2025-2026: eficiência regulatória, resiliência nas cadeias de suprimentos e tecnologia com propósito no ambiente jurídico | Análise
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2025-2026: eficiência regulatória, resiliência nas cadeias de suprimentos e tecnologia com propósito no ambiente jurídico

Por José Setti Diaz, managing partner do Demarest Advogados

7 de January 8h36

Em 2025, o ambiente de negócios foi moldado por duas forças simultâneas: volatilidade geopolítica com efeitos tarifários e regulatórios sobre cadeias de suprimento e transformação tecnológica do trabalho com impacto direto em eficiência, precificação, treinamento e governança. O setor jurídico não fugiu a esses fatores que moldaram o ambiente de negócios. Para 2026, a vantagem competitiva das empresas virá de busca por previsibilidade regulatória frente às reformas, como a tributária, e às medidas de comércio exterior; da integração jurídico-econômica nas decisões de investimento; em estratégias de comércio exterior que antecipem choques (tarifas, barreiras não tarifárias e defesa comercial) e no uso confiável de IA para acelerar análises, reduzir assimetrias e dar segurança à execução.

Como foi 2025 e o que está por vir

O mundo corporativo fez uma travessia que não foi trivial em 2025 e segue com desafios neste ano que se inicia. A combinação entre volatilidade geopolítica, marcada por um avanço sem precedentes de novas tarifas comerciais e unilaterais, alterou o centro de gravidade das decisões empresariais.

Para quem atua há 78 anos no setor jurídico, como nós no Demarest, esse ciclo não foi somente mais um capítulo de instabilidade; mas sim um chamado ainda maior à maturidade. Em 2026, vai estar à frente da concorrência quem priorizar a previsibilidade regulatória em sua estratégia, quem integrar ainda mais o contexto jurídico-econômico às alavancas de crescimento e quem usar a IA com governança, como instrumento de eficiência, acurácia e segurança de dados. Em um mundo volátil e cheio de incertezas, temos que focar em nossas próprias estratégias e entregá-las com o máximo de perfeição.

A questão tarifária ilustra essa questão. Entre outubro de 2024 e outubro de 2025, a OMC (Organização Mundial do Comércio) registrou expansão superior a quatro vezes no valor de bens afetados por novas medidas de importação, atingindo o nível mais alto em 15 anos de monitoramento1. Ao mesmo tempo, houve diálogo e ações para evitar a escalada de retaliações.

A expectativa para este ano, na visão da OMC e de organismos correlatos, é de recuperação moderada do comércio de bens, desde que os choques tarifários não se intensifiquem.

No plano Brasil-EUA, 2025 foi testado por elevação e ameaças de elevação de tarifas com impactos setoriais e contratuais. Na prática, vimos a necessidade de contratos mais inteligentes, com cláusulas de reprecificação e realocação logística, além de cadeias mais flexíveis, aptas a reagir a variações súbitas de custo e acesso a novos mercados.

E é justamente aqui que entra o Direito: como uma espécie de engenharia de riscos, capaz de entregar soluções inteligentes e criativas para as operações corporativas, navegando nesse ambiente de defesa e ataque para certas indústrias, e criando respaldo para empresas em crise.

Outro vetor de 2025 foi a tecnologia no mundo do direito. O relatório Future of Professionals 2025, da Thomson Reuters, introduziu um conceito que incomoda muitos, mas é verdadeiro: a "divisão competitiva" entre as organizações com estratégia clara de IA e aquelas que seguem no improviso.

Os dados revelados são impressionantes: o dobro de chance de crescimento de receita e 3,5 vezes mais probabilidade de obter benefícios críticos (tempo, custo, qualidade) quando há um plano efetivo e explícito de uso de tecnologia; 5 horas semanais de ganho médio por profissional, algo como US$ 19 mil anuais de valor liberado por pessoa - e um impacto combinado estimado de US$ 32 bilhões só nos mercados jurídico e tributário dos EUA. No Brasil, ainda não há informações tão detalhadas mensuradas. 2

Essa é uma das razões pela qual tratamos a IA como uma aliada fundamental de negócios. No Demarest, adotamos ferramentas de IA em ambiente fechado, com governança e segurança de dados, para acelerar nossas pesquisas, contribuir para due diligence, análises contratuais e jurimetria. A IA não substitui julgamento, nem empatia; pelo contrário, potencializa o tempo de quem domina o contexto econômico, a técnica legal e a linguagem da empresa cliente. E nosso investimento prioritário é o cliente.

Do lado transacional, podemos dizer que 2025 foi melhor que 2024 nas operações de fusões e aquisições. Muitas reorganizações locais e globais impulsionaram os números de operações, assim como setores relevantes e resilientes em nosso país, como energia, infraestrutura, mineração, TMT (telecomunicações, mídia e tecnologia), agronegócios, saúde e o setor financeiro foram destaque.

Para 2026, minha leitura é cautelosa e seletiva nos negócios. O pano de fundo no Brasil é o eleitoral, em um país marcado por últimas eleições com alto grau de polarização. A nova geopolítica internacional pode influenciar o processo eleitoral e torná-lo ainda mais conturbado.

Do lado transacional, independentemente da volatilidade e da complexidade no ambiente, veremos mais alienações de unidades de negócio com operações globais, operações envolvendo ativos distressed (transações com ativos em estresse financeiro/insolvência) e investimentos seletivos em setores chave da economia como aqueles que marcaram o ano de 2025 - em um cenário de sinergias e mudanças regulatórias, como tributárias, concorrenciais e ambientais.

Esperamos que em diversos setores, especialmente nos regulados, a combinação de análise de dados aplicada ao setor jurídico, compliance e desenho de cadeias tenda a reduzir o custo dos projetos, favorecendo a concretização de investimentos e a viabilização de operações.

É nesse contexto que entra mais uma peça relevante no tabuleiro da economia brasileira: a reforma tributária. A primeira lei complementar, publicada em janeiro de 2025, estabeleceu regras gerais para IBS, CBS e IS, criou o Comitê Gestor do IBS e iniciou a transição. O PLP 108/2024 avançou em correções

técnicas, contencioso administrativo e questões setoriais, mirando migração plena até 2033, com início do novo sistema já em 2026. Tudo isso muda a lógica de recolhimento e creditamento e impacta preço, altera fluxo de caixa, redesenha centros de distribuição, sistemas produtivos e contratos com fornecedores, clientes e parceiros. A reforma tributária também trará impacto na precificação das empresas em operações de M&A, onde haverá ganhadores e perdedores.

Não há atalhos. É preciso realizar simulações setoriais recorrentes e cláusulas de ajuste para split payments, créditos e regimes - exatamente como o Demarest tem dado suporte a seus clientes, mapeando o tamanho do impacto e apoiando na navegação desse contexto altamente complexo. Quem integrar a leitura fiscal à logística e ao ambiente jurídico vai evitar custos embutidos e antecipar trade-offs. Ou seja, vai prever decisões de equilíbrio, avaliando custo×benefício, risco×retorno, prazo×conformidade; antes de executar, para escolher opções que maximizam valor para o negócio.

O ambiente macro global adiciona uma camada de prudência nas perspectivas para este ano. A OCDE registrou um 2025 com antecipação da produção e estoques (front-loading industrial) antes da elevação de tarifas e sinalizou desaceleração em 2026, especialmente se as barreiras comerciais persistirem.

Em paralelo, pesquisas de resiliência de cadeias de suprimentos indicam que as empresas não estão repassando integralmente o custo das tarifas - o pass-through (repasse de custos ao preço) médio ficou próximo de 45% - e optam por mitigação via negociação com fornecedores, diversificação e pedidos de alívio/exceção regulatória.3

Como isso afeta os negócios dos clientes?

O impacto aparece onde mais dói: no preço e na margem. Tarifas, reforma do consumo e logística pressionam a rentabilidade. A solução é técnica e imediata: renegociação de contratos indexados (tarifa, câmbio, frete), redesenho de rotas e centros calibrado por IBS/CBS e incentivos fiscais, além de gestão ativa de origens de suprimento e da defesa comercial para manter acesso a novos mercados e evitar aumento nos custos de transação.

Do lado do capital e das transações de M&A, há liquidez disponível, mas a taxa de juros continua muito alta, gerando incerteza sobre preços dos ativos; operações caminham quando o negócio mostra onde está o valor e como este valor será capturado. Setores com sinais regulatórios claros e favoráveis ao investidor tendem a atrair mais investimentos. E é sempre bom ter em mente que onde há incerteza, prosperam boas oportunidades - daí onde agregamos valor com auditorias mais inteligentes (due dilligences) e colaborando com planos de integração pós-fusão, que capturam sinergias tributárias, operacionais e regulatórias desde o primeiro dia após o fechamento do deal, acelerando a entrada ao mercado e contribuindo para um retorno mais ágil do investimento.

Há um ponto adicional que faço sempre questão de enfatizar. Tecnologia sem pessoas não cria vantagem.

No Demarest, diversidade, inclusão e equidade não são slogans; são parte da nossa forma de decidir. Equipes plurais leem riscos com mais riqueza de perspectivas, traduzem complexidade em caminhos executáveis e entregam decisões baseadas em inteligência coletiva.

É essa cultura colaborativa - aliada a processos, dados e governança - que nos permite entregar mais valor e inovação, contribuindo para que os nossos clientes tomem decisões com segurança jurídica e impacto econômico real em seus negócios.

Como sempre tenho dito, o Direito é uma ferramenta. Mas o diferencial está em entender profundamente o negócio do cliente e entregar com agilidade uma decisão que funcione no mundo real.

José Setti Diaz é managing partner e sócio das áreas de Fusões & Aquisições e Comércio Internacional & Aduaneiro do Demarest Advogados.

1 Fontes: WTO Trade Monitoring (período 16/10/2024-15/10/2025) — "Large increase in new tariffs…" https://tmdb.wto.org/en/reports/large-increase-in-new-tariffs-but-also-measures-to-ease-global-trade-wto-report-shows-en]

2 Fontes: TR Future of Professionals 2025 (relatório e release) https://www.thomsonreuters.com/content/dam/ewp-
m/documents/thomsonreuters/en/pdf/reports/future-of-professionals-report-2025.pdf] · https://www.thomsonreuters.com.br/pt/sala-de-imprensa/tr-relatorio-future-of-professionals-2025.html]

3 Fontes: OECD Outlook, setembro de 2025; KPMG TaxNewsFlash sobre PLP 108/2024, setembro de 2025).

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