Eu também fui trainee. Fiz o oitavo programa de trainees da Folha de São Paulo, e aquilo foi uma prova de resistência, a qual, diga-se, eu sobrevivi. Aquele jeitinho de preparar jovem profissional não muda muito de setor para setor.
No nosso mercado, o estágio também costuma ser uma espécie de corrida de obstáculos. Existem programas muito bem formatados, claro. Mas também existem, e são muitos, os baseados no "senta aí e faz", cheio de tarefa chata e repetitiva, sem explicação do porquê. Quem aguenta esse tipo de programa costuma ser chamado de "talento".
Por trás disso existe uma troca de interesses. Um ganha-ganha de verdade. O estudante ganha acesso ao mercado e a chance de virar efetivo um dia. Ganha também uma referência profissional que ajuda a começar o currículo. O escritório ganha gente disposta a aprender fazendo, por um salário de estagiário, e forma aos poucos quem vai assumir o trabalho mais complexo. Funcionou assim durante décadas, porque no fundo era um bom acordo para os dois lados.
A inteligência artificial abriu uma fissura nesse modelo. Ela já assumiu boa parte da tarefa chata e repetitiva que sobrava para o estagiário, e é exatamente aí que mora o problema. Os escritórios ainda precisam formar gente capaz de julgar o resultado do trabalho algorítmico, e essa gente aprendia o ofício fazendo, com a mão na massa, justamente o trabalho que a máquina fez desaparecer. Esse alguém, o estagiário, o advogado júnior, é exatamente o profissional que o mercado já está considerando descartar.
Muitos escritórios estão loucos para cortar vagas de estágio. Reduz custo e alivia a folha de pagamento. Parece decisão fácil. Só que fica a pergunta sem resposta. Sem estagiário e sem júnior passando pelo aprendizado, quem vai virar sócio daqui a dez anos?
KPMG teve uma ideia que parece bem pensada para lidar com esse caso. É uma das quatro maiores redes de auditoria e consultoria do mundo, o grupo que o mercado chama de big four. As outras três são Deloitte e EY, além da PwC. A empresa opera em 142 países, com mais de 275 mil sócios e funcionários, e presta auditoria independente e consultoria tributária, além de advisory, para empresa grande e para governo. Quando uma estrutura desse tamanho decide mudar a forma de formar gente nova, eu leio isso como um sinal para o resto do mercado de serviço profissional.
Em vez de cortar estagiário, decidiu investir ainda mais na formação deles
O caso foi tema de uma reportagem longa da revista Inc., publicação americana de negócios voltada para empreendedorismo e tendência de gestão. O desafio que a KPMG identificou aparece direto no texto. A inteligência artificial já tirou do estagiário boa parte da tarefa de entrada, e ninguém sabe ao certo de onde vai sair o próximo profissional experiente se ele nunca chegar a fazer esse tipo de tarefa. Uma pesquisa interna da própria KPMG mostrou que pensamento crítico e capacidade de resolver problema são, na visão dos próprios estagiários, as habilidades mais importantes para trabalhar ao lado da IA.
A resposta da KPMG foi estratégica. Em vez de cortar estagiário, decidiu investir ainda mais na formação deles. Ainda segundo a reportagem, "a empresa de serviços profissionais levou recentemente quase mil estagiários ao seu centro de treinamento Lakehouse, em Orlando, para um desenvolvimento intensivo em pensamento crítico, julgamento, comunicação e habilidades interpessoais"¹. O centro fica em Lake Nona, na Flórida, e tem 800 salas de aula². Existe para tirar o estagiário da tarefa de bater conciliação de planilha até tarde da noite e ensinar, de forma sistemática, quando confiar na automação e quando desconfiar dela.
Programas específicos foram criados dentro desse treinamento, um para cada área da firma, tributário e auditoria entre elas, reunidos no site da própria KPMG sob o nome "You Can with AI: Next Level Learning"³. A empresa também mantém um framework interno chamado Trusted AI, que o diretor de aprendizagem da firma, Mike Mather, descreveu como garantia de que a IA é usada "de forma ética, transparente, e de maneiras que protegem o cliente, a firma e o público"².
Segundo a Fortune, outra referência em jornalismo de negócios, que acompanhou pessoalmente uma dessas sessões, 600 estagiários de inverno, escolhidos entre 9 mil candidatos, passaram três dias no centro. Ali aprenderam um método batizado de "pense, comande, confira", que separa o momento de pensar no problema do momento de comandar a IA, e este do momento de conferir se o resultado faz sentido². Holly Ricker, diretora do time de aprendizagem da área tributária, contou à revista que o método "pegou" e virou bordão repetido pelos próprios estagiários².
A KPMG também criou o Embark Scholars, que recruta estudante de primeira geração ou de faculdade comunitária, antes mesmo de o estagiário pisar no escritório. O programa ensina Alteryx e SQL, ferramentas para limpar e cruzar dado bruto, e Power BI, que monta o painel visual que o cliente vê no fim. Ensinar isso pode parecer estranho, já que a própria IA também faz essas tarefas sozinha, mas segue a mesma lógica do "pense, comande, confira". Quem nunca escreveu uma consulta em SQL dificilmente reconhece uma consulta malfeita quando a máquina entrega uma.
A contratação de consultor júnior caiu cerca de 10%
Fora do Brasil, a mudança já aparece direto no número de vaga de entrada. Quem mediu isso foi a Revelio Labs, empresa americana especializada em transformar dado bruto de emprego, como vaga aberta e perfil profissional, em estatística confiável sobre o mercado de trabalho, hoje citada por veículo como a Bloomberg e a Reuters. Segundo o levantamento, a contratação de consultor júnior caiu cerca de 10% desde o pico de 2023, e em 2025 as vagas ligadas a IA já superam as vagas de consultor júnior nos maiores escritórios do setor, uma proporção que em 2015 era de quatro estagiários para cada vaga de IA. É o retrato mais direto do que a automação já fez com o primeiro degrau da carreira.
No Brasil, o corte aparece por outro ângulo, o da proporção entre estagiário e advogado, medido por quem viveu a mudança na própria carreira. Pedro Ivo Gricoli Iokoi, sócio da Iokoi, Paiva, Jonasson e Scalzaretto, contou à Análise. "Comecei numa época em que se chegou a ter três estagiários por advogado. Hoje a média é menos de um. Hoje tem muito menos espaço para essa relação de aprendizado, e isso é muito triste."
Iokoi não está sozinho nesse diagnóstico. Fernando Serec, CEO do TozziniFreire, escritório que mantém de 60 a 70 estagiários contratados por ano mesmo sob pressão interna para reduzir, vê o dilema prático de quem sustenta a formação apesar do custo. "Como treinar seu pessoal sem contratar estagiário, sem contratar júnior?"
Urbano Vitalino Neto, à frente do maior escritório full service do Brasil segundo o ranking Análise Advocacia 2026, com mais de 1.100 advogados no time, vê a saída pela redefinição de função. "O papel do estagiário e do júnior muda. Eles precisam se tornar usuários qualificados dessas tecnologias, não competidores." Juntos, os três descrevem o mesmo corte por ângulos diferentes, sem tratar como tragédia sem saída.
O resumo da ópera. Observe o que estão fazendo empresas como a KPMG. Trate bem seu estagiário. Jovem chega com energia, visão de mundo renovada, curiosidade e interesse, e isso murcha rápido numa rotina de tarefa repetitiva sem explicação do porquê. Quem lidera esses escritórios devia trocar a petição repetitiva pela formação de sócio. Ou você não pretende se aposentar? A big four deu esse passo por cálculo de sucessão. Sem perceber, o mercado que trata estágio como prova de resistência está cortando a mão que vai operar o sistema, e vai liderar o escritório, daqui a dez anos.
O tempo de estagiário como mão de obra barata acabou. Vem aí, o tempo da inteligência artificial cara. Mas essa é outra história.
Fique de olho em exemplos como o da KPMG, e pense melhor antes de cortar sua próxima turma de estagiário.
Paparique seu estagiário, você vai precisar de um sócio amanhã.
Alexandre Secco é editor e sócio Análise Editorial, consultor em comunicação estratégica e sócio da FrankDave Consultoria.
Notas
¹ Scott Hutcheson, "KPMG's Investment in Interns Reveals an AI Problem Companies Can't Ignore", Inc.com, 27 de agosto de 2026. https://www.inc.com/scott-hutcheson/kpmgs-investment-in-interns-reveals-an-ai-problem-companies-cant-ignore/91395960
² Fortune, "What is KPMG's Lake House? Working at a Big Four audit firm's internship AI training", 25 de janeiro de 2026. Fonte das 800 salas em Lake Nona, do método "pense, comande, confira", da sessão com 600 estagiários de inverno escolhidos entre 9 mil candidatos, da citação de Holly Ricker e da citação de Mike Mather sobre o framework Trusted AI. https://www.fortune.com/2026/01/25/what-is-kpmg-lake-house-working-at-big-4-audit-firm-internship-ai-training
³ KPMG, "Shaping Early-Career Success in the Age of AI", nomeando o programa "You Can with AI: Next Level Learning". https://kpmg.com/us/en/media/news/shaping-early-career-success-in-the-age-of-ai.html

