Declarar o Imposto de Renda sempre exigiu atenção, mas 2026 trouxe um componente novo: a inteligência artificial a serviço da Receita Federal. O órgão tem investido em tecnologia para cruzar, de forma automática e em larga escala, as informações declaradas pelos contribuintes com dados de outras fontes, como bancos, empregadores, cartórios e até plataformas de pagamento digital. O resultado é uma fiscalização mais precisa, mais rápida e muito menos tolerante a inconsistências.
Se antes os sistemas do fisco operavam de forma fragmentada, com cada declaração analisada de maneira isolada, hoje a Receita cruza automaticamente um volume expressivo de informações em tempo real. Rendimentos informados pelo empregador, movimentações bancárias, operações imobiliárias, recibos médicos e contribuições previdenciárias são confrontados entre si e com o que o contribuinte declara.
Como a IA mudou a fiscalização da Receita Federal
Há alguns anos, o órgão operava com sistemas distintos para cada funcionalidade de declaração, sem que houvesse cruzamento efetivo das informações prestadas pelos contribuintes. Hoje, o cenário é outro. O ambiente digital da Receita, o e-CAC, e os softwares de validação recebem atualizações constantes.
Os contribuintes, por sua vez, ainda seguem processos tradicionais de escrituração e lançamento fiscal sem o mesmo nível de atenção que o fisco já exige. Mesmo grandes empresas contam com poucos recursos de IA voltados especificamente para essa finalidade.
Edson Hideki, sócio-fundador da REVIO Tecnologia Tributária, explica que essa transformação não é recente, mas ganhou escala em 2025 e 2026. "A Receita Federal tem se equipado com inteligência artificial e com um amplo parque tecnológico para realizar apurações cada vez mais detalhadas".
Na prática, isso ficou evidente em uma operação recente envolvendo supermercados, caso já abordado no portal da Análise Editorial. A Receita passou a exigir o detalhamento preciso dos lançamentos por operação: cada produto adquirido, frutas, bebidas, insumos, deve constar de forma individualizada na nota fiscal, com classificação fiscal correta.
Essas informações integram o Sistema Público de Escrituração Digital (SPED) e são transmitidas ao fisco. O problema é que as empresas nem sempre percebem que a Receita cruza esses dados com outras obrigações acessórias, como pedidos de ressarcimento, compensações tributárias e valores efetivamente recolhidos.
O que chama atenção do cruzamento automatizado de dados
Nem toda inconsistência é sinal de fraude. Muitas resultam de erros de preenchimento ou desconhecimento das regras. Ainda assim, algumas situações acendem o alerta nos sistemas automatizados da Receita com mais frequência.
Um dos gatilhos mais comuns envolve a classificação fiscal incorreta de produtos. Um escritório jurídico tributário pode orientar a empresa com base em determinada interpretação da lei, e a equipe fiscal, com base nessa orientação, realiza os lançamentos conforme seu entendimento. O problema surge quando, posteriormente, a Receita adota interpretação diversa.
O especialista cita um exemplo concreto: o leite é um produto com alíquota zero de PIS/Cofins, conforme a Lei 10.925. Ainda assim, há casos em que supermercados o cadastram como passível de creditamento de PIS/Cofins, com base em interpretação equivocada. A IA já utilizada por empresas especializadas consegue interpretar a semântica da descrição de produtos, como "leite desnatado", associá-la ao NCM (Nomenclatura Comum do Mercosul) correspondente e verificar se a alíquota e o tratamento tributário aplicados estão corretos conforme a legislação.
"Esse cruzamento é complexo, pois cada empresa pode cadastrar o mesmo produto com descrições diferentes, e a análise exige leitura semântica, não apenas conferência de código. No fundo, o fisco observa quanto o contribuinte deveria recolher e quanto efetivamente recolheu. Se uma empresa deveria pagar um valor e pagou menos, a Receita cruza as declarações, identifica a divergência e investiga o motivo", explica Hideki.
Pontos a serem cuidadosamente observados
O primeiro alerta apontado por Hideki são os rendimentos incompatíveis com o patrimônio declarado. Se o contribuinte declara renda anual de R$ 60 mil, mas adquiriu um imóvel de R$ 500 mil à vista no mesmo período, a disparidade tende a ser identificada.
Outro ponto de atenção são despesas médicas sem comprovação e movimentações bancárias incompatíveis com a renda declarada. Valores deduzidos em saúde são cruzados com dados de hospitais, clínicas e planos, enquanto depósitos sem respaldo na renda informada podem sinalizar divergências à Receita.
É também observado pela Receita a incompatibilidade entre a atividade declarada e as operações efetivamente realizadas. Segundo Edson, a Receita já consegue identificar, por exemplo, empresas que declaram atividade de prestação de serviços, mas cujas movimentações indicam compra e venda de veículos em volumes expressivos. E por fim, a omissão de rendimentos de fontes pagadoras.
Diante desse cenário, Edson Hideki afirma que a preparação antecipada é o melhor caminho. As empresas devem checar antes de transmitir a declaração: informe de rendimentos, despesas médicas, bens e direitos e rendimentos de fontes diversas.
A recomendação é tratar a declaração com o mesmo rigor que o fisco passou a adotar. Isso significa não apenas preencher os campos corretamente, mas revisar ativamente se as informações são consistentes entre si e se correspondem ao que outros agentes (bancos, empregadores, prestadores de saúde) já reportaram ao fisco.
Fiscalização preventiva ou punitiva? O impacto na estratégia tributária dos negócios
"É uma pergunta difícil e um tanto polêmica, mas minha percepção é que a Receita Federal tem adotado uma postura predominantemente preventiva — ao menos na aparência. O órgão mantém canais de diálogo com a comunidade de contribuintes e tem sinalizado oportunidades de regularização voluntária. Na operação recente envolvendo supermercados, por exemplo, as empresas receberam prazo até 30 de junho para se regularizar", analisa Hideki.
No entanto, as multas são elevadas, 75% sobre o valor devido, e muitas empresas chegaram à situação irregular não por má-fé, mas por limitações técnicas e pela própria complexidade do sistema normativo, que induz a erros interpretativos. Reconhecer o problema tem impacto significativo no caixa, o que torna a decisão difícil, especialmente para empresas menores ou com equipes fiscais reduzidas.
Em sua avaliação, ele diz que a reforma tributária tende a reduzir esse tipo de falha, ao simplificar as obrigações acessórias e unificar tributos hoje fragmentados. Mas, no período de transição, as empresas continuarão expostas. Em São Paulo, já há empresas bem estruturadas digitalmente. Mas em outros estados, é comum encontrar pequenas e médias empresas com limites tecnológicos. Para essas empresas, cumprir prazos curtos de regularização é praticamente inviável.
"Por isso, entendo que o caminho mais eficaz não é apenas a punição, mas a combinação de programas de conscientização com tecnologia acessível. A IA ainda é vista, em muitos ambientes empresariais, apenas como ferramenta de conversa e não como solução de conformidade tributária", finaliza o especialista.
Mudar essa percepção é fundamental para que as empresas consigam acompanhar o ritmo do fisco e contribuir para uma economia mais saudável e transparente.

