A advocacia empresarial adotou um novo modelo que tem colocado escritórios de diferentes regiões e especialidades em colaboração, priorizando a abrangência de atuação. Com a limitação de não poder atuar internacionalmente, as colaborações ganham espaço para atuar em parceria com escritórios de outras jurisdições. Esse movimento simplifica as operações, em vez de abrir uma filial internacional, tornou-se mais vantajoso firmar alianças com bancas locais.
Com a escolha do parceiro certo, o escritório herda quase automaticamente todo o conhecimento regional. Por isso, o modelo de aliança é muito mais comum do que o de escritórios com operações internacionais próprias que, quando existem, costumam ter apenas um escritório comercial ou contratar um advogado habilitado a advogar naquele país específico.
Algumas colaborações já têm esse olhar há mais de dez anos. Com diversos escritórios cadastrados, assim como em qualquer relacionamento entre parceiros comerciais, tudo é construído gradualmente. A Lexnet, Alianza Legal Latinoamericana e a Aliança Jurídica pela Equidade Racial expuseram os processos por trás das colaborações entre as bancas de advocacia.
Lexnet
Ana Cecília Lencioni, sócia do Lopes da Silva & Associados e atual presidente da Lexnet, conta que em 2004, ano de fundação da rede jurídica, o conceito de redes ainda era abstrato. A ideia consistia em somar esforços, conhecimento, presença geográfica e compartilhamento de experiências. O princípio basilar era de cooperação empresarial organizada em formato de empresa.
"Aqueles que entraram conosco desde o princípio são também escritórios muito arrojados. Eles entenderam que esse poderia ser um futuro mais sustentável, onde a gente não precisaria enfrentar diversas barreiras que uma grande banca consolidada nacional e internacionalmente precisa enfrentar, como questões culturais", afirma a sócia.
E para que esse modelo seja alinhado ao longo dos anos e ao longo de todo o exercício, a Lexnet propõe algumas atividades e encontros presenciais que fortalecem esses laços entre os escritórios. Além disso, servem para alinhar também os propósitos e formas de relacionamento. "Então, a gente olha tanto para conhecimento quanto para gestão, e a gente provoca essa discussão sempre trazendo um pouco a régua para cima. E, alinhando o grupo, a gente mantém um nível de debate e um nível de conhecimento sempre muito próximo um do outro, exatamente para ter essa homogeneidade na entrega e no atendimento", complementa Lencioni.
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Já na Alianza Legal Latinoamericana, Marcel Daltro, responsável e representante do projeto no Brasil pela NWADV, avalia que o propósito das alianças internacionais de advocacia é exatamente esse. Parte-se da premissa legal — advogados estrangeiros não podem atuar em outros países — e das diferenças culturais, linguísticas e de mercado que existem entre os países. O ponto de partida é olhar para as oportunidades geradas pelo processo de internacionalização e pela globalização da economia.
"Quando se parte desse princípio e se participa de uma aliança com governança, estatuto e forma de operação definidos, tudo isso já vem no pacote. Fica muito mais fácil prestar o serviço, porque há uma distinção clara entre o que cada escritório faz em seu país e o que o grupo faz como aliança. Existem regras a serem seguidas, e ao entrar nessa aliança, o escritório tem plena ciência disso e adapta sua operação para se tornar uma opção consistente dentro desse modelo", complementa o advogado.
É uma das poucas formas que a advocacia permite para uma movimentação comercial efetiva, que se dá por meio das indicações. Primeiro, é preciso escolher o parceiro correto e analisar os movimentos econômicos para identificar onde se inserir. Com esse planejamento estratégico e a escolha do parceiro adequado, o escritório passa a construir autoridade em atuação internacional. Disso decorrem as indicações e referências provenientes dos outros escritórios da aliança.
Processos
Se o parceiro escolhido atua em uma área do direito ou em um segmento econômico semelhante e tem em sua carteira clientes com movimentações internacionais, é muito provável que se forme um ciclo positivo de referências. O escritório passa a produzir materiais que o tornam referência, a reter bons profissionais em função dessa exposição e dessa autoridade.
"Um exemplo concreto: criamos, dentro da nossa aliança, um material chamado Doing Business, que apresenta como é possível fazer negócios em 20 países. É um material muito rico, elaborado por escritórios relevantes de cada um desses países, com pontos de vista sobre diversas áreas do direito no contexto local. Esse tipo de instrumento permite ao escritório se diferenciar no mercado, com foco nas questões internacionais, mas acaba reverberando e tornando esse ciclo ainda mais virtuoso — enriquecendo o escritório, seu posicionamento e os profissionais que dele fazem parte", conta Daltro.
O ex-presidente da Lexnet, Jair Jaloreto, apresenta que, ao ingressar na rede, o escritório passa por uma espécie de teste prático. Inicialmente, recebe demandas menos complexas e presta apoio logístico em sua localidade. Conforme demonstra qualidade e comprometimento, passa a receber casos mais relevantes.
"Não basta um escritório entrar na rede para imediatamente receber grandes oportunidades. Trabalhamos com base na confiança. Embora todos os escritórios da Lexnet sejam convidados por membros da própria rede, quando surge uma candidatura espontânea, realizamos uma avaliação criteriosa da banca, de seus sócios e de sua qualificação profissional", avalia o sócio do Jaloreto & Associados.
Prioritariamente, o objetivo é preservar tanto o nível técnico quanto o padrão de governança dos integrantes. Os escritórios precisam compartilhar os mesmos valores da rede: seriedade, foco no cliente e rigor técnico. Em resumo, a complexidade das demandas cresce proporcionalmente ao grau de confiança existente entre o escritório que origina a oportunidade e aquele que irá executá-la.
Os benefícios das redes jurídicas
"O principal ativo que a Lexnet oferece é a possibilidade de atuação nacional com qualidade. Posso contar com parceiros no Mato Grosso, em Porto Alegre, em Belo Horizonte e em diversas outras localidades, sempre com a segurança de saber com quem estou trabalhando" acrescenta Jaloreto.
Ana Cecília adiciona que o grande benefício é a multiplicação da potência de atendimento, além de multiplicar sua presença geográfica. Além disso, o conhecimento adquirido por meio de comitês de trabalho temáticos por áreas de direito e de interesse. Um outro benefício a ser mencionado é a troca, o acesso direto aos especialistas de cada matéria e de cada região.
Depois, há também uma questão de facilidade operacional. A tradução não apenas da língua, mas da realidade cultural e do mercado jurídico local. Tomemos o Brasil como exemplo, se uma empresa já contrata os serviços jurídicos de um escritório, esse já passou pelo compliance da empresa. Além disso, já possui uma relação de confiança estabelecida.
Dessa forma, por meio de uma aliança da qual o escritório faz parte, é possível emprestar essa confiança ao parceiro internacional, o que proporciona à empresa muito mais agilidade do ponto de vista da contratação, da velocidade do trabalho, do idioma e da forma de pagamento.
"Em síntese, as alianças viabilizam e facilitam significativamente a vida das empresas ao oferecer estruturas jurídicas em outros países", diz Daltro.
Dessa forma, a aliança vai além da questão jurídica em si, a colaboração também nasce para incentivar pautas importantes em um ambiente que historicamente exclui grupos minoritários, como a advocacia. É o caso da rede que publica censos sobre diversidade dentro das bancas, incentivando os escritórios envolvidos a colocar em prática a inclusão.
Aliança Jurídica pela Equidade Racial
A advocacia passou a ter maior consciência em relação à pauta da diversidade racial, que alterna momentos de avanço e de retrocesso. Assim, escritórios ao redor do país se juntaram para dar luz a dados da participação de pessoas negras em bancas, segundo Robson de Oliveira, sócio do Demarest Advogados e presidente da Aliança Jurídica pela Equidade Racial.
No primeiro censo realizado, em 2018, constataram que menos de 1% das pessoas nos quadros jurídicos dos grandes escritórios eram negras. Em 2021, ao repetir o levantamento, registraram um crescimento de 11,3%, com um número maior de respondentes, o que evidencia que as pessoas que ocupam esses espaços desenvolveram uma consciência maior sobre o tema. Ao concluir o mais recente censo, ao final de 2025, o número de respondentes foi menor, reflexo do momento que a sociedade atravessa na totalidade.
"Ainda assim, percebo uma evolução colaborativa entre todos os escritórios parceiros e aliados. É uma pauta que veio para ficar. Desde que constituímos a Aliança, não paramos. O avanço, em termos percentuais, pode parecer modesto, mas é consistente. Essa consistência decorre de uma decisão deliberada de trabalhar com medidas concretas, não com iniciativas de ocasião. O escritório é feito de pessoas que vêm e vão, razão pela qual a reeducação nesses espaços precisa ser contínua. E os escritórios membros têm mantido, cada vez mais, essa parceria colaborativa", comenta de Oliveira.
Quando um escritório membro não adota medidas semelhantes, acaba ficando em desvantagem na atração e retenção desses profissionais. Nesse contexto, usa-se, de acordo com o presidente, uma estratégia interessante no grupo. "Levamos para as lideranças o argumento de que o escritório X já está fazendo isso — o que, por uma espécie de concorrência saudável, acaba estimulando a adoção de práticas similares por outros membros. O resultado é uma rede de trocas que fomenta, cada vez mais, medidas propositivas voltadas à capacitação e à inclusão", conta o presidente.
As alianças na era da tecnologia
Para a atual presidente da Lexnet, o advento da tecnologia e da inteligência artificial, principalmente, tende a um enxugamento das bancas e, após isso, um ajuste. Mas que este movimento de rede, seja como for estruturada, dá uma segurança de equipe.
"Eu acho que sim, fortalece e pode ser uma tendência de futuro, principalmente considerando essa reorganização das bancas em razão da tecnologia", conclui Lencioni.
Marcel Daltro afirma que, devido à globalização já bem estabelecida, ao aumento do fluxo de investimentos e à cultura empresarial evoluir para a operação fora do país, a prestação de serviços jurídicos acompanha esse movimento.
"O escritório que compreender esse movimento e optar por acompanhá-lo tem uma projeção de crescimento bastante interessante. Se estudarmos a história do mercado jurídico brasileiro, veremos que as grandes corporações e os grandes escritórios sempre acompanharam os ciclos econômicos", finaliza Daltro.
Talvez estejamos entrando agora em um novo ciclo, que gera uma série de oportunidades para os escritórios dispostos a crescer e acompanhar esse movimento. As demandas serão grandes, e existe um momento real de aproveitar essa oportunidade para consolidar o nome do escritório e de quem dele faz parte.

