Poucas questões têm mobilizado tanto os profissionais — no direito e fora dele — quanto estas duas indagações: como ser relevante na profissão e como manter essa relevância em tempos de inteligência artificial. "Ser" e "manter" tornaram-se verbos recorrentes em nossos pensamentos, inquietações e receios.
A inteligência artificial já não é promessa futura. Sua aplicação no cotidiano da advocacia é realidade concreta: facilita processos, organiza informações e entrega resultados em velocidade inédita. Ainda não sabemos exatamente em que medida ela nos alcançará, especialmente a médio e longo prazo. O que sabemos é que ela já está entre nós.
Essa incerteza, longe de ser apenas ameaçadora, abre uma oportunidade valiosa de reflexão: onde, afinal, continuaremos sendo essenciais? Que transformações precisamos enfrentar para nos tornarmos — e permanecermos — relevantes em um cenário radicalmente distinto daquele em que muitos de nós nos formamos?
Para quem já está na profissão há alguns anos, é no mínimo fascinante observar uma máquina capaz de redigir petições, contratos e pareceres, interpretar jurisprudência e mapear precedentes em segundos. O ganho de tempo é evidente, a eficiência inegável. O tempo do "fazer" cede espaço ao tempo do "pensar", do "formular". À primeira vista, todos ganham: advogados e clientes.
O tempo, aliás, talvez seja o maior benefício trazido pela IA. Atividades que antes demandavam horas — ou dias — passam a ser realizadas quase instantaneamente, sem prejuízo da qualidade técnica. Essa mudança, inevitavelmente, transforma a própria lógica da profissão.
Um de seus impactos mais claros recai sobre a precificação dos serviços jurídicos. Modelos baseados exclusivamente em horas trabalhadas e número de profissionais envolvidos já não refletem o custo real nem o valor efetivamente agregado ao cliente. A advocacia é chamada a repensar seus critérios de remuneração, deslocando o foco do esforço para o impacto do trabalho entregue.
Como toda inovação, a IA também apresenta limites: respostas imprecisas, ausência de contexto, erros decorrentes de perguntas mal formuladas. Mesmo os mais entusiastas recomendam cautela. A pergunta central, contudo, não é se essas falhas existem, mas até quando existirão. A evolução é veloz. O que hoje é falha, amanhã tende a ser rotina.
Diante disso, impõe-se uma questão inevitável: qual será o papel do advogado? Se a máquina já executa boa parte das tarefas técnicas com mais rapidez e precisão, onde residirá nossa relevância?
A resposta não parece estar nem no pessimismo absoluto nem no otimismo tolo. É improvável que o advogado desapareça, mas é certo que seu papel mudará. A informação pura deixou de ser diferencial; tornou-se commodity. Compartilhá-la já não basta.
O verdadeiro desafio passa a ser outro: estamos apenas informando ou efetivamente orientando? Manifestamos nossa convicção técnica ou a diluímos em ressalvas excessivas que confundem o tomador de decisão? A diferença entre essas posturas define a relevância do profissional ao longo do tempo.
Fomos historicamente treinados para evitar o erro, como se a infalibilidade fosse possível. Talvez a transformação comece justamente na aceitação de que decidir envolve risco, e de que não há inovação sem a possibilidade de erro. Ousar é humano. E é exatamente aí que a máquina ainda não alcança.
Talvez essa seja a nova face da advocacia: a coragem de decidir, o discernimento de escolher e a responsabilidade de assumir consequências. A decisão, ainda que informada pela inteligência artificial, continuará sendo humana. Alguém precisará dar a palavra final.
O erro não pode se tornar regra, mas o risco passa a ser valor agregado. E aprender a administrá-lo será parte essencial da atuação profissional. No futuro, o advogado relevante será aquele que atuar aonde a máquina não chega: na confiança, na intuição e na coragem de decidir.
Resta, por fim, uma pergunta incontornável: estamos formando profissionais preparados para isso? O mercado enxerga esse novo perfil? E nós, estamos prontos? Uma coisa parece certa: as crenças e convicções que nos trouxeram até aqui não necessariamente serão suficientes para nos manter no lugar alcançado, e sairá na frente aquele que perceber que é na coragem de transformar e na ousadia de se permitir que estarão os melhores predicados do profissional do futuro.
Glaucia Lauletta é sócia de Tributário do escritório Mattos Filho. Atende clientes nacionais e estrangeiros, de diversos segmentos econômicos, em questões tributárias relacionadas às esferas federal, estadual e municipal. Tem atuação nos tribunais brasileiros, com mais de 35 anos de experiência no contencioso judicial tributário. Atua no Superior Tribunal de Justiça (STJ) e no Supremo Tribunal Federal (STF), inclusive no acompanhamento de decisões judiciais em última instância relacionadas às principais questões tributárias controversas.
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