A primeira reunião de balanço da gestão de Maís Moreno como CEO da Manesco Advogados aconteceu horas antes desta entrevista. Bateram as metas. É o tipo de frase que soa banal em qualquer empresa e que, na advocacia, ainda beira a transgressão: até pouco tempo, ali dentro, nem todos os sócios sabiam responder na ponta da língua quanto a banca faturava.
Ela entrou no escritório como jovem advogada, virou sócia, fundou a filial do Rio de Janeiro, foi conselheira, diretora e vice-diretora antes de assumir a cadeira de CEO, em janeiro de 2026. É mestre em Direito do Estado pela USP, graduada pela PUC-SP e fez especialização em infraestrutura na Harvard Kennedy School.
O escritório é o Manesco, Ramires, Perez, Azevedo Marques, fundado em 1991, em São Paulo, por quatro homens recém-saídos da faculdade de direito da USP — e hoje, depois de um rebranding incentivado por ela, é apenas Manesco Advogados. A banca tem 13 sócios e cerca de 150 pessoas, com filiais no Rio e em Brasília, e construiu reputação única em direito público — regulatório, concessões, privatizações e parcerias público-privadas.
Chama atenção o que ela não faz. Não trata a história da casa como estorvo a ser removido: "tenho uma determinação pessoal de não descartar nossa história", diz, e por isso boa parte desta conversa acaba sendo sobre gerações. E não terceiriza o desconforto — conta o episódio que quase interditou a carreira dela antes de começar, e a conversa que teve de ter com os quatro fundadores três meses antes de pleitear a sociedade.
A entrevista foi concedida por Maís Moreno a Alexandre Secco, editor e sócio da Análise Editorial.
Maís Moreno é CEO da Manesco Advogados, cargo que assumiu em janeiro de 2026. Sócia da banca, liderou a abertura da filial do Rio de Janeiro e foi conselheira, diretora e vice-diretora do escritório. Atua em contratação pública e investimentos privados em setores regulados. É mestre em Direito do Estado pela Universidade de São Paulo, graduada pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e especializada em infraestrutura pela Harvard Kennedy School. Integra o Conselho de Desenvolvimento Econômico Social Sustentável (CDESS), da Presidência da República, e o conselho da Iniciativa Empresarial pela Igualdade Racial.
Alexandre Secco: Quando eu pergunto a um escritório qual é o seu faturamento, muitas vezes as pessoas não sabem, ou não querem falar, com medo de que a OAB reaja de alguma forma. Eu digo sempre que isso é um dado gerencial. Como era na Manesco Advogados?
Maís Moreno: Antes a gente não falava em número. Qual é o faturamento do escritório? E os faturamentos individuais? Poucos sabiam responder. Fazíamos assembleia com todos os associados e nunca prestávamos atenção nisso. Era um tabu. O escritório em geral sempre foi muito bem, distribuiu lucros, ninguém se preocupava muito com detalhes.
Pergunta: E não é só em vocês.
Maís Moreno: A nossa profissão tem um lado de função social, um legado de nobreza. Qualquer ação que possa no imaginário se aproximar de uma mercantilização da advocacia dá pavor. Mas as sociedades são também negócios, com finalidade de distribuir riqueza no fim do dia — um negócio com propósito, para usar a linguagem dos mais jovens. Mas falar disso ainda é um tabu. Se você entra em vários escritórios e pergunta qual é a meta de faturamento individual, qual é a meta da banca, qual é o custo direto e indireto… o pânico é geral.
Pergunta: Mas todo negócio tem função social, mesmo que seja apenas sustentar os próprios donos (risos).
Maís Moreno: Exato, melhor que todo mundo sem trabalho.
Pergunta: E o que você já conseguiu mudar?
Maís Moreno: Conseguimos trazer transparência e governança para o financeiro, profissionalizamos os setores do backoffice e melhoramos os processos internos. Hoje nossa comunicação funciona, a controladoria é estratégica, o departamento de pessoal está integralmente dedicado a cuidar das pessoas — inclusive da saúde mental delas. No financeiro, uma revolução. Sei quantos contratos são assinados por dia, quais estão pendentes, quais propostas foram enviadas, se foram aceitas ou recusadas e por que, o que faturo de pró-labore, de êxito de curto e de longo prazo. Tenho um painel de controle do escritório na palma da mão — coisa inédita na nossa história.
Pergunta: E o balanço do primeiro semestre da sua gestão, quando saiu?
Maís Moreno: Hoje. Tive minha primeira reunião de balanço do semestre da minha gestão e batemos as metas. Fiquei muito feliz.
Pergunta: O que mais estava nessa lista de entregas?
Maís Moreno: O principal era construir inteligência para tomar decisões estratégicas. Hoje nossa reunião de conselho baseia-se em dados confiáveis. Além disso, temos um processo de onboarding redondo, plano de carreira e remuneração adequados aos incentivos que entendemos relevantes. Temos também metas de diversidade e inclusão, todas atingidas — raça, gênero, deficiência —, comunicação interna e externa bem resolvidas, vagas preenchidas, faturamento e lucratividade crescentes. Estou discutindo expansão em algumas áreas ligadas ao nosso core e trouxe sócios que são um dream team.
Pergunta: Vamos aos nomes.
Maís Moreno: Marcelo Proença, Claudia Polto, Daniel Esteves, Daniele Feitosa. É uma honra tê-los aqui. A Claudia, por exemplo, tem uma trajetória brilhante como procuradora do Estado — escolher ficar conosco depois da aposentadoria é um baita reconhecimento. Vamos dobrar de tamanho: estou fechando, esta semana, o contrato de aluguel de um novo espaço, nos Jardins.
Pergunta: Você virou CEO com a missão de dar um chacoalhão no escritório — e não porque ele estivesse mal, pelo contrário. Mexer numa estrutura que está funcionando é muito mais complicado do que reformar uma casa detonada.
Maís Moreno: É como trocar uma peça com o avião voando. Exatamente essa operação. O escritório tem uma operação muito complexa, clientes de longo prazo, e não queríamos mudar nosso DNA. A ideia não era jogar tudo fora e fazer outro escritório — era se renovar e se fortalecer, como o escritório de médio porte que somos e queremos continuar a ser, para seguir enfrentando os desafios.
"É como trocar uma peça com o avião voando."
Pergunta: Todo mundo fala em renovar. Um escritório trocou a cor do logotipo e apresentou isso como uma revolução… O que é se renovar, na prática?
Maís Moreno: Renovação, aqui, começou pela percepção individual de que ela era necessária. Foi um processo de construção de consenso. Usamos fórmulas de gestão e de advocacia que funcionaram muito bem por 30, 35 anos. Funcionaram enquanto éramos umas 60 pessoas, mas o escritório cresceu — pelo boom das privatizações, das PPPs — e cresceu rápido, ainda que de maneira consistente. As normas internas estavam mais ou menos na cabeça de duas ou três pessoas. Quando a banca cresce, ela não pode mais ser administrada como antes, com o plano de carreira que tínhamos, com a gestão centralizada e menos profissional que existia. Passa a ser necessário ter maior governança e controle sobre os números. E precisa de consenso porque o investimento é grande e o dia a dia é super impactado. Conseguir passar por essa renovação, contribuindo para uma nova realidade, é um mérito de todos.
Pergunta: Eu já vi essa história antes. É curioso como se chega a um momento em que parece que nada mais serve — não é que a peça não funcione, é que você abre o guarda-roupa e pensa: "eu consigo vestir isso, mas não dá mais".
Maís Moreno: Acho essa imagem muito boa, porque nem a marca dava mais. A gente também teve que trocar de roupa, de espaço. A marca reflete um tempo: ninguém dirá que o "revenge dress" da Lady Di deixou de ser elegante, só que, se uma pessoa sai vestida daquele jeito hoje, estará antiquada. O vestido foi perfeito para o seu tempo. A Manesco Advogados foi perfeita para o tempo dela, mas precisava encontrar novas vestes — e não só de imagem — para continuar sendo o que sempre foi: vanguarda.
Pergunta: E por que essa missão caiu em você? Ninguém gosta de mudar, especialmente quem já tem nome no mercado.
Maís Moreno: São duas coisas. Primeiro, a Manesco Advogados pensa estrategicamente tudo o que faz. Quando cuido de um caso ou de um projeto de um cliente, não penso só no edital de hoje, penso em como aquilo vai se comportar nos próximos 30 anos. Isso é do nosso DNA. Quando um serviço jurídico começa a se comoditizar, a gente já está pensando no próximo. Não seria estratégico continuarmos na inércia, sem pensar estrategicamente em nós mesmos.
Pergunta: E a segunda?
Maís Moreno: Hora certa, lugar certo, pessoa certa. Dos nossos quatro sócios fundadores, dois já queriam um movimento de mais tranquilidade na vida. Não fazia mais sentido continuar naquela loucura de dirigir o escritório. Eles queriam atender, como continuam atendendo, seus clientes específicos, num arranjo mais adequado ao momento de vida deles. E eu queria contribuir.
Pergunta: E você já vinha reclamando há muito tempo, imagino.
Maís Moreno: Desde jovem advogada eu fui motor de mudança aqui. Reclamava do valor do ticket-alimentação, fazia pesquisa para mostrar que era inadequado, queria melhorar o plano de carreira. Sempre trazia críticas, mas de maneira colaborativa. Queria construir junto. Depois, por conta do Rio, fui atrás de me especializar em gestão, e nisso foram-se somando os anos de casa. Há um fator relevante, que é a confiança e a percepção, construída ao longo do tempo (e com muitos testes), de que eu visto e adoro essa camisa. Isso me levou a ser uma das agentes de mudança. Fui indicada e eleita para acompanhar um processo que o escritório percebeu que precisava fazer, capitaneado pelo Marcos Perez por dois, três anos como diretor-geral. Eu apoiei a gestão dele, fui vice e depois virei CEO.
Pergunta: E o que definiram como o seu trabalho?
Maís Moreno: O Marcos Perez (sócio fundador) começou uma reforma administrativa profunda, mexendo por dentro. Eu tinha que terminar essa reforma, mostrando que valeu a pena. Pega, que o filho é teu — e não era um filho fácil de carregar no colo. Quando assumi, no começo deste ano, eu sabia exatamente o que precisava ser feito: criar metodologia de recrutamento e seleção para advogados e sócios, estabilizar as áreas sem boa liderança, fazer uma gestão à vista, na palma da mão. Meu job description tinha cinco páginas, com pouco espaçamento, corpo sete.
Pergunta: Jogaram você na fogueira…
Maís Moreno: A culpa é minha. Eu disse que faria, há anos queria fazer, e agora fiz.
Pergunta: Vamos entrar num terreno delicado. No começo da sua carreira, em outro escritório, você foi vítima de assédio. Você já disse que é uma violência dupla: a violência implícita nesse tipo de ato contra uma pessoa e a de tirar dessa pessoa o seu sonho de vida, de carreira.
Maís Moreno: Exatamente. Eu vivi um luto do que seria a minha carreira de advogada na época do estágio, justamente porque naquele episódio eu compreendi, erroneamente, que eu não teria os skills para seguir fazendo uma carreira num bom escritório de advocacia. Eu precisaria entrar num jogo sexual e eu não estava disposta — não era o que eu queria, não estudei para aquilo.
Pergunta: E o que você fez com esse luto?
Maís Moreno: Nesse luto, fui estudar na Itália — longa história — e voltei para finalizar meu curso e ser assistente acadêmica do Marcos Perez, que me convidou, depois de um ano trabalhando juntos, para aplicar a uma vaga de advogada aqui na Manesco Advogados. E aí eu tive que enfrentar, de um lado, a decisão que já havia tomado de perseguir uma carreira na advocacia pública, onde eu imaginava que a progressão seria mais protegida. Essa era a minha conclusão da época.
Pergunta: E de outro lado?
Maís Moreno: De outro lado eu tinha a possibilidade de dar uma nova chance à advocacia privada. Para tornar minha decisão mais difícil ainda, eu vinha de uma tradição acadêmica que olhava com muita desconfiança para qualquer relação público-privada. Estado e empresa na mesma frase eram coisas que não andavam bem juntas, a não ser para dizer que seus interesses eram contraditórios. E aí o convite era justamente para atuar na Manesco Advogados, o escritório das relações privado-públicas.
Pergunta: E o que aconteceu quando você entrou?
Maís Moreno: Um novo mundo se abriu. Eu era aquela jovem advogada idealista — acho que como todo advogado, eu queria fazer justiça, queria um mundo melhor. Passei a entrar nas reuniões da Manesco Advogados e a ver que o privado e o Estado na mesma sala são uma potência de transformação, uma potência civilizatória.
Pergunta: E isso coincide com o grande momento das parcerias público-privadas, quando se criou o arcabouço jurídico para colocar aquilo em prática. Vocês foram uma referência absoluta nesse movimento.
Maís Moreno: Fizemos muito. Atuamos em creche, hospital, escola, equipamento esportivo, rodovia, ferrovia, porto, aeroporto. E eu entrei surfando essa onda, vendo a potência de realização que é o Estado e o privado atuando juntos: rede de esgoto chegando às casas das pessoas, mais escolas bem equipadas, mais hospitais. Aquilo foi a quebra de um tabu que eu tinha.
Pergunta: Em que momento você soube que era ali?
Maís Moreno: Passava na porta muitas vezes de madrugada, feriado, carnaval — foram muitos feriados dentro deste escritório. Eu abria a porta cansada e pensava: aqui é o meu lugar. Quero poder atuar pelo desenvolvimento econômico do meu país por essa via. É aqui que eu consigo contribuir, abrindo essas portas, estruturando esse tipo de contrato. Cada um com a sua sementinha.
Pergunta: A jovem advogada entra no escritório, olha para os lados e vê um monte de estrelas do mundo jurídico — todos homens…
Maís Moreno: Acho que a minha maior sorte na vida foi ter caído nesse ambiente. Como tantos outros escritórios, este foi fundado por quatro homens — que, como brinca um deles, são o próprio estereótipo do que hoje se critica: homem branco, hétero, e por aí vai. Ele brinca com isso. Mas esses homens foram um trampolim na minha vida, me alavancaram como pessoa. Fui pupila do Marcos, aprendi muito com o Eduardo, e as lições que o Zé Roberto Manesco me deu eu vou levar para a vida. E, bem, tem o Floriano.
Pergunta: E você se sentia representada ali?
Maís Moreno: Lá atrás eu olhava ao redor e, de fato, não me via tão representada, porque não havia tantas sócias. Mas eu não me sentia ameaçada pelos homens que estavam ali, e eu confiava neles. Isso faz toda a diferença. Recebi, desde muito cedo na carreira, desafios que hoje eu olho e penso: nossa, confiavam tanto assim em mim? Eram desafios grandes, que foram enfrentados e superados. Deu certo.
Pergunta: O maior deles foi o Rio.
Maís Moreno: Eu me mudei de cidade, fundei a Manesco Advogados no Rio de Janeiro. Desenvolvi, com um dos fundadores, o Eduardo, um plano de negócios com payback previsto em três anos. Em um ano e meio eu já tinha entregado os resultados previstos para três. Foi um crescimento meteórico. Eu era muito nova, tinha muito medo, então resolvi que ia ser muito boa — e fui, para superar a idade, o medo e tudo mais.
Pergunta: Uma história de superação, em linha reta.
Maís Moreno: Eu entrei, uma garota, num escritório fundado por quatro homens. Quando eles entenderam que o escritório precisava de uma profissionalização importante na gestão, eu já tinha resultados apresentados em gestão, porque tinha sido diretora, gerente de uma filial da banca. Apresentei resultados admiráveis.
Pergunta: Mas no meio do caminho…
Maís Moreno: No meio do caminho, como diz Drummond, tinha uma pedra. Eu e o Floriano nos envolvemos faltando meses para eu apresentar meu pleito para virar sócia do escritório. Pensa: o pior momento da carreira para acontecer qualquer coisa do gênero. Eu não saía da sala de terapia, todo dia ia chorar lá. Pensava: eu trabalhei minha vida inteira, já tinha mais de uma década de escritório, e agora vou virar a namoradinha do chefe? Acabou.
Pergunta: Houve escolha nessa história?
Maís Moreno: Não sei se você lembra daquela cena do filme Match Point, com a bolinha de tênis quicando na rede e caindo do outro lado da quadra — uma imagem linda do imponderável. Eu sempre falo isso: o Floriano não foi uma escolha, porque eu nunca teria escolhido algo assim, que me expusesse tanto, nunca faria uma escolha tão irracional. Foi uma imposição do amor.
Pergunta: E foi difícil para os dois — você que ia virar sócia, ele que já era sócio, com sócios para responder.
Maís Moreno: Horrível. Para ele, que é um cara discreto e muito ciente dos seus limites éticos, foi horrível. Para mim foi muito pior, porque eu ainda tinha que enfrentar os tabus próprios de uma mulher. Ele, no limite, estava se envolvendo com uma mulher 15, 16 anos mais jovem. E eu, o que estava fazendo nessa história? Querendo virar sócia do escritório dele.
Pergunta: Contada assim, é uma capa de revista que não ajuda ninguém. Não quero dizer que os acontecimentos foram horríveis — quero dizer que uma leitura rasa não dá margem a muita avaliação positiva.
Maís Moreno: É um horror, foi horrível. E os outros sócios foram nada menos que as pessoas mais incríveis que poderíamos ter ao nosso lado naquele momento. Quando contamos de nosso envolvimento, não tínhamos razão nenhuma para tornar público, exceto pelo fato de que, naquele momento, começaríamos a discutir meu ingresso na sociedade. A relação amorosa era muito recente, diria até com muito mais chance de não dar em nada do que de dar em algo. Mas nem eu nem Floriano nos sentimos confortáveis em dar curso às negociações sem contar aos sócios.
Pergunta: Como foi essa conversa?
Maís Moreno: Esquisitíssima! Porque a gente não era nada. Não era namoro, estávamos realmente num estágio de aproximação muito inicial, apenas nos conhecendo, ainda que trabalhássemos muito juntos — sempre fomos uma boa dupla de trabalho, até hoje, mas era só trabalho. Dissemos: estamos vindo aqui contar isso por dever de lealdade, ainda que, de concreto, não haja nada, nem fosse hora de contar. Mas eu não consigo sentar com vocês fingindo que está tudo normal, porque não está. E lá estava eu, de novo, e quatro homens na sala.
Pergunta: Eles assumiram um risco. Vocês podiam se desentender e eles ainda herdariam sócios brigados.
Maís Moreno: Eles foram demais. Tenho a sorte de estar rodeada de gente muito boa, que não é moralista nem preconceituosa, que foi muito humana, muito acolhedora, muito sensível na situação.
Pergunta: As estatísticas dizem que, nos Estados Unidos e aqui, só 30% dos sócios de escritórios são mulheres. A entrada é cada vez mais feminina, mas em algum momento bate no teto.
Maís Moreno: É um dos meus objetos de pesquisa aqui dentro: por que a gente não fica, mesmo em ambientes com todas as políticas favoráveis? Já tenho algumas respostas. Aqui temos licença diferenciada, apoio para o que se possa imaginar, representatividade — e mesmo assim as mulheres não ficam. Temos poucas sócias em relação ao potencial. As sócias têm mais dificuldade para bater meta. Isso é dado. Pode não se gostar, mas é dado. Estou entendendo o porquê e continuarei fazendo o que for preciso para mudar essa realidade.
Pergunta: Há uma curva na história dos escritórios brasileiros: um escritório se forma quando os sócios têm 20 e poucos anos, brilha quando eles chegam aos 30 e, quando eles passam dos 60, sai da praça, tira o nome da porta e acaba. Geralmente porque o advogado já ficou rico, e aí se pergunta: para que arrumar encrenca?
Maís Moreno: Eu adoraria dar uma resposta bem-humorada, mas a verdade é que existe aqui um senso de legado muito grande nos fundadores. Nenhum dos quatro cogitou fechar — nem os que estavam diminuindo sua participação. Eles queriam deixar um legado, uma marca perene na advocacia brasileira.
Pergunta: E vocês passaram pela dificuldade clássica de decidir qual nome sai da porta. Ficou o nome de um sócio que estava justamente tirando o pé.
Maís Moreno: Exatamente, foi uma aposta na marca, não no status quo. A gente já era conhecido como "a Manesco". O Floriano brinca que, numa entrevista na Bahia, se referiram a ele como "esse advogado, Floriano Manesco", mesmo ele não sendo um Manesco de sobrenome. Todos ali somos Manesco. Foi uma escolha unânime, sem resistência: que o nome do escritório abarcasse a todos, e não fosse a soma dos sobrenomes dos sócios.
Pergunta: O que faz da Manesco Advogados uma das raríssimas marcas de advocacia que existem no Brasil. Dá para contar nos dedos de duas mãos.
Maís Moreno: É. Existe uma determinação de deixar um legado. Por isso, entre minhas metas de gestão, está a criação de linhas sucessórias.
"Uma virada de chave cultural aqui dentro."
Pergunta: O que os sócios esperam de você como CEO?
Maís Moreno: Esperam aumento de lucratividade, otimização de recursos, como em qualquer negócio inserido no capitalismo. Mas esperam, sobretudo, que eu consiga liderar uma virada de chave cultural aqui dentro, para entendermos esse novo momento, que tem implicações no dia a dia dos advogados. E esperam que eu construa uma linha sucessória.
Pergunta: Virada cultural em quê, exatamente?
Maís Moreno: Essa mudança cultural existe porque eu preciso explicar aos advogados que ser bom advogado não é só defender boas teses jurídicas. Por muito tempo, para nós, isso bastava — excelência técnica. Isso não deixa de importar, é o que sabemos fazer, temos muita vocação acadêmica. Mas também preciso mostrar que gestão financeira, gestão de gente e de recursos fazem parte do negócio.
Pergunta: E onde isso costumava estourar?
Maís Moreno: O advogado não aprende isso na faculdade, e a gente não falava disso aqui. Quando ele virava sócio, era um choque: meta da noite para o dia, corridas para fazer curso de coach, tentar aprender a captar clientes.
Pergunta: É verdade ou impressão minha que alguns sócios têm clientes correndo atrás deles e outros precisam correr atrás dos clientes?
Maís Moreno: É uma realidade, sim. Numa banca consolidada há muita recorrência — sócios que encontram novos casos porque o cliente precisa de algo novo. É o nosso dia a dia também. Mas só isso não fecha a conta. Então, existem perfis diferentes. O que há em comum é a necessidade de trabalhar bem.
Pergunta: E como se administra essa diferença?
Maís Moreno: Temos, propositalmente, diferentes gerações de advogados aqui: os mais antigos têm recorrência maior; outros já estão construindo essa reputação; outros ainda não são conhecidos no mercado e precisam construir tudo. Meu job description infinito inclui identificar as necessidades de cada um dos sócios e potenciais sócios e atendê-las de maneira personalizada. Definimos, em números e ações, qual será o investimento em cada um. E aí vira um risco compartilhado entre todos os sócios, que contribuem de maneira proporcional para esses investimentos e riscos. Hoje tenho uma área de RH, que não existia, dedicada ao jurídico, para fazer os planos de desenvolvimento individual de cada sócio. Nem todo sócio precisa ser um rainmaker. Mas todos precisam ser capazes de captar em alguma medida e contribuir para as atividades da banca.
Pergunta: Você sabe quem são os seus rainmakers?
Maís Moreno: Já sei todos. Hoje tenho metodologia e apoio para isso. E nem todo rainmaker se desenvolve da mesma forma — não é só identificar quem é, mas o que cada um precisa. Um precisa de apoio no gerenciamento de propostas, outro de apoio em redes sociais, outro de apoio psicológico, porque está passando por um momento difícil.
Pergunta: O escritório dá apoio psicológico?
Maís Moreno: Temos hoje um departamento de pessoal mais capaz de identificar o advogado numa situação fragilizada, emocionalmente instável. Não tenho psicólogo interno, mas tenho uma rede de indicações. Estamos alinhados à NR-1, mas resolvi fazer a NR-1 2.0: já que vou tratar do tema de saúde mental no escritório, porque identificamos uma geração muito afetada por ansiedade, burnout e depressão, decidimos ir além do que a norma exige. Tivemos, nesta semana, uma palestra sobre saúde mental e bem-estar com os psicólogos do plano de saúde. Fazemos essa travessia com muita responsabilidade e customização — o nosso tamanho permite isso.
Pergunta: Quando os sócios fundadores olham para tudo isso, eles não pensam: "que geração, eu fiz tudo sozinho, cheguei aqui sem nem ter mesa, a mesa balançava"?
Maís Moreno: Contamos a história dos fundadores também, para que as pessoas saibam como tudo foi construído — teve uma época em que tudo era mato, e é importante que se saiba disso. Mas outro ponto em que trabalho muito é o etarismo aqui dentro. Quero que as gerações dialoguem, aprendam umas com as outras, sejam empáticas. Fazemos rodas de conversa com advogados experientes falando com os mais novos. E faço o diálogo inverso também, para os mais experientes aprenderem com mais empatia sobre os jovens — porque, se vivermos de tacar pedra uns nos outros…
Pergunta: Quem tem mais dificuldade de entender o outro? Eu já ouvi o Floriano contar histórias de quando o escritório era outra coisa: quebrar pedra em cidade do interior, viajar de carro sem ar-condicionado, servir café, tirar o lixo, sendo sócio fundador. Isso não é fácil de digerir para quem passou por aquilo.
Maís Moreno: Por isso insisto tanto no diálogo — nos comitês, na nossa iniciativa da Universidade Manesco. Tenho o cuidado, explícito ou implícito, de fazer essas dores e crenças atravessarem o outro. O mais jovem precisa entender que os sócios fundadores passaram pelo que passaram, e por que para eles a trajetória do sucesso pressupõe quebrar tanta pedra, ter tanta resiliência — isso é uma lição de vida.
Pergunta: E o mais velho, o que precisa entender?
Maís Moreno: Que o jovem de hoje não é o jovem que ele foi. Está sujeito a pressões de rede social, de imagens irreais de sucesso, de compressão de tempo, que fazem desta a geração mais deprimida que a humanidade já teve. O mais velho precisa ouvir amorosamente o mais novo — até meu lado cristão-católico acredita nisso, no amor ao próximo. Preciso aprender a olhar com afeto para esse outro e me afetar por aquela dor.
Pergunta: Você não usa a palavra mimimi, então.
Maís Moreno: Não gosto de rotular como geração mimimi, que não aguenta ouvir crítica. Se temos essa percepção, então vamos trabalhar isso, encarar o assunto, fazer as críticas que devemos fazer — mas sendo empáticos. Para aproximar, precisamos entender por que as percepções de resiliência são tão diferentes entre as gerações. Essa geração não se criou sozinha. Temos responsabilidade nisso.
Pergunta: Há uma dimensão de classe nessa conversa que quase nunca aparece.
Maís Moreno: Há o atravessamento de classe social. Temos sofrimentos e exigências muito diferentes dependendo da história de cada pessoa. Não é certo dizer que os mais jovens não quebram pedra para estar onde estão. Tenho muitos jovens em situação de vulnerabilidade financeira aqui, que inclusive apoiamos de maneira diferenciada, inscritos no CadÚnico, em situação declarada de vulnerabilidade social. Essas pessoas quebraram muita pedra para entrar na faculdade, para estudar e se alimentar todo dia. Algumas não fazem home office porque não têm home para ser office.
Pergunta: Dedicamos boa parte desta conversa a essa questão geracional. Ela tem tanta importância assim no seu processo de transformação do escritório?
Maís Moreno: Toda a importância. Tenho uma determinação pessoal de não descartar nossa história — não é fazer uma nova Manesco Advogados. Valorizo a tradição, a história dessas pessoas, o que nos trouxe até aqui. E, por valorizar, é preciso viabilizar a convivência intergeracional. Assim como a diversidade enriquece — empresas com mulheres são mais lucrativas, empresas com pessoas negras têm ideias mais diversas e, portanto, melhores —, isso também vale para a idade. Quando só há jovens numa sala, ou só pessoas mais velhas, isso é hegemonia. E hegemonia não é o que leva à evolução.
Pergunta: E foi por isso que você acabou com o home office?
Maís Moreno: Por isso praticamente acabei com o home office: quero todo mundo se olhando no olho, se conhecendo pelo nome, ouvindo essas histórias, tomando café junto. Se alguém contar uma piada infeliz, você tem todo o direito de dizer "essa piada me ofende" — mas não vai cancelar a pessoa aqui dentro. Não é para isso.
Pergunta: E quem muda: os jovens ou a organização? Alguém tem que ceder.
Maís Moreno: É possível encontrar consenso em várias questões. Não cedi, por exemplo, quanto ao home office — dissemos: vai ser presencial, queremos presencial. Isso a instituição bancou, não cedeu. Ou melhor, até cedeu um dia para algumas equipes. Mas reconheci que preciso investir mais no meu RH, dar mais feedback. É uma geração que precisa de retorno constante. Eu vivia com feedback a cada dois anos e seguia minha vida tranquila; essa geração me cobra muito mais. Eu cedi nisso, e eles cederam vindo trabalhar presencialmente. É a arte do consenso — e de bancar o dissenso naquilo que você tem certeza que é o fio condutor.
Pergunta: Isso tem um custo para quem lidera.
Maís Moreno: Tento fazer uma construção dialógica, muito participativa; ouço muito, justifico os nãos. Saiu recentemente um estudo na Forbes dizendo que a carga mental do amortecimento institucional numa empresa recai mais sobre a mulher — talvez por essa tentativa, historicamente atribuída a nós, de ir pelo caminho do possível, de não brigar tanto.
"A IA não serve como guia. É uma boa estagiária."
Pergunta: Você me disse antes que o seu trabalho hoje é powered by IA. A inteligência artificial ajudou a montar esse painel de controle?
Maís Moreno: Muito. Estamos usando o que há de melhor em recursos tecnológicos. Absorvemos bastante.
Pergunta: Você faria tudo isso sem ela?
Maís Moreno: Faria, porque sou obstinada — mas com muito mais sangue e suor.
Pergunta: Então ela foi sua estagiária, não sua guia.
Maís Moreno: A IA não serve como guia. É uma boa estagiária, uma boa assistente, uma boa analista. Ajuda muito na gestão, mas é minha auxiliar.
Pergunta: E o time, teve que aprender?
Maís Moreno: Hoje tenho uma equipe muito letrada em IA — isso também é importante. Nas dez contratações novas que fiz este ano para o administrativo — e nem estou falando do jurídico —, letramento em IA, ou disposição para aprender, era requisito. Tenho três programadores no meu time, pessoas altamente capacitadas para construir o que eu preciso. Faz muita diferença. A IA é o meu acelerador de sonhos.
Pergunta: Onde você vê o escritório daqui a alguns anos, e em que prazo?
Maís Moreno: Com essa curva que o escritório está fazendo agora, acho que daqui a uns quatro anos teremos uma visão mais concreta e mais estável do que seremos. Não vejo a Manesco Advogados muito diferente do que é hoje, no sentido de que não vira nem um escritório minúsculo, nem gigante. Hoje tenho 13 sócios; acho que fecharemos perto de 20. Tenho 150 pessoas; devemos chegar a 180, 200. Continuaremos um escritório de médio porte e especializado.
Pergunta: E onde vai crescer?
Maís Moreno: As áreas de apoio ao direito administrativo estarão bem fortalecidas — trouxemos o Proença para internalizar o direito empresarial, que antes fazíamos muito em parceria externa. Terei meu tributário mais fortalecido e algumas áreas setoriais mais consolidadas, como óleo e gás e energia. Nossa vocação é ser um escritório de regulatório, abraçando as franjas desse setor de atuação. É o que sabemos fazer e temos vontade de fazer. É um número de pessoas de que conseguimos cuidar bem, tanto de quem está dentro quanto de quem está fora.
Pergunta: E você, onde se vê daqui a pouco e daqui a não tão pouco?
Maís Moreno: Temos um combinado, nessa gestão, de dois anos no cargo de CEO. No fim do ano que vem, preciso entender se continuo ou se saio.
Pergunta: Isso faz sentido, gerencialmente? Você assume o cargo, aprende a ser CEO e depois vai embora?
Maís Moreno: Talvez não faça sentido — mas essa não é uma decisão só minha, é da sociedade. Acho que em dois anos consigo entregar bastante coisa para a Manesco Advogados. Mas ainda preciso entender se será tempo suficiente para fazer uma sucessão com a responsabilidade necessária. Talvez precisemos de mais tempo para construir essa linha sucessória.
Pergunta: A sucessão já está na mesa como prioridade definida?
Maís Moreno: Não está definida como meta, mas é a percepção de uma necessidade que vai acontecer em algum momento. Com todo mundo com quem converso, penso em sucessão — é assim que formamos liderança. Não há liderado meu diante de mim sem eu pensar: quem é seu sucessor, quem você está treinando, quem é seu número dois? Penso nisso para mim também: olho para o meu time e penso em quem vai me suceder, quem vamos capacitar.
Pergunta: E na hora de sair?
Maís Moreno: Assumi a Manesco Advogados num momento muito particular. Ficarei aqui o tempo que o escritório precisar de mim nesse papel e, na hora de sair, sairei comemorando, porque terei feito o que era preciso. Não estou preocupada com o que vem depois — tenho certeza de que essa trajetória será tão boa que o que vier depois também será bom.
Pergunta: Recuando um passo: você superou um trauma, começou uma carreira, brilhou, foi ranqueada, casou com o sócio, virou sócia e depois CEO. Você deu vários pretextos para ser abatida em voo, e a sociedade tem um julgamento cruel para esse tipo de situação. O que mais funcionou para escalar cada um desses degraus?
Maís Moreno: Acho que algumas características minhas ajudaram. Uma é a resiliência — sou muito resiliente, e tinha certeza de que a Manesco Advogados passaria por um processo de fortalecimento, renovação, rejuvenescimento. A outra é a lealdade: todas as brigas e propostas que fiz aqui dentro, fiz com muita lealdade.
Pergunta: E você reclamava bastante também.
Maís Moreno: Reclamava mesmo. Era a maior sindicalista aqui quando mais jovem, brigava com todo mundo.
Pergunta: Teve um momento em que você quase saiu.
Maís Moreno: Teve um ano em que fiquei muito cansada porque as mudanças não estavam acontecendo como eu achava que deveriam. Falei abertamente com o Marcos: acho melhor eu ficar fora do escritório por um tempo — não sair da sociedade, mas cuidar de outros projetos, enquanto vocês decidem se realmente querem transformar o escritório como dizem que querem, porque está demorando demais e isso está me fazendo mal. Fui trabalhar em outras coisas. Abri empresa, presidi conselho, cuidei dos meus filhos… Fiquei vinculada à Manesco Advogados, mas fazendo outras coisas. Depois de uns oito meses, o Marcos voltou e me chamou para falar: vamos.
"Uma advocacia tão facilmente substituível por máquina talvez não estivesse entregando o melhor possível ao cliente."
Pergunta: Passando a chave para o mercado. Sinto que há uma nuvem negra sobre a prestação de serviços jurídicos — não para escritórios como o de vocês, cujo ativo é a inteligência. Mas há uma categoria de escritórios que vai enfrentar uma reforma tributária capaz de devastar a lucratividade de muitos, e uma IA que já torna obsoleto o trabalho daqueles cujo produto não é Direito, mas tecnologia. Eles não vão conseguir competir com empresas investidas por fundos do Vale do Silício. Você vê extinção de dinossauros, um momento intenso de fusões e aquisições, ou a vida levando o mercado de forma menos dramática?
Maís Moreno: Acho que há, sim, um cenário dramático desenhado para um determinado perfil de advocacia. Nesse mercado, sobrevive quem souber entregar valor ao cliente a partir do aporte de inteligência humana.
Pergunta: E a IA, nessa conta, é ameaça ou alavanca?
Maís Moreno: Ela não me amedronta nem um pouco. Acho que ela só libera mais tempo para fazermos o que sabemos fazer de melhor: libera tempo de processos operacionais, cria processos mais inteligentes, me deixa mais livre para pensar na estratégia do meu negócio e, sobretudo, do meu cliente. É também um braço auxiliar, um impulsionador de uma advocacia de qualidade. Quem tem a sorte de ter seus interesses defendidos por esse tipo de advogado vai ter a sorte de um profissional mais liberado para aperfeiçoar sua atuação, com mais tempo para estudar.
Pergunta: E quem fica pelo caminho?
Maís Moreno: Uma advocacia tão facilmente substituível por máquina talvez não estivesse entregando o melhor possível ao cliente. O mercado sofrerá abalo — mas quem vende inteligência jurídica sairá fortalecido. E, o mais importante, o cliente será favorecido.

