Em dez anos, o que era nicho virou mercado. Segundo o relatório "Novas fronteiras do investimento no Brasil", realizado pela 051 Capital, o que eram cinco gestoras especializadas em ativos judiciais estressados transformou-se em 51, movimentando bilhões e redesenhando o mapa da advocacia empresarial brasileira. Os fundos de Special Situations — que adquirem dívidas, imóveis e direitos judiciais com desconto para lucrar no longo prazo — descobriram no Judiciário brasileiro um celeiro de oportunidades raro em outros países. E, nessa equação, o advogado deixou de ser coadjuvante para se tornar peça-chave da engrenagem financeira.
A transformação, porém, não é apenas quantitativa. Ela é, sobretudo, conceitual. O processo judicial — historicamente tratado como um problema a ser resolvido — passou a ser encarado como um ativo a ser estruturado, precificado e negociado. O levantamento aponta que, com o avanço da jurimetria e da inteligência artificial, litígios se tornaram produtos de investimento. Para entender como escritórios de advocacia e gestoras da Faria Lima se uniram para transformar "problemas jurídicos" em negócios de alto rendimento, a Análise Editorial ouviu três especialistas que atuam na linha de frente desse mercado.
Quando um processo judicial vira ativo financeiro?
A mudança de perspectiva começa antes mesmo da assinatura de qualquer contrato. Para que um litígio deixe de ser apenas uma disputa judicial e passe a funcionar como ativo financeiro, seus fluxos econômicos esperados precisam ser mensuráveis e transferíveis. Em outras palavras: o risco precisa ser quantificável o suficiente para caber em um modelo financeiro — e o retorno, previsível o bastante para atrair capital.
Ricardo da Silva Azevedo, sócio do Chalfin Goldberg & Vainboim Advogados, define esse limiar com precisão técnica: "A entrada de um fundo de Special Situations transforma o litígio em uma operação de arbitragem de risco e tempo. O objetivo passa a ser converter morosidade e incerteza judicial em retorno financeiro, adquirindo créditos com desconto de cedentes que necessitam de liquidez imediata e capturando a valorização do ativo à medida que o desfecho processual se aproxima."
Portanto, a entrada de um fundo de Special Situations transforma a lógica do trabalho jurídico. Guilherme Bruschini, sócio-fundador do MBC Advogados, resume essa virada de forma direta: "A pergunta deixa de ser 'quem ganha' e passa a ser 'quando esse dinheiro possivelmente entrará e com qual nível de risco'." Além disso, para Eduardo Brasil, sócio do Fonseca Brasil Serrão Advogados, o fenômeno reconfigura até a identidade do produto jurídico: "O processo vira um produto, e o trabalho jurídico passa a ser orientado por métricas e governança."
O que os gestores avaliam antes de comprar um crédito estressado
Diante do volume crescente de oportunidades no mercado, os gestores de fundos de Special Situations desenvolveram critérios rígidos de seleção. Surpreendentemente, a qualidade da tese jurídica não é o fator mais determinante. O que realmente pesa na decisão de compra é a capacidade de transformar um direito em caixa — e isso envolve variáveis que vão muito além do mérito processual.
Para Azevedo, os critérios mais críticos são "a solvência do devedor e o tempo estimado de liquidez do ativo judicial, uma vez que o retorno depende diretamente da velocidade de recuperação do capital investido." Ele relata que já recomendou o "no go" para ativos cujo patrimônio do devedor estava blindado por estruturas offshore ou comprometido por créditos preferenciais. "O que inviabiliza o negócio raramente é a fragilidade da tese jurídica, mas a constatação de um crédito sem lastro patrimonial executável", afirma.
Bruschini confirma esse diagnóstico e vai além: "Não raras vezes ativos com tese excelente acabam morrendo na due diligence." Os motivos mais comuns incluem dependência de provas futuras, mudanças recentes de jurisprudência e devedores estruturados para nunca pagar. "Acontece de o cliente ganhar a causa, mas ficar sem o dinheiro", alerta. Brasil também reforça a armadilha mais frequente: "Um erro comum é se encantar com uma boa tese e ignorar o risco de execução."
Morosidade do Judiciário: inimiga ou aliada dos fundos?
A lentidão do Judiciário brasileiro é frequentemente apontada como o principal risco dos fundos de Special Situations. Entretanto, uma análise mais cuidadosa revela que essa equação é mais complexa do que parece à primeira vista. O tempo, dependendo de como o ativo é estruturado, pode deixar de ser adversário e passar a ser aliado — desde que a estratégia processual esteja bem calibrada.
Bruschini explica que, em determinados ciclos econômicos, "o fator tempo deixa de ser apenas custo e passa a funcionar como um mecanismo de preservação — e até de ampliação — do valor econômico do ativo." Afinal, créditos judiciais são corrigidos por índices oficiais de inflação e acumulam juros de mora. Assim, como resume o advogado: "Um processo longo nem sempre destrói valor; às vezes, ele protege."
Por isso, o verdadeiro desafio não é acelerar o processo a qualquer custo, mas garantir que o crédito corrigido seja efetivamente convertível em caixa ao final. Nesse ponto, a advocacia estratégica faz toda a diferença. Azevedo destaca um diferencial ainda subestimado pelo mercado: "a investigação patrimonial antecipada: ao identificar ativos líquidos do devedor logo no início, o fundo pode atacá-los de imediato, precipitando acordos e convertendo o fator tempo em vantagem negocial." Brasil complementa: "O mercado ainda subestima o quanto a gestão ativa do processo impacta o retorno."
Jurimetria e IA: o advogado virou analista de risco?
A tecnologia chegou aos escritórios especializados em Special Situations e mudou, de forma irreversível, a maneira como os profissionais analisam e precificam litígios. Com jurimetria e inteligência artificial, decisões judiciais passaram a ser tratadas estatisticamente. Além disso, o advogado assumiu um papel que vai muito além da interpretação da lei — ele agora projeta cenários, estima probabilidades e influencia diretamente a decisão de alocação de capital.
Azevedo descreve essa transformação: o profissional tornou-se "um híbrido de jurista e analista de dados", usando ferramentas para mapear o comportamento decisório dos tribunais e "convertendo tendências jurisprudenciais em probabilidades estatísticas que subsidiam a precificação do ativo." Bruschini reforça a mudança de papel: "O advogado deixou de ser só um intérprete da lei e virou também um analista de risco." No entanto, ele faz uma ressalva decisiva: "A tecnologia mostra padrões. O julgamento humano identifica exceções — e é nessas exceções que muitas teses de alto retorno nascem."
Além da precificação, a IA acelerou a identificação de oportunidades. Conforme Bruschini, "sem dúvida a IA contribuiu significativamente para o fomento desse mercado de oportunidades e negócios em special situations." Brasil, por sua vez, aponta os limites que persistem: "Esses instrumentos não eliminam a imprevisibilidade do Judiciário brasileiro. O diferencial está em combinar análise de dados com experiência prática para precificar corretamente o litígio."
Escritório e gestora: parceria estratégica ou prestação de serviço?
A relação entre escritórios de advocacia e gestoras de fundos de Special Situations evoluiu de maneira expressiva nos últimos anos. Dificilmente se sustenta, hoje, o modelo em que o advogado atua apenas como prestador de serviço técnico externo. A complexidade das operações exige envolvimento muito mais profundo — e, cada vez mais, com risco compartilhado entre as partes.
O conceito de "skin in the game" tornou-se central nessa dinâmica. Bruschini explica o mecanismo: "Quando o advogado coloca skin in the game, seja por meio de honorários de êxito, co-investimento indireto ou remuneração atrelada ao sucesso da tese, ele deixa de ser apenas um fornecedor e passa a compartilhar o risco do negócio." Para os gestores, esse alinhamento é decisivo, pois "a tese milagrosa perde espaço para a tese executável."
Porém, esse modelo de parceria exige governança rigorosa para não gerar conflitos de interesse. Azevedo alerta que a interdependência entre escritório e fundo "exige alinhamento permanente de incentivos e mecanismos de governança, com vedação ao recebimento, por ambas as partes, de remuneração, benefício ou vantagem, direta ou indireta, que comprometa a independência do gestor na decisão de investimento ou do escritório na análise e recomendação de ativos." Brasil resume a tendência geral: "A relação entre escritório e gestora tem caminhado para uma parceria estratégica."
Brasil litigioso como vantagem competitiva
O Brasil ostenta um dos maiores volumes de processos judiciais do mundo. Para os fundos de Special Situations, esse cenário cria oportunidades quase únicas no panorama global. Contudo, o mesmo ambiente que gera oportunidades também concentra riscos que poucos relatórios de fundos conseguem capturar com precisão — e que o investidor estrangeiro despreparado tende a subestimar.
Azevedo é direto ao apontar o principal obstáculo: "A principal dificuldade para o investidor estrangeiro reside na instabilidade da segurança jurídica brasileira, suscetível a oscilações decorrentes de fatores econômicos e políticos, especialmente em ciclos eleitorais." Bruschini vai ao núcleo do problema com uma síntese que resume a armadilha mais recorrente: "Aqui, ganhar não é o mesmo que receber." Portanto, investidores estrangeiros precisam entender que a execução é frequentemente mais complexa do que a fase de conhecimento, e que fatores informais — como o comportamento das partes — pesam muito.
Diante disso, estratégias de mitigação tornaram-se essenciais. Conforme Bruschini, "uma estratégia comumente utilizada é a diversificação dos investimentos em vários processos, variando-se comarcas e perfis da parte contrária, mitigando-se assim o risco de desvios e surpresas imponderadas." Brasil complementa: "Investidores estrangeiros frequentemente subestimam a diferença entre ganhar a causa e efetivamente receber o valor."
A advocacia de Special Situations já está madura?
O crescimento acelerado do setor levanta uma questão estratégica incontornável: a advocacia especializada em Special Situations já atingiu maturidade suficiente para sustentar o nível de sofisticação que o mercado exige? A resposta, segundo os especialistas, ainda é negativa — mas o caminho está traçado e a seleção natural já começou.
Bruschini oferece um diagnóstico preciso sobre a dualidade do mercado: "Hoje, ainda convivem no mercado dois estágios diferentes: de um lado, escritórios altamente sofisticados, que atuam quase como coautores da tese de investimento, usando jurimetria, modelos de risco e estruturas contratuais complexas; de outro, uma parcela relevante da advocacia que adapta práticas tradicionais a um ambiente que exige mentalidade financeira e governança robusta." Para ele, a conclusão é clara: "O mercado já provou que existe e que é lucrativo. O próximo passo não é crescer mais, mas amadurecer melhor."
Azevedo aponta os gargalos concretos que ainda travam o avanço: "Para consolidar o setor, faltam bases de dados processuais mais robustas e profissionais com formação interdisciplinar em direito e finanças." Brasil reforça a lista de lacunas: "Falta maior padronização, melhor infraestrutura de dados, profissionais com visão híbrida entre direito e finanças e maior clareza regulatória." Assim, o mercado de Special Situations brasileiro encontra-se em um momento de seleção natural — e apenas os escritórios capazes de combinar rigor jurídico, disciplina econômica e credibilidade institucional devem consolidar posições de liderança nos próximos anos.

