A Inteligência Artificial tem sede: o custo hídrico oculto da economia digital e o imperativo do Accountability na governança de dados sustentável | Análise
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A Inteligência Artificial tem sede: o custo hídrico oculto da economia digital e o imperativo do Accountability na governança de dados sustentável

Por Jean Marc Sasson, Fabiana França Pinto

9 de April 7h44

Enquanto a Inteligência Artificial (IA) se consolida como o motor da nova economia digital, um passivo ambiental silencioso cresce nos bastidores dessa revolução tecnológica. A economia dos dados, frequentemente percebida como imaterial, repousa, na realidade, sobre uma infraestrutura física massiva composta por Data Centers de intenso consumo energético e hídrico. Aquilo que chamamos de "nuvem" nada mais é do que um conjunto de instalações industriais altamente dependentes de recursos naturais.

Nos últimos anos, tornou-se comum associar inovação tecnológica à desmaterialização da economia. No entanto, por trás de cada consulta a um modelo de IA, cada armazenamento em nuvem ou cada algoritmo de treinamento avançado, existe um sistema complexo de servidores que precisa ser continuamente resfriado — e, em grande parte dos casos, dependente diretamente da água.

Esse fenômeno reposiciona a água no centro das discussões estratégicas sobre tecnologia, risco e competitividade global. O World Economic Forum alerta que a escassez hídrica e a falha na adaptação climática estão entre os principais riscos sistêmicos da próxima década. Nesse contexto, a água deixa de ser apenas um insumo operacional e passa a ser um ativo estratégico para a resiliência econômica e tecnológica.

Desta forma, a integração entre água, energia e tecnologia impõe uma mudança de paradigma na governança corporativa. A resiliência hídrica já não pode ser tratada como uma agenda ambiental periférica, mas deve ocupar o núcleo das estratégias climáticas e de negócios. Em um cenário marcado por mudanças climáticas, eventos extremos e infraestruturas envelhecidas, a gestão eficiente da água torna-se condição sine qua non para a continuidade operacional de cadeias produtivas intensivas e, especialmente, de infraestruturas digitais de alta intensidade.

Esse desafio se torna ainda mais evidente quando observamos o chamado nexo água-energia. Segundo estimativas internacionais, o setor de abastecimento e tratamento de água já responde por cerca de 4% do consumo global de eletricidade. Paralelamente, a expansão da inteligência artificial promete ampliar de forma exponencial a demanda energética mundial. Projeções da International Energy Agency indicam que o consumo energético associado ao processamento de dados e à IA poderá dobrar até 2040.

Ignorar as ineficiências desse nexo pode gerar impactos econômicos relevantes. Estudos do próprio World Economic Forum indicam que a escassez hídrica tem potencial para reduzir o Produto Interno Bruto de países de alta renda em até 8% até 2050, caso medidas estruturais de adaptação não sejam implementadas.

A dimensão do problema torna-se ainda mais clara quando analisamos a expansão acelerada da IA generativa. Estimativas recentes apontam que o crescimento desse setor exigirá uma retirada adicional de 4,2 a 6,6 bilhões de metros cúbicos de água até 2027, volume equivalente a até seis vezes a retirada anual de água da Dinamarca.

Projeções da International Energy Agency reforçam o alerta: o consumo de água por Data Centers pode alcançar 1,2 trilhão de litros até 2030. Paralelamente, a pegada climática da IA também cresce em ritmo acelerado, podendo atingir 80 milhões de toneladas de CO₂ em 2025, patamar comparável às emissões totais de países como a Noruega.

Casos concretos já revelam os efeitos dessa pressão hídrica. Em 2023, a Microsoft enfrentou críticas públicas nos Estados Unidos após a expansão de seus Data Centers no estado do Arizona, região historicamente afetada por escassez de água. Relatórios ambientais indicaram um aumento significativo no consumo hídrico local associado às operações de resfriamento das instalações, o que desencadeou debates regulatórios e comunitários sobre a sustentabilidade da infraestrutura digital em áreas de estresse hídrico.

Esse tipo de conflito tende a se intensificar à medida que governos e investidores passam a exigir maior transparência ambiental das empresas de tecnologia. A IA deve ser compreendida não apenas como tecnologia computacional, mas como um sistema material profundamente dependente de energia, água, minerais e cadeias globais de infraestrutura.

Diante desse panorama, a adoção do conceito de ESG by design, que busca incorporar critérios ambientais, sociais e de governança na concepção da arquitetura computacional. Entre os critérios ambientais, a solução emergente que se destaca é o resfriamento líquido direto no chip (direct-to-chip liquid cooling), tecnologia capaz de reduzir significativamente a demanda energética dos sistemas de refrigeração, alcançando níveis de eficiência até 15% superiores aos modelos tradicionais baseados em ar.

No plano de governança, a transparência - ambiental e regulatória - torna-se um componente central, como já sinaliza o EU AI Act de fortalecimento da accountability tecnológica.

No Brasil, esse movimento começa a dialogar com o avanço das agendas de divulgação climática e gestão de riscos corporativos, especialmente no âmbito das normas da Comissão de Valores Mobiliários e das discussões regulatórias sobre riscos climáticos conduzidas pelo Banco Central do Brasil. À medida que os Data Centers se tornam ativos críticos da economia digital, a mensuração de impactos ambientais associados à infraestrutura tecnológica tende a integrar os relatórios de risco corporativo e disclosure ESG.

No entanto, o caminho para o compliance ainda enfrenta obstáculos relevantes. Um estudo conduzido por Alex de Vries e Diganta Das, amplamente divulgado pela Euronews Next, revela falhas significativas de transparência ambiental por parte de grandes empresas de tecnologia. Segundo os pesquisadores, muitas Big Techs divulgam apenas métricas de consumo direto de água, omitindo o chamado consumo hídrico indireto, associado à geração de energia elétrica utilizada nos Data Centers — volume que pode ser até quatro vezes superior ao consumo direto.

Diante desse cenário, a governança corporativa precisa evoluir para incorporar métricas mais robustas. Indicadores como a Water Usage Effectiveness (WUE) tendem a se tornar parâmetros centrais de avaliação de desempenho ambiental e de prestação de contas corporativa, especialmente no contexto das agendas ESG e de gestão de riscos climáticos.

Reconhecer o potencial transformador da IA exige, necessariamente, enfrentar seus custos reais — inclusive aqueles que permanecem invisíveis ao usuário final. O grande desafio da próxima década será alinhar inovação tecnológica com responsabilidade ambiental e gestão de riscos sistêmicos.

Se os dados são, de fato, o combustível da nova economia digital, então a governança sustentável da infraestrutura que os processa — especialmente a gestão da água — torna-se um dos pilares indispensáveis para a estabilidade econômica global e para a segurança das futuras gerações.

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Autores:

Jean Marc Sasson: Sócio de ESG, Tech e Digital, Compliance, Data Privacy e IA no Lima ≡ Feigelson Advogados

Fabiana França Pinto: Advogada. Mestre em Direito Ambiental pela Universidade Católica de Santos e especialista em Governança de Dados, Compliance e ESG.