Em cada novidade gerada nas eras da tecnologia, é possível notar um padrão recorrente de comportamento no mercado caracterizado por entusiasmo acelerado, adoção precipitada e baixa reflexão estratégica. No caso da inteligência artificial, esse movimento ocorre de forma intensificada. A disseminação da tecnologia foi mais rápida, o discurso mais ruidoso e o espaço para análise crítica significativamente reduzido.
Atualmente, é comum que organizações de diferentes portes afirmem possuir iniciativas de inteligência artificial em desenvolvimento, enquanto startups emergem com propostas sofisticadas e narrativas de transformação ampla. Embora a tecnologia demonstre capacidade efetiva de gerar eficiência, escala e aprimoramento analítico, o problema central não reside em seu potencial técnico, mas na forma como vem sendo compreendida e implementada.
Falo isso também a partir da experiência prática. Como gestor, participei de inúmeras reuniões com supostos "especialistas" em inteligência artificial. Em muitos casos, o domínio técnico se resumia ao uso superficial de prompts e a demonstrações genéricas de ferramentas amplamente disponíveis no mercado. Ainda assim, a convicção era alta: acreditavam estar diante de soluções prontas para qualquer organização, independentemente de contexto, cultura ou maturidade interna.
Nesse cenário, a inteligência artificial passa a ser tratada como um produto padronizado, passível de aplicação imediata e indiferente às especificidades organizacionais. Tal perspectiva ignora que iniciativas consistentes de IA não se iniciam pela tecnologia em si, mas por processos de convencimento institucional, alinhamento estratégico e construção de entendimento coletivo.
A ausência desses elementos tende a gerar resistência silenciosa por parte das equipes, comprometendo a eficácia das soluções implementadas, independentemente de seu grau de sofisticação técnica.
Diversos projetos fracassam não em razão de falhas algorítmicas, mas por negligenciarem fatores humanos, processuais e culturais. Automatizam-se atividades que não demandavam automação, analisam-se grandes volumes de dados sem impacto decisório e implantam-se sistemas em ambientes nos quais não há confiança suficiente para sua utilização consistente. Nesses casos, a inteligência artificial não promove transformação, mas amplia desorganizações previamente existentes, reforçando percepções negativas sobre o valor da tecnologia.
Outro equívoco recorrente consiste em atribuir à inteligência artificial o status de diferencial competitivo em si mesma. Assim como outras tecnologias que a antecederam, a IA tende rapidamente a se consolidar como infraestrutura. O verdadeiro diferencial reside na capacidade de definir com precisão onde aplicá-la, com quais objetivos e sob quais limites. Organizações que não dominam seus próprios processos acabam utilizando a inteligência artificial para escalar ineficiências, enquanto aquelas que não compreendem seus dados produzem respostas sofisticadas para perguntas mal formuladas.
Adicionalmente, a governança configura-se como um elemento decisivo para a sustentabilidade de projetos de inteligência artificial. Iniciativas bem-sucedidas não são necessariamente as mais ousadas, mas as mais estruturadas, ancoradas em critérios claros,
responsabilidades definidas e limites objetivos para a automação. Isso inclui, de forma explícita, a definição de quando a decisão automatizada deve ceder espaço à decisão humana. A ausência desses parâmetros compromete não apenas os resultados operacionais, mas também a confiança institucional na tecnologia.
A formação de uma bolha em torno da inteligência artificial não deve ser interpretada, necessariamente, como um fenômeno negativo. Processos de transformação tecnológica profunda frequentemente passam por esse estágio, no qual o excesso de discurso acaba por filtrar iniciativas frágeis daquelas capazes de gerar valor real. Nos próximos anos, muitos projetos de IA tendem a ser descontinuados de forma silenciosa, não por falhas técnicas, mas pela inexistência de sustentação organizacional e convencimento interno suficientes para mantê-los.
Por fim, a inteligência artificial não substituirá executivos, lideranças ou estrategistas. Seu impacto mais relevante será outro: expor, com velocidade inédita, quais organizações confundem inovação com improvisação e quais compreendem que a tecnologia, antes de ser aplicada, precisa ser compreendida, legitimada e incorporada de maneira consistente à estrutura institucional.
Sobre Ricardo Leite - Graduado em Administração de Empresas, pela Universidade Estadual do Vale do Acaraú - Sobral - CE, com especialização em Marketing pela Escola Superior de Marketing e Propaganda ESPM-SP, MBA em Controladoria e Custos pela Universidade Estadual de Pernambuco -UPE, Pós-Graduado em Gestão de Negócios pela Fundação Dom Cabral, atuando também como coordenador do PAEX (Parceiros para excelência da Fundação Dom Cabral). Vivência de 23 Anos de mercado financeiro e bancário, dentre estes, 16 anos como gestor, em diversos segmentos da economia, tais como: Construção Civil; Distribuição de Alimentos; Industria de Alimentos; Publicidade e Propaganda; Empresas de software e Clínicas Médicas. Nos dias de hoje, Ricardo atua como Diretor do escritório Rueda & Rueda Advogados.

