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Homens podem quebrar barreiras do machismo: saiba como

Por Júlia Godoy e Beatriz Tokechi Amaral, advogadas de Candido Martins Cukier Advogados

27 de March 14h38

O dia 8 de março é uma data significativa para refletirmos sobre as conquistas e os desafios ainda presentes na luta pela igualdade de gênero. Nos ambientes corporativos, essa reflexão se torna ainda mais urgente, considerando que a estrutura empresarial histórica tem sido predominantemente moldada por normas e práticas machistas. Como mulheres e advogadas, completamente imersas desde a época de estágio no mundo empresarial, observamos, ao longo dos anos, condutas de ex-colegas, chefes e clientes que podem ser verdadeiros obstáculos à caminhada feminina na conquista não só por cargos de liderança, mas no crescimento e desenvolvimento profissional como um todo.  Nesse sentido, é fundamental abordar o papel dos homens, independentemente do cargo hierárquico, na construção de um espaço de trabalho mais justo, inclusivo e livre de preconceitos.

Apesar de avanços notáveis nos últimos anos, a presença feminina em cargos de liderança e tomada de decisões ainda é significativamente inferior à dos homens. As mulheres enfrentam desafios diários, como a desvalorização do trabalho, assédio e a sobrecarga de responsabilidades profissionais e domésticas. Por isso, é imprescindível que os homens se envolvam ativamente nessa transformação. Para isso, desenvolvemos nos tópicos abaixo - que não pretendem ser exaustivos - um convite à reflexão sobre como essa transformação envolve um esforço coletivo de todos.

1. Reconhecer o privilégio e a desigualdade estrutural

O primeiro passo para qualquer mudança significativa é a conscientização. Homens precisam reconhecer seu privilégio, a desigualdade estrutural e como essas desigualdades impactam diretamente a vida profissional das mulheres. Para muitos homens, esse conceito pode parecer distante ou até desconfortável, pois implica admitir que há um benefício invisível e muitas vezes inconsciente associado não só ao seu gênero, mas a si próprio também. Muito provavelmente você revirou os olhos apenas de ler o título deste texto.  No entanto, a conscientização desse privilégio é fundamental para entender as dinâmicas de poder que perpetuam a desigualdade de gênero nas empresas.

A desigualdade estrutural no mercado de trabalho não é uma questão pontual ou de escolhas individuais. Ela é produto de um sistema construído ao longo de décadas, em que as mulheres enfrentam insistentes barreiras e obstáculos, como a discriminação salarial, a falta de acesso a cargos de liderança, o assédio sexual e a sobrecarga de responsabilidades familiares que limitam suas oportunidades profissionais. Homens, por outro lado, são muitas vezes favorecidos por uma rede de apoio institucional e social que os coloca em uma posição mais vantajosa desde o início de suas carreiras.

Esse favorecimento é explicado por Cida Bento, na medida em que "regras, processos, normas, ferramentas utilizadas no ambiente de trabalho preferem e fortalecem silenciosamente os que se consideram ´iguais´, atuando sistemicamente na transmissão da herança secular do grupo, no fenômeno que viemos chamando de pactos narcísicos"[1].

Para superar essa realidade, é necessário que os homens, especialmente os que estão em posições de poder, se disponham a questionar e revisar suas próprias atitudes e os valores que sustentam suas decisões cotidianas. A verdadeira transformação começa quando há a compreensão deque o sexismo não afeta apenas as mulheres, mas o ambiente de trabalho como um todo, criando um cenário de subaproveitamento de potencial e inovação.

2. Praticar a escuta ativa e o respeito às opiniões femininas

Em muitos ambientes corporativos, as mulheres têm suas vozes silenciadas ou ignoradas, mesmo quando estão em posições de poder. Muitas vezes, em reuniões e discussões, as contribuições das mulheres são minimizadas ou desconsideradas, o que pode levar a uma sensação de invisibilidade e desvalorização.

A escuta ativa é uma habilidade essencial no processo de comunicação eficaz e no fortalecimento das relações profissionais. Ela envolve não apenas ouvir o que a outra pessoa está dizendo, mas também mostrar interesse genuíno, refletir sobre o conteúdo da fala e garantir que a mensagem foi compreendida de forma precisa. Um exemplo claro é quando uma mulher faz uma sugestão ou contribui com uma ideia em uma reunião, mas essa ideia não recebe a devida atenção, até que um homem repita o mesmo pensamento e a ideia seja, então, reconhecida como relevante. Esse comportamento é uma forma sutil, mas poderosa, de marginalizar suas contribuições e reforçar a ideia de que suas vozes não têm o mesmo peso. Esse tipo de situação só impulsiona o sentimento de insegurança de mulheres com seu próprio trabalho, além da inerente frustração.

Homens, independentemente de sua posição hierárquica, devem praticar a escuta ativa, ouvindo as mulheres sem interromper e validando suas opiniões. Isso não se limita às reuniões formais, mas também se aplica a interações cotidianas. Quando um homem valida as contribuições de uma mulher, seja por um elogio direto, pela inclusão de suas ideias nas decisões ou pelo reconhecimento da qualidade de seu trabalho, ele está não apenas construindo um ambiente de respeito, mas também estimulando a confiança e o engajamento das mulheres em sua equipe.

3. Desafiar atitudes machistas e comportamentos preconceituosos

O machismo no ambiente corporativo muitas vezes se manifesta de maneira sutil, na forma de microagressões, estereótipos, piadas de conteúdo sexista e até em comentários que podem parecer inofensivos à primeira vista, mas que, cumulativamente, contribuem para a marginalização das mulheres. Homens devem ser aliados na construção de uma cultura organizacional igualitária para além da criação de políticas formais, que muitas vezes não são colocadas em prática, ou da implementação de ações pontuais. Isso significa não apenas evitar atitudes sexistas, mas também desafiar colegas (e clientes) que adotem comportamentos preconceituosos ou discriminatórios. Ser um aliado também implica manter linhas de comunicação abertas para que as mulheres se sintam à vontade de expor situações ou comentários que as deixaram desconfortáveis, sem que haja receio de serem recriminadas ou silenciadas por isso.

Assim, além de lidar com os comportamentos individuais, os homens também têm um papel crucial em desafiar o sexismo institucionalizado, que está embutido nas estruturas organizacionais. Isso pode envolver a revisão de processos de recrutamento, avaliação de desempenho, promoção e remuneração, por exemplo.

O silêncio diante de tais atitudes fortalece a perpetuação da cultura machista. Quando um homem toma a iniciativa de corrigir esse tipo de comportamento, ele se torna um exemplo a ser seguido por outros.

Conclusão: Um compromisso coletivo

A transformação de um ambiente corporativo machista para um espaço mais inclusivo e igualitário exige ação, tanto de mulheres quanto de homens. Homens que reconhecem seu papel de aliados têm o poder de contribuir significativamente para a mudança cultural dentro das organizações, quebrando barreiras, desafiando normas e criando um cenário onde todas as pessoas, independentemente de seu gênero, possam crescer e prosperar. O Dia Internacional das Mulheres é uma oportunidade para todos refletirem sobre o impacto de suas atitudes e, mais do que isso, se comprometerem com práticas diárias de respeito, equidade e apoio.

Beatriz Tokechi Amaral atua na área de societário do Candido Martins Cukier Advogados, com foco em conflitos societários. Possui experiência profissional tanto no setor privado quanto em órgãos públicos, especificamente com contencioso cível e empresarial.

Júlia Godoy é advogada atuante nas áreas de fusões e aquisições, societário, consultoria contratual, private equity e planejamento sucessório pelo escritório.

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