O excesso de bacharéis de Direito no mercado afeta até os motoristas de aplicativo. Segundo Pedro Ivo Gricoli Iokoi, sócio-fundador do escritório criminal Iokoi, Paiva, Jonasson e Scalzaretto Advogados, eles também competem com um bacharel em Direito que não passou no Exame da Ordem — ou que nem quis tentar. "Coitados dos motoristas de Uber, têm que concorrer com os bacharéis de Direito", resume ele.
A frase é uma provocação, mas o diagnóstico vem de dentro: Pedro é diretor-tesoureiro da Caixa de Assistência dos Advogados de São Paulo e acompanha de perto a queda de 20% nas inscrições do Exame de Ordem no estado, o maior do país.
A entrevista a seguir foi concedida por Pedro Ivo Gricoli Iokoi a Alexandre Secco, editor-chefe da Análise Editorial.
Pedro Ivo Gricoli Iokoi é sócio-fundador da Iokoi, Paiva, Jonasson e Scalzaretto Advogados, escritório especializado em direito penal empresarial ("colarinho branco e antifraude"), com uma área auxiliar de direito trabalhista. É mestre e doutor em Direito Processual Penal pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP) e bacharel em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). É também diretor tesoureiro da Caixa de Assistência dos Advogados de São Paulo (CAASP), vinculada à Ordem dos Advogados do Brasil, Seção São Paulo (OAB-SP). Estagiou no Ministério Público, iniciou sua carreira em um escritório de bairro, passou por um escritório "boutique" e fundou seu próprio escritório em seguida.
CONCORRÊNCIA E HONORÁRIOS
Alexandre Secco: Segundo dados da Análise Editorial, surgem cerca de 200 novos escritórios de direito empresarial por ano no Brasil. Cabe todo mundo?
Pedro Iokoi: Tem espaço, porque somos a sétima ou oitava economia do mundo, com empresa para todo mundo atender. Mas isso também significa mais concorrência e honorário médio mais baixo por advogado. A remuneração média de advogado em São Paulo gira em torno de R$ 8 mil e no Brasil em torno de R$ 3 mil. Para uma profissão que exige estudo e atualização constante, é pouco.
Pergunta: Onde é que essa conta aperta?
Pedro Iokoi: Muito no custo de estrutura. Quanto maior o custo de estrutura, mais alto precisa ser o faturamento por advogado só para cobrir a conta. Escritório grande tem custo de estrutura bem mais alto que um escritório pequeno bem-organizado. Em muitos casos, um escritório pequeno e enxuto, mesmo numa região cara como a Faria Lima, pode faturar bem menos por cabeça e ainda sobrar mais lucro líquido no bolso do que uma estrutura grande e cara. Por isso as sociedades unipessoais e de dois ou três advogados vão continuar sendo a maioria. E vai continuar normal ter poucos escritórios muito grandes, porque o mercado não comporta honorários altos para todo mundo.
"Um escritório pequeno e enxuto, mesmo numa região cara como a Faria Lima, pode faturar bem menos por cabeça e ainda sobrar mais lucro líquido no bolso do que uma estrutura grande e cara."
INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL NA PROFISSÃO
Pergunta: Com o mercado assim, quem ainda quer entrar nele? Todo mundo discute a inteligência artificial no futuro da profissão. Onde ela já apareceu nos seus números?
Pedro Iokoi: A gente já vê uma redução de 20% na quantidade de novos advogados se inscrevendo em São Paulo. Sei, porque sou diretor da caixa da Ordem e a gente já discute isso nas projeções da instituição. A pessoa paga cinco anos de faculdade, não consegue a carteira, e vai dirigir Uber. Coitados dos motoristas de aplicativo, têm que concorrer com os bacharéis de Direito. E afeta também quem já está dentro: comecei numa época em que se chegou a ter três estagiários por advogado. Hoje a média é menos de um. Isso significa menos vagas de treinamento para quem está entrando agora.
Pergunta: Então sobra espaço para quem?
Pedro Iokoi: Sobra para quem entrou numa faculdade boa, tem aptidão para prompt e legal design, e se senta do lado do advogado mais experiente para aprender a estratégia. A dupla que funciona é o jovem nativo digital com o veterano. E isso muda bastante a questão do etarismo: o advogado que souber fazer o raciocínio jurídico não vai sofrer com isso, vai ser hipervalorizado. A gente vai voltar a ter diretores jurídicos de 60 anos.
Pergunta: E quem vive de volume?
Pedro Iokoi: O contencioso de massa tende a ficar concentrado em empresas que vão oferecer advocacia via IA. O advogado que tocava 500 processos vai tocar 3.000, porque a máquina faz o trabalho pesado e só sobra a revisão final para ele. E a advocacia de volume ofensiva, com procuração falsa, comprovante de endereço falso, tende a parar na mão de empresas de tecnologia que conseguem identificar e neutralizar isso.
ESTRUTURA JUDICIÁRIA E OAB
Pergunta: A tecnologia desafoga a Justiça brasileira?
Pedro Iokoi: O que me preocupa é o entupimento definitivo da estrutura judiciária. Não tem dinheiro para pagar juiz e servidor no volume que a Justiça brasileira exige hoje. Mesmo com IA, isso vai travar. A saída é a PEC dos recursos, a antiga PEC do Peluso. O Brasil não precisa de quatro graus de jurisdição. Dois graus bastam, como no resto do mundo; o resto vira ação rescisória, com requisitos bem definidos.
Pergunta: E do lado da própria advocacia, o problema de estrutura também é institucional.
Pedro Iokoi: A OAB precisa de eleição direta para presidente nacional. Hoje é um sistema de voto indireto, herdado do período da ditadura, e isso concentra pauta nas mãos de poucos. E tem relação com os escritórios de lobby em Brasília: alguns desses escritórios existem só para abrir portas em tribunal superior. Uma ordem eleita diretamente teria mais força para mudar essa pauta.
"O Brasil não precisa de quatro graus de jurisdição. Dois graus bastam, como no resto do mundo."
A ESTRATÉGIA DO ESCRITÓRIO
Pergunta: Diante desse diagnóstico, qual foi a sua resposta dentro de casa? O que a Iokoi, Paiva, Jonasson e Scalzaretto Advogados faz — e o que ela deliberadamente não faz?
Pedro Iokoi: Por estratégia, não fazemos "colarinho azul", com crime de sangue. Trabalhamos com colarinho branco e com antifraude, e temos uma área auxiliar de trabalhista, criada justamente para não competir com os parceiros que já cuidam desse tipo de caso. Tenho oito equipes, com as quais tenho reunião todas as manhãs com os coordenadores. Todo mundo trabalha com o mesmo tipo de relatório, mesmo padrão de revisão, para que a experiência do cliente seja idêntica, não importa qual time o atenda.
Pergunta: Num escritório criminal, o cliente compra o nome do sócio. Como se garante o mesmo padrão nos casos que passam longe de você?
Pedro Iokoi: Trouxe para o escritório um procurador de Justiça aposentado, com 34 anos de Ministério Público, e um desembargador aposentado, com 37 anos de tribunal. Eles ficam aqui de segunda a quinta e ajudam na revisão e na estratégia dos casos. Não foi uma decisão fácil, eu demorei, porque vi durante a Lava Jato gente saindo do Ministério Público Federal direto para escritórios, o que do meu ponto de vista foi um tiro no pé para quem contratou. Fui bem cuidadoso, conversei bastante antes de decidir. Deu certo: já estão aqui há seis anos, é lucrativo, e são profissionais excelentes de se trabalhar.
DO ESTÁGIO À GESTÃO
Pergunta: E como você virou esse gestor?
Pedro Iokoi: Estagiei no MP e quando prestei o concurso depois de formado, o concurso foi anulado porque a prova vazou. O pai de um amigo me convidou para trabalhar no escritório dele, que era um escritório de bairro. Depois trabalhei em um escritório "boutique" e percebi que o mercado carecia de escritório que só fizesse esse penal corporativo. Arrisquei e deu certo! Passei a divulgar meu próprio trabalho. Mas, antes disso, meu pai teve muita dificuldade de gestão na empresa dele, e aos 16 anos tive que aprender a administrar os negócios, por necessidade. Tive que aprender a gostar de gestão na marra, e isso acabou virando minha atividade principal hoje, o que talvez nem fosse o que eu queria no início.
Pergunta: Você passa mais tempo hoje na cadeira de advogado ou na de administrador?
Pedro Iokoi: Hoje estudo mais administração de empresas do que Direito, porque é isso que minha função exige. O dia que eu virar consultor do escritório, como os meus dois sócios, quero poder sentar com calma e olhar um caso por vez. E eu já sei onde: não é essa sala aqui. É lá no décimo quarto andar, como consultor.
Pergunta: Se tivesse que cravar: como está o escritório daqui a alguns anos?
Pedro Iokoi: O escritório vai continuar predominantemente criminal, com uma área de apoio trabalhista bem focada, sem disputar mercado com pareceristas ou com os escritórios dos parceiros que atuam em outras áreas do Direito.
Pergunta: E o que mais te preocupa na geração que está entrando agora?
Pedro Iokoi: A falta de formação de verdade. Quando eu comecei, eu ia trabalhar com um advogado mais experiente, me inspirava nele, queria ser tão bom quanto ele. Hoje tem muito menos espaço para essa relação de aprendizado, e isso é muito triste.

