entre os profissionais regularmente inscritos — padrão que se repete na Região Norte e no Pará. Para ela, portanto, não há escassez de profissionais qualificadas, mas "uma assimetria entre quem atua e quem é visibilizado."

Assim, a queda de 42% emerge menos como termômetro da capacidade técnica das advogadas nortistas e mais como sintoma de dinâmicas mais profundas. Contudo, isso não diminui a urgência do debate: ao contrário, o ANÁLISE ADVOCACIA MULHER cumpre papel essencial justamente por tornar esses números visíveis e passíveis de análise.

Estrutura geográfica e de mercado freiam o reconhecimento

A concentração econômica no eixo Sul-Sudeste é um dado de realidade que atravessa setores inteiros da economia brasileira. No mercado jurídico, esse fenômeno se traduz em fluxo de indicações, redes de relacionamento e, por consequência, nas pesquisas reputacionais que alimentam rankings como o ANÁLISE ADVOCACIA MULHER. A distância dos grandes centros decisórios não é apenas geográfica — ela é também simbólica, e pesa sobre a percepção de onde estaria a excelência jurídica do país.

Victoria Cardoso aponta a dimensão desse desafio: "Persiste uma mentalidade histórica segundo a qual o jurídico produzido em outras regiões seria, por definição, superior ou mais qualificado. Essa percepção leva muitas empresas locais a buscar orientação fora da região, mesmo quando as demandas envolvem peculiaridades regulatórias e fiscais que exigem conhecimento profundo da realidade amazônica."

Claudia Krauskopf, coordenadora jurídica e gestora de unidade de Manaus do SiqueiraCastro, aponta uma dimensão específica desse distanciamento: "O Norte possui advogadas brilhantes que operam em um cenário de desafios logísticos e jurídicos únicos. Em alguns casos esse trabalho não é refletido com total fidelidade nos eixos centrais porque ainda existe uma distância de conhecimento sobre as particularidades e a sofisticação da atuação local."

Por sua vez, Priscilla Rosas Duarte, sócia do DD&L Associados, aponta que a Região Norte "é altamente impactada em vários aspectos por estar distante dos grandes referenciais econômicos e políticos do nosso país", o que "acarreta uma tendência natural de se direcionar os olhares para as regiões com maior projeção nacional, trazendo maior dificuldade de reconhecimento e ascensão profissional."

Ainda assim, há caminhos para romper essa lógica. Victoria Cardoso descreve uma operação societária em que seu escritório, sediado no Norte, foi escolhido para conduzir uma demanda localizada inteiramente em outro estado. Segundo ela, "a decisão não foi geográfica, foi técnica." Esse episódio ilustra que a excelência é capaz de deslocar o prestígio — desde que acompanhada de estratégia e diferenciação deliberadas.

Cultura interna, impacto externo

O reconhecimento externo raramente nasce do vácuo. Ele costuma refletir o tipo de ambiente interno que uma organização constrói ao longo do tempo — a forma como distribui protagonismo, atribui responsabilidades estratégicas e incentiva a presença institucional de seus membros. No contexto da advocacia nortista, essa dimensão organizacional ganha relevância especial, pois é nela que muitas trajetórias femininas encontram impulso ou freio.

Marcela dos Santos Melo, sócia do DD&L Associados, é direta ao avaliar essa responsabilidade: "Escritórios que investem em governança, diversidade e incentivo à exposição institucional ampliam o reconhecimento de suas advogadas. O reconhecimento externo começa dentro de casa."

Maísa de Almeida destaca que organizações jurídicas não apenas executam trabalho técnico — elas definem critérios de promoção, distribuição de protagonismo e exposição institucional. Para ela, "ambientes com critérios transparentes e visão institucional de longo prazo tendem a produzir trajetórias mais diversas e representativas." Krauskopf reforça esse diagnóstico a partir do cotidiano das bancas regionais: "As organizações locais estão em um processo de amadurecimento, porque a cultura interna muitas vezes prioriza a operação em detrimento da exposição institucional da profissional."

Priscilla Rosas Duarte oferece um contraponto relevante: em sua experiência, a banca foi um espaço de crescimento, não de obstáculo. "Faço parte de uma grande banca da Região Norte há mais de 20 anos e não tenho dúvidas de que a minha ascensão e projeção se devem ao trabalho e dedicação ao longo dessa trajetória dentro do escritório", afirma. Ela acrescenta que a advocacia feminina representa 65% do quadro do DD&L — dado que evidencia como cultura organizacional e representatividade podem caminhar juntas. Portanto, a questão não é apenas quem lidera, mas também como as lideranças escolhem organizar espaços e distribuir oportunidades.

O Norte como direção, não como margem

Reverter uma queda de 42% não depende de um único fator, nem acontece em um único ciclo. Trata-se de um movimento que exige avanços simultâneos em pelo menos três frentes: a formação estratégica das profissionais, o fortalecimento institucional das bancas e o amadurecimento das redes de articulação regionais. O ANÁLISE ADVOCACIA MULHER, ao dar visibilidade a esse cenário, cumpre papel de catalisador desse processo.

No campo da formação individual, Victoria Cardoso é um exemplo concreto. Ela combinou especialização jurídica com estudos em empreendedorismo e inovação em Londres, além de domínio de inglês jurídico. Segundo ela, "essa aproximação entre mentalidade jurídica e mentalidade empresarial mudou a forma como passei a estruturar soluções." Assim, o destaque profissional, conforme ela descreve, "não é fruto de localização, exige preparação além do óbvio, investimento em diferenciação e disposição para dialogar com o mercado em nível nacional e internacional, independentemente do CEP de origem."

Krauskopf resume sua trajetória com uma síntese que ecoa o argumento central do debate: "Para se destacar longe dos eixos tradicionais de poder jurídico é necessária uma integração entre o saber local e a estrutura global. Estar na ponta, em uma região estratégica como o Norte, utilizando ferramentas tecnológicas centralizadas e inovadoras, prova que a competência não tem CEP."

Marcela dos Santos Melo aponta, ainda, a articulação coletiva como vetor essencial. "O movimento existe, mas ainda precisa ganhar escala nacional, com maior integração entre os estados do Norte e presença mais forte em fóruns estratégicos", avalia. Ela menciona o posicionamento do DD&L em entidades do Sudeste e a indicação de uma de suas sócias como Conselheira Federal da OAB como exemplos do que é possível construir.

Maísa de Almeida, por sua vez, destaca a Rede Entre Nós, em Belém, como iniciativa voltada ao desenvolvimento de lideranças femininas. Ela lembra, contudo, que "estruturas de poder e visibilidade foram consolidadas ao longo de décadas, e sua transformação exige tempo, constância e amadurecimento institucional." A curva pode mudar — mas somente quando liderança, governança e critérios de reconhecimento avançarem de forma convergente, dentro das bancas, nas pesquisas e no mercado como um todo.

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