IA no trabalho: Apenas 26% dos líderes estão prontos para usar a tecnologia, diz estudo | Análise
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IA no trabalho: Apenas 26% dos líderes estão prontos para usar a tecnologia, diz estudo

Segundo dados do Microsoft Work Trend Index 2026, a eficiência prometida pela IA esbarra na falta de direcionamento das lideranças

18 de May 21h14
(Imagem: Análise Editorial/Reprodução)

Não é de hoje que o mercado acompanha o discurso de que a inteligência artificial (IA) vai alterar radicalmente a rotina de trabalho dentro das empresas. Com foco na otimização de processos, principalmente os burocráticos, cabe às organizações estabelecer lideranças capacitadas para guiar as equipes rumo a essa nova era de inovação e potencializar os resultados operacionais. No entanto, na visão dos próprios funcionários, a realidade prática tem se mostrado bem diferente.

De acordo com dados da pesquisa Microsoft Work Trend Index 2026, apenas 26% dos colaboradores enxergam que suas lideranças estão devidamente preparadas para utilizar a ferramenta no dia a dia. Esse indicador expõe um descompasso evidente entre a eficiência prometida pelas soluções tecnológicas e a real capacidade dos gestores em orientar suas equipes sobre o melhor uso desse ecossistema digital.

Direcionamento estratégico

Diante desse cenário em que apenas um quarto dos profissionais admite possuir segurança nos gestores, surge o desafio de como capacitar essas lideranças para que atendam à nova demanda de mercado. Na visão de Marcos Poliszezuk, sócio-fundador do Poliszezuk Advogados, as organizações precisam encarar o problema de frente, dialogando diretamente com as equipes para mapear os gargalos internos.

Por isso, o escritório realizou um mapeamento para identificar os medos dos colaboradores em relação à IA, medindo o entendimento sobre o potencial das ferramentas e as resistências baseadas na falta de conhecimento técnico. Por meio dessa iniciativa, a banca descobriu que alguns sócios temiam que a automação simplificasse o trabalho jurídico, reduzindo a demanda por advogados, enquanto outros se preocupavam com a responsabilidade legal em caso de falhas da IA. A partir dessas constatações, o escritório estruturou ações práticas para reverter o quadro.

"Desenvolvemos um programa de educação executiva de oito semanas, abrangendo casos de uso concretos no próprio escritório, visitas técnicas a fornecedores de tecnologia, simulações de rotinas de trabalho com suporte de inteligência artificial e análise detalhada do risco legal sobre a responsabilidade profissional", relata Poliszezuk.

Para garantir a continuidade desse processo, o sócio-fundador revela que a banca instituiu um comitê de governança de IA integrado por dois sócios, dois advogados especialistas na área e um representante do setor administrativo. "Esse grupo se reúne mensalmente para homologar novas plataformas, estabelecer diretrizes claras de uso, auditar incidentes operacionais, autorizar fluxos de trabalho inéditos e comunicar as decisões estratégicas a todo o time."

Paralelamente à atuação do comitê, o escritório promove o compartilhamento interno de casos de sucesso sobre como a tecnologia agregou valor ao negócio, além de debater as armadilhas enfrentadas e as correções de rota implementadas. Esse ecossistema de transparência permite que os colaboradores constatem que a liderança está informada e comprometida com o uso consciente da tecnologia.

"Como resultado desse projeto, 98% dos advogados utilizam ferramentas de IA em suas rotinas. Esse engajamento não ocorre de forma aleatória: ele é governado, supervisionado, segue diretrizes institucionais rígidas e caminha alinhado à estratégia de crescimento do escritório", complementa Poliszezuk.

Exponencialização do uso de IA

De acordo com dados do anuário ANÁLISE EXECUTIVOS 2025, metade dos executivos eleitos Mais Admirados pelo setor jurídico afirma já utilizar a ferramenta no dia a dia. Esse ecossistema de inovação também avança nas áreas correlatas: entre os executivos de compliance, o índice de adoção atinge 43%, seguido de perto pelo setor financeiro, com 42%, enquanto o uso chega a 38% entre os profissionais que atuam nas áreas jurídicas e de compliance.

Acompanhando essa tendência de mercado, o diretor jurídico da RD Saúde, Elton Flávio Silva de Oliveira, observa que a inteligência artificial tem ganhado cada vez mais espaço no ambiente corporativo. Com base nessa visão, o executivo relata que a empresa adota a tecnologia internamente desde 2025, concentrando esforços na aculturização e na conscientização das equipes sobre o uso correto dessas soluções.

"Buscamos conscientizar os funcionários por meio de eventos internos para a implementação de iniciativas de IA nas diferentes áreas da empresa, promovendo o desdobramento dessas ações — que já geraram muitos agentes de IA — e a curadoria dos projetos", destaca Oliveira.

Alinhado a esse processo de expansão, o executivo reconhece que a companhia aumentou os investimentos em governança corporativa. Essa estratégia visa garantir que os modelos tecnológicos adotados sejam totalmente adequados sob a ótica da ética, da segurança da informação e da privacidade de dados, mantendo estrita conformidade com a política interna de IA da RD Saúde, além de também aumentar os resultados sobre o uso dessa ferramenta.

Redesenhando fluxos

Uma das formas de orientar com sucesso as lideranças para o uso consciente da tecnologia é a reestruturação dos fluxos internos de trabalho. Confirmando essa necessidade, o levantamento da Microsoft aponta que 66% dos profissionais já utilizam a inteligência artificial para focar em atividades de maior valor agregado. Essa mudança de comportamento tem impulsionado as organizações a redesenhar seus processos para garantir que o tempo economizado seja aproveitado da melhor maneira possível. No segmento dos escritórios de advocacia, essa dinâmica não poderia ser diferente.

Dentro do ambiente jurídico, essa eficiência temporal tem sido canalizada para a elaboração de estratégias jurídicas mais eficientes e para o aprofundamento técnico dos advogados, ao invés do aumento no volume de tarefas. Alinhado a essa tendência, o advogado Marcos Poliszezuk aponta que o seu escritório implementou uma reestruturação de fluxo dividida em três camadas.

A primeira etapa consistiu no mapeamento das atividades de rotina sem valor estratégico, como a revisão documental inicial, a padronização de minutas e a organização de acervos. Atualmente, todas essas tarefas operacionais recebem o suporte direto da IA. "Um advogado que dedicava duas horas diárias a tarefas administrativas agora dedica trinta minutos para supervisão, liberando cento e cinquenta minutos para o aprofundamento técnico", afirma Poliszezuk.

Na segunda fase do projeto, o Poliszezuk Advogados redefiniu formalmente o escopo de atuação de cada profissional. Com a nova divisão, os advogados conduzem hoje oito processos com envolvimento estratégico individualizado, em vez de gerenciar quinze casos de maneira superficial.

"O tempo liberado não se converte em aumento de volume de trabalho, mas sim em profundidade na análise dos casos", destaca Poliszezuk.

A terceira e última camada envolveu a instituição formal de horas reservadas para a inteligência jurídica das equipes. Em razão disso, todas as terças e quintas-feiras, os advogados dedicam tempo ao estudo de tendências jurisprudenciais e à construção de posicionamentos técnicos diferenciados. Diante desse formato, Poliszezuk defende que a IA alimenta o processo com sínteses, mas o raciocínio crítico permanece estritamente humano, uma filosofia que garantiu métricas positivas para a banca.

"Registramos um aumento de quarenta e dois por cento na profundidade técnica dos pareceres, métrica aferida pelo volume de citações jurisprudenciais e pela análise de precedentes por página. Paralelamente, a satisfação do cliente cresceu trinta e cinco por cento, impacto refletido diretamente na renovação de contratos e no recebimento de novas demandas por indicação", comemora Poliszezuk.

Modelo operacional próprio

Quando todas as organizações passam a adotar a inteligência artificial, o que antes representava um diferencial de eficiência acaba se tornando uma regra de mercado. Segundo a pesquisa da Microsoft, uma das principais formas de mitigar esse efeito de padronização é adaptar a tecnologia às necessidades individuais de cada companhia, transformando o uso genérico da ferramenta em uma vantagem competitiva real. Dentro do Poliszezuk Advogados, o sócio Marcos Poliszezuk revela que foram desenvolvidos programas de treinamentos estruturados em três pilares:

  • Literacia crítica sobre IA: Dessa forma os advogados entendem as limitações tecnológicas da ferramenta, como a possibilidade de alucinações em jurisprudências recentes, as restrições de uma inteligência artificial generalista sem especificidade em nichos jurídicos complexos e a ausência de contextualizações históricas.
  • Protocolos de validação documental: Cada documento emitido pela banca passa por um checklist de até dez minutos com perguntas estratégicas. As citações de jurisprudência foram verificadas na base original? Os números e percentuais foram confirmados? A interpretação reflete a jurisprudência dominante ou há posicionamentos divergentes relevantes omitidos?
  • Revisão cruzada entre pares: Colegas com expertises complementares revisam os documentos críticos antes da entrega final. Quando o parecer envolve o uso de IA extensiva, essa revisão torna-se obrigatória, além de tudo ser registrado para mapear os padrões de erro da plataforma.

Como resultado desse monitoramento, o sócio-fundador aponta que a banca completou dezoito meses sem receber contestações de clientes sobre imprecisão técnica de documentos gerados com suporte de IA. "Além disso, recebemos elogios sobre a robustez da nossa fundamentação jurídica", destaca Poliszezuk.

No final das contas, quando os colaboradores percebem que a própria liderança não está preparada para o uso de inteligência artificial, é o momento ideal para dar um passo atrás e compreender o porquê desse fenômeno. Essa é a única forma de conseguir unificar a tecnologia às competências reais dos colaboradores para impulsionar o seu uso, garantindo o destaque necessário perante a concorrência.

Elton Flávio Silva de OliveiraInteligência ArtificialMarcos PoliszezukMicrosoft Work Trend Index 2026Poliszezuk AdvogadosRD Saúde