A economia brasileira enfrenta um cenário de alta criticidade com a possível imposição de uma tarifa de 50% pelos Estados Unidos sobre produtos nacionais, prevista para entrar em vigor em 1º de agosto. Longe de ser um fato isolado, essa medida tem o potencial de desencadear um efeito dominó sobre nossos principais indicadores econômicos, exigindo máxima atenção de empresas e investidores.
O primeiro e mais direto impacto será a perda de competitividade de nossas exportações no mercado norte-americano. Com preços artificialmente inflados, a tendência é uma queda na demanda por produtos brasileiros, o que resulta em uma consequência imediata: a redução no fluxo de dólares para o país. Em um ambiente de câmbio flutuante, a menor oferta da moeda americana pressiona sua cotação para cima.
É aqui que o efeito em cadeia se manifesta com mais força. Um dólar mais alto encarece toda uma gama de insumos industriais, componentes tecnológicos e commodities, alimentando uma espiral inflacionária que o Brasil luta arduamente para manter sob controle. Com a inflação pressionada, a autonomia do Banco Central para dar início ao ciclo de cortes de juros nos próximos meses fica comprometida. O Comitê de Política Monetária (Copom) pode ser forçado a adotar uma postura mais rígida, seja mantendo os juros em patamares elevados ou até mesmo voltando a executar mais um ciclo de alta de juros, o que impacta diretamente o custo do crédito, os investimentos produtivos e o ritmo de crescimento do país. Obviamente que também dependerá de outros fatores para que o Banco Central tome essa decisão, como a entrega do arcabouço fiscal por parte do governo federal, por exemplo.
Diante deste cenário, a inércia não é uma opção. As empresas brasileiras, sobretudo as que dependem de exportações ou de insumos importados, precisam agir com velocidade e estratégia para mitigar os riscos. O desafio é duplo: gerenciar a perda de receita no exterior e, ao mesmo tempo, lidar com o aumento dos custos de produção internamente.
Para navegar neste ambiente adverso, seria necessário o um plano de ação imediato, focado em quatro pilares estratégicos:
Revisão da estratégia de preços: analisar profundamente as margens de lucro e a capacidade de absorver parte do impacto nos custos para preservar a competitividade, tanto no mercado externo quanto no doméstico;
Otimização da cadeia de suprimentos: mapear fornecedores e buscar ativamente alternativas no mercado interno para reduzir a exposição à volatilidade do dólar e aos custos de importação;
Gestão de caixa: utilizar instrumentos de proteção cambial (hedge) para se precaver contra as oscilações do dólar, protegendo o caixa e as margens da empresa;
Diversificação de mercados: Acelerar a prospecção e a penetração em outros mercados internacionais para diluir a dependência do mercado norte-americano e criar novas fontes de receita.
O momento exige monitoramento constante e uma gestão proativa. A capacidade de adaptação e a rapidez na tomada de decisões estratégicas serão os fatores que diferenciarão as empresas que conseguirão superar este desafio daquelas que sentirão os impactos de forma mais severa. O equilíbrio da nossa economia nos próximos meses dependerá diretamente da nossa habilidade de resposta.
Gustavo Faria Azevedo, investor sênior, coordenador de consultoria do Grupo Fractal, engenheiro de produção, gestor de recursos com certificação CFG, CGA e experiência de oito anos no mercado financeiro.
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