Jovens Talentos: conheça o perfil de advogado que o mercado procura | Análise
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Jovens Talentos: conheça o perfil de advogado que o mercado procura

Em um mercado transformado pela IA, soft skills e formação humanizada superam diploma como diferenciais competitivos

5 de February 11h41

O mercado jurídico brasileiro está em transformação. Com a chegada da inteligência artificial, a digitalização dos processos e as novas expectativas da geração Z, os escritórios de advocacia têm repensado o perfil de profissional que buscam contratar. O que antes era considerado diferencial competitivo hoje se tornou requisito básico, enquanto habilidades que eram negligenciadas ganharam protagonismo nos processos seletivos.

Para compreender essas mudanças e mapear as competências mais valorizadas pelos empregadores, ouvimos lideranças de escritórios de advocacia de diferentes portes e um diretor acadêmico que forma os profissionais do futuro. Suas visões convergem em pontos essenciais e revelam os desafios de preparar e contratar jovens talentos em um cenário de rápida evolução tecnológica e cultural.

Técnica jurídica: do básico ao essencial

Em um cenário onde o acesso à informação jurídica se tornou democratizado e instantâneo, a excelência técnica deixou de ser um atributo excepcional para se tornar a linha de partida da carreira. O domínio dos fundamentos do Direito não é mais suficiente para diferenciar profissionais, mas sim o pré-requisito para que sequer sejam considerados aptos ao exercício da advocacia contemporânea. "Ser um advogado bom tecnicamente não é diferencial, é o básico", afirma André Almeida Gonçalves, CEO e sócio da Tahech Advogados. Para ele, saber fazer boas pesquisas jurisprudenciais, elaborar peças processuais, cumprir prazos e utilizar sistemas de informação e inteligência artificial são requisitos mínimos.

Daniela Poli Vlavianos, sócia do Poli Advogados e Associados, reforça essa visão ao destacar que o advogado iniciante precisa dominar a base técnica do Direito Processual. "Conhecer profundamente o Código de Processo Civil, saber identificar matérias de ordem pública, distinguir vícios formais de nulidades e construir fundamentação legal consistente não é diferencial, é requisito mínimo", explica.

Felipe Chiarello, diretor da Faculdade de Direito da Universidade Presbiteriana Mackenzie, amplia essa discussão ao enfatizar a importância da leitura, interpretação de texto e escrita. "As pessoas hoje não gostam de ler nem de escrever, e isso é fundamental. Um professor meu dizia: ‘às vezes você lê o processo 20 vezes e na vigésima você encontra algo diferente que não havia visto’", comenta.

Soft skills: o verdadeiro diferencial

Considerando que todos chegam ao mercado com diplomas e conhecimento teórico similar, o que realmente separa aqueles que prosperam daqueles que estagnam? A resposta está nas competências que não se aprendem em códigos ou manuais, mas que se cultivam através da autoconsciência, da experiência e da genuína disposição para evoluir como ser humano. É nesse território das habilidades comportamentais que se desenha o verdadeiro mapa da excelência profissional.

Se a competência técnica é o mínimo esperado, são as habilidades comportamentais que realmente destacam um candidato. "Atualmente, mais importante que competências técnicas são as competências comportamentais", afirma Gonçalves. "Vivemos em um mundo onde o acesso à informação é facilitado, mas as competências comportamentais exigem mudança de hábitos, rotina, assimilação de cultura organizacional."

Entre as soft skills mais valorizadas, destacam-se:

  • Interesse genuíno e curiosidadeMaria Helena Bragaglia, sócia do Demarest e sponsor do D Futuro, é enfática: "Um candidato que demonstra interesse real pelo que está fazendo, que faz perguntas, que quer entender o contexto, que não está ali apenas cumprindo tarefas mecanicamente — esse profissional se destaca naturalmente."
  • Disciplina e autonomia — Vlavianos ressalta que "o advogado que depende de orientação constante para cada passo não sustenta o ritmo de um contencioso técnico".
  • Humanização e empatia —  Para exemplificar, Chiarello compartilha uma frase dita pela mãe de um aluno recém-formado: "‘Meu filho é bom, ele vai ser o que quiser, porque tem um coração bom e todo mundo vai querer trabalhar com ele.' Queremos trabalhar com pessoas boas, de coração bom, que tenham princípios e valores."

A revolução tecnológica e a IA

A inteligência artificial chegou aos escritórios de advocacia não como uma ameaça ao emprego, mas como um teste de competência. Ela funciona como um amplificador: potencializa a capacidade daqueles que pensam com rigor e expõe impiedosamente aqueles que apenas reproduzem fórmulas. Neste novo contexto, a tecnologia não define quem sobrevive, mas revela quem realmente sabe exercer o raciocínio jurídico.

Bragaglia reforça que a IA precisa ser bem utilizada: "A inteligência artificial na área jurídica não é à prova de falhas, muito pelo contrário. Existem informações erradas e referências equivocadas. Por isso, você precisa ter repertório para fazer as perguntas certas."

Chiarello traz a reflexão sobre como a maioria dos profissionais precisa lidar com IA, mas não entende como o sistema funciona. Para garantir esse diferencial ao profissional do futuro, o Mackenzie oferece formação em plataformas utilizadas por grandes escritórios.

Generalista ou especialista?

A tentação da especialização precoce seduz muitos estudantes de Direito, que buscam destacar-se através de um nicho antes mesmo de compreenderem a arquitetura do sistema jurídico como um todo. Contudo, os líderes do mercado defendem uma construção mais sólida: primeiro, a compreensão ampla; depois, o mergulho profundo. A especialização sem fundamento generalista é como construir um arranha-céu sobre alicerces frágeis. "Preferimos uma base generalista sólida, combinada com uma inclinação clara para uma área específica", explica Vlavianos. "A especialização precoce, sem domínio processual e civil básico, gera profissionais limitados."

Gonçalves pondera que a necessidade de especialização depende da vaga: "Se estamos contratando um advogado para uma área muito especializada do Direito, o curso de especialização para esses cargos pesa a favor do candidato. Agora, quando a vaga é para uma área mais tradicional e genérica do Direito, levamos mais em consideração as soft skills."

Experiências que fazem diferença

A trajetória acadêmica de um jovem advogado não se mede apenas pelas disciplinas cursadas ou pelas notas obtidas. O que verdadeiramente molda um profissional são as experiências que o tiram da zona de conforto, que o colocam em contato com a prática real do Direito e que desenvolvem nele a capacidade de pensar estrategicamente. É fora da sala de aula tradicional que muitas vezes se forjam as competências mais valorizadas pelo mercado.

Os estágios de qualidade são unanimemente valorizados. "Estágio extracurricular, sem dúvida. Mas tem que ser um bom estágio, realizado em um escritório de advocacia ou instituição pública respeitável e por um período de tempo consistente", ressalta Gonçalves. Quanto às experiências acadêmicas, Vlavianos destaca que "experiências que demonstram rigor intelectual e compromisso com o estudo fazem diferença concreta. Monitoria e iniciação científica indicam capacidade de pesquisa, leitura técnica e organização de ideias."

Chiarello vai além das experiências tradicionais e destaca a importância da formação cultural: "O advogado do futuro tem que saber conversar sobre coisas além do Direito. Na relação com o cliente, chega um momento em que a conversa processual já acabou. É a conexão cultural que realmente faz a diferença, porque vai além do racional".

Desempenho individual x Nome da instituição

O debate sobre o peso do diploma é antigo, mas ganha novos contornos em um mercado saturado de bacharéis. Enquanto o prestígio institucional pode abrir portas iniciais, é a trajetória individual que determina quais portas permanecerão abertas. Os escritórios de ponta descobriram que a grife da universidade impressiona no currículo, mas é a consistência do desempenho que sustenta uma carreira de longo prazo. 

"Para nós o que importa é o desempenho individual. Se fosse para estabelecer um critério de peso, o desempenho individual teria peso dez e a instituição peso três", afirma Gonçalves. Vlavianos concorda: "O desempenho individual tem peso maior. Histórico consistente, boas notas, participação acadêmica ativa e produção intelectual revelam disciplina e dedicação. A instituição de ensino pode abrir portas iniciais, mas não sustenta a carreira."

Quanto às experiências profissionais anteriores, Bragaglia destaca que além do tradicional aprendizado em grandes bancas, "o Demarest gosta muito de profissionais com experiência em bancos e empresas, porque são experiências diferentes das que temos em escritórios. Quando esses profissionais chegam, trazem uma expertise e uma vivência muito particular que agrega muito ao nosso ambiente."

Desafios da geração Z

A chegada da geração Z aos escritórios de advocacia representa mais do que uma simples renovação etária: trata-se de um choque cultural que questiona estruturas centenárias. Esses jovens profissionais não aceitam hierarquias sem justificativa, demandam transparência e buscam propósito antes de salário. O desafio para os escritórios não é resistir a essa transformação, mas aprender com ela e evoluir suas práticas de gestão.

Gonçalves identifica tendências preocupantes: "A principal tendência é a ansiedade e pressa para crescer na carreira. Isso é um grande problema, principalmente em um escritório de advocacia, onde as coisas tendem a acontecer de forma mais lenta. Outro ponto, que contrasta com o primeiro, é o desinteresse em assumir cargos de liderança."

Bragaglia oferece uma perspectiva diferente sobre as questões geracionais: "Na verdade, o erro ou a lacuna está muito mais no entrevistador, que talvez ainda não tenha compreendido como a nova geração funciona. Há um choque geracional. Esse estranhamento é muito mais de quem está entrevistando do que do entrevistado."

Sobre o equilíbrio entre vida pessoal e profissional, Vlavianos é direta: "O equilíbrio é fator decisivo para retenção. A advocacia exige intensidade, mas a produtividade não depende de jornadas excessivas e desorganizadas. Ambientes sustentáveis mantêm talentos por mais tempo e melhoram a qualidade técnica do trabalho."

Da pressão ao acolhimento: saúde mental em foco

A advocacia, por sua própria natureza, coloca jovens profissionais diante de dilemas complexos, pressões intensas e situações que testam não apenas sua competência técnica, mas sua integridade e equilíbrio emocional. Reconhecendo essa realidade, os escritórios mais avançados deixaram de tratar a saúde mental como tabu para transformá-la em pilar estratégico da gestão de pessoas, compreendendo que advogados saudáveis produzem trabalho de maior qualidade.

O Demarest, por exemplo, investe em programas estruturados de saúde mental e bem-estar. "A primeira coisa importante é a transparência. Acredito que a transparência no dia a dia, a abertura do gestor, e o gestor estar próximo e à disposição do jovem profissional são fundamentais", explica Bragaglia. "Temos todo um programa estruturado de saúde mental e bem-estar voltado justamente para essas situações, oferecendo apoio psicológico, orientação e ferramentas para auxiliar o profissional a passar por esses momentos de forma mais tranquila."

O advogado do futuro

O consenso entre os entrevistados é claro: o advogado do futuro precisa combinar excelência técnica com habilidades humanas. A tecnologia será uma ferramenta, não uma substituta. Chiarello resume em oito itens essenciais o que considera fundamental: boa formação jurídica, raciocínio treinado, inteligência emocional, amor pelo que faz e valorização das pessoas, proatividade sem ansiedade, inglês, percepção cultural e domínio de tecnologia e IA. Mas acrescenta dois diferenciais não óbvios: "O advogado do futuro tem que ter cultura geral formativa, algo que o diferencie. O Direito é intertextual, interdisciplinar. Se não for assim, eu não quero."

Em um mercado cada vez mais competitivo e tecnológico, o verdadeiro diferencial está na combinação entre competência técnica impecável e habilidades profundamente humanas. Como concluiu Gonçalves: "Ser um advogado bom tecnicamente é o básico. O diferencial está em ser comprometido, comunicativo, e ter facilidade em se relacionar."

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