Todas as pessoas que partem deixam vazios, maiores ou menores, por diferentes razões. Márcio Chaer deixa um enorme, e por várias razões, especialmente por levar consigo um conhecimento único sobre o Direito e a Justiça no Brasil, mas também por nos privar da sua personalidade generosa. Amigo dos amigos. Se a fórmula batida do sucesso é não tentar agradar a todos, esse parece ter sido seu mantra. Jornalista, ele conhecia Direito, conhecia a advocacia e sabia como poucas pessoas como funcionava o Judiciário por dentro, por suas figuras mais proeminentes, e por fora, segundo suas decisões, que são metodicamente compiladas, analisadas e publicadas diariamente pelo Consultor Jurídico, revista eletrônica fundada por ele.
Márcio morreu no sábado, 3 de outubro, no centro de São Paulo. Correu atrás do homem que tinha levado o celular dele na avenida Pedro Vicente, perto da estação Armênia do metrô de São Paulo. Passou mal. Não resistiu até a chegada do socorro.
Temos boas histórias juntos. As primeiras publicações da Análise Editorial, a Análise Justiça e a Análise Advocacia, foram ideias que eu e o Eduardo Oinegue trouxemos para criar a empresa. O Márcio, um velho conhecido, foi nosso consultor e parceiro. A Análise Justiça, de 2006, foi um estudo pioneiro de jurimetria, feito em planilhas de Excel. Levantamos dez anos de decisões do Superior Tribunal de Justiça (STJ) e do Supremo Tribunal Federal (STF) e classificamos essas decisões. Depois veio a Análise Advocacia, Os Mais Admirados do Direito. Foi, a meu ver, o primeiro guia transparente e objetivo da advocacia brasileira, com os escritórios organizados por número de advogados e um ranking feito a partir da votação dos clientes. Virou o guia que o mercado conhece.
O Márcio seguiu com o Consultor Jurídico e com os anuários que retratam o Poder Judiciário. O primeiro Anuário da Justiça saiu em 2007 e virou uma coleção abrangente, com 86 edições de 13 anuários diferentes.[1] São edições primorosas, com um levantamento de dados incrível, e viraram fonte de referência para a advocacia.
Nós, na Análise Editorial, hoje dirigida pela Silvana Quaglio, também fundadora da empresa, seguimos com a publicação voltada para o mercado da advocacia.
Antes de tudo isso, trabalhei com o Márcio em outra iniciativa que talvez possa ser chamada de inovadora. Fizemos juntos a coluna Leis e Negócios, na revista Exame, quando a revista era dirigida pelo Eduardo. Tratar o Direito como motor de negócios e não como mera burocracia para destravá-los. Foi a primeira coluna que percebeu o advogado como um agente da economia, fundamental para desenvolver o Brasil.
O Márcio criou a ConJur em 1997. Foi uma invenção. A revista revelava e noticiava as decisões dos tribunais quando a internet ainda engatinhava por aqui e não havia Google. Para publicar uma decisão era preciso ir atrás dela e revelar o que dizia. Trabalho jornalístico bruto. A ConJur continua sendo o guia do que se decide nos tribunais brasileiros. Em 2020, segundo a própria revista, o acervo passava de 300 mil textos.[2] Em 2021, segundo a Comscore, a ConJur teve média de 3,66 milhões de visitantes únicos por mês.[3]
Hoje pela manhã segui minha rotina, li os jornais e abri a ConJur, que encontrei funcionando a todo vapor. Por alguns instantes esqueci que o Márcio não estava mais por lá. Acho que é isso que se pode chamar de um grande legado, trabalhar tanto em alguma coisa que um dia ela funciona sem você. Claro, nunca será da mesma forma, nem com o mesmo espírito, mas espero que siga com os mesmos propósitos.
Tivemos muitas e muitas conversas nesses últimos 20 anos, e em todas ele mostrou o traço pelo qual é mais conhecido, a generosidade. Nunca deixava de citar as minhas contribuições no desenvolvimento daquelas revistas e de contar como aproveitou essas ideias para criar a série de guias sobre Justiça que a ConJur publica até hoje. Era a forma elegante dele de reconhecer ideias e o trabalho que fizemos juntos.
Deixo aqui a minha homenagem a esse jornalista incrível, muitas vezes polêmico, brigão, mas sempre generoso. Fará muita falta.
Meu amigo Márcio Chaer, vá em paz.
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