Automatização estratégica de documentos jurídicos | Análise
Análise

Automatização estratégica de documentos jurídicos

Responsáveis pelo projeto: Carolina Pimentel Scopel (sócia), Robson Henrique Crozatti dos Santos (head), Jociele Machado de Jesus (coordenadora), Rosa Garcia Silvano (advogada) do Martinelli Advogados

23 de October 18h30

DESAFIO

Com o aumento constante do número de clientes, processos e prazos, bem como a celeridade do judiciário com implementação total do processo eletrônico, crescia também a pressão sobre a produção de peças e documentos jurídicos. O Martinelli Advogados enfrentava um desafio estratégico: sustentar a excelência técnica das entregas sem comprometer a qualidade de vida dos colaboradores. Como manter esse crescimento sem sobrecarregar nossas pessoas ou tornar insustentável a rotina da equipe?

No núcleo Trabalhista, essa pressão assumia contornos ainda mais desafiadores. A área é marcada por um volume expressivo de processos, o que se traduz em grande número de prazos e audiências, exigindo respostas rápidas e tecnicamente robustas. Nesse contexto, o tempo dedicado pela equipe da banca a tarefas repetitivas crescia continuamente, enquanto a gestão, absorvida por funções operacionais, via sua atuação estratégica e o relacionamento com os clientes reduzido.

A escolha por iniciar o projeto justamente nesse núcleo não foi por acaso. As particularidades da área — como a celeridade dos ritos, a ausência de honorários sucumbenciais e as margens de lucro mais estreitas — tornam a operação especialmente intensiva. Era o cenário ideal para testar uma solução que pudesse trazer ganho real de escala, sem abrir mão da qualidade técnica.

Diante desse cenário, o escritório sabia que seguir no mesmo formato implicaria na sobrecarga dos colaboradores ou então demandaria o aumento do quadro. Por isso, decidiram repensar o modelo de produção jurídica com base em uma pergunta-chave: e se a tecnologia pudesse ser usada não apenas como suporte, mas como agente de transformação do seu modo de trabalhar?

A partir dessa inquietação, um plano claro foi traçado: buscar no mercado uma solução que permitisse automatizar a geração de peças jurídicas escalonáveis, com segurança, qualidade e flexibilidade. A ideia foi estruturar um projeto que unisse tecnologia e método, com revisão técnica centralizada e fluxos de validação precisos — uma forma de transformar a operação sem renunciar ao rigor jurídico. Essa busca os levou ao desenvolvimento do Projeto de Automatização Estratégica de Documentos Jurídicos.

SOLUÇÃO

O Projeto de Automatização Estratégica de Documentos Jurídicos surgiu como uma iniciativa voltada à automatização da produção de peças processuais por meio de tecnologia jurídica. A medida consistiu na parametrização dos modelos utilizados pela equipe, com campos estruturados e lógica condicional, capazes de gerar minutas completas de forma parcialmente padronizada e em poucos minutos, sem abrir mão da flexibilidade para ajustes conforme o caso concreto.

A ferramenta foi construída para refletir a realidade processual da equipe, com fluxos que se adaptam a diferentes ritos, comarcas, fases processuais e tipos de pedidos. Para isso, cada peça passou por uma etapa de engenharia de conteúdo, na qual os dados variáveis foram identificados e organizados conforme o raciocínio jurídico adotado na prática do escritório.

A operação da ferramenta é simples: o usuário acessa o modelo desejado e responde às perguntas pré-definidas, que ajudam a guiar a construção da peça. Mais do que um simples formulário, o processo permite incorporar a estratégia do caso, resultando em um documento final com estrutura técnica, sem necessidade - mas possibilitando - a edição manual. Isso garante uniformidade na comunicação com tribunais e partes contrárias, bem como mantém a nossa identidade.

A manutenção do material e a governança da solução ficaram a cargo da equipe de Legal Ops do escritório, responsável por incorporar melhorias, ajustar os fluxos quando necessário e acompanhar o ciclo de vida de cada documento disponível. Dessa forma, a automatização deixou de ser uma iniciativa isolada e passou a compor a estratégia de produção de documentos jurídicos do escritório.

IMPLEMENTAÇÃO

A implementação da solução foi conduzida com o mesmo rigor técnico que o escritório aplica à elaboração de suas peças. Desde o início, sabiam que automatizar documentos exigiria mais do que simplesmente adotar uma ferramenta: era necessário entender fluxos, respeitar a complexidade do conteúdo jurídico e envolver profundamente a equipe na nova cultura. A tecnologia, para a banca, não viria como um fim em si mesma, mas como uma aliada estratégica — capaz de transformar a forma como produziam, revisavam e entregavam valor ao cliente.

Antes mesmo de iniciar a produção das peças, o escritório compreendia que não bastava contratar um fornecedor externo e delegar a ele a tarefa de resolver o desafio. Pensando nisso, a banca buscou internamente pessoas interessadas em tecnologia e entusiastas do "pensar fora da caixa" para compor um time comprometido com esse processo de transformação. Assim, foi constituída uma equipe dentro da área de Legal Ops que, ao longo de meses, realizou o treinamento completo de backoffice da ferramenta, a fim de compreender em profundidade como aquela tecnologia poderia, de fato, servir ao escritório. Só após dominarem plenamente a ferramenta é que se sentiram confiantes para dar o próximo passo.

Ainda que a equipe de Legal Ops estivesse tecnicamente apta a conduzir todo o projeto, logo foi identificado que, para alcançar escala e manter a velocidade necessária diante do volume de entregas, seria fundamental contar com um suporte adicional. Foi nesse contexto que o fornecedor passou a integrar o projeto como o parceiro técnico do Martinelli Advogados, encarregado da parametrização dos modelos na ferramenta e do suporte operacional à automatização. À equipe de Legal Ops, formada por profissionais com raciocínio jurídico e tecnológico, coube articular a transição entre o manual e o digital — sempre preservando a identidade técnica e argumentativa das nossas peças.

A etapa de inserção dos documentos iniciou com um mapeamento criterioso das petições mais utilizadas, não apenas em volume, mas também em complexidade, recorrência de revisão e gargalos operacionais. A partir disso, a banca construiu um fluxo estruturado, em que a equipe de Legal Ops assumiu o papel central de curadoria e governança do sistema. Cada documento indicado pelas equipes técnicas era inserido em um drive compartilhado, onde passava por uma primeira leitura integral e revisão minuciosa: estrutura, variáveis, formatação, reaproveitamento de trechos e coerência argumentativa eram avaliados com atenção artesanal. A peça precisava estar tecnicamente impecável antes de sequer ser enviada ao fornecedor para a parametrização.

Esse cuidado se manteve em todas as etapas. Após a inclusão no sistema, cada modelo era emitido pela equipe de Legal Ops e comparado, parágrafo a parágrafo, com o original, garantindo que a automatização preservasse integralmente o conteúdo técnico-jurídico, além de que, a configuração permitisse eficiência no direcionamento das ‘respostas’. Eventuais ajustes eram comunicados ao fornecedor, e só após nova revisão e conferência rigorosa é que a peça era liberada para validação da equipe técnica. Caso ainda houvesse sugestões, o fluxo era retomado — e assim a banca seguia, com persistência e refinamento, até que o modelo estivesse maduro para uso geral.

Desde o início desta fase, o escritório buscou envolver o núcleo técnico de forma estruturada e respeitosa com sua realidade. Inicialmente, realizaram reuniões individuais com a gestão da área para apresentar a plataforma e o projeto. Na sequência, a banca realizou reuniões conjuntas com os colaboradores indicados, com o objetivo de discutir, com profundidade, quais peças fariam sentido incluir no sistema e como poderiam ser estruturadas. Esse processo garantiu uma construção coletiva e alinhada à prática da equipe técnica.

Após a disponibilização dos primeiros documentos no sistema, o escritório promoveu treinamentos específicos de usabilidade para garantir que todas as pessoas soubessem como emitir corretamente suas peças. Além disso, seguiram com reuniões periódicas de feedback com o núcleo técnico, sempre abertos a sugestões de melhorias e ajustes nos modelos, reforçando o caráter colaborativo e interativo do projeto.

É importante ressaltar que não se trata de uma entrega pontual: o projeto foi concebido como um processo vivo e em permanente evolução. Diariamente, a equipe de Legal Ops acompanha novas inclusões, monitora o uso do sistema, organiza planilhas de status e realiza reuniões com os núcleos, bem como verifica a estrutura das peças disponíveis e analisa eventuais melhorias. A governança é detalhada: há controle de usuários, prazos, feedbacks, volume de peças e intervenções pontuais para ajustes rápidos ou reestruturações mais profundas. Inclusive, muitas melhorias são incorporadas após testes práticos feitos pela equipe, que, ao usar o sistema, identifica pontos que podem ser aperfeiçoados — e o fluxo de revisão recomeça.

Mais do que automatizar petições e documentos, o projeto os permitiu reorganizar processos, liberar tempo das equipes e mostrar que é possível inovar com profundidade, sem perder a identidade jurídica que os diferencia no mercado.

RESULTADO

A trajetória da solução de automatização revela um caso de sucesso impulsionado por planejamento estratégico, construção colaborativa e foco em excelência técnica. O projeto teve início no primeiro trimestre de 2024, com uma intensa etapa de backoffice: inicialmente, o time de Legal Ops do escritório teve todo o treinamento necessário, então, foram realizados encontros com a liderança do núcleo e com a equipe para apresentação da ferramenta, reuniões conjuntas para definição e validação das peças, desenvolvimento do acervo documental e treinamentos de usabilidade com os advogados.

Embora não houvesse emissões nos primeiros meses de 2024, esse período foi crucial para garantir o rigor técnico do conteúdo e a aderência da ferramenta às rotinas do time. O primeiro documento emitido pela plataforma ocorreu em maio de 2024 — um marco que consolidou a virada digital da equipe.

A partir daí, o uso cresceu rapidamente. O segundo semestre foi especialmente significativo: entre agosto e novembro de 2024, mais de mil documentos foram emitidos pelo sistema, demonstrando não apenas adesão operacional, mas a confiança da equipe na ferramenta. Em dezembro, mesmo com a sazonalidade do mês, a plataforma gerou aproximadamente 200 documentos, mantendo a curva de utilização em patamar elevado.

Essa trajetória reflete uma verdadeira consolidação ainda no ano de nascimento da solução. Em 2025, o sistema seguiu evoluindo: entre janeiro e maio, a média mensal de emissões foi de aproximadamente 400 documentos. O índice de cobertura automatizada em maio foi de 83%, ou seja, o projeto vem se confirmando como um forte aliado técnico da equipe.

Esse dado é especialmente relevante quando se considera o monitoramento contínuo feito pela equipe de Legal Ops: mês a mês, acompanha-se o total de prazos efetivamente cumpridos e os documentos emitidos por meio da ferramenta. A partir desse cruzamento, calcula-se o percentual de prazos cumpridos utilizando documentos automatizados. Em maio de 2024, esse índice era de apenas 5%. Em agosto, chegou a 55%, superou os 70% em setembro e durante o ano de 2025 tem mantido uma média de 80%. O crescimento constante comprova o amadurecimento do projeto e a consolidação da automatização como aliada da equipe.

Embora o projeto não tenha sido concebido com foco direto na redução de custos, os efeitos financeiros se tornaram rapidamente perceptíveis ao longo da implementação. A automatização permitiu que o núcleo mantivesse um alto volume de produção mesmo em períodos de maior demanda, inclusive com o crescente aumento da carteira de clientes, sem a necessidade de ampliação da equipe. Trata-se de um ganho de eficiência que fortalece a sustentabilidade da operação — entregando mais, com a mesma estrutura, com maior margem de lucratividade ($), sem comprometer a qualidade técnica das entregas e mantendo a qualidade de vida de seus colaboradores.

Contudo, os ganhos não são apenas numéricos. A ferramenta gerou efeitos profundos na organização da produção jurídica:

  • A gestão do núcleo técnico relata plena confiança na tecnologia empregada, na qualidade da revisão e na coerência técnica dos documentos emitidos pela ferramenta;
  • A equipe passou a operar com um padrão textual e visual mais consistente, que respeita as especificidades das teses e das práticas do time, ao mesmo tempo em que fortalece a identidade do núcleo;
  • Os advogados redirecionaram o tempo antes dedicado a tarefas repetitivas para atividades mais estratégicas — como interlocução com clientes, participação em audiências e aprofundamento em análises jurídicas;
  • Um relato marcante resume o impacto humano do projeto: "Passei a conseguir utilizar meu tempo em demandas estratégicas e me preparando para os atos processuais, ao invés de redigir peças que muitas vezes se tornavam repetitivas pela recorrência das demandas. Agora, consigo acompanhar audiências com mais tranquilidade."

Vale destacar que nenhum desses resultados seria possível sem uma mudança cultural significativa, viabilizada pelo engajamento, pela confiança e pelo empenho genuíno das pessoas envolvidas. Com o apoio contínuo da liderança e o envolvimento direto da gestão do escritório, a equipe compreendeu a importância da ferramenta e promoveu um verdadeiro giro de pensamento tecnológico: a automatização deixou de ser vista como um risco à técnica e passou a ser compreendida como uma aliada estratégica na sua elevação.

Atualmente, com um arcabouço de peças e documentos ativos que ultrapassa a casa da centena e segue em constante evolução, o Projeto de Automatização Estratégica de Documentos Jurídicos permanece em expansão — sustentado pela mesma dedicação técnica e colaborativa que marcou cada etapa da sua implementação.

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