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Como proteger a advocacia da Enter e da tropa que vem disputar com ela

A OAB tem o conhecimento jurídico e a representatividade para ajudar a construir uma regulação moderna para colocar limites para empresas de IA

3 de Novembro 17h37

A julgar pelo que sabemos sobre os grandes negócios criados e investidos no Vale do Silício, a Enter pode estar sendo pressionada a seguir aquele famoso modelo de terra arrasada.

A Enter é uma startup brasileira de inteligência artificial jurídica. Sua plataforma analisa processos e redige minutas de peças para departamentos jurídicos de grandes empresas.¹ Pelo que a própria empresa divulga, processa mais de 300 mil casos por ano para mais de 40 grandes clientes, entre eles o Airbnb. Em maio, recebeu 100 milhões de dólares numa rodada liderada pelo fundo americano Founders Fund e passou a valer 1,2 bilhão de dólares.²

A Enter é um negócio brilhante. Curiosamente, o maior negócio jurídico do século nasceu fora de um escritório. Mais curioso ainda, a Enter usou tudo o que todo escritório pode usar, uma tecnologia relativamente barata e acessível, sem ter o que só bons escritórios têm: conhecimento jurídico.

Opinião em rede social gera julgamento pelo título. Foi o que aconteceu com o artigo que publiquei sobre a ação civil pública que a seccional paulista da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-SP) moveu contra a Enter.¹ Escrevi ali que a ação era uma tentativa de jogar para a plateia. Houve quem lesse uma defesa da empresa.

Processar a Enter é como atacar a Coca-Cola para combater o excesso de açúcar nos refrigerantes. O mercado da Enter já tem o Google, a Anthropic e a OpenAI, todas com soluções para a advocacia. Em fevereiro, a Anthropic lançou um pacote jurídico para o Claude que revisa contratos e faz triagem de acordos de confidencialidade. No dia do anúncio, as ações da Thomson Reuters chegaram a cair 18%.³ Em agosto, o Google lançou em versão de teste o Gemini Enterprise for Legal, com agentes conectados aos sistemas de documentos e de pesquisa jurídica dos escritórios, e teve Cleary Gottlieb, Freshfields, Weil e Williams & Connolly como primeiros clientes.⁴ Em setembro, a OpenAI, dona do ChatGPT, lançou o Astra for Law, versão do seu modelo mais recente para pesquisa, redação e criação de aplicativos para advogados.⁵

Atrás das gigantes vem a fila das startups. A sueca Legora anunciou em outubro uma rodada de 550 milhões de dólares que a avaliou em 8,8 bilhões.⁶ A americana Harvey vale 15,5 bilhões de dólares, segundo a própria empresa.⁷ Perto desses competidores de barra pesada, a Enter fica pequenininha.

Vamos processar todos? Ou vamos atacar o problema na origem, que é a necessidade de regular, estabelecer travas e critérios de concorrência adequados.

A OAB pode ganhar, a Enter pode perder, mas as big techs não vão largar o osso de um mercado que gera mais de 40 milhões de processos por ano. Em 2025, a Justiça brasileira recebeu 40,9 milhões de casos novos, segundo o Conselho Nacional de Justiça (CNJ).⁸

O modelo da terra arrasada tem roteiro conhecido. A empresa surfa em investimento pesado, cobra preço baixo e cresce em mercado desregulado, onde pode deitar e rolar. Passa anos no prejuízo à espera do retorno. A Uber acumulou 30,6 bilhões de dólares de prejuízo até o fim de 2023, ano em que fechou com lucro pela primeira vez desde que abriu o capital.⁹ ¹⁰

Nesse período, a concorrência é destroçada. Foi o que viveram os taxistas no Brasil. O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) estima que havia cerca de 600 mil taxistas no país em 2015. No fim de 2022, a pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) contava 463 mil taxistas sem aplicativo e quase 70 mil que trabalham com aplicativo de táxi. A renda média mensal do taxista, que era de 3.150 reais em 2015, caiu cerca de um quarto com a chegada das plataformas, segundo o Ipea. Em 2022, o taxista sem aplicativo ganhava em média 2.417 reais.¹¹

A inovação chega antes e a regulação vem depois. Quando a regra aparece, o mercado já aderiu ao produto e a concorrência foi esmagada. A OAB precisa entender que tem a oportunidade de uma vida: regular de forma inteligente enquanto é tempo.

A partir daí vem a conta, porque os investidores querem seu dinheiro de volta. A tecnologia que parecia barata fica mais cara, e o que era facilidade passa a pesar na linha de custo. No Brasil, isso já aparece no índice oficial de inflação. Em 2025, o transporte por aplicativo ficou 56,08% mais caro, segundo o IBGE, num ano em que o IPCA subiu 4,26%.¹² Nos Estados Unidos, o preço médio da corrida da Uber subiu 92% entre 2018 e 2021, segundo dados da Rakuten citados pela revista Slate.¹³

Se o roteiro se repetir na advocacia, o conhecimento dos advogados vai alimentar a tecnologia que compete com eles. Hoje a Enter conta com advogados que escrevem teses e petições para alimentar suas bases de dados.

Deter esse modelo é difícil, e a regra acaba chegando. A Uber tratou motoristas como autônomos por anos, até a Suprema Corte do Reino Unido decidir, em fevereiro de 2021, que eles são trabalhadores, com direito a salário mínimo e férias.¹⁴ O Tribunal de Justiça da União Europeia confirmou em julho de 2026 a multa de 4,1 bilhões de euros ao Google por abuso de posição dominante no Android.¹⁵ No Brasil, o iFood fechou acordo com o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) em fevereiro de 2023 e passou a ter limite para contratos de exclusividade com restaurantes.¹⁶

Proibir costuma dar errado. Leis municipais que barravam os aplicativos de transporte caíram no Supremo Tribunal Federal em maio de 2019, por ferir a livre iniciativa e a livre concorrência.¹⁷ Ficou de pé a regulação. Um ano antes, o Congresso tinha aprovado a Lei 13.640, que deu aos municípios o poder de fiscalizar o serviço e exigiu do motorista carteira com atividade remunerada e certidão negativa de antecedentes criminais.¹⁸ E a regulação, quando vem, tem efeito. Nova York passou a exigir licença da prefeitura para o aluguel de curta temporada a partir de setembro de 2023. Em um ano, os anúncios de curta temporada do Airbnb na cidade caíram 83%, segundo a consultoria AirDNA.¹⁹

O que decide essa batalha é regulação severa, forte, rápida.

A OAB tem à sua disposição o que há de mais valioso nessa discussão, o conhecimento jurídico, para promover, encampar e liderar o processo regulatório que estabeleça limites para as empresas de IA na advocacia. Há um exemplo recente. Em maio de 2025, a Solicitors Regulation Authority (SRA), órgão que regula os advogados na Inglaterra e no País de Gales, autorizou a Garfield.Law, que o órgão descreveu como o primeiro escritório baseado só em IA, a ajudar pequenas e médias empresas a cobrar dívidas no juizado de pequenas causas. Com condições. Advogados identificados respondem por tudo o que o sistema produz, a máquina só dá um passo com aprovação do cliente, não pode sugerir jurisprudência e o escritório precisa ter seguro.²⁰

Aqui há espaço para fazer o mesmo. Em novembro de 2024, o Conselho Federal da OAB aprovou recomendações para advogados e escritórios que usam IA generativa.²¹ O projeto do marco legal da inteligência artificial, o PL 2338/2023, tem relator na comissão especial da Câmara dos Deputados desde maio de 2025 e ainda espera o parecer.²² A Ordem pode levar a esse debate as regras sobre quem responde pela peça feita com máquina e sobre como se audita o sistema que a produz. Esse é o papel que eu espero dos líderes da advocacia no Brasil.

Eu ainda vou a um médico de carne e osso, o mesmo há 20 anos. Quando fiz uma reforma recentemente, contratei um arquiteto, uma pessoa, que me visitou e conheceu a minha casa antes de começar o trabalho. Acredito em pessoas e em inteligência humana. Para mim os advogados são indispensáveis para que se faça justiça e para que as pessoas obtenham os seus direitos. Vejo o advogado como o anteparo que a sociedade tem diante de um Estado sempre tentado a ultrapassar seus limites.

Estamos no mesmo barco. Eu só não acho que a gente possa tapar o sol com a peneira. Essa parafernália tecnológica, que já produz fissuras no nosso mercado, precisa ser enfrentada com uma atitude do século XXI, com as armas do século XXI.

Fontes

  1. Lawletter, 07/10/2026. OAB-SP ajuíza ação contra a Enter; empresa se manifesta. Processo 5031169-20.2026.4.03.6100, 4ª Vara Cível Federal de São Paulo.
  2. Forbes Brasil, 05/05/2026. Startup jurídica Enter vira unicórnio de IA com rodada de US$ 100 milhões liderada pelo Founders Fund.
  3. ComplexDiscovery, 04/02/2026. Market reaction or overreaction? Anthropic's legal plugin and the facts so far.
  4. IT Brief, 27/08/2026. Google Cloud unveils Gemini Enterprise for legal teams. Artificial Lawyer, 25/08/2026. Google Launches Gemini Enterprise for Legal.
  5. Reuters via The Star, 18/09/2026. OpenAI launches legal-focused AI platform, escalating race for law firm users. Cybernews. OpenAI targets the legal market with AI built for lawyers.
  6. TechCrunch, 21/10/2026. Legal AI startup Legora raises $550M Series E at $8.8B valuation.
  7. Blog da Harvey, 09/09/2026. Harvey raises $550M at a $15.5B valuation.
  8. Conjur, 29/06/2026, com dados do Justiça em Números 2026 do CNJ. Juízes reduzem acervo de processos no Brasil com recordes.
  9. SEC. Uber Technologies, Form 10-K, exercício 2023, fatores de risco.
  10. Gulf News, 07/02/2024. Uber posts first annual net profit since IPO.
  11. Ipea, Boletim Mercado de Trabalho nº 77, abril de 2024, p. 175 e 187, com dados da PNAD Contínua do IBGE. Plataformização e precarização do trabalho de motoristas e entregadores no Brasil.
  12. IBGE, 09/01/2026. IPCA vai a 0,33% em dezembro e fecha o ano em 4,26%.
  13. Slate, maio de 2022, com dados da Rakuten Intelligence. Uber prices will rise to meet the company's newly urgent quest for profits.
  14. Fleet News, 19/02/2021. Supreme Court rules Uber drivers are workers.
  15. Olhar Digital, 02/07/2026. Google sofre derrota histórica e terá de pagar multa bilionária na Europa.
  16. Baguete, 09/02/2023. Cade limita contratos de exclusividade da iFood.
  17. Poder360, julgamento de 09/05/2019. STF limita legislação de municípios sobre transporte particular por aplicativos.
  18. Planalto. Lei nº 13.640, de 26 de março de 2018.
  19. Fortune, 04/09/2024, com dados da AirDNA. Airbnb asks NYC to roll back short-term rental law as listings plummet over 80%.
  20. Solicitors Regulation Authority, 06/05/2025. SRA approves first AI-driven law firm.
  21. Conselho Federal da OAB, 13/11/2024. Confira versão final da recomendação do CFOAB sobre o uso de IA na prática jurídica.
  22. Câmara dos Deputados. PL 2338/2023, ficha de tramitação. Situação conferida em 20/10/2026.
Alexandre SeccoEnter