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Automação no contencioso de massa: um ano de fracasso antes de funcionar

Por Rodrigo Giraldelli Peri, Sócio Fundador do RGSA

17 de Setembro 11h55

Em março de 2025, comecei a construir uma ferramenta para automatizar parte da produção jurídica do meu escritório. Não funcionou. Tentei persistentemente ao longo daquele ano sem que nada desse certo, parecia que não funcionaria. Mas em 2026, o projeto finalmente saiu do papel — não por mágica, mas pela insistência. Começo por aqui, pelo fracasso, porque acho que ele explica melhor do que qualquer resultado o que significa levar tecnologia a sério dentro de um escritório de contencioso de massa, um tipo de advocacia que ainda carrega, injustamente, a fama de ser menos nobre do que outras áreas do direito.

Quem olha uma ferramenta pronta e funcionando tende a imaginar que ela nasceu de uma boa ideia executada de primeira. A minha não nasceu assim. As limitações técnicas da época impediram que o projeto saísse do papel de forma consistente, e ao longo de todo aquele ano houve novas tentativas e novos obstáculos. Só depois de meses de ajustes, aprendizado e persistência, o projeto se tornou realidade. Conto essa parte porque acho que ela importa mais do que o ponto de chegada.

Quem vê de fora vê um sistema. Quem viveu por dentro sabe que houve um ano inteiro de tentativa e erro antes de qualquer coisa funcionar.

Trabalho há anos com contencioso de massa, representando clientes em processos que se repetem aos milhares. Quem está de fora costuma imaginar que esse tipo de advocacia é mecânico, repetitivo, quase automático por natureza. A verdade é o oposto.

É justamente porque o volume é imenso que cada detalhe do processo precisa ser dominado com profundidade. Não existe automação séria sem conhecimento jurídico profundo por trás dela. Um sistema mal calibrado construído por quem não entende o processo por dentro gera erro em escala, não solução.

Foi esse entendimento que guiou a construção da ferramenta. Não parti da tecnologia para depois adaptar o direito a ela. Parti da análise real do processo, do fluxo real que uma petição percorria dentro do meu escritório, e principalmente das exigências que cada tipo de ação solicitava, aí então eu pensei em como a tecnologia poderia apoiar esse fluxo sem substituir o raciocínio jurídico que sustenta cada peça. A tecnologia, nesse caso, não é o produto, mas sim a estrutura invisível que permite que o produto, que é a qualidade da peça processual, aconteça de forma consistente, processo após processo.

Essa distinção parece sutil, mas não é. Muitos projetos de tecnologia jurídica nascem de fora do direito, criados por quem enxerga o processo como um problema de engenharia de software. Funcionam até certo ponto, mas esbarram na complexidade real do contencioso, principalmente nas variações entre tribunais, na jurisprudência que não é consolidada e no detalhe específico que só quem litiga todos os dias consegue perceber. O caminho que percorri foi o inverso: comecei como advogado que vive a rotina do contencioso, e fui, aos poucos, aprendendo a traduzir essa vivência em um sistema. Foi mais lento só que muito mais sólido.

Um ano de tentativas frustradas poderia ter sido motivo para desistir e não seria vergonhoso. Em muitos escritórios, provavelmente teria sido assim, mas contencioso de massa ensina uma lição que se aplica direto à construção de tecnologia: resultado em escala não vem de acerto imediato, vem de processo testado, repetido, ajustado e corrigido até que funcione de forma confiável.

A cada tentativa fracassada ficava mais claro o que a ferramenta realmente precisava entregar: não promessas de inteligência artificial genérica mas uma leitura robusta e consistente de cada documento e cada processo interno, com inteligência artificial aplicada de forma séria à análise que sustenta a peça final. Foi essa mesma lógica, de ajuste contínuo baseado no que funciona de fato, que me manteve tentando construir essa ferramenta.

Quando o projeto finalmente avançou não foi por um único acerto isolado. Foi porque cada tentativa anterior havia ensinado algo sobre o que não funcionava, e isso foi reduzindo o espaço de erro até sobrar o caminho certo. Hoje, essa ferramenta apoia diretamente a operação do escritório, ajudando a lidar com um volume de processos que, na estrutura atual da equipe, seria humanamente inviável de administrar apenas com métodos tradicionais, sem abrir mão da qualidade jurídica que cada peça exige.

É por isso que olho para essa ferramenta com um misto de orgulho e humildade. Orgulho pelo que ela sustenta hoje, humildade porque sei exatamente quantas tentativas vieram antes dela. Se há um recado que fica desse processo para outros advogados que atuam com contencioso de massa, é este: tecnologia não substitui a expertise jurídica construída ano após ano na rotina do advogado.

Ela amplia o alcance dessa expertise permitindo que ela chegue a um volume de casos que seria impossível atender um por um. Mas só funciona quando nasce de dentro da prática, não de fora dela.

O valor real desse processo não está na ferramenta em si. Está na prova de que é possível unir prática jurídica e tecnologia em contencioso de massa, de forma séria e honesta, sem exagerar o que ela faz e sem esconder o trabalho jurídico que continua, e sempre continuará, no centro de tudo.

Advocacia de volume não é advocacia menor. É advocacia que exige domínio profundo do processo, disciplina de execução e agora, também, a coragem de errar por um ano inteiro até acertar. Se este artigo tem um único objetivo, é este: mostrar que por trás de qualquer ferramenta com foco em automatizar qualquer coisa no jurídico, é necessário saber que existe sempre um advogado que primeiro dominou o básico: o processo, o prazo, a tese.