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Com IA, seus honorários podem ser muito maiores ou muito menores

Enquanto o gasto com tecnologia bate recorde, 90% da receita dos escritórios ainda depende da hora faturada. Com a IA, a cobrança tradicional passa a destruir margem em vez de gerar lucro

31 de Agosto 16h10

Números sobre honorários no Brasil não existem. Os escritórios daqui não revelam quanto cobram de honorários nem quanto recebem de fato depois de desconto, e sem divulgação não há série histórica que se possa analisar. Por isso este texto trabalha com dados americanos, que estão abertos e auditados há décadas. A IA que chega ao escritório de São Paulo é a mesma que chegou ao de Nova York, e o cliente brasileiro vai fazer a mesma pergunta que o americano já está fazendo. O que muda é o atraso.

Os honorários dos escritórios americanos subiram 7,4% em 2025, com inflação de 2,8% no mesmo período. ¹A média dos advogados das cem maiores bancas dos Estados Unidos passou dos mil dólares por hora pela primeira vez, e há advogados cobrando dois mil. ²No mesmo ano o gasto com tecnologia nesses escritórios cresceu 9,7%, o avanço real mais rápido já registrado pelo levantamento anual de Thomson Reuters e Georgetown. ³Preço subindo ao dobro da inflação enquanto o custo de produzir cai. Os dois números convivem hoje e não vão conviver por muito tempo.

Noventa por cento do dinheiro que entra nesses escritórios ainda passa pela hora faturada, num arranjo que vem dos anos 1950. O dado é do 2026 State of the US Legal Market Report, produzido por Thomson Reuters com o Georgetown Law Center on Ethics and the Legal Profession. ⁴Do outro lado da mesa, a paciência acabou. Entre os profissionais de departamento jurídico ouvidos pelo Future of Professionals 2026, 71% esperam que os escritórios mudem o modelo comercial; 28% dos escritórios mudaram. ⁵Uma pesquisa da BigHand com mais de 800 líderes financeiros de bancas americanas e britânicas registrou 100% de respostas dizendo que a IA já afetou a estratégia de preço, e cerca de um terço de modelos efetivamente revisados.⁶

Eis cinco desfechos possíveis para o preço:

Cobra muito mais

Se você montar sistemas preditivos eficientes, que aumentam a taxa de certeza sobre a resolução de uma demanda. Quem entrega ao cliente uma probabilidade sustentada em histórico de decisões vende redução de incerteza, e isso tem preço próprio, sem relação com o relógio.

Cobra mais

Porque você vai poder resolver os problemas do cliente com maior rapidez. Prazo é preço em qualquer mercado. O parecer que sai em dois dias vale mais que o mesmo parecer em duas semanas, e o cliente sabe disso antes do advogado.

Cobra igual

Se você estiver vivendo em um sonho. O reajuste de 7,4% saiu de um mercado que ainda topava pagar por hora, e esse mercado está sendo reprecificado por dentro. No Future of Professionals 2026, 77% dos clientes classificam como muito importante ou indispensável o ganho de qualidade que a IA permite, e 5% dizem receber isso da maioria dos seus prestadores. Outros 32% dos jurídicos internos estão reavaliando com quais escritórios seguem nos próximos doze meses.⁷

Cobra menos

Porque você vai ter ganhos de produtividade relacionados a tarefas repetitivas executadas por IA. Triagem documental e pesquisa de jurisprudência encolhem de semana para tarde, e o cliente que sabe disso pede o desconto antes de você oferecer.

Cobra muito menos

Se você tiver uma política de honorários baseada em horas de serviços prestados. Aqui a conta vira contra a banca. Cada hora que a máquina poupa é uma hora que some da fatura, e a eficiência passa a destruir receita em vez de gerar margem.

O que você vai escolher?

A escolha entre o primeiro desfecho e o último depende de uma conta antiga, a de saber quanto custa produzir o que se vende. Defendo que a banca sem essa conta na mão vai descobrir o próprio preço pelo pior método disponível, que é o cliente avisando quanto pretende pagar. Me pergunto quantos advogados estão preparados para refazer suas contas.

Fontes

  1. Thomson Reuters Institute, Law Firm Rates Report 2026, 20/10/2025 — honorários +7,4% em 2025, inflação de 2,8%. https://www.thomsonreuters.com/en-us/posts/legal/law-firm-rates-report-2026/
  2. Thomson Reuters Institute, The $2,000 hour problem — média do Am Law 100 acima de US$ 1.000/h, advogados em US$ 2.000/h. https://legal.thomsonreuters.com/blog/the-2000-hour-problem-when-ai-efficiency-collides-with-billable-time-tri/
  3. 2026: State of the US Legal Market Report (Thomson Reuters + Georgetown), jan/2026, via LawSites — tecnologia +9,7%. https://www.lawnext.com/2026/01/legal-tech-spending-surges-9-7-as-firms-race-to-integrate-ai-says-report-on-state-of-legal-market.html
  4. Thomson Reuters, The legal market at a crossroads, 02/08/2026 — os 90% do dinheiro pela hora faturada. https://legal.thomsonreuters.com/blog/the-legal-market-at-a-crossroads-5-forces-reshaping-law-firm-success-in-2026/
  5. e 7. Thomson Reuters Institute, Future of Professionals 2026 — Legal Report, 736 respostas em 46 países, mar-abr/2026 — os 71%, 28%, 77%, 5% e 32%. https://www.thomsonreuters.com/en/institute/future-of-professionals-2026/report-legal
  6. BigHand, 2025 Legal Pricing and Budgeting Trends, 800+ líderes financeiros dos EUA e Reino Unido — os 100% e o um terço. https://www.bighand.com/en-us/resources/blog/ai-and-tech-reshaping-pricing-strategies/


    Alexandre Secco é sócio e editor da Análise Editorial e consultor em comunicação estratégica.
Alexandre Secco