Quando um cliente novo liga para o escritório de Alexandre Atheniense e conta o problema por mensagem de WhatsApp, o caso já começou a ser estudado. Antes de o advogado entrar na sala, um dossiê de pré-consulta lhe diz o que perguntar, o que exigir de prova e se a tese tem histórico de vitória. Cada um dos cerca de 70 serviços do escritório virou um agente de inteligência artificial: há um "doutor reputação" que varre sozinho os sites dos tribunais para checar se as teses vencedoras continuam vencendo, e um assessor "golpe do Pix" que chega atualizado quando o caso bate à porta. "Para cada serviço, temos um doutor especializado. E humanos muito bem preparados no final de tudo". Segundo a pesquisa "Inteligência artificial generativa no direito: oportunidades e desafios no Brasil", produzida pelo Centro de Ensino e Pesquisa em Inovação da FGV, 80% dos advogados brasileiros já usam inteligência artificial. Atheniense diz que quase todos estão no primeiro degrau da escada — a IA como chatbot — e que o degrau seguinte, o da IA agêntica, é o que gera retorno de investimento.
A entrevista foi concedida por Alexandre Atheniense a Alexandre Secco, editor e sócio da Análise Editorial.
Alexandre Atheniense é advogado formado pela Universidade Federal de Minas Gerais, com especialização em direito da internet pelo Berkman Center da Harvard Law School, e um dos pioneiros do direito digital no Brasil. Presidiu a Comissão de Tecnologia da Informação do Conselho Federal da OAB, entre 2002 e 2010, e coordena a Comissão de Direito Digital do Cesa. É árbitro em matérias de propriedade intelectual e tecnologia da informação. Está à frente do Alexandre Atheniense Advogados, escritório com 6 profissionais na equipe, sede em Belo Horizonte, fundado em 2017, especializado em incidentes digitais, crises de reputação, crimes cibernéticos, proteção de dados, propriedade intelectual, contratos de tecnologia e direito eleitoral digital.
O DEGRAU QUE SEPARA O CHATBOT DO AGENTE
Alexandre Secco: Segundo a FGV, 80% dos advogados já usam inteligência artificial. Ponto. Agora, o seu escritório está um passo adiante: usa o que se chama de IA agêntica. Faça uma explicação didática para nós — o que muda na vida de um escritório quando ele salta do passo A para esse passo B?
Alexandre Atheniense: Muda muita coisa e, ao mesmo tempo, impõe vários desafios culturais para todos os advogados. Hoje a inteligência artificial funciona de maneira abrangente no nosso escritório, ao ponto de eu poder dizer que quase 100% dos dados corporativos que a gente trata já são tratados pela IA, em cima de mais ou menos 150 aplicações, divididas em 11 grupos, dentro de todo o atendimento ao cliente, da área de novos negócios e do financeiro. E nada disso andaria sem a preocupação de tratar bem o dado, porque a IA só funciona se o dado é bom.
Pergunta: E quem já usa IA e acha que chegou lá?
Alexandre Atheniense: Quem acha que chegou no topo do uso da IA usando a IA apenas como um chatbot está completamente equivocado.
Pergunta: Então vamos estabelecer aqui a nossa primeira divisão. O uso típico é a IA como chatbot: IA para revisar documento, para resolver uma dúvida, para fazer uma pesquisa de jurisprudência, para redigir uma peça simples. É esse o estágio em que eu acho que está 90% do mundo. Qual é o próximo?
Alexandre Atheniense: O próximo estágio é subir um degrau nessa escada — e, para mim, é o degrau que gera efetivamente retorno de investimento. No chatbot, a IA só traz resultado se tiver impulso humano. Para pular dessa etapa, que o mercado chama de generativa, para a agêntica, você tem que ter uma cultura dentro do escritório. E poucos têm.
Pergunta: Explica melhor…
Alexandre Atheniense: O primeiro princípio é que o escritório tem que ser aderente a fluxos operacionais. Sem isso, nada vai para frente. Eu sempre costumo dizer que, se um escritório de advocacia fosse do ramo de engenharia, seria muito mais fácil implantar o modelo agêntico. Dentro de um escritório de engenharia, se a meta é construir um prédio, todo mundo sabe que tem equipe que vai fazer a escavação, tem equipe para fazer a concretagem, depois vai colocar as vigas, subir parede, entra o eletricista e por aí vai. Ninguém entra em conflito. São processos muito bem definidos e estruturados, e as pessoas estão acostumadas a viver nisso.
Pergunta: A mudança fundamental está em sair daquele modelo em que você faz uma pergunta ou pede uma tarefa e a IA responde, para um modelo em que você organiza um fluxo de processos.
Alexandre Atheniense: Esse é o ponto básico. Porque na advocacia, como é que funciona? Chegou um cliente novo, uma causa maravilhosa. Aí um lá na equipe levanta a mão e fala assim: "opa, deixa que esse aí eu faço, porque é da minha área de especialidade, eu sei como lidar com isso. Agora vai ser do meu jeito, tá?" Aí a coisa começa a entrar em choque, porque isso conflita diretamente com o agêntico.
Pergunta: Por onde começa, então?
Alexandre Atheniense: O escritório primeiro precisa saber quais são as dores que ele tem. Na medida em que ele sabe as dores, tem condições de definir uma sequência de atividades que vão acontecendo cronologicamente, umas em paralelo. O primeiro passo seria fazer um mapeamento de quais são esses ciclos, ou fluxos, desde o momento em que o cliente levanta a mão para falar pela primeira vez com o escritório até o dia em que a gente assina o termo de encerramento de serviço. Tudo isso foi pesquisado, tudo isso foi mapeado.
Pergunta: Se eu entendi bem, a IA agêntica é uma IA que você sequer percebe que existe, porque ela vai estar trabalhando em todas as etapas — de atendimento, de prospecção, de entrega, de avaliação, de prestação de contas. Ela está presente na sua rotina de um modo que você nem a vê acontecer.
Alexandre Atheniense: Sim, mas não podemos imaginar que tudo isso roda no automático. É necessário entender que esses ciclos são semiautomáticos, porque um dos princípios básicos é que o ser humano esteja dentro desse loop — o human in the loop. Ele tem que estar, em algum momento, validando informações, fazendo análise crítica. Engana-se quem acha "que legal, eu consegui automatizar um fluxo operacional para pegar as informações da consulta que eu fiz com o cliente, gerar uma transcrição, gerar uma proposta e por aí vai".
Pergunta: Explora isso. Me dá um exemplo de um fluxo operacional real, operado com IA agêntica.
Alexandre Atheniense: Vou partir de um exemplo muito básico, que acontece em qualquer escritório de advocacia e que mudou praticamente a nossa forma de agir: a comunicação. A comunicação interna e a comunicação com o cliente. A matéria-prima da IA é informação textual.
Pergunta: E o escritório que resolve tudo conversando?
Alexandre Atheniense: Um escritório que trabalha muito com troca de informação verbal perde muito, porque as informações são verbalizadas e não são registradas. E se não são registradas, não serão processadas pela IA. Então qualquer reunião que acontece com o cliente no escritório é gravada — sob autorização do cliente, obviamente — para depois a IA fazer a transcrição.
Pergunta: E o que ela faz com essa transcrição?
Alexandre Atheniense: Automaticamente, depois da transcrição, ela já faz um resumo de todos os pontos-chave que foram discutidos, quais decisões foram tomadas, quais são as tarefas e as atribuições que foram geradas e quais são os próximos passos. Esse relatório deve ser revisado pelo advogado — pode ser que ele acrescente mais coisas, que o formato não tenha saído do jeito que ele queria. Em seguida, esse conteúdo já passa para entrar num assessor, que é o responsável pelo gerenciamento de tarefas e atividades do escritório.
Pergunta: E esse assessor é um agente.
Alexandre Atheniense: É. Ele tem a função de distribuir sistemicamente essas tarefas e de continuar monitorando para saber se tudo aquilo que foi tratado na reunião foi efetivamente cumprido. Ele funciona como um assessor. Hoje o organograma do escritório se forma da seguinte maneira: você tem um grupo de humanos e vai ter um número muito significativo de agentes, que serão especialistas num determinado assunto ou numa etapa específica de um processo.
Pergunta: Vamos trazer isso um passo além, para a realidade. Suponha que eu te visite amanhã, você me receba numa reunião e eu leve um problema de direito digital, que é uma expertise muito forte no escritório. Eu digo: Alexandre, fui vítima de um golpe digital, queria saber o que você pode fazer, se eu tenho algum direito a ser pretendido. É uma reunião típica: o cliente chega e põe o problema. Até aí, a única IA que entrou foi um gravador. Como é que essa história vai seguir?
Alexandre Atheniense: O escritório de direito digital tem uma característica diferente: ele tem que dar respostas muito rápidas. Pode estar acontecendo a invasão de um hacker, um problema sério de reputação. Eu treino muito a minha equipe para dar respostas rápidas, para diminuir o tempo até eu poder entrar na sala com o cliente e, como autoridade no assunto, passar as orientações que eu acho interessantes na consulta. Um hábito que mudou foi esse: eu tenho uma pessoa que me ajuda a fazer a triagem do tema. Eu não entro em nenhuma consulta, nenhuma reunião, sem ter feito uma análise pré-consulta do que eu vou enfrentar pela frente.
Pergunta: Quer dizer que, quando eu te liguei para marcar a reunião e expus rapidamente o meu caso, o tema já foi pesquisado? No momento em que você me recebeu, o meu tema já estava estudado?
Alexandre Atheniense: Sim, com as seguintes ressalvas. Muitas vezes a sua narrativa, que vem numa mensagem de WhatsApp, já é uma referência muito boa para eu saber o que você pretende conversar comigo na consulta. Só que, nesse momento, eu tenho só a narrativa do cliente. Não tenho a verdade dos fatos.
Pergunta: E como você cobre essa diferença?
Alexandre Atheniense: Eu preciso preparar a consulta com a IA, com base numa base de conhecimento prévia que a gente tem aqui no escritório — é um assessor de pré-consulta que recebe informações de tudo que tem a ver com direito digital. Ele gera um dossiê que eu recebo e leio antes da consulta, dizendo assim: "olha, ele falou isso, mas você precisa checar essa informação com ele; ele tem prova, não tem prova". Ou seja, ele me manda um roteiro para identificar cirurgicamente quais são os pontos que eu preciso apurar.
Pergunta: E qual é a vantagem disso, na sua conta?
Alexandre Atheniense: A minha expectativa é chegar no final dessa consulta e dizer para o cliente: "olha, eu já analisei o seu caso previamente". Porque nós somos um escritório diferente: se o cliente paga por uma consulta, a gente começa a estudar o caso dele nesse momento, antes dele entrar na sala. A gente vai analisar até mesmo dentro do nosso banco de dados, da nossa inteligência, melhor dizendo, se a tese para atuar em favor dele é vencedora ou não. Tudo isso é checado antes — até mesmo o perfil comportamental dele, de acordo com algumas informações que a gente pode buscar ou outras que ele mesmo já nos revelou.
Pergunta: E aí a reunião acontece.
Alexandre Atheniense: Aí eu chego na reunião com muito mais autoridade, com a ajuda da IA, que já processa a informação em curtíssimo tempo e sempre direcionada à finalidade que o cliente tem. E chego no final da reunião e digo a ele: "olha, pelo que eu estudei, o que eu posso fazer de melhor para você em termos de escopo de serviço é o entregável 1, 2 e 3. Você concorda?" Ele fala: "OK, concordo". Tudo isso gravado, tudo isso posteriormente transcrito, inclusive o aceite dele quanto a essa definição do escopo.
Pergunta: Encerrada a consulta, o que acontece?
Alexandre Atheniense: Eu tenho um checklist e defini outras tantas informações necessárias para gerar já a etapa pós-consulta. Eu tenho que passar as informações que eu coletei para a pessoa que vai fazer a elaboração da proposta. Se faltou alguma informação durante a conversa, eu gravo um áudio respondendo a um checklist — tudo por áudio. E aí, consequentemente, depois eu tenho a informação completa, transcrita, do que foi discutido na consulta, seguindo o roteiro, bem como o que eu acrescentei de dados relevantes.
Pergunta: E quem monta a proposta trabalha com o quê?
Alexandre Atheniense: Com esse material. Ele consegue elaborar uma proposta em curto espaço de tempo porque já tem a definição de qual é o escopo, qual é a finalidade e de como a gente tem que elaborar valor na proposta para o cliente entender. Muitas vezes, na minha área, o cliente que contrata um advogado digital está fazendo isso pela primeira vez. Então a nossa missão é gerar valor com auxílio da IA, sobretudo destacando os aspectos de impacto financeiro envolvidos e quais são os nossos diferenciais.
Pergunta: E o preço, como se forma?
Alexandre Atheniense: Aí entra um novo ciclo. Nós temos uma base de conhecimento em que todas as nossas propostas de honorários foram armazenadas — não com o texto original, mas com um fichamento feito pela IA. Eu descobri que, a partir do texto de uma proposta, a gente precisa extrair o que a gente chama de metadados: qual era o escopo, qual foi o valor de cada entregável, quando é que aquilo foi contratado. A cada nova proposta é feito esse fichamento, porque, com a informação mais bem estruturada, a IA processa melhor e traz mais resultado.
Pergunta: E o que a IA faz com esse acervo de propostas?
Alexandre Atheniense: Ela vai consultar a nossa base de inteligência para saber qual foi o preço médio praticado num serviço similar a esse. Isso vai para uma planilha de formação de preço de venda, que já tem uma referência de quanto tempo e de qual é o gasto de energia que a gente tem em relação àquilo. Não que eu vá faturar por tempo — eu não faturo por tempo.
Pergunta: Por que não?
Alexandre Atheniense: Porque a IA impôs uma mudança radical quanto à metodologia de precificar o honorário de advocacia. Isso vem sendo amplamente discutido no mundo inteiro. Mas, ao mesmo tempo, se a gente usa IA, a gente pode aumentar a margem de lucro, porque vai fazer as atividades em menos tempo. Eu tenho a planilha e o registro de todo o racional que me levou a precificar o serviço de determinada forma, e ele será revisto: se ficou um valor muito alto, a gente vai aplicar uma margem de desconto. A proposta é elaborada normalmente em 24, 48 horas, muito bem elaborada, com muita clareza. E aí a gente já pula para o outro ciclo, que é o ciclo de follow-up.
Pergunta: Vamos supor que eu aceitei a proposta e a solução é ingressar com uma ação — uma obrigação de fazer, uma ação para remover um conteúdo na internet. O escritório entra em ação a partir de quando?
Alexandre Atheniense: Imediatamente. Hoje o escritório é movido por playbooks, tá? Ou seja, o que é um playbook? Cada etapa dessas que eu estou te falando é documentada e existe um guia de como fazer. E a equipe é rigorosamente treinada para não sair daquele fluxo, porque é o fluxo do playbook que sustenta a execução sistêmica do agêntico.
Pergunta: E o que dispara no momento em que o negócio fecha?
Alexandre Atheniense: Quando fecha negócio, imediatamente já tem um alerta que vai gerar uma nova rotina. Nesse caso, quem atendeu o cliente tem que buscar dentro do nosso acervo um questionário, com perguntas pré-elaboradas, que vai gerar um briefing para a equipe que vai efetivamente trabalhar. Então a equipe já sabe, com detalhes muito bem estruturados, todos os fatos que foram discutidos na consulta, todos os elementos que constituem a estratégia do advogado, bem como o checklist de documentos. O início da atividade efetiva da equipe tem um custo e um tempo muito reduzidos.
Pergunta: Você mapeou os serviços do escritório um a um?
Alexandre Atheniense: A gente mapeou todos os serviços que o escritório tem — hoje são mais ou menos 70. E cada serviço desses virou um agente. Eu tenho, por exemplo, o "doutor reputação", que é um agente superalimentado com tudo que tem de jurisprudência, de doutrina, de peças elaboradas que tem a ver com assuntos de reputação.
Pergunta: E o que esse agente faz sozinho?
Alexandre Atheniense: Dentro desse robô existe uma rotina agêntica a partir das teses que a gente destaca: quais são as teses vencedoras, quais são as perdedoras. A gente tem isso tudo mapeado por serviço. E, de tempos em tempos, esse robô roda automaticamente, vai no site dos tribunais e valida se aquelas teses vencedoras continuam sendo as mesmas ou se houve algum tipo de mudança, e traz essa informação para a base de conhecimento.
Pergunta: O ganho prático é não precisar caçar jurisprudência.
Alexandre Atheniense: A gente fica sem precisar ir a cada tribunal precisando de jurisprudência. Já temos sempre um acervo muito quente, com a decisão do STJ do mês passado em relação a determinado assunto. Para a nossa área de direito digital isso é muito relevante, e a rotina busca em diversas fontes — não só jurisprudência, doutrina também, e notícias de sites que falam sobre decisões interessantes. Então eu sei que, quando eu tiver um novo caso sobre golpe do Pix, no meu assessor "golpe do Pix" já tem ali o que existe de mais atualizado, porque essa rotina já rodou.
Pergunta: Voltando ao nosso caso prático: sua equipe já sabe que está com um caso, já tem uma tese, já reuniu as teses vencedoras, está pronta para instruir o processo e ingressar com uma petição. Provavelmente seus sistemas orientaram a produção dessa peça, ela foi revisada por um advogado, o advogado assinou e peticionou.
Alexandre Atheniense: Tem um detalhe importante aí na questão da revisão. A gente faz a revisão seguindo vários critérios. O primeiro é a revisão da peça pelos advogados mais especializados naquele assunto específico, para saber se, na ótica desses juristas, teria algum fator a ser explorado a mais dentro da estratégia.
Pergunta: E o segundo critério?
Alexandre Atheniense: Na nossa área acontece muito o pedido de tutela antecipada. Então eu costumo fazer uma outra revisão em que eu me coloco como se fosse um juiz. Eu pesquiso a peça através de um prompt: "o que não ficou claro para você antes de decidir conceder essa tutela?" E aí ele vai fazer uma análise crítica.
Pergunta: Dá um exemplo dessa crítica.
Alexandre Atheniense: Muitas vezes ele fala assim: "poxa, mas você está entrando no assunto que te interessa só na página 3. Faça um quadro logo de cara, na primeira página, com uma síntese que eu leia em 20 segundos para saber exatamente o que você quer". E aí, obviamente, isso vai impactar numa mudança de layout, usando recurso de visual law, para que a gente aprimore toda essa questão que vem dessas críticas — me colocando como se fosse um magistrado.
Pergunta: Tem um terceiro?
Alexandre Atheniense: Ainda pergunto se eu esqueci alguma coisa: "será que eu esqueci algum detalhe? Confere isso para mim". E tem também a revisão ortográfica, semântica, essas coisas todas. Depois que passa por todo esse processo, ainda tem a revisão humana no final. Jamais pular a revisão humana — mas ela já vai ser feita com muito menos trabalho do que se fazia antigamente.
Pergunta: Nenhuma peça começa mais no editor de texto?
Alexandre Atheniense: Não existe mais isso. Hoje não tem uma peça de conteúdo autoral do escritório que comece pelo editor de texto. O ser humano entra na fase de revisão. E quanto mais análise crítica o ser humano tiver, melhor vai ser o resultado final — mas nunca imaginar que todo o processo é automático.
Pergunta: Você tem uma fórmula para essa divisão de trabalho.
Alexandre Atheniense: Eu costumo dizer, de uma forma bem simplificada, que a IA te tira do zero e te leva até 70% em questão de segundos, de minutos — desde que você tenha o que a gente chama de RAG, ou seja, bancos de dados com curadoria selecionada, para ela não sair fazendo pesquisa pública, que é o que gera alucinação. Os 30% finais são a revisão humana. Não se pode pular essa etapa.
"A IA te tira do zero e te leva até 70% em questão de minutos. Os 30% finais são a revisão humana."
Alexandre Atheniense: Aí você vê advogado sendo punido porque inventou jurisprudência. E magistrado que não é punido porque inventou uma legislação que não existia — porque existem as duas partes: o advogado hoje é punido, o magistrado não. O Tribunal de Justiça de São Paulo tem uma decisão recente nesse sentido (decisão do Órgão Especial do TJ/SP, de 8 de julho de 2026, relatada pela desembargadora e corregedora-geral Silvia Rocha, que arquivou reclamação disciplinar contra magistrado que citou precedentes inexistentes gerados por inteligência artificial). A gente faz com que todo esse aprendizado seja incorporado dentro da nossa base de conhecimento. Qualquer informação que circula em relação aos nossos serviços — verificando a fonte, obviamente — sempre termina alimentando o aprendizado dos nossos assessores.
GATILHOS: DA CONTESTAÇÃO À SIMULAÇÃO DA SENTENÇA
Pergunta: Então o outro fator agêntico desse processo é o fato de que a sua IA efetivamente aprende enquanto trabalha. Ela recebe inputs humanos, recebe revisão humana, recebe provocações e perguntas, e com isso se capacita sobre uma base que não é aberta, passa por curadoria.
Alexandre Atheniense: Exato. E nós mapeamos, por exemplo, falando de contencioso, diversos momentos do trâmite processual em que a gente tem gatilhos.
Pergunta: Como funciona um desses gatilhos?
Alexandre Atheniense: Entramos com a inicial e veio o réu, fez a contestação. No momento em que entra a contestação, já roda uma rotina para gerar um relatório que marca os pontos controversos daquela ação e já simula mais ou menos como seria o despacho saneador.
Pergunta: E na fase de instrução?
Alexandre Atheniense: Vai ter uma perícia, por exemplo. Então ele já analisa todos os quesitos das partes e já responde o que seriam mais ou menos as respostas que o perito teria que encontrar. Muitas vezes eu faço um memorial disso para entregar nos próprios autos, e o perito fica feliz da vida na hora que recebe aquele material. Consequentemente, os resultados são muito positivos. Tudo isso cotejado com as peças do processo e com os documentos que já estão relacionados.
Pergunta: E antes das alegações finais?
Alexandre Atheniense: Hoje existem várias empresas no Brasil que fazem coleta em massa de decisões, sentenças, julgados. Então eu faço a compra dessas informações, que muitas vezes são de assuntos muito específicos, cruzando com o nome do magistrado para saber se ele tem algum repertório em relação àquele assunto. E, se tiver, eu peço que esse repertório dele seja cruzado com os fatos concretos da minha ação, para simular o que poderia ser uma sentença dele.
Pergunta: E em grau de recurso?
Alexandre Atheniense: Esse mesmo procedimento se repete em segunda instância, quando a gente simula uma sessão de julgamento, sabendo o repertório do relator e dos dois vogais.
Pergunta: Do jeito que você está falando, eu posso imaginar que você não perde mais nenhuma causa…
Alexandre Atheniense: Às vezes acontece, porque o Direito não é cartesiano. Já aconteceu inúmeras vezes de a gente trazer tudo isso e ainda vir uma decisão dizendo "não, mas nesse caso aqui é assim, assado". Por que isso acontece? Eu já fiz um estudo sobre isso: porque muitas vezes o assessor do magistrado não leu a inicial. Ele pega o modelo de decisão, de sentença, e coloca na decisão totalmente dissociado dos pedidos, tanto do autor quanto do réu.
Pergunta: E se esse assessor usasse inteligência artificial?
Alexandre Atheniense: Se eles fizessem isso com inteligência artificial, a chance de ter embargos declaratórios seria ínfima. Mas acontece demais. Hoje eu estou vendo que o Judiciário está passando por um momento de aprendizado da inteligência artificial, e eu rogo a Deus que isso sepulte de uma vez esse ato de copiar e colar decisões, modelos, sem usar a IA para analisar o caso concreto. Porque muitas vezes isso gera um prequestionamento e o assunto só vai ser resolvido no STJ, simplesmente porque não foram analisados todos os itens que tinham sido questionados a tempo e hora.
Pergunta: Fazendo um fecho: aquele caso todo, do momento em que eu te procuro com o problema, você me recebe, me entrevista, peticiona, até a decisão de segundo grau. Quanto tempo e quanto esforço isso demandaria no mundo do passado, e quanto demanda hoje?
Alexandre Atheniense: Eu tenho o hábito, no escritório, de fazer registro de tempo de todas as atividades que a gente tem — apenas por controle interno, não porque eu vá faturar em cima disso. Eu diria que, no mínimo, 40% do tempo a menos. E, quando eu falo em tempo a menos, não significa dizer que a qualidade piorou. Pelo contrário: aumentou. Então é importante que os advogados enxerguem que, com 40% menos tempo, a minha margem de lucro pode ser maior com o uso da inteligência artificial.
Pergunta: Ou seja, você reduz o tempo ruim e gasta o tempo bom. Reduz o tempo da tarefa burocrática, que é um tempo barato, e usa mais tempo de revisão qualificada, que é um tempo caro.
Alexandre Atheniense: Sim, mas não na proporção de tempo que eu usava anteriormente.
Pergunta: E qual é o próximo passo?
Alexandre Atheniense: O próximo passo é fazer com que a gente consiga usar cada vez mais a inteligência artificial agêntica por voz. Porque eu acho que o teclado está desaparecendo. E quanto mais a gente incentivar o uso de voz pela minha equipe, com aplicativos que fazem conversão de voz para texto, melhor vai ser a comunicação — mais abrangente, mais clara — e isso dá muito melhor resultado com a IA.
Pergunta: Você chegou a decretar o fim da conversa no escritório?
Alexandre Atheniense: Eu digo aqui que acabou a comunicação verbal aqui no escritório sobre assuntos de negócio. Porque, se não estiver formalizada, convertida de voz para texto, não é uma informação recuperável pela IA. Então isso não pode acontecer.
"Acabou a comunicação verbal aqui no escritório sobre assuntos de negócio."
Pergunta: E o que mais está no radar?
Alexandre Atheniense: Aperfeiçoar cada vez mais, porque as plataformas estão cada vez mais avançadas. Hoje tem muita tarefa que a gente pode gradativamente colocar para rodar de madrugada. A meta é cada vez mais separar a parte chata, operacional, do ser humano qualificado. O ser humano qualificado vai ser tratado como ser humano qualificado. O advogado qualificado, como advogado qualificado.
Pergunta: Há quem diga que a IA vai nivelar o júnior e o sênior.
Alexandre Atheniense: Dá uma falsa impressão de que a IA vai nivelar o advogado júnior com o advogado sênior. Completamente equivocado. Por quê? O advogado júnior pode até dominar IA mais do que o sênior, tudo bem. Mas, na hora da reta final dos 30%, que é a análise humana crítica, não tem como comparar. O advogado sênior vai estar sempre diferenciado nesse ponto.
Pergunta: E por que o sênior segue insubstituível na sua conta?
Alexandre Atheniense: Porque todas essas informações precisam ser sempre retroalimentadas. Uma das características da IA é o machine learning: quanto mais o sistema aprender com informações de qualidade, muitas vezes geradas pelo sênior ou pelo especialista, melhores serão os resultados.
Pergunta: Para o escritório que está começando agora, por onde ele não deve começar?
Alexandre Atheniense: A regra básica é sempre a seguinte: vai desenvolver um projeto? Não pense inicialmente se você vai usar a plataforma A, B ou C. Isso é bobagem. Você tem que primeiro entender a sua dor. E, a partir do momento em que você entende a sua dor, tem que saber quais são as atividades de um fluxo que possam resolver essa dor — para só depois escolher a plataforma.
Pergunta: E o que significa, no fim, resolver a dor?
Alexandre Atheniense: Resolver a dor significa reduzir o tempo de solução de um problema, reduzir o custo e melhorar exponencialmente a qualidade do serviço.
Do chatbot ao agente: o que muda
Na divisão que Atheniense usa na entrevista, o primeiro degrau é a IA generativa usada como chatbot: o advogado pergunta, a ferramenta responde — revisa um documento, pesquisa jurisprudência, redige uma peça simples. Só produz resultado a cada impulso humano. O segundo degrau é a IA agêntica: em vez de responder a pedidos isolados, agentes assumem etapas de um fluxo previamente mapeado — transcrever a reunião, distribuir e monitorar tarefas, montar o dossiê de pré-consulta, checar nos tribunais se as teses vencedoras seguem vencendo, elaborar a proposta a partir do histórico de honorários. Dois conceitos aparecem como condição para que funcione: human in the loop, o ponto obrigatório em que uma pessoa valida a informação e faz a análise crítica, e RAG (do inglês retrieval-augmented generation), a prática de alimentar a IA com bases de dados próprias e com curadoria, em vez de deixá-la pesquisar na internet aberta — origem, segundo ele, das alucinações.

