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Nosso querido amigo Márcio Chaer

Minha homenagem a esse jornalista incrível, bem informado e inovador. Fará muita falta.

5 de Outubro 15h32
Jornalista Márcio Chaer, fundador do Conjur (Imagem: Antônio Augusto/STF).

Todas as pessoas que partem deixam vazios, maiores ou menores, por diferentes razões. Márcio Chaer deixa um enorme, e por várias razões, especialmente por levar consigo um conhecimento único sobre o Direito e a Justiça no Brasil, mas também por nos privar da sua personalidade generosa. Amigo dos amigos. Se a fórmula batida do sucesso é não tentar agradar a todos, esse parece ter sido seu mantra. Jornalista, ele conhecia Direito, conhecia a advocacia e sabia como poucas pessoas como funcionava o Judiciário por dentro, por suas figuras mais proeminentes, e por fora, segundo suas decisões, que são metodicamente compiladas, analisadas e publicadas diariamente pelo Consultor Jurídico, revista eletrônica fundada por ele.

Márcio morreu no sábado, 3 de outubro, no centro de São Paulo. Correu atrás do homem que tinha levado o celular dele na avenida Pedro Vicente, perto da estação Armênia do metrô de São Paulo. Passou mal. Não resistiu até a chegada do socorro.

Temos boas histórias juntos. As primeiras publicações da Análise Editorial, a Análise Justiça e a Análise Advocacia, foram ideias que eu e o Eduardo Oinegue trouxemos para criar a empresa. O Márcio, um velho conhecido, foi nosso consultor e parceiro. A Análise Justiça, de 2006, foi um estudo pioneiro de jurimetria, feito em planilhas de Excel. Levantamos dez anos de decisões do Superior Tribunal de Justiça (STJ) e do Supremo Tribunal Federal (STF) e classificamos essas decisões. Depois veio a Análise Advocacia, Os Mais Admirados do Direito. Foi, a meu ver, o primeiro guia transparente e objetivo da advocacia brasileira, com os escritórios organizados por número de advogados e um ranking feito a partir da votação dos clientes. Virou o guia que o mercado conhece.

O Márcio seguiu com o Consultor Jurídico e com os anuários que retratam o Poder Judiciário. O primeiro Anuário da Justiça saiu em 2007 e virou uma coleção abrangente, com 86 edições de 13 anuários diferentes.[1] São edições primorosas, com um levantamento de dados incrível, e viraram fonte de referência para a advocacia.

Nós, na Análise Editorial, hoje dirigida pela Silvana Quaglio, também fundadora da empresa, seguimos com a publicação voltada para o mercado da advocacia.

Antes de tudo isso, trabalhei com o Márcio em outra iniciativa que talvez possa ser chamada de inovadora. Fizemos juntos a coluna Leis e Negócios, na revista Exame, quando a revista era dirigida pelo Eduardo. Tratar o Direito como motor de negócios e não como mera burocracia para destravá-los. Foi a primeira coluna que percebeu o advogado como um agente da economia, fundamental para desenvolver o Brasil.

O Márcio criou a ConJur em 1997. Foi uma invenção. A revista revelava e noticiava as decisões dos tribunais quando a internet ainda engatinhava por aqui e não havia Google. Para publicar uma decisão era preciso ir atrás dela e revelar o que dizia. Trabalho jornalístico bruto. A ConJur continua sendo o guia do que se decide nos tribunais brasileiros. Em 2020, segundo a própria revista, o acervo passava de 300 mil textos.[2] Em 2021, segundo a Comscore, a ConJur teve média de 3,66 milhões de visitantes únicos por mês.[3]

Hoje pela manhã segui minha rotina, li os jornais e abri a ConJur, que encontrei funcionando a todo vapor. Por alguns instantes esqueci que o Márcio não estava mais por lá. Acho que é isso que se pode chamar de um grande legado, trabalhar tanto em alguma coisa que um dia ela funciona sem você. Claro, nunca será da mesma forma, nem com o mesmo espírito, mas espero que siga com os mesmos propósitos.

Tivemos muitas e muitas conversas nesses últimos 20 anos, e em todas ele mostrou o traço pelo qual é mais conhecido, a generosidade. Nunca deixava de citar as minhas contribuições no desenvolvimento daquelas revistas e de contar como aproveitou essas ideias para criar a série de guias sobre Justiça que a ConJur publica até hoje. Era a forma elegante dele de reconhecer ideias e o trabalho que fizemos juntos.

Deixo aqui a minha homenagem a esse jornalista incrível, muitas vezes polêmico, brigão, mas sempre generoso. Fará muita falta.

Meu amigo Márcio Chaer, vá em paz.

Fontes

  1. ConJur, "A história do Anuário da Justiça, contada por ele mesmo", 16/6/2026. 
  2. ConJur, reportagem sobre a audiência da revista, 17/5/2020. 
  3. ConJur, "Comscore aponta Poder 360 como principal site nacional de política", 1/12/2021. 
Alexandre SeccoMárcio Chaer