A OAB, a Universidade de Stanford e o IDP acabam de lançar uma pesquisa para mapear como advogados de todo o Brasil estão usando inteligência artificial no dia a dia. É um sinal claro de que o tema saiu do campo da tendência e virou rotina — e que o mercado sente a necessidade de entender melhor essa rotina antes de criar orientações para a profissão.
Outras instituições também já vêm analisando e buscando evidências de como o uso da IA, e particularmente da IA generativa, estão impactando o exercício da advocacia no Brasil. Um retrato recente, divulgado pelo CEPI da FGV Direito SP, já dá a dimensão dessa mudança: cerca de 80% dos profissionais do Direito usam ferramentas de IA generativa com frequência, e 58% o fazem diariamente. O uso concentra-se em pesquisa jurídica, automação de tarefas repetitivas e organização de informações — justamente as atividades que, até pouco tempo, ocupavam boa parte do aprendizado de quem está começando a carreira.
Mas a mesma pesquisa acende um ponto de atenção: mais de 80% dos usuários dizem empregar essas ferramentas em temas que não dominam completamente, e em quase metade dos casos a verificação do resultado fica só com quem escreveu o prompt. Isso confirma algo que vale repetir: a tecnologia acelera a entrega, mas a responsabilidade pela decisão continua sendo humana e intransferível.
A formação dos profissionais mais jovens também entra nessa conversa. Se a tecnologia assume uma parte importante do trabalho operacional antes desenvolvido pelos iniciantes, faculdades e escritórios terão de encontrar outras formas de desenvolver raciocínio jurídico, análise e responsabilidade. E vários cursos de Direito no Brasil estão incorporando a transformação no currículo. O Direito a FGV SP é um desses ambientes onde tecnologia e aprendizado acadêmico caminham em conjunto. Na faculdade de Direito Mackenzie, convênios com instituições como Meta e Apple permitem o desenvolvimento de pesquisa aplicada, constituindo um diferencial importante na formação dos novos profissionais.
Os ganhos de eficiência, por outro lado, são reais e mensuráveis. A ANÁLISE - empresa dedicada à produção de rankings e pesquisas da advocacia empresarial - desenvolve o Prêmio AnáliseDNA+Fenalaw, em cima de cases práticos de escritórios. Na edição 2025, vimos escritórios reduzirem o tempo de triagem de processos de dias para minutos, processarem o equivalente a 1 milhão de páginas em menos de 48 horas e economizarem mais de R$ 1 milhão por ano com automação de fluxos. São resultados concretos — mas que também elevam a régua da governança: proteção de dados, conformidade com a LGPD e revisão humana qualificada deixam de ser diferencial e passam a ser pré-condição.
O equilíbrio entre eficiência e responsabilidade é um desafio permanente, que a tecnologia torna ainda mais crítico. Pesquisas como a da OAB, com Stanford e IDP - para subsidiar o Plano Nacional de Integração da Inteligência Artificial na Advocacia -, do CEPI da FGV Direito SP, como iniciativas como o Prêmio AnáliseDNA+Fenalaw, devem ajudar o mercado a sair da intuição e caminhar para diretrizes mais claras. Enquanto isso, a régua já está dada: conferência, decisão e responsabilidade pelo trabalho continuam — e vão continuar — sendo do profissional.
Silvana Quaglio, jornalista, sócia e CEO da Análise Editorial

