O mercado jurídico não caminha de forma descolada dos demais setores da economia. Aliás, enquanto prestadores de serviços, os escritórios de advocacia são duramente impactados em períodos ruins da economia brasileira e mundial, como parece ser o caso em 2025.
Alta do dólar, subida de juros, queda nas vendas do varejo, enfraquecimento do setor de bens de capital e retração do setor imobiliário são indicadores de mais um ano difícil para os empreendedores.
A esperada redução dos investimentos para ampliação ou desenvolvimentos de novos negócios e produtos e a redução das transações impactam diretamente o volume de serviços demandados dos advogados.
Neste cenário, os escritórios de advocacia, em especial aqueles que se estruturam no modelo full service, precisam acompanhar a movimentação do mercado e se adequar às suas demandas.
Colaboração e as áreas chamadas anticíclicas
A fórmula não é nova e tem se mostrado acertada. Para atravessar momentos de crise econômica os escritórios de advocacia precisam reforçar a atuação das chamadas áreas anticíclicas.
Em tempos de redução de investimento, fechamento de plantas e rompimento de contratos as disputas cíveis, societárias e trabalhistas, bem como os pedidos de recuperação judicial e falências, crescem. Para além das disputas, os empresários demandam uma orientação cuidadosa nessas áreas para que seus atos não levem a despesas ou disputas desnecessários.
Os advogados precisam estar preparados para apoiar os clientes em suas tomadas de decisão, auxiliando-os no planejamento de estratégias para enfretamento de um momento difícil.
Aqui surge a necessidade de uma cultura colaborativa bem instituída. É preciso que os advogados mais próximos aos clientes (normalmente aqueles presentes nas transações e no dia a dia societário da empresa) sejam estimulados a "trazer para o barco" advogados de outras áreas que melhor possam auxiliar seus clientes.
Não se trata de "gerar" demanda artificial, muito longe disso. Aqui a ideia é o advogado estar atento a oportunidades que vão além da sua área de atuação, usando a proximidade com o cliente para antever sua necessidade e fazer desse evento uma oportunidade para outros colegas mostrarem seu valor.
A facilidade de interação e colaboração entre os profissionais de diferentes práticas é o que permite um atendimento mais completo e eficiente, em especial em tempos de crise, levando ao cliente a segurança de estar sendo apoiado em todas as suas necessidades.
Todos saem ganhando. O escritório e seus profissionais ficam mais próximos aos clientes, assegurando um bom nível de trabalho e resultados e os clientes encontram o atendimento que precisam em um único lugar, o que, por diversas razões, tende a ser mais benéfico.
De um lado, o cliente não precisa se preocupar em garantir que seus assessores conheçam profundamente o seu negócio, o que reduz a necessidade de horas para tomada das melhores decisões, ponto fundamental em tempos de budget reduzido e decisões difíceis.
De outro, o escritório aumenta seus laços com os clientes, com envolvimento de mais profissionais de forma eficiente em um momento sensível, reduz a necessidade de investimentos para a realização de novas receitas e fortalece um ambiente colaborativo.
Assim, nos parece que o caminho passa pela formação de um escritório com as mais diversas áreas de atuação bem estruturadas, o afastamento de uma eventual visão de silos e o fortalecimento de uma cultura de colaboração.
Contra a corrente
Todos os anos, porém, mesmo em tempos de crise econômica, há áreas que prometem experimentar um crescimento estimulado por questões específicas e pontuais. Esse nos parece ser o caso das áreas Tributária e de Administrativo e Regulatório em 2025.
Com um cronograma de transição definido até 2033, a reforma da tributação sobre o consumo tem provocado um forte movimento nas empresas, que deve se intensificar ao longo dos próximos meses. Além disso, é sabido o desejo do governo federal e parte dos congressistas de realizar uma reforma na tributação da renda e da folha de salários. Eventuais projetos de lei nesse sentido demandarão estudos e planejamento dos empresários e seus assessores legais.
Aqui, importante aos advogados voltados à prática do direito tributário perceberem que uma reforma da tributação do consumo (ou da renda) tende a modificar sensivelmente modelos de negócios e gerar discussões que vão muito além das inconstitucionalidades ou ilegalidades de determinadas previsões.
Uma visão voltada ao negócio e ao que realmente importa ao cliente nesse momento pode definir a forma como o advogado tributarista se relacionará com seu cliente pelos próximos anos.
Ainda, há previsão de concessões nos setores de saneamento, energia, rodovias, ferrovias, portos e aeroportos. A complexidade e volume dos projetos naturalmente demandam o envolvimento de profissionais das mais diferentes áreas, com especial foco para direito administrativo e regulatório.
Vale notar que tanto em relação à reforma tributária quanto às concessões no setor de infraestrutura os advogados especializados em direito tributário, administrativo e regulatório tendem a ser líderes no relacionamento com os clientes e nos projetos, mas novamente aparece a necessidade da visão colaborativa, já que os impactos da reforma e a complexidade dos projetos demandarão conhecimentos técnicos diversos.
Uso da Tecnologia
Temos observado ano após ano a discussão sobre o impacto da tecnologia no setor jurídico. É verdade que as mudanças são perceptíveis em diversas frentes, mas também
é verdade que em determinadas frentes a tecnologia não tem causado impacto significativo.
É cedo para dizer qual será a evolução e impacto em 2025. Seria um exercício de adivinhação.
As ofertas são cada vez mais amplas e, certamente, seguirá sendo assim em 2025. É preciso perceber que a tecnologia não tem um fim em si mesma e pode servir de maneiras diferentes a depender dos objetivos e da forma de trabalhar adotados.
O que nos parece claro, assim, é a necessidade de estar próximo aos fornecedores de tecnologia para o setor jurídico, ter um time de profissionais dedicado ao tema e fortalecer uma cultura de inovação.
Somente desta forma será possível acessar, desenvolver e aplicar de maneira rápida e eficiente as inovações apresentadas.
Lembrando que em anos de crise, ser eficiente é fundamental para sobrevivência. Não estar pronto para entender e aplicar de forma ágil as ferramentas tecnológicas que permitam a realização de trabalhos de forma mais competitiva pode acarretar a perda de oportunidades que prometem ser escassas.
Da mesma forma, confundir uma cultura de inovação com a necessária adoção de toda e qualquer ferramenta apresentada pode representar um desvio de foco e recursos, o que pode ser igualmente danoso.
Em resumo, 2025 promete testar pilares importantes dos escritórios de advocacia full service, tais como a estratégia na estruturação das áreas de prática, a cultura colaborativa e a capacidade de inovação.
Giácomo Paro é sócio e CEO do Souto Correa Advogados. Possui mestrado em Direito Tributário pela USP, integra as áreas Tributária, Organização Patrimonial e de Energia do escritório, com especial foco na assessoria consultiva a clientes, tanto nacionais como estrangeiros. Sua atuação inclui ainda suporte tributário em temas societários (fusões e aquisições e reorganizações) e de planejamento sucessório, além de uma atuação destacada junto a empresas de Tecnologia.
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