Vou ser honesto. Minha cabeça sobre IA e advocacia muda conforme a última conversa que tive. Como oscilo demais para confiar no meu próprio humor, fui atrás de dados. É típico de um momento assim, com muito mais pergunta do que resposta. Já deixei aqui uma série de comentários assustados, meio em pânico. Para variar, resolvi reunir, com base em números, algumas razões para acreditar. Leiam todos com cautela, porque boa parte tem como referência o mercado norte-americano. De todo jeito, são sinais.
1. A IA engole tarefas, uma a uma
O número que mais me assustou tem uma leitura otimista escondida. O Goldman Sachs estimou, em 2023, que a IA generativa poderia automatizar o equivalente a 44% das tarefas jurídicas. Reparei numa palavra, tarefas. O mesmo estudo lembra que, historicamente, o trabalho destruído pela inovação costuma ser compensado por trabalho novo. A McKinsey já tinha mostrado a lógica em 2017: menos de 5% das ocupações são totalmente automatizáveis, ainda que cerca de 60% tenham ao menos 30% das atividades automatizáveis. A máquina fatia o meu dia; ela não se senta na minha cadeira.
2. O tempo que a IA me devolve
Uma pesquisa da Thomson Reuters com mais de 2.200 profissionais estimou que a IA pode devolver cerca de 12 horas por semana ao trabalho jurídico dentro de cinco anos. Doze horas. É quase um dia e meio que eu passaria fora da parte mecânica do ofício e dentro da parte de que gosto, pensar o caso. Para um advogado nos Estados Unidos, o relatório traduz isso em algo em torno de 100 mil dólares por ano em horas faturáveis.
3. A vaga de advogado não evaporou
Se a profissão fosse mesmo acabar, o dado de emprego já mostraria a sangria. Não mostra. O Occupational Outlook Handbook, do órgão de estatísticas do trabalho dos Estados Unidos, projeta crescimento de 4% no emprego de advogados entre 2024 e 2034, em linha com a média das ocupações. É um dado americano, e eu leria com cautela antes de aplicá-lo ao Brasil. Mesmo assim, é o retrato de um setor que segue de pé.
4. O gargalo é requalificação, e requalificação tem conserto
O Fórum Econômico Mundial estima que 44% das competências dos trabalhadores serão transformadas até 2027 e que seis em cada dez pessoas vão precisar de treinamento nesse período. Assusta. Só que o mesmo relatório aponta que 82% das empresas pretendem investir na formação dos funcionários. Empresa que pretende treinar é empresa que pretende manter. O desafio aqui é aprender de novo, algo que a advocacia sempre exigiu de quem a exerce.
5. O que a IA faz pior é o miolo do Direito
Aqui entro no terreno da opinião, sem número para me apoiar. A IA redige rápido e pesquisa bem. Ela não sustenta uma tese diante de um juiz irritado nem assume responsabilidade ética por um parecer. Ler o medo no silêncio de um cliente também segue sendo tarefa humana. O valor do advogado se concentra onde há ambiguidade e risco, e é justamente aí que a máquina ainda tropeça.
6. A IA aumenta o bolo que a advocacia protege
Se a tecnologia cumprir metade da promessa econômica, sobra trabalho jurídico. A PwC projetou que a IA pode acrescentar 14% ao PIB global até 2030, algo como 15,7 trilhões de dólares. Economia maior produz mais contratos para escrever e mais conflitos para resolver, e é o advogado quem faz esse serviço.
7. Nasce uma especialidade inteira: regular a própria IA
A tecnologia que assusta a advocacia também criou uma área nova para a advocacia. Em agosto de 2024 entrou em vigor o AI Act da União Europeia, a primeira lei ampla sobre inteligência artificial no mundo. Regra assim gera demanda por quem entende de conformidade e de responsabilidade algorítmica. Alguém vai advogar sobre IA, e prefiro que seja gente da minha área.
8. O litígio sobre IA já começou
Onde há tecnologia nova e muito dinheiro, aparece disputa. Direitos autorais sobre dados de treino e uso indevido de modelos já rendem processo mundo afora. Não vou citar caso específico que eu não tenha conferido, mas a direção é visível para quem lê as manchetes. E litígio é matéria-prima de advogado.
9. A habilidade mais valorizada é justamente a minha
No mesmo levantamento do Fórum Econômico Mundial, a competência que mais empresas apontam como central é o pensamento analítico. Reparei nisso e sorri. Separar o que importa do ruído e antecipar o argumento do outro lado é o que a faculdade de Direito tenta ensinar há séculos. A IA cobra exatamente a habilidade que eu já deveria ter afiada.
10. Já vivemos esse filme, e a profissão continuou de pé
Toda onda tecnológica chegou anunciando o fim de alguma profissão, e a profissão se transformou em vez de sumir. A planilha eletrônica mudou o trabalho do contador sem extingui-lo. Quando a pesquisa jurídica foi para a tela, o que acabou foi a ida à biblioteca, e o escritório continuou lá. Aposto que a IA entra nessa mesma linhagem. Vou seguir advogado, só que gastando menos tempo com aquilo que sempre detestei fazer.
Amanhã posso almoçar de novo com o amigo do escritório automatizado e voltar ao pânico. Tudo bem. Nos dias de pânico, volto a esta lista.
Nota de transparência e fontes
Não inventei nenhum número. Cada dado abaixo foi conferido na fonte original. Onde não tinha fonte confiável, escrevi como opinião assumida (sinais 5, 8 e 10) e avisei no texto.
44% das tarefas jurídicas automatizáveis e a ressalva sobre criação de novos empregos: Goldman Sachs, The Potentially Large Effects of Artificial Intelligence on Economic Growth (março de 2023). Cobertura: Law.com.
Menos de 5% das ocupações totalmente automatizáveis / 60% com ao menos 30% das atividades automatizáveis: McKinsey Global Institute, A Future That Works (janeiro de 2017). Relatório.
12 horas por semana economizadas / ~US$ 100 mil/ano por advogado nos EUA / 2.200+ profissionais: Thomson Reuters, Future of Professionals Report 2024 (julho de 2024). Comunicado.
Emprego de advogados: +4% entre 2024 e 2034 (EUA): U.S. Bureau of Labor Statistics, Occupational Outlook Handbook - Lawyers. Página oficial.
44% das competências transformadas até 2027 / seis em dez precisam de treino / 82% das empresas vão investir em formação / pensamento analítico como competência mais valorizada: World Economic Forum, Future of Jobs Report 2023 (maio de 2023). Relatório.
IA pode acrescentar 14% ao PIB global até 2030 (~US$ 15,7 trilhões): PwC, Sizing the Prize (2017). Estudo.
AI Act da União Europeia em vigor desde 1º de agosto de 2024, primeira lei ampla de IA do mundo: Comissão Europeia. Página oficial.
Alexandre Secco é advogado e jornalista. É sócio da FrankDave e da Análise Editorial, onde desenvolveu e dirigiu o ranking dos advogados Mais Admirados do Brasil.

