O mercado jurídico de elite não é feito apenas de curvas ascendentes. Os dados da edição 2026 do ANÁLISE ADVOCACIA MULHER revelam que algumas das áreas mais prestigiadas do Direito corporativo operam em um verdadeiro formato de montanha-russa.
Longe da estabilidade de áreas como Cível ou Consumidor, especialidades ligadas aos humores do mercado de capitais, à liquidez de investimentos e à inovação tecnológica apresentam ciclos de sobe e desce que desafiam a retenção de talentos e exigem uma reinvenção constante das advogadas que desejam se manter no topo.
A Análise mergulhou nos números e ouviu quatro das maiores especialistas do país para entender os bastidores dessas oscilações — e o que é preciso fazer para sobreviver a elas.
Societário: O fim do excesso de liquidez e a exigência de profundidade
A área Societária (que engloba M&A) apresenta a maior amplitude histórica da pesquisa. Após um salto espetacular de 97 admiradas em 2021 para o pico de 157 em 2024, a especialidade vem sofrendo retrações contínuas, caindo para 150 no ano passado e 146 na edição atual. O mercado secou?
Para Patrícia Braga, sócia da área societária do KLA Advogados, não se trata de uma crise estrutural, mas do fim de uma anomalia.
"O período pós-pandemia foi totalmente fora da curva, impulsionado por um excesso de liquidez que levou a um volume muito grande de M&A. Hoje a liquidez foi reduzida e a incerteza geopolítica tornou os investidores cautelosos. O movimento é uma correção natural do mercado. As advogadas que continuam em destaque são justamente as que conseguem transitar bem entre o transacional e um consultivo estratégico, como reestruturações e temas de governança", avalia Patrícia.
No entanto, transitar entre áreas exige cuidado. Paula Magalhães, sócia da área societária do Demarest, faz um alerta contundente contra o perfil "generalista de sobrevivência":
"A área societária tem muita versatilidade, mas 'fazer de tudo' para 'segurar as pontas' pode significar não fazer nada com profundidade. Não é jogando nas onze posições que se mantém em destaque. Atualmente, há um forte destaque para quem faz uma governança bem-feita, muito mais por causa dos sucessivos episódios ruins (escândalos corporativos) que estamos vivenciando no Brasil do que por um desaquecimento de M&As", pontua Paula.
Ela aposta que o volume de negócios voltará a crescer impulsionado por deals de tecnologia, saúde, data centers e, especialmente, operações na Bolsa: "Com ativos listados mais baratos, o volume de M&As com troca de ações continuará no formato de ofertas públicas de aquisição (OPAs), impulsionado pelas melhorias na regulamentação da CVM".
Operações Financeiras: O paradoxo dos números e o alerta da sororidade
Se o Societário vive um reajuste, a área de Operações Financeiras sofreu um verdadeiro tombo: foi a maior retração de todo o ranking, caindo de 85 para 64 advogadas.
Ana Paula Calil, sócia da área de operações financeiras do Cascione Advogados, não atribui a culpa apenas à alta da taxa Selic. Ela traz um contraponto revelador baseado em dados reais do setor financeiro.
"Mesmo com a taxa de juros elevada, a ANBIMA registrou um aumento do número de operações de mercado de capitais. Acredito que essa queda no ranking é um reflexo de um mercado altamente competitivo, com honorários cada vez mais apertados, e do número ainda pequeno de mulheres na liderança, tanto nos escritórios quanto nos bancos", diagnostica Ana Paula.
Para ela, a volatilidade exige adaptação rápida — "quando o M&A está em baixa, as companhias buscam financiamento" —, mas o verdadeiro gargalo para o crescimento sustentável da área passa por uma mudança comportamental feminina.
"A chave é manter as mulheres em posições de liderança. E muitas vezes falta sororidade. Se as líderes femininas hoje optassem de forma ativa por escolher somente advogadas mulheres para as suas operações, teríamos um crescimento relevante nesse número", provoca a sócia do Cascione.
Propriedade Intelectual: O "zigue-zague" e a fronteira da Inteligência Artificial
Nenhuma área exemplifica melhor a volatilidade do que a Propriedade Intelectual (PI). O histórico recente é um verdadeiro eletrocardiograma: 70 admiradas (2022), subindo para 103 (2023), caindo para 94 (2024), saltando para 108 (2025) e, agora, caindo para 98 (2026).
Segundo Stephanie Consonni, sócia de PI do TozziniFreire, esse movimento errático reflete um mercado em profunda transformação, onde as regras do jogo estão sendo reescritas pela tecnologia, especialmente pela Inteligência Artificial generativa.
"As fronteiras da PI estão sendo redesenhadas em tempo real e as discussões atingem um novo nível de complexidade. Por isso, eu acho que o mercado ainda está mapeando quem, de fato, tem profundidade para enfrentá-las. À medida que a jurisprudência e a regulação amadurecerem, a tendência é que as referências se consolidem", explica Stephanie.
O antídoto contra essa instabilidade? Deixar de ser a advogada "despachante" e tornar-se uma consultora estratégica de negócios.
"A retenção de longo prazo exige posicionamento, não apenas a entrega técnica de um processo no INPI. Com base na minha experiência, a profissional que oferece uma visão integrada e 360º, oferecendo soluções que fogem do óbvio, não fica refém do ciclo de registros tradicionais", conclui.
Em comum, Societário, Operações Financeiras e PI deixam uma lição clara na edição 2026: em mercados voláteis e de alta complexidade, o título de Mais Admirada não aceita atalhos. Ele exige visão de longo prazo, capacidade camaleônica de adaptação e, acima de tudo, profundidade técnica inquestionável.

