A primeira é a IA. Em relatório de 2023, o Goldman Sachs colocou o direito entre as áreas mais expostas à automação: 44% das tarefas jurídicas poderiam ser feitas por máquina. Boa parte disso já roda em pesquisa e minuta dentro dos escritórios.
A segunda é a reforma tributária. A partir de 2026, entram IBS e CBS no lugar do modelo atual, e as sociedades de advogados perdem regimes especiais do ISS. Escritório que fatura serviço e tem poucos insumos a creditar tende a ver a carga subir. Some-se a cobrança no domicílio do cliente, e a conta de muita banca muda de figura.
A terceira é estrutural. O mercado brasileiro é dos mais pulverizados do mundo, com mais de 1,3 milhão de advogados espalhados por milhares de bancas e cerca de 30% dos escritórios fechando antes de completar um ano. Compare com os Estados Unidos, onde cem escritórios, o grupo do Am Law 100, somam perto de US$ 160 bilhões, quase 40% de um setor de aproximadamente US$ 400 bilhões. Enquanto o topo americano concentra a maior parte da receita, no Brasil ela se dilui entre milhares de bancas.
No meio disso tudo, boa parte dos escritórios ainda não se enxerga como empresa. Trata gestão e estratégia como assunto secundário, como se olhar para o próprio negócio atrapalhasse o trabalho de advogar. Essa teimosia cobra caro: trava fusões e aquisições, e emperra até a associação informal entre bancas que se completariam bem.
E é aí que pode estar a saída. Fundir traz ganho de escala e dilui o custo fixo. Também dá fôlego para investir em tecnologia e aguentar a pressão tributária. Deixou de ser sinal de fraqueza para virar decisão de quem pretende continuar de pé na próxima década.
Alexandre Secco é sócio e editor da Análise Editorial e consultor em comunicação estratégica.
Fontes
IA — Goldman Sachs (2023), via The Globe and Mail
Reforma tributária, Thomson Reuters e Am Law 100 / mercado EUA — The American Lawyer e GlobeNewswire/IBISWorld (setor ~US$ 404 bi)

