Quando Fabiano Silva dos Santos chegou à presidência dos Correios, havia uma diretriz interna em vigor: a empresa não entrava em área de risco. Na classificação da casa, isso incluía as grandes comunidades e favelas do país — que, na prática, ficavam sem entrega. A diretriz caiu depois que o filho dele mostrou o vídeo de um influenciador de uma comunidade do Rio contando a saga de três horas para buscar uma encomenda numa agência lá embaixo do morro.
Advogado, foi fundador do escritório Mollo & Silva Advogados, onde atuou por dez anos em causas de repercussão nacional e em matérias relativas a Direito Financeiro Econômico e fundos de pensão. Ele passou também pela prefeitura de São Paulo, pelo Ministério do Trabalho e pela Funcef antes de assumir uma companhia com 85 mil funcionários e 12 mil pontos de atendimento, presente em todos os municípios do país. Ficou dois anos e meio no cargo e saiu em julho de 2025.
Chama atenção o que ele não faz. Não vende a ideia de que a formação em Direito bastava: diz, com todas as letras, que a faculdade não dá a visão ampla de que uma empresa desse porte precisa, e que foi buscar um MBA executivo para tapar o buraco.
Os Correios fecharam 2024 com prejuízo de R$ 2,6 bilhões e 2025 com R$ 8,5 bilhões — o pior resultado da história da empresa. Em dezembro de 2025, já sob nova gestão, a companhia assinou um empréstimo de R$ 12 bilhões com aval da União, prazo de 15 anos e teto de 120% do CDI, junto a Itaú, Bradesco, Santander, Banco do Brasil e Caixa. Antes disso, o Tesouro havia reprovado um pedido de R$ 20 bilhões por considerar os juros excessivos — os bancos pediam 136% do CDI.
A conta do endividamento já aparece no balanço. No primeiro trimestre de 2026, as despesas financeiras saltaram de R$ 283 milhões para R$ 985 milhões em relação ao mesmo período do ano anterior, alta de 248%, e o prejuízo do trimestre foi de R$ 3,2 bilhões, 82% maior que um ano antes. As contingências trabalhistas somam R$ 4,66 bilhões. A atual administração projeta voltar ao lucro em 2027.
É desse tamanho o problema que Fabiano Santos descreve nesta conversa — e que ele atribui menos à gestão do que a duas mudanças de regra e a uma obrigação que nenhum concorrente tem.
A entrevista foi concedida por Fabiano Silva dos Santos a Alexandre Secco, editor e sócio da Análise Editorial.
Fabiano Silva dos Santos é advogado. Trabalhou na prefeitura de São Paulo durante a gestão da prefeita Marta Suplicy, no Ministério do Trabalho — na área de registro sindical — durante o primeiro governo Lula, e na Fundação dos Economiários Federais (Funcef), o fundo de pensão dos empregados da Caixa Econômica Federal, onde foi assessor, chefe de gabinete e secretário-geral. Fez MBA executivo. Presidiu a Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos entre janeiro de 2023 e julho de 2025. É integrante do grupo Prerrogativas.
"Somos formados para enfrentar conflitos, no final alguém perde, outro ganha"
Alexandre Secco: Essa é a história do advogado que virou CEO, não de um escritório de advocacia, o que é comum, mas de uma das maiores empresas do Brasil, os Correios, a Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos. Para muita gente essa é uma barreira intransponível. E você, além de transpor, enfrentou um desafio gigante que, diga-se de passagem, não teve solução até hoje. Como foi o choque?
Fabiano Silva dos Santos: Um desafio dessa envergadura a gente tem que encarar com muita seriedade, com muito senso de responsabilidade também e sempre motivado pelos meus filhos (filha de 20 anos e um filho de 16), que são meu Norte. Porque, afinal, estamos falando de um serviço público que tem mais de 360 anos¹ e que representa muito na vida de todos os brasileiros. É uma empresa grandiosa: você tem 85 mil funcionários, 12 mil pontos de comercialização entre agências e centros de distribuição, presente em todos os municípios do país.
Pergunta: Onde é que essa presença pesa mais?
Fabiano Santos: Ela é muito importante, inclusive para o desenvolvimento econômico e social de diversas regiões do país. Os Correios exercem uma função muito importante em cidades do interior, em que a população usa muito desses serviços para dinamizar até a economia local.
Pergunta: Você não chegou lá vindo de uma experiência no mercado, como gestor….
Fabiano Santos: Na verdade, quando eu assumo, eu já vinha de uma experiência no setor público. Trabalhei na prefeitura de São Paulo durante a gestão da prefeita Marta Suplicy, por quatro anos. Depois fui trabalhar no primeiro mandato do presidente Lula, em Brasília, num setor superimportante do Ministério do Trabalho, o registro sindical, que autorizava a abertura de sindicatos no país. E depois pude trabalhar também na Fundação dos Economiários Federais, que é da Caixa Econômica, o terceiro maior fundo de pensão do país. Lá eu comecei como assessor, fui promovido e cheguei a chefe de gabinete e secretário-geral da entidade.
Pergunta: Que experiências essas passagens te deram para o advogado virar CEO?
Fabiano Santos: Essas experiências me possibilitaram conhecer um pouco do funcionamento de uma máquina pública, conhecer um pouco da burocracia que impera no serviço público. De certa forma, isso já me deu uma bagagem inicial para enfrentar esses desafios. Mas os Correios são uma empresa que tem uma outra dimensão.
Pergunta: E aí vem a Pergunta: que interessa aos nossos leitores: o que da formação de um advogado ajuda na hora de assumir uma cadeira quente como essas?
Fabiano Santos: Eu acho que a nossa formação acadêmica, a formação técnica de um advogado, nos possibilita abrir um pouco mais o leque de oportunidade de trabalho. Conhecer bem o trâmite, conhecer regulação, conhecer governança corporativa — essas questões sempre estiveram presentes na minha atuação profissional e me ajudaram bastante a exercer a função.
Pergunta: E o que ela não resolve?
Fabiano Santos: Precisa ter um pouco mais de qualificação, porque numa empresa como os Correios você precisa estar qualificado, precisa ter uma visão ampla de negócios. Nós, advogados, somos formados para enfrentar conflitos, no final alguém perde, outro ganha.
Pergunta: E quando vira CEO…
Fabiano Santos: Como a gente coloca o termo CEO, ou presidente de uma grande empresa como essa, você precisa ter conhecimentos em várias áreas. Não basta ser um profissional que saiba sobre legislação. Eu fiz um MBA executivo, MBA executivo mesmo, em que a gente pega todas as áreas que compõem uma grande corporação: marketing, contabilidade, economia, finanças, inclusive logística.
Pergunta: A vida de escritório, então, não prepara para uma missão desse tipo.
Fabiano Santos: Eu acho que não. O advogado acaba se especializando em determinadas áreas e, às vezes, em determinados assuntos dentro dessas áreas. A minha, por exemplo, era fundo de pensão, que é previdenciário, mas era mexer com mercado de capitais também, não era concessão de benefício. A formação exclusivamente do Direito, depois que você vira um advogado de escritório, não te dá essa visão ampla que você precisa ter para estar numa empresa desse porte.
Pergunta: E como você define a missão de quem senta nessa cadeira?
Fabiano Santos: Você tem uma função política institucional muito forte, porque tem áreas muito bem delimitadas dentro da empresa. O presidente não precisa ser um grande especialista em finanças, porque você tem uma diretoria financeira. Você tem todas as regras internas de divisão de poder, que é a governança. Você é responsável por coordenar as atividades da empresa, por coordenar as reuniões do board, as reuniões de diretoria. E o presidente tem que ter conhecimento de todas as áreas justamente para estar alinhado a uma estratégia que já está definida dentro da empresa.
Pergunta: Ninguém chega e faz o que quer…
Fabiano Santos: Pelo contrário. Você tem desafios previamente acertados, que vêm de quatro, de cinco anos. O planejamento funciona nesse período, não é planejamento de um ano: são pelo menos cinco anos até que a gente chegue a determinados resultados. E uma empresa como os Correios tem um quadro técnico muito qualificado, são pessoas que conhecem muito do segmento postal. Ter um corpo técnico qualificado de servidores da casa é fundamental para que você tenha uma estratégia de sucesso, em especial nas empresas públicas, porque as públicas são muito mais complexas.
Pergunta: Mais complexas em quê?
Fabiano Santos: É diferente você ser um advogado e trabalhar numa empresa privada, em que vai ter muito mais liberdade, do que trabalhar num órgão da administração pública, em que as regras são muito mais rígidas. Você não tem a agilidade que às vezes tem na iniciativa privada.
Pergunta: Onde é que um projeto emperra dentro de uma empresa dessas?
Fabiano Santos: Às vezes a gente fica na ansiedade de querer que os projetos sejam implementados com a máxima urgência, mas o trâmite burocrático não é tão simples. Demora, são muitos estudos, muitas esferas de aprovação: comitê de auditoria, conselho fiscal, conselho de administração, diretoria executiva, as próprias diretorias, o diretor jurídico. Tudo isso tem um longo caminho. E aí a formação jurídica tem essa facilidade: a gente conhece bem esses trâmites, sabe que tem que ter o compliance, que tem que obedecer às regras internas.
Pergunta: O que essa experiência de CEO valeu para a vida do advogado daqui para frente?
Fabiano Santos: Ela vale muito. Cada hora que eu vejo um carro amarelo na rua, um carteiro na rua, eu me sinto parte integrante disso. A gente tem um carinho muito grande, sei da importância, sei quem constrói uma empresa como os Correios. Às vezes é muito simples as pessoas ficarem criticando, deu benefício aqui, deu benefício ali — mas quem constrói os Correios são os seus funcionários. Quem faz todas as entregas importantes são funcionários dos Correios. Nenhuma grande empresa, nenhum grande CEO consegue alijar o seu corpo funcional do sucesso da empresa. O sucesso da empresa depende das pessoas.
Pergunta: Agora a história da gestão. Você assumiu sabendo que o setor passava por uma crise que não é brasileira, é mundial. Os Correios americanos chegaram ao ponto em que o governo decidiu que aquela empresa seria subsidiada e ponto. O Brasil não decidiu nem para cá nem para lá.
Fabiano Santos: A crise que já se avizinhava para os Correios era uma crise anunciada. Às vezes aparecem alguns números, fala-se "nesse ano deu lucro", mas se você pegar a série histórica vai ver que é sempre muito equivalente: lucro e prejuízo, prejuízo, muitos anos de prejuízo. Quando a gente assume, ela estava nessa crise internacional, que é uma crise que todos os Correios do mundo passaram e ainda passam, dessa questão da digitalização. Hoje em dia você não manda mais carta, não manda mais correspondência; boleto o banco manda direto para a sua conta, cartão de crédito também é digital. Houve uma desmaterialização muito rápida.
Pergunta: O monopólio era uma garantia de sobrevivência, mas também uma forma de perpetuar a ineficiência...
Fabiano Santos: Quando os Correios viviam exclusivamente do monopólio, ou seja, só os Correios podiam entregar a carta, você tinha uma atividade equilibrada, uma atividade que ninguém mais podia fazer. Você tinha uma receita fixa, podia controlar os seus custos e a empresa estaria equilibrada. A partir do grande desenvolvimento do comércio eletrônico, os Correios mudam um pouco a sua perspectiva e passam a se dedicar bastante às entregas de encomendas via internet. No começo, os Correios eram a única empresa preparada para isso.
Pergunta: Mas a empresa também já deu lucro…
Fabiano Santos: Você pode pegar: é o período da pandemia. Nenhuma empresa fazia entrega, somente os Correios faziam entrega. Houve uma concentração muito grande ali nos Correios naquele período, e isso naturalmente possibilitou aos Correios ter uma receita maior. Aí tem um suposto lucro que é questionável sob alguns pontos de vista.
Pergunta: Vamos ao que virou o jogo. O que mudou no setor? Muita gente diz que o problema dos Correios é de gestão…
Fabiano Santos: Não é só isso. Houve uma mudança de perfil na atividade dos Correios no mundo, na atividade de logística no mundo. Hoje você anda na rua e vê diversas empresas "log não sei o que lá", tem uma enxurrada de empresas. Acima de tudo, em 2024 a gente tem uma mudança nas regras de importação. Nas regras internacionais há um termo que se usa, que é de minimis: é aquele valor que não compensa o Estado cobrar. Esse limite era de 50 dólares aqui no Brasil. Nos Estados Unidos é bem maior, em outros países acabou, mas a maioria dos países tem esse limite de isenção. E o de minimis é válido para quem traz via Correios, que é remessa postal — isso é uma convenção internacional.
Pergunta: É um fato que as plataformas asiáticas cresceram no Brasil em cima dessa estrutura.
Fabiano Santos: Quando houve esse boom do comércio eletrônico, em especial do internacional, com muita compra da China nas plataformas, essas empresas todas se desenvolveram aqui no Brasil por conta dos Correios. Os Correios foram os grandes responsáveis por situar essas empresas no país. Se você pegar, foi o grande alicerce para que elas conseguissem fincar a sua atuação no Brasil.
Pergunta: E aí veio a famosa portaria…
Fabiano Santos: A partir de 2023 teve uma portaria que quebra essa exclusividade². Ela diz que dá para trazer remessas postais e expressas. Quando você coloca o termo "expressas", você libera para que essas empresas de logística atuem nesse segmento. Só que aí tem um trâmite: as empresas não montam uma estrutura do dia para a noite. Então os caras compraram áreas, alugaram áreas grandes, desenvolveram sistemas e passaram a fazer o próprio desembaraço — que era uma espécie de monopólio dos Correios, o desembaraço e a entrega da última milha desses produtos.
Pergunta: A gente já sabe, mas para você, por que é tão difícil competir com elas?
Fabiano Santos: Porque essas empresas vêm para cá com uma mão de obra que não se compara com a de uma empresa pública. As entregas delas são feitas por pessoas que não têm os direitos sociais resguardados. Se você pegar um funcionário dos Correios, todos os direitos trabalhistas dele são assegurados: finais de semana, folga, até determinado horário à noite. Essas empresas não. As pessoas fazem entrega até meia-noite na casa das pessoas, domingo também.
Pergunta: Eu já vi, na minha casa, o rapaz de entregas chegar aqui de bicicleta, com uma mochilinha, num domingo à tarde.
Fabiano Santos: Exatamente, domingo à tarde, e ganha-se por entrega. Enquanto nos Correios não: você tem a pessoa toda celetista, com fundo de garantia, plano de saúde, direitos sociais, previdência garantida. Isso naturalmente tem um custo e faz com que a empresa não seja competitiva com essas outras atividades logísticas.
Pergunta: E a taxa das blusinhas entra onde nessa conta?
Fabiano Santos: Primeiro tem essa questão da quebra da exclusividade. Aí depois soma-se a taxa das blusinhas³, que faz com que o produto fique um pouco mais caro. O cara está vendendo lá, vai trazer para o Brasil, vai ter que pagar ICMS, que ele não pagava antes, que são 18, 20%. E depois vem a taxa das blusinhas, que é mais 20%. Então ele vai pagar 38%, somados os custos dessa operação toda dá mais de 40% de imposto sobre o produto que ele traz para o Brasil.
Pergunta: E o que esses grandes players fazem quando a conta sobe?
Fabiano Santos: Eles falam: nós vamos precisar enxugar o nosso negócio, senão ele deixa de existir. E a primeira coisa que fazem é cortar na logística. Nós temos que melhorar a nossa logística, montar a própria estrutura de entrega, com custo muito menor. E aí os Correios passam a ter uma crise muito difícil de ser superada.
Pergunta: Dá para dimensionar a queda de receita?
Fabiano Santos: Vamos pegar em números de 24. O orçamento organizado, prevendo que aquele segmento poderia crescer apenas um pouquinho, corresponderia a 6 bilhões. Quando vem essa mudança, esse número despenca assustadoramente. E, no comércio internacional no Brasil, a gente tinha 97% do mercado — sempre foi mais ou menos esse número. Quando vêm essas empresas internacionais, essa posição cai assustadoramente. Assustadoramente mesmo.
Pergunta: Os Correios chegaram a disputar preço com elas?
Fabiano Santos: Na nossa gestão, os Correios passaram a dar preço. Antes era o preço que ele queria, porque era o monopólio, só ele fazia. Na nossa gestão, os Correios concorriam, disputavam preço, (eu) sentava com as equipes, mudava todo o plano de custos em determinadas operações para pegar o serviço.
Pergunta: E contra quem cobre qualquer preço, o que se faz?
Fabiano Santos: Essas empresas que vêm do exterior — e eu não vou citar nomes — cobrem qualquer preço que os Correios coloquem, porque elas têm um objetivo, que é o domínio de mercado. É um dumping que se pratica. Eu cheguei a fazer denúncia na Secretaria de Acompanhamento Econômico sobre isso, sobre preços que a gente via que eram inviáveis e que determinada empresa fazia justamente para inviabilizar a atividade dos Correios.
"Você tem que entender que isso é um custo, e é um custo pelo qual o Estado tem que ser responsável"
Pergunta: Você não pode escolher para que cidade vai buscar nem para que cidade vai entregar. Está lá um CEP, você tem que ir, seja no meio da Amazônia, seja onde for.
Fabiano Santos: Exatamente isso, enquanto essas outras empresas não têm essa obrigação. Os Correios são responsáveis pela entrega no país inteiro, têm o dever de universalizar o serviço postal. E tem metas, tem percentuais de universalização que a gente tem que atingir, de 99%. São médias altíssimas, estabelecidas pelo Ministério das Comunicações. Para atingir essas médias, a gente precisa ter receita.
Pergunta: Quanto custa esse dever?
Fabiano Santos: O custo que a gente estima de universalização, ou seja, quanto os Correios gastam para entregar em todas essas regiões longínquas do país, de difícil acesso e que ninguém quer fazer, é um custo estimado de 5 bilhões por ano. E quem custeia isso? Não é o Tesouro. Quem custeia é a própria atividade dos Correios. Quando você posta uma mercadoria, a receita que vem daí é o que possibilita aos Correios exercer essa importante função pública. Os Correios não vivem de repasse do governo.
Pergunta: É uma empresa sui generis, então: exerce função pública com receita privada.
Fabiano Santos: Ela não tem repasse de recursos públicos. Atua por suas próprias receitas e suas próprias despesas. A gente precisa gerar receita para poder cumprir essa missão. Tanto que esse é um dos caminhos que tem que ser discutido: você tem que entender que isso é um custo, e é um custo pelo qual o Estado tem que ser responsável, para que a empresa possa desenvolver suas atividades. Se você tirar o custo de universalização, os Correios vão ser uma empresa equilibrada. As receitas e as saídas se equivalem.
Pergunta: Nos Estados Unidos, a potência capitalista do mundo, se chegou a uma conclusão e se paga por ela, aparentemente sem grandes discussões. Aqui a discussão fica entre quem quer privatizar e quem quer estatizar, e ninguém fala quem paga a conta.
Fabiano Santos: É claro que a empresa pública deve sempre buscar mais eficiência, tem que fazer mais gastando menos. Isso é lógico na administração, é até um princípio constitucional, o da eficiência. Mas uma empresa como os Correios é muito difícil justamente por isso: as receitas dela não são suficientes para custear todas as despesas que ela tem, inclusive essas despesas que o próprio Estado manda ela ter, quando diz que você tem que universalizar o atendimento. Então a gente precisa discutir de onde vem a responsabilidade do Estado sobre isso. Queremos uma empresa privada ou não? Para o povo brasileiro, ter uma empresa pública como os Correios é extremamente importante.
Pergunta: Algum país acabou com esse modelo?
Fabiano Santos: A Argentina, há pouco tempo, acabou com os Correios públicos, e o resultado está lá: uma crise grande. Em Portugal também teve uma privatização. Mas os grandes exemplos que nós temos: nos Estados Unidos os Correios são públicos, e lá é inclusive um órgão de extrema relevância para a democracia americana, porque eles são responsáveis pela votação — o voto também vai via Correios, o que o governo atual quer cercear um pouco.
Pergunta: E dá prejuízo.
Fabiano Santos: Se não me falha a memória, ano passado o prejuízo foi de 6 bilhões de dólares. E lá não se fala em privatização. Você pega as grandes empresas de logística (FedEx, Amazon), são todas americanas, mas elas têm a estrutura pública justamente para universalizar o atendimento.
Pergunta: E nos outros países de dimensão continental?
Fabiano Santos: O Canadá também é público, e tem as mesmas dificuldades. Estou falando de países grandes para a gente ter dimensão, porque um correio em país de dimensões continentais tem essa peculiaridade: é muito custo. O Canadá é supercomplexo — estradas, temperaturas, regiões longínquas, pouco povoadas. Assim como nos Estados Unidos e assim como no Brasil.
Pergunta: E a China, que costuma ser a resposta para tudo?
Fabiano Santos: Lá também é público. Os Correios da China demoraram 15 anos para se modernizar, 15 anos. E qual foi a receita dos chineses? Foi se voltar para algumas questões internas. Falar: os Correios aqui agora vão fazer também agricultura familiar, vamos pegar o feijão que o cara produz lá, transportar e vender via Correios. Os Correios também vão exercer atividades vinculadas ao mercado financeiro. São todos projetos que nós colocamos para que a nossa gestão fizesse, e nós aprovamos esses projetos. Não dá para os Correios ficarem nas mesmas atividades. Só que isso você não faz em 12 meses. É um processo longo, exige tempo e planejamento.
"Uma forma de privatização entre aspas"
Pergunta: Em que modelo você pensava?
Fabiano Santos: Os Correios da França são uma potência. Vou chutar um número que eu ouvi do próprio presidente de lá: eu acho que embaixo dos Correios da França tem umas 40 empresas das quais eles são acionistas. Porque as atividades exclusivas de correio ficam com os Correios, mas eles têm um banco postal⁴ — você senta numa agência dos Correios lá e no fundo tem a mesa de um gerente que vai abrir a sua conta. Tem também uma seguradora, que inclusive está aqui no Brasil⁵. E diversas outras atividades em que você tem empresas privadas.
Pergunta: E isso é possível aqui, com a lei das estatais?
Fabiano Santos: Eu acho que hoje já é possível, e foi isso que nós fizemos: tornar a empresa privada, de certa forma. Algumas atividades que são importantes e lucrativas dentro da empresa, a gente transfere ou trabalha junto com a iniciativa privada para conseguir uma exploração melhor dessas áreas. Nas parcerias que eu citei, os Correios teriam menos da metade do capital da empresa, para que a gestão fosse privada e os Correios obtivessem receita com isso.
Pergunta: O que saiu do papel?
Fabiano Santos: Nós tínhamos a proposta de um banco postal digital e fizemos o marketplace — tardiamente, infelizmente, porque se isso tivesse vindo no grande desenvolvimento do comércio eletrônico os Correios teriam tido uma força gigantesca. Mas ainda há muito o que crescer de comércio eletrônico no Brasil. O marketplace interliga várias coisas: você pode colocar seguro, pode colocar produto financeiro dentro. Você cria uma nova cadeia de serviços que os Correios podem prestar, com a participação da iniciativa privada. É uma forma de privatizar, entre aspas, uma empresa grande como os Correios — ou seja, torná-la mais eficiente, mas ao mesmo tempo cumprindo a sua função constitucional e a sua função social.
Pergunta: Voltando ao dia a dia: os Correios têm obrigações que ninguém mais tem, como levar a prova do Enem em prazo curto.
Fabiano Santos: Não é nem que são obrigações. É que os Correios são a única empresa capaz de fazer isso, por estar em todo lugar e por ter a expertise. Se você pegar lá no Ministério da Educação, não dá para outra empresa entregar as provas do Enem, ou entregar os livros didáticos. Não dá. Já teve uma experiência que foi muito malsucedida alguns anos atrás. Somente os Correios são capazes de ter estrutura e de conseguir fazer essas entregas para o país inteiro. Os Correios entregam 200 milhões de livros didáticos.
Pergunta: E a janela do Enem, qual é?
Fabiano Santos: São três horas. A prova vai começar ao meio-dia, então às 9 horas as provas têm que sair para entrega, e às vezes você tem uma localidade longe. Tem que estar em todas as salas de aula do país inteiro. É uma operação de guerra que é montada dentro da empresa. Eu participei de entrega de prova, participava lá no centro de comando que a gente tem: a gente sabe cada viatura que saiu, onde está atrasada, liga para a pessoa. A gente tem esse controle todo.
Pergunta: Deve chegar a ser, digamos, emocionante.
Fabiano Santos: É uma operação 100% segura e de 100% de êxito, nem poderia ser diferente, mas é tão complexa que é uma grande vitória para nós da empresa quando a gente vê que o último envelope foi entregue — tanto na ida quanto na volta, porque a volta também sempre tem uma angústia muito grande. Num dos anos, minha filha estava fazendo a prova. Eu fui de manhã entregar a prova, depois fui levá-la para fazer o Enem, busquei, e depois conversava com os meninos: e aí, está tudo certo?
Pergunta: Você citou o Rio Grande do Sul. O que os Correios fizeram lá?
Fabiano Santos: Ali foi um grande momento que nós vivemos dentro da empresa, em que nós pudemos mostrar a importância de ter uma empresa como os Correios. Nós tivemos uma participação muito forte das nossas forças armadas — a Aeronáutica, a Marinha, o Exército —, mas a logística mesmo, a distribuição e a organização disso tudo ficou a cargo dos Correios. A Aeronáutica arrecadava doações e ficava tudo estocado dentro do centro dela, no aeroporto, e nós fomos os responsáveis pelo transporte. Nós, os Correios, salvamos vidas naquele momento no Rio Grande do Sul, tanto que fui condecorado com a Ordem Cruzeiro do Sul da Força Aérea Brasileira em homenagem ao grande trabalho que desempenhamos.
Pergunta: Que tamanho teve essa operação?
Fabiano Santos: Nós fizemos a maior operação logística do país na minha gestão. Abrimos todas as agências do país para que elas recebessem doações. Imagina: a pessoa faz uma doação lá no Amazonas, no Acre, onde quer que seja, para ela chegar no Rio Grande do Sul. E quem fez isso fomos só nós dos Correios. As primeiras doações nós fomos levar em avião da FAB, e depois esse transporte todo foi feito por via terrestre, caminhões mesmo descendo. A gente descia com doações por meio de 300 toneladas para o Rio Grande do Sul.
Pergunta: E lá dentro, como se organiza um mar de doações?
Fabiano Santos: Organizamos lá com a iniciativa privada também, com empresários que cederam áreas grandes para a nossa operação, porque o nosso próprio centro estava alagado. A gente conseguiu uma área muito grande com uma rede de supermercados, cedida por comodato. Era um mar de doações, e foi tudo funcionário dos Correios que fez essa organização. Tinha também as doações do governo do Rio Grande do Sul, que tinha um armazém que eles não conseguiam gerir, as coisas estavam apodrecendo, e é supercompreensível, porque eles não têm essa experiência. Aí eles nos contrataram para fazer a gestão de todo o estoque.
"Você não poder dar cavalo de pau em um navio"
Pergunta: Agora o outro lado da capilaridade. Os Correios entram onde ninguém entra — inclusive em regiões sabidamente controladas por facções.
Fabiano Santos: Isso é muito importante. Quando eu assumo os Correios, havia lá um encaminhamento interno, uma diretriz de que os Correios não entravam em áreas de risco. E as áreas de risco eram todas as grandes comunidades e favelas do país. Então isso não se fazia.
Pergunta: O que mudou essa diretriz?
Fabiano Santos: Eu me recordo bem dessa história, que depois gerou um programa nosso superbacana. Logo que eu assumi, meu filho chegou e falou: pai. Ele é muito curioso. Ele teve acesso a um influenciador das comunidades do Rio de Janeiro que gravou um vídeo mostrando a saga que ele tinha para pegar um produto numa agência dos Correios e depois voltar. Aquilo perdia um tempão do dia dele, três horas por dia, para ir lá pegar uma encomenda que ficava lá embaixo.
Pergunta: E quando você levou isso para dentro da empresa?
Fabiano Santos: Eu falei: isso é um absurdo. Chamei as pessoas, e elas disseram que era área de risco. Mas, como área de risco? Ali tem povo brasileiro que está vivendo. Essa é a nossa atividade, a gente não pode deixar de prestar esse tipo de serviço. Foi daí que a gente implementou pontos de coleta dentro das comunidades, agência dos Correios dentro das comunidades.
Pergunta: E daí saiu o CEP para todos….
Fabiano Santos: O CEP para todos tem uma importância muito grande, porque é garantia de cidadania para as pessoas. A gente acha que CEP é apenas um número, mas não é um número apenas. O CEP é o que te coloca como residente fixo em determinado lugar, te coloca como um senhor de direitos. Você vai no posto de saúde, precisa de endereço, de CEP. Se você vai receber uma correspondência, não tem onde entregar. Um cartão de crédito, um boleto — as pessoas querem receber até os seus boletos e não conseguem. As comunidades não tinham acesso ao CEP.
Pergunta: Como se faz um CEP chegar a uma comunidade?
Fabiano Santos: Nós fizemos uma parceria com o Ministério das Cidades, no programa Periferia Viva, e conseguimos separar todas essas grandes áreas no país. Eu acho que, quando eu saí de lá, deixei isso com 90% de atingimento dessa meta, que era: todas as comunidades têm direito a um CEP, todo cidadão tem direito a um CEP. Internamente a gente conseguiu redimensionar a área, colocar mais gente para fazer essa entrega, que é muito importante.
Pergunta: E o primeiro CEP, onde foi entregue?
Fabiano Santos: O primeiro CEP que eu fui entregar foi naquela comunidade Pinheirinho, em São José dos Campos, onde teve uma invasão, um enfrentamento numa época, e depois a presidenta Dilma fez até um Minha Casa Minha Vida lá. Ficou uma comunidade superbonita. Eu tinha acabado de entrar e não tinha muito essa noção do que significava aquilo. O pessoal preparou o material para mim, eu li e falei: caramba.
Pergunta: E o que você encontrou quando chegou lá?
Fabiano Santos: Fui conversar com as pessoas, e elas vinham me abraçar, agradecer. Algumas mulheres me falaram: isso para nós é dignidade. A gente está esperando por isso há tanto tempo. Você não tem ideia da importância que é receber esse CEP, a gente poder receber nossas coisas, nossas encomendas. A gente não tinha dignidade.
Pergunta: Apesar de tudo isso, chegou um belo dia em que o advogado enfrentou a tempestade perfeita. Tinha concorrência, tinha taxa das blusinhas, depois não tinha mais taxa das blusinhas. Houve um momento em que todos os fatores conspiraram contra quem estava sentado na cadeira de presidente.
Fabiano Santos: A gente passou por épocas muito difíceis mesmo à frente da empresa, com a perda assustadora de receita, com dificuldade de pagamento de folha de salário, com dificuldade de diversos pagamentos dentro da empresa. Porque houve uma queda abrupta. Abrupta mesmo, não foi uma queda planejada em que você tinha tempo para se preparar. Foi uma queda do dia para a noite, a queda foi assustadora.
Pergunta: E uma empresa desse tamanho reage em quanto tempo?
Fabiano Santos: Você não dá cavalo de pau em navio grande. Não se dá um cavalo de pau no Titanic. Os processos de mudança demoram muito dentro da empresa. Você vê que a empresa tenta vender imóveis e é muita burocracia, porque é um processo muito regulado, é um processo público, é uma empresa pública. Vamos supor: tem 2 bilhões de imóveis para serem vendidos. Você faz os leilões e consegue 200 milhões, 300 milhões, não consegue mais que isso. E a gente sempre fez isso. Aparentemente é uma solução inteligente, mas ela já tinha sido pensada. Só que não vende.
Pergunta: Quanto tempo durou essa fase?
Fabiano Santos: Eu creio que de Setembro de 2024 até o fim da minha gestão (julho de 2025). Foi um ano muito difícil, muito difícil à frente da empresa. Todos os fatores passaram a atuar de forma negativa e trouxeram desafios que, em determinados momentos, eram insuperáveis — tanto que a empresa se socorreu de alguns financiamentos no mercado. Eu acho que tem que passar mesmo por essa grande discussão: qual empresa queremos, qual correio queremos?
Pergunta: Qual é o nó que precisa ser desatado?
Fabiano Santos: Passa por algumas questões legislativas também. É importante que a gente tenha um novo marco do serviço postal no país. Não dá para a gente ter essa atividade completamente — vou utilizar um termo que talvez não seja correto, mas sem ser pejorativo com a Uber — uberizada. Não dá para essas entregas serem feitas por empresas dessa forma, em que o setor tem uma concorrência que é desleal.
Pergunta: E se o governo disser que não vai custear?
Fabiano Santos: Tudo bem se o governo não custear, esse é o debate político. Mas os Correios têm que ter um privilégio, têm que ter um nicho específico em que possa atuar e ter as receitas necessárias para custear as suas atividades. Esse nicho importante era o internacional: só entra até 50 dólares com isenção somente via Correios. Tem um projeto de lei muito bom, que define o que é exclusividade dos Correios.
Pergunta: E do lado da gestão, o que os Correios precisam passar a fazer?
Fabiano Santos: Os Correios vão precisar fazer mais coisa. Na minha gestão a gente criou a entrega de medicamento, que é um segmento que pode ter uma importância muito grande na empresa, visando diversificar as atividades. Os Correios não vão poder mais só entregar carta e encomenda. Aí você tem logística, centros logísticos de operação, logística reversa, atuar em áreas específicas para estados e municípios — saúde, educação.
Pergunta: Tem alguma função que você acha que deveria estar na agência e não está?
Fabiano Santos: Os Correios podiam fazer o Bolsa Família nas agências, os programas sociais do governo federal. Deveria ser tudo na agência dos Correios. Quer coisa melhor do que você ir num órgão público federal e saber que a pessoa que está lá dentro tem fé pública, que não vai ficar fazendo uso político? A gente sabe que muitas vezes ainda tem, na prefeitura, um uso político desses programas. Na agência dos Correios não: o cara vai lá, é amigo do carteiro, amigo do gerente dos Correios nas pequenas cidades.
Pergunta: Você diz que é uma empresa diferente das outras estatais grandes. Diferente em quê?
Fabiano Santos: Você pega a Petrobras, a Caixa, o Banco do Brasil: são gigantescas, importantes, patrimônio do país, mas são mais financeiras. Os Correios são diferentes, os Correios entram na casa das pessoas. O carteiro é o cara que às vezes toma um cafezinho na casa das pessoas. É uma empresa mais humana, mais humanizada, porque ela lida com o povo diariamente. É uma empresa apaixonante.
Pergunta: Isso apareceu na crise do INSS, quando as agências foram usadas para o atendimento.
Fabiano Santos: As pessoas podiam fazer pelo digital, mas no dia em que nós lançamos, as agências dos Correios encheram no país, com os aposentados indo lá. Eu fui a Salvador para acompanhar a abertura, e você via as pessoas desde cedo na fila. Eu falei: gente, vocês não precisam estar na fila. E eles: não, a gente vem aqui, fica conversando. O povo brasileiro ainda precisa disso também, precisa de atenção, precisa de cuidado. Eles saíam do atendimento e não queriam ir embora, queriam continuar conversando, porque a nossa população mais velha precisa dessa atenção. E no correio eles tinham.
¹ O serviço postal no Brasil é contado a partir de 1663, o que dá mais de 360 anos. A empresa pública que o opera hoje, a Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos (ECT), foi criada em 1969.
² Referência à abertura do transporte de remessas internacionais para empresas privadas de logística, que até então era, na prática, exclusividade da remessa postal. Portaria MF 1.086/2024.
³ A cobrança do Imposto de Importação sobre compras internacionais de baixo valor, conhecida como "taxa das blusinhas" (Lei 14.902, de 2024), foi descontinuada. Entre agosto de 2024 e sua recente revogação, o consumidor pagava 20% de Imposto de Importação para mercadorias de até US$ 50, somado ao ICMS estadual. Para compras entre US$ 50 e US$ 3 mil, a alíquota era de 60%, com dedução de US$ 20. Com a mudança, o imposto federal de 20% para itens até US$ 50 deixa de ser cobrado.
⁴ La Banque Postale, o banco do grupo La Poste, os Correios da França.
⁵ A seguradora do grupo é a CNP Assurances, controlada pela La Banque Postale, que atua no Brasil em parceria com a Caixa.

