A nova dinâmica das reestruturações empresariais no país | Análise
Análise

A nova dinâmica das reestruturações empresariais no país

Por Amin Murad, sócio fundador da Arm Gestão

14 de April 11h08

Em um ambiente de crédito mais restritivo, juros elevados e maior seletividade por parte dos investidores, as reestruturações empresariais voltam ao centro do debate econômico no Brasil. Mais do que eventos pontuais, esses processos têm refletido uma mudança estrutural na forma como empresas e credores lidam com situações de crise financeira: com negociações cada vez mais sofisticadas, preventivas e, em muitos casos, conduzidas fora do Judiciário.

Nesse contexto, o pedido de recuperação extrajudicial da Raízen, envolvendo R$ 65 bilhões em dívidas financeiras quirografárias, credores em múltiplas jurisdições e 47% de adesão inicial, oferece um bom ponto de partida para refletir sobre as dinâmicas atuais desse tipo de operação.

Em uma recuperação extrajudicial ou judicial, o sucesso do processo depende essencialmente da capacidade de a empresa alcançar a adesão de mais de 50% dos credores sujeitos ao acordo. A recuperação extrajudicial, em especial, pressupõe um alto grau de negociação prévia, e isso se reflete no caso em questão. Um plano que nasce com cerca de 47% de adesão indica que houve construção relevante fora do Judiciário, o que tende a tornar o processo mais célere e menos oneroso.

Ainda assim, o desafio não deve ser subestimado. Credores institucionais, especialmente aqueles com maior exposição ou presença internacional, tendem a pressionar por termos mais robustos, incluindo reforço de garantias, ajustes de governança e, frequentemente, aportes adicionais de capital. Trata-se de um comportamento esperado, alinhado à lógica de maximização de recuperação de crédito, mas que pode tensionar a equação financeira do devedor.

Outro ponto central é a crescente complexidade dessas operações. Processos envolvendo múltiplas jurisdições e estruturas de dívida diversificadas exigem coordenação sofisticada entre assessores legais, financeiros e stakeholders. A recuperação extrajudicial, embora mais célere, não é menos exigente. Ao contrário, demanda disciplina, transparência e capacidade de execução desde a fase preparatória.

Esse movimento não ocorre de forma isolada. Nos últimos anos, observa-se um aumento consistente no volume e na relevância das reestruturações no país, refletindo um ambiente macroeconômico ainda desafiador, marcado por juros elevados, restrição de crédito e maior seletividade dos investidores. Setores como energia, varejo e agronegócio, têm sido particularmente impactados, com estruturas de endividamento mais pressionadas e menor margem para refinanciamento.

Além disso, a evolução recente do arcabouço legal, especialmente após a reforma na Lei de Recuperação e Falências em 2020, tem ampliado o uso de instrumentos como a recuperação extrajudicial, que ganha protagonismo como alternativa mais eficiente em cenários onde há disposição negocial entre as partes. Ainda assim, sua efetividade depende menos do texto legal e mais da qualidade da articulação entre devedor e credores.

Este provavelmente não será um caso isolado. Dadas as condições macroeconômicas e o aumento do número de casos, é razoável supor novos movimentos relevantes tanto de recuperações extrajudiciais quanto judiciais nos próximos meses.

Amin Murad é sócio fundador da Arm Gestão, engenheiro e gestor com mais de 30 anos de experiência à frente de grandes operações industriais e de infraestrutura. Atualmente, integra e preside conselhos de administração de companhias abertas, como Oriente Construção Civil, Copenor, Dexxos Participações e Triunfo Participações e Investimentos. Ao longo da carreira, foi CEO de empresas como Grupo BBM, Pronor Petroquímica, Nitrocarbono, Policarbonatos, Engepack, Latapack Ball, Supervia e Grupo Lachmann, além de ter atuado como diretor em entidades setoriais como o SINPER e o SYNDARMA.

Os artigos e reportagens assinadas não refletem necessariamente a opinião da editora, sendo de responsabilidade exclusiva dos respectivos autores.

Amin MuradArm Gestão