Ao longo dos anos, colocaram a maternidade em xeque como um fator que atrasaria a mulher no ambiente corporativo. Hoje, as empresas já demonstram uma mudança significativa de mentalidade e passam a enxergar a maternidade como fonte de inspiração e aprendizado para os negócios.
Pode parecer extremo, à primeira vista, comparar a maternidade a um cargo, mas habilidades desenvolvidas nesse contexto, como gestão do tempo, inteligência emocional e resiliência, estão entre as competências mais valorizadas no mundo corporativo.
De acordo com o relatório Women in Business 2024, da Grant Thornton, as mulheres já ocupam cerca de 33% dos cargos de liderança sênior no mundo, o maior índice já registrado. Ainda assim, o desafio de conciliar carreira e vida pessoal segue como um dos principais entraves para a equidade. Mais do que uma jornada de conciliação, este recorte atual sobre liderança feminina mostra como vivências pessoais moldam executivas mais preparadas para lidar com equipes, pressão e tomada de decisão.
Um dos maiores desafios apontados em ser líder e mãe é equilibrar os diferentes papéis e responsabilidades, como gestora, empreendedora, mãe, esposa, filha e amiga. Para conciliar a agenda pessoal e profissional, a organização é essencial para equilibrar compromissos e reduzir sentimentos de culpa e insatisfação. Outro desafio pontuado é sobre cuidar da saúde e do bem-estar pessoal. Diante de tantos papéis e responsabilidades, muitas mulheres acabam negligenciando a própria saúde em meio aos compromissos diários.
Habilidades que a maternidade desenvolve na gestão
Priscila Spadinger, CEO da Aleve LegalTech, é mãe de Arthur e Isadora. Ela afirma que, além de liderar uma holding, auxiliar na construção de startups e conduzir equipes multidisciplinares, também atua como eixo emocional e logístico de duas crianças que dependem da sua presença real, não da performance pública.
"A maternidade me desenvolveu uma competência que nenhum MBA ensina com a mesma profundidade: gestão de complexidade sob pressão simultânea. Mãe não administra apenas agenda. Mãe administra risco, afeto, urgência, imprevisto, culpa, logística, saúde emocional e tomada de decisão, tudo ao mesmo tempo", complementa a CEO.
No comando da Aleve, segundo ela, isso se traduz em uma liderança mais precisa, mais objetiva e menos tolerante ao ruído. Spadinger cita que energia é capital, atenção é ativo estratégico e tempo é governança. E, quando se é mãe, não existe momento para decisões longas demais, reuniões improdutivas ou conflitos empurrados para depois.
A maternidade também entrega uma resiliência muito concreta. A CEO faz um paralelo entre a maternidade e a inovação. Segundo ela, a criança ensina diariamente que o plano ideal quase nunca sobrevive ao contato com a realidade e que não é possível controlar tudo o tempo inteiro. Para Spadinger, inovar também significa construir em terreno instável.
"Liderar legaltechs exige lidar com founders sob pressão, produto em desenvolvimento, mercado em transformação, regulação em movimento e capital escasso. A maternidade me treinou para não paralisar diante da incerteza", diz ela.
As "soft skills" fortalecidas
A cofundadora e CEO da ForeLegal, Celina Salomão, mãe da Maria Clara, diz que a soft skill fortalecida, com certeza, é a capacidade interdisciplinar. A habilidade de integrar agendas, assuntos e prioridades muito divergentes. Uma mulher executiva e mãe pode estar preocupada em entender o que vai na lancheira do filho que está indo para a escola e, ao mesmo tempo, avaliar se um indicador de ROE apresentado no negócio foi bem construído e é tangível.
"Depois que a gente se torna mãe, o negócio deixa de ser apenas sobre impactar positivamente a vida do cliente, que já é um grande propósito, e passa também a envolver um olhar mais amplo para a transformação do mercado em que atuamos e da sociedade", diz Salomão.
São temas que, em tese, parecem diametralmente opostos, mas a maternidade fortalece a capacidade de transitar entre pautas diversas, conectar contextos e integrar prioridades relevantes. São especialmente habilidades do olhar humano e da clareza de propósito.
"A maternidade expande a nossa visão, traz uma noção mais clara da finitude da vida e aumenta o senso de responsabilidade por esses seres que colocamos no mundo. Com isso, a vontade de construir um mundo melhor, com toda a potência que essa afirmação carrega, se torna ainda mais relevante e urgente", afirma Salomão.
Percepções equivocadas
"Existe uma percepção que precisa acabar: a ideia de que a mulher lidera "apesar" de ser mãe. Eu não lidero apesar da maternidade. Eu lidero também por causa dela", afirma Priscila Spadinger.
Spadinger acrescenta que o mercado ainda confunde disponibilidade irrestrita com comprometimento. Para ela, ainda há a percepção de que a pessoa que permanece até mais tarde no escritório é necessariamente mais comprometida do que a mãe que sai para buscar o filho, mas entrega decisões melhores, reuniões mais objetivas e resultados mais consistentes.
De acordo com ela, essa é uma visão ultrapassada. "O futuro da liderança não será medido por quem performa exaustão. Será medido por quem entrega resultado com inteligência, clareza, humanidade e sustentabilidade".
Já para Celina Salomão, é difícil ser mãe e exercer um cargo de liderança executiva e não se deve romantizar o processo. Para isso, é preciso ter uma rede de apoio efetiva e entender que em alguns momentos será necessário perder eventos pessoais. Ninguém consegue exercer, com toda a potência e performance possíveis, os dois papéis o tempo inteiro.
"Quem vende essa ideia, na minha visão, está vendendo uma mentira. O que precisamos é capacitar mulheres para compreenderem a maturidade dessas decisões, das escolhas que precisarão fazer em diferentes momentos da vida, e desenvolverem autonomia para escolher melhor: ‘neste momento, neste ano, nesta fase da minha vida, é isso que eu vou priorizar’", afirma Salomão.
Maternidade não diminui liderança. Maternidade expande liderança, quando a mulher tem espaço, rede, respeito e oportunidade para transformar essa experiência em força estratégica.

