Se tenho entre meus leitores alguém que estava em Marte nos últimos anos, aviso que perguntei ao Claude e ao ChatGPT quem é o advogado mais famoso do Brasil. As duas respostas apontaram o mesmo nome, pelo critério de fama de escala e marca pessoal: Nelson Wilians. O mais famoso, espalhafatoso e, agora, o mais enrolado advogado do Brasil.
Fraudes no INSS, ICMS e ocultação de patrimônio de bets
Precisamos falar dele porque, até agosto deste ano, ele dirigia a declarada maior banca de advogados do país e quem comandava essa estrutura é alvo de três investigações, que remexem um vespeiro que envolve negócios supostamente ilícitos relacionados a fraudes no INSS, recolhimento de tributos e ocultação de patrimônio de bets. Coisas muito feias.
A biografia rende sozinha. Nasceu em Cianorte, no interior do Paraná, filho de pequenos agricultores, e abriu a banca em 1999. Chegou a mais de 1,1 mil advogados e cerca de 450 mil processos ativos. Em 2024 comandava 29 filiais, uma em cada unidade da federação, além de escritórios fora do país. A Forbes avaliou a fortuna dele em R$ 1,2 bilhão em 2020.
E se expôs de um jeito que não me lembro de ter visto outro advogado brasileiro, artista de rock ou jogador de futebol fazer. Exposição tresloucada, que incluía mostrar a rotina dos filhos pequenos em vídeos que os apresentavam em suas trivialidades transformadas em show.
As traquitanas típicas do estilo nouveau riche
Um dos seus três aviões, o Legacy 650 da Embraer, de uns US$ 26 milhões, deu tanto orgulho ao dono que ganhou filmezinho besta (disponível no YouTube), com o Nelsinho embarcando e viajando e curtindo a vida a bordo. As iniciais dele estão no helicóptero Leonardo AW169, de cerca de R$ 40 milhões. O Rolls-Royce Phantom de R$ 11 milhões com teto estrelado virou, em setembro de 2025, o veículo mais caro já retido pela Polícia Federal, e antes disso ganhou vídeo com drone e captação profissional, com Nelsinho ao volante dirigindo por São Paulo. E tem a mansão no Jardim Europa e a Ferrari. E todas as traquitanas típicas do estilo nouveau riche, como os relógios Richard Mille e Patek Philippe e a adega abarrotada de vinhos caros.
Virou o primeiro advogado a estampar a capa da Forbes, como ele gosta de lembrar. Aliás, entre todos os atributos possíveis, sua linha de apresentação no LinkedIn diz, literalmente, "Advogado (Lawyer) / Empreendedor / Capa da Revista Forbes No. 120". Escreveu livro, "Loucura, não. Coragem!", que traz no subtítulo comunicação e marketing para advogados e dá conselhos a jovens profissionais. Nas suas apresentações, se comparava ao Demolidor, o advogado cego da Marvel. E existe boneco colecionável do dr. Nelsinho. Já estive na plateia. Jovens advogados iam ao delírio com suas histórias.
São 1,5 milhão de seguidores no Instagram e 1,7 milhão no TikTok, o que fez dele celebridade digital no padrão Deolane Bezerra, que também entra no topo das listagens dos famosos da advocacia do Brasil.
Da vida de seriado para as acusações seriais
Não passa despercebida uma curiosidade. Tanto Nelsinho quanto Deolane estão em apuros, e nos dois casos aparece dinheiro de aposta. A advogada e influenciadora Deolane Bezerra foi presa em 4 de setembro de 2024 na Operação Integration, no Recife, que investigava lavagem de dinheiro e jogos ilegais. Saiu no fim daquele mês, quando o Tribunal de Justiça de Pernambuco considerou frágeis os indícios de autoria. Em 21 de maio de 2026 voltou à prisão, agora preventiva, na Operação Vérnix, que apura lavagem e ligação com o PCC.
Ironias do destino. Ele, que transformou a própria vida em seriado, agora enfrenta acusações em série.
Primeira temporada, Operação Sem Desconto. Em setembro de 2025 a Polícia Federal o incluiu na apuração dos descontos associativos não autorizados em aposentadorias e pensões do INSS. Relatórios do Coaf apontaram movimentações suspeitas de R$ 4,3 bilhões ligadas ao escritório entre 2019 e 2023. A PF pediu sua prisão preventiva, e o ministro André Mendonça negou.
Segunda temporada, Operação Distrato. Veio em julho de 2026, conduzida pelo Cira-SP, que reúne o Ministério Público paulista e a Secretaria da Fazenda estadual. O caso trata da comercialização de créditos de ICMS supostamente fraudulentos, com cifras acima de R$ 3,8 bilhões e 752 empresas relacionadas. Em nota, o escritório afirmou ter recebido as medidas com "serenidade, transparência e absoluto espírito colaborativo".
Terceira temporada, Operação Arena. No dia 13 de agosto de 2026 a PF foi atrás do uso de estruturas societárias para ocultar a origem e o destino de dinheiro ligado a apostas esportivas. Foram 17 mandados de busca e sequestro de até R$ 1,1 bilhão em bens. Levaram uma Ferrari F8, uma réplica de carro de Fórmula 1, obras de arte e relógios. Santiago Schunck, advogado dele, disse que a relação com a PixBet é estritamente profissional e que "o legítimo exercício da advocacia não deve ser indevidamente criminalizado".
Só nos tempos da Lava Jato me lembro de ter visto uma única pessoa como alvo de tantas operações da PF. No dia seguinte à Arena, em 14 de agosto de 2026, ele anunciou afastamento por tempo indeterminado do NWADV. A gestão passou a um comitê executivo. Na nota, o escritório disse que ele decidiu cuidar de assuntos familiares e segue à disposição das autoridades, e informou mais de 1,5 mil pessoas trabalhando na estrutura e mais de 15 mil clientes ativos.
Diga-se que ele não foi condenado em nenhum desses casos, por enquanto, longe disso. Em todos os casos ele é investigado. Não é réu. As investigações estão em curso, e ele alega inocência, afirma já ter apresentado documentos para comprovar o que diz.
Nos três casos, Nelson Wilians é investigado. Não é réu.
A queda de um príncipe da advocacia deixa muitas dúvidas em meio a esse imbróglio reputacional-legal-espetaculoso. O que o ocaso do advogado mais famoso do Brasil dirá sobre a advocacia? dr. Nelsinho era um malandrão que se escondia sob os holofotes? Malandro, ou mais uma vítima do denuncismo barato que já feriu muita gente boa? A Ordem, nossa OAB, tão cri-cri com a forma, chegou a olhar o conteúdo? Como os filhos dele, crianças, vão sofrer o impacto da exposição de um pai que agora tem a reputação na zona de sombra? E a sobrevivência do escritório ao afastamento do fundador, ainda que passageiro?
E ainda, a título de exercício retórico, e retórico é a palavra, podemos examinar duas hipóteses. Na primeira, o dr. Nelsinho se escondia atrás da ostentação, à luz do dia, do jeito que Gus Fring atendia a clientela no Los Pollos Hermanos, na série Breaking Bad. Na segunda, ele virou alvo da inveja e da gana de concorrentes incomodados com o tamanho dele. Cabe a quem acusa provar, e a ele se defender. O final dessa novela está longe.
Encontra Deus no céu quando se vê em apuros na terra.
O espalhafato deu lugar ao silêncio. Na CPMI do INSS, em 18 de setembro de 2025, ele recusou assinar o termo de compromisso com a verdade, respondeu "não" quando perguntado se assinaria, e se amparou num habeas corpus do ministro Nunes Marques que lhe garantia o direito ao silêncio. Uma semana depois a comissão aprovou requerimento de prisão preventiva contra ele, que acabou não se convertendo.
Calado na CPMI, enquanto isso, ele voltou a postar com mais comedimento em redes sociais. Num dos últimos posts aparece fotografado de armadura, capa vermelha nos ombros, espada na mão e escudo redondo com leão coroado em relevo, sobre a frase "Falo sobre aquilo que vivo". A couraça tem corte romano e o leão é heráldica medieval. Segundo a IA que consultei para entender a imagem, é a armadura de Deus da carta aos Efésios. Sem comparar pessoas, seus posts agora lembram o papo furado de quem encontra Deus no céu quando se vê em apuros na terra.
Há um detalhe de calendário no meio disso. Quem se recusou a assinar o compromisso com a verdade numa CPMI agora posta que fala sobre aquilo que vive. Como se o mundo que desaba fosse a cena de um seriado.
Quem mede a advocacia brasileira mede o que ela declara. A Ordem, ao seu modo, faz uma escolha parecida: regula a vitrine e não pergunta o que está guardado no estoque. O Provimento 205, de 2021, veda "em qualquer publicidade a ostentação de bens relativos ao exercício ou não da profissão, como uso de veículos, viagens, hospedagens", proíbe expressões de autoengrandecimento e define captação de clientela como o marketing que, de forma ativa, induz à contratação. Em maio de 2025 o Tribunal de Ética e Disciplina da OAB do Distrito Federal apurava contra ele uma denúncia de quebra de decoro, por palavras usadas numa peça processual, apresentada por uma advogada que foi sócia do escritório por doze anos. O escritório respondeu que já havia prestado os esclarecimentos.
O problema, ao fim e ao cabo, não é captar clientes. É o que se oferece a eles.
A exposição do dr. Nelsinho prestou um serviço involuntário ao mercado, porque mostrou, ainda que de forma enviesada, que marketing vai muito além de post besta e muxoxo em rede social. Uma banca com 1,1 mil advogados opera como empresa de volume, com escala e risco de empresa, e a ostentação, aceitemos, estava ali para trabalhar, para conquistar clientes. Ter um milhão e meio de seguidores no Instagram é ativo comercial, sob qualquer definição honesta de captação. O problema, ao fim e ao cabo, não é captar clientes. É o que se oferece a eles.
Duas crises correm ao mesmo tempo aqui, e obedecem a relógios diferentes. A crise policial tem número de processo e prazo, e termina com a decisão de um terceiro. Anos, no caso brasileiro. A crise de reputação dispensa autos. Quem a julga é cliente, empregado, banco e seguradora, em dias, e o veredito pode mudar a qualquer momento, sem aviso. Para perder reputação basta a suspeita perdurar.
O erro que eu vejo com frequência é responder uma dessas crises com o vocabulário da outra. Dizer que "o legítimo exercício da advocacia não deve ser indevidamente criminalizado" é correto no processo e inútil para o diretor jurídico que precisa explicar ao próprio conselho por que mantém aquela banca. Foi o que o escritório respondeu à Arena. No caso do dr. Nelsinho as duas crises se tocam num ponto só, a marca pessoal. Ele vendeu a banca com o próprio rosto, então o choque policial chegou à reputação da firma sem intermediário.
Reputação é o ativo mais caro que um escritório tem
No mercado jurídico, reputação é o ativo mais caro que um escritório tem. O afastamento do dono e o comitê executivo são a tentativa de cortar essa ligação depois do estouro. É um experimento em tempo real, com 1,5 mil funcionários e 15 mil clientes ativos como parte interessada.
Os filhos entram na conta mais difícil de fazer. A exposição deles tinha um preço que só aparece agora. Quem põe a família na marca pessoal entrega as crianças ao mesmo escrutínio que alcança o pai, e elas não assinaram esse contrato. Estão na zona de sombra da fama junto com ele, sem nada a ganhar com a parte boa.
O seriado do dr. Nelsinho ganhou temporadas novas, e elas vão ser decididas em juízo. O que sobra se resolve fora do tribunal. Um escritório de 1,5 mil pessoas sobrevive ao ocaso do fundador, ainda que passageiro, numa área em que reputação é, em tese, inegociável? Essa resposta o mercado vai dar, e ela vai ser didática para qualquer banca que tenha um sócio com marca pessoal maior que a da firma.
Aliás, registro que convidei o Nelson Wilians mais de uma vez para uma entrevista, nas condições que proponho a qualquer entrevistado. A gente grava, eu edito, ele revisa o texto e eu publico com a autorização prévia dele. Ele não quis.
Então, de um de seus posts mais recentes no Linkedin retiro uma frase, que, acredito, ele me diria:
"As palavras convencem, mas os exemplos arrastam."
Para aqueles que, como eu, são cristãos, há uma passagem em Josué 1:9 que sempre me inspira:
"Não fui eu que ordenei a você? Seja forte e corajoso! Não se apavore nem desanime, pois o Senhor, o seu Deus, estará com você por onde você andar."
Diante dos desafios, sigo em frente, procurando praticar os princípios de Deus, mantendo a fé e trazendo comigo a ordem dada a Josué: seja forte e corajoso.
E como cristão que também sou, encerro aqui com uma outra do Evangelho de Mateus (6:28-29):
"E por que se preocupar com a roupa? Observem como crescem os lírios do campo. Não trabalham nem fazem roupas e, no entanto, nem Salomão em toda a sua glória se vestiu como eles."
Por fim, tenho interesse especial no assunto. A publicação que ajudei a criar vinte anos atrás, a Análise Advocacia, apresentou seu escritório como o maior do Brasil desde as primeiras edições e lá ele ficou até o ano passado. Como é público e expresso, divulgamos números informados oficialmente pelos escritórios, sem checagem da redação, validação que, no nosso entendimento, cabe ao mercado. De qualquer forma, acho que tive uma minúscula participação na construção desse príncipe, que agora não experimenta seus melhores dias.
Alexandre Secco é editor e sócio Análise Editorial, consultor em comunicação estratégica e sócio da FrankDave Consultoria.

