A ampla utilização da inteligência artificial por advogados e bancas de advocacia já é uma realidade consolidada no mercado brasileiro. No entanto, embora incorporem essa tecnologia em suas rotinas, muitas instituições ainda não possuem mecanismos robustos para assegurar a proteção contra o vazamento de dados e garantir a segurança jurídica em suas operações.
É o que revela a 2ª edição da pesquisa "Impacto da IA Generativa no Direito", realizada pelo Jusbrasil, Trybe e ITS Rio, em parceria com as seccionais da OAB de São Paulo, Paraná, Bahia, Goiás, Pernambuco e Espírito Santo. O levantamento, que contou com 1.800 participantes, indica que 77% dos advogados utilizam IA em suas rotinas de trabalho. Esse dado representa um salto de 22 pontos percentuais em relação ao estudo anterior, que registrou um índice de 55%.
Contudo, apesar da disseminação da tecnologia entre os profissionais, apenas 11% das bancas admitiram possuir diretrizes formais de uso. Essa lacuna na gestão faz com que, mesmo diante dos ganhos de eficiência, os escritórios se tornem mais vulneráveis a possíveis vazamentos e problemas decorrentes da ausência de governança digital.
Institucionalizar é o melhor caminho
O levantamento revelou que 55% dos profissionais utilizam a inteligência artificial por conta própria em seus respectivos fluxos de trabalho. Em contrapartida, o uso institucionalizado da ferramenta pelos colaboradores nas bancas de advocacia atinge o índice de apenas 19%.
Daniela Poli Vlavianos, sócia do Poli Advogados e Associados, interpreta essa baixa adesão como um reflexo da lenta adaptação do mercado. Para a advogada, a institucionalização plena ocorre nos escritórios que já compreenderam que a IA deixou de ser uma ferramenta experimental e, agora, integra a produção jurídica de maneira orgânica. Contudo, ela ressalta que essa transição só é efetiva se a liderança adotar uma mentalidade adequada.
"Não se trata apenas de permitir o uso da tecnologia, mas de reconhecer que ela interfere em temas centrais da advocacia, como sigilo profissional, responsabilidade técnica, proteção de dados, padronização de qualidade e prevenção de erros", afirma Poli.
Já na visão de Beatriz Haikal, sócia da área de IP, Privacy, Media & AI no BBL Advogados, os poucos escritórios que institucionalizaram a IA deixaram de encará-la como uma ferramenta individual e passaram a vê-la como um ativo estratégico. Como resultado, a lógica de uso mudou completamente no ambiente interno da banca.
"Os escritórios que avançaram na formalização tendem a ter uma leitura mais estratégica do tema. Eles não olham apenas para o ganho de produtividade, mas também para os riscos envolvidos. Existe essa consciência por parte deles de que o uso de IA sem governança pode gerar passivos reais, como o vazamento de dados confidenciais de clientes e inconsistências em peças jurídicas sem revisão crítica", complementa Beatriz.
Sem diretrizes, cresce a Shadow AI
Quando os colaboradores de uma organização utilizam ferramentas de inteligência artificial sem a aprovação ou o controle da gestão, surge o fenômeno da Shadow AI. Como resultado, esse uso irregular pode ocasionar o vazamento de dados sensíveis e detalhes estratégicos, acarretando prejuízos à imagem da banca perante o mercado.
No MJ Alves Burle e Viana Advogados, essa prática é combatida por meio de uma gestão administrativa que se mantém conectada tanto às tendências de tecnologia e inovação quanto à equipe e aos clientes. O objetivo é "entender as necessidades para a prestação de um serviço eficiente e assertivo pela escuta ativa", declara a sócia-administradora do escritório, Jenise Carvalho.
No BBL Advogados, o diferencial estratégico foi tratar o tema da inteligência artificial de forma propositiva e não proibitiva. Com essa visão, a banca implementou uma governança estruturada que substitui restrições por diretrizes claras de segurança e confidencialidade. A estrutura une ferramentas homologadas a uma política de boas práticas e revisão humana obrigatória, alinhando a inovação tecnológica aos padrões da norma ISO 42001.
"Com isso, conseguimos transformar um uso que acontecia de forma isolada em um processo com visibilidade, controle e responsabilidade, integrando a inovação à governança do escritório", destaca Beatriz Haikal.
A importância da liderança na adoção da IA
A 2ª edição da pesquisa também mostra que o protagonismo das lideranças na proposição do uso de inteligência artificial caiu de 14% em 2025 para 8% agora em 2026. Segundo a sócia do BBL Advogados, esse é um cenário realmente preocupante, já que a liderança assume um papel estratégico na adoção. Sem isso, a IA tende a evoluir de forma desorganizada, com mais custos no longo prazo e riscos desnecessários.
"Quando a adoção de tecnologia cresce de forma orgânica, sem que a liderança esteja à frente, ela tende a se fragmentar: cada equipe passa a adotar suas próprias soluções, os critérios variam e o escritório perde a capacidade de consolidar aprendizados e medir o impacto real", alerta Haikal.
Daniela Poli converge para essa mesma análise. Na sua visão, quando a liderança não assume o protagonismo, a IA tende a se tornar uma prática atomizada, dependente apenas da curiosidade individual de alguns profissionais. Isso enfraquece o potencial estratégico da tecnologia e amplia o risco de uso inadequado. Por isso, a advogada aponta que o papel do sócio deve ser estruturado em três frentes principais:
- Frente decisória: Cabe à liderança definir a IA como uma ferramenta institucional e não como um experimento periférico.
- Frente normativa: Os sócios ficam responsáveis por aprovar políticas, fluxos e critérios de uso.
- Frente cultural: A liderança deve instruir de que a tecnologia não substitui a responsabilidade técnica e exige supervisão, discernimento e revisão jurídica qualificada.
"Em escritórios de advocacia, a participação dos sócios é decisiva porque a questão não é apenas operacional. Ela envolve o posicionamento institucional, a responsabilidade perante o cliente, a definição de padrões de qualidade e a gestão de risco", complementa Daniela Poli.
Os caminhos para a adoção de IA
Cerca de 17% dos escritórios estão em fase de implementação de guias de recomendações ou boas práticas, embora a política formal ainda aguarde redação ou aprovação. Para as bancas que se encontram nesse estágio, Daniela indica as diretrizes fundamentais para que a implementação ocorra de maneira segura e eficiente:
- Classificação de riscos: Ao diferenciar o uso da ferramenta para cada finalidade jurídica, a banca consegue estabelecer limites proporcionais.
- Políticas eficazes: As diretrizes institucionais devem tratar de confidencialidade, sigilo profissional, proteção de dados e revisão humana obrigatória. É essencial proibir a inserção de informações sensíveis em plataformas não homologadas e definir critérios claros de responsabilidade.
- Treinamento: A equipe precisa compreender que a IA pode alucinar, omitir contextos ou criar referências inexistentes. Para isso serve o treinamento, para entender que o uso sem critério gera repercussões técnicas, éticas e reputacionais.
- Supervisão institucionalizada: Toda entrega jurídica relevante produzida com apoio de IA deve passar por uma revisão humana efetiva, feita por profissionais habilitados.
- Integração com a governança: O tema deve ser incorporado aos pilares de compliance e segurança da informação, garantindo que a inovação deixe de ser um hábito isolado e se torne um fluxo controlado pela organização.
"Quando a liderança não assume o protagonismo, a IA tende a se tornar uma prática atomizada, dependente apenas da curiosidade individual. Isso enfraquece o potencial estratégico da tecnologia e amplia o risco de uso inadequado", afirma Poli. A advogada conclui ressaltando que, em escritórios de advocacia, a participação dos sócios é decisiva. "A questão não é apenas operacional; ela envolve posicionamento institucional, responsabilidade perante o cliente e gestão de risco".

