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Em 20 anos, quem subiu, quem desceu e quem sumiu

Levantamento da Análise Editorial acompanha a trajetória dos 38 maiores escritórios de advocacia de 2006. Duas décadas depois, apenas três melhoraram suas posições no ranking, 22 perderam posições e 13 deixaram de aparecer na pesquisa. O resultado mostra o dinamismo do mercado jurídico brasileiro e a dificuldade de permanecer no topo.

3 de Novembro 17h48

O mercado brasileiro de advocacia se move mais do que parece. Grandes escritórios crescem, outros reduzem suas estruturas, novos concorrentes conquistam espaço e bancas que ocuparam por anos posições de destaque deixam de aparecer nas classificações.
Um número dimensiona essa movimentação. Ao longo das 20 edições do anuário ANÁLISE ADVOCACIA, 3.643 escritórios diferentes foram citados entre os Mais Admirados. Apenas 80 apareceram em todas as edições.
Conquistar uma posição de destaque já é uma realização. Preservá-la durante duas décadas é um feito ainda mais difícil.
Para saber o que aconteceu com os escritórios que estavam entre os maiores há 20 anos, a medida ideal seria a evolução de suas receitas e de seus lucros. Esses indicadores mostrariam com mais precisão o desempenho econômico das organizações. Faltam, porém, séries históricas comparáveis desses dados.
Recorremos a um indicador mais simples, o número de advogados.
Ele mede tamanho. Um escritório maior pode ser menos rentável ou menos admirado que um menor. O tamanho das equipes permite acompanhar movimentos de expansão e retração e, sobretudo, observar como as posições relativas mudaram ao longo dos anos.
Com esse propósito, voltamos à primeira edição do ANÁLISE ADVOCACIA, publicada em 2006.
Naquele ano, 38 escritórios declararam ter pelo menos 50 advogados, entre sócios e não sócios. Juntos, reuniam 4.870 profissionais.

Apenas três subiram em 20 anos

Dos 38 escritórios que integravam o grupo dos maiores em 2006, apenas três terminaram 2026 em posições superiores às que ocupavam 20 anos antes.
Outros 22 perderam posições. E 13 deixaram de aparecer na pesquisa.
Os 25 escritórios que permaneceram na pesquisa reuniam 7.313 profissionais em 2026, uma média de 293 por banca. Em 2006, a média do grupo original era de 128 advogados.
O tamanho médio mais que dobrou.
Os escritórios cresceram e, ainda assim, perderam posições. A explicação está no próprio ranking. Uma organização pode ampliar bastante sua equipe e descer na classificação porque outras cresceram mais.
Em um mercado em expansão, só preserva a posição quem cresce no ritmo dos concorrentes ou acima dele. As posições relativas mudam o tempo todo, e cada banca decide se quer disputar esse ritmo.

Duas décadas, dois movimentos

A comparação entre os extremos mostra o resultado final. A divisão do período em duas décadas mostra melhor a movimentação.

De 2006 a 2016

 

Na primeira década, 26 dos 38 escritórios perderam posições. Quatro avançaram e seis deixaram de aparecer na pesquisa.
Os 32 que permaneceram reuniam 6.784 advogados, média de 212 profissionais por escritório, diante dos 128 registrados em 2006.
As equipes cresceram, e a maioria perdeu posições mesmo assim. Outros escritórios avançavam em ritmo maior e mudavam a composição do ranking.

De 2016 a 2026

 

A segunda década teve outro padrão.
Dos 32 escritórios presentes em 2016, 14 perderam posições, dez avançaram e sete deixaram de aparecer na pesquisa.
Os 25 remanescentes reuniam 7.313 advogados em 2026, média de 293 profissionais por banca.
O número de escritórios que ganharam posições subiu de quatro para dez. Sustentar a subida durante todo o período, porém, foi difícil. Os quatro que avançaram na primeira década perderam posições ou deixaram a pesquisa na segunda.
Quem chega a uma posição de destaque continua a enfrentar novos concorrentes e as mudanças do mercado.

Os três que conseguiram subir

Só três integrantes do grupo original terminaram 2026 em posições superiores às de 2006.
O Lefosse passou de 66 para 345 advogados, acrescentando 279 profissionais à sua equipe.
O SiqueiraCastro ampliou seu quadro de 275 para 750 advogados, crescimento de 475 profissionais.
O Mattos Filho passou de 197 para 709 advogados, expansão de 260%, e avançou da 7ª para a 4ª posição.
Nos três casos, o crescimento rendeu posições no ranking.
Seria um erro concluir daí que foram os escritórios mais bem-sucedidos do período. O critério deste levantamento mede tamanho relativo, e desempenho econômico pede outros dados.
Há outras maneiras de construir organizações bem-sucedidas.

Quando encolher é uma boa decisão

O Wald, Antunes, Vita e Blattner e o Demarest são dois exemplos de por que o número de advogados deve ser lido com cuidado.
Ambos reduziram suas estruturas ao longo do período. Nos dois casos, a redução veio de decisões deliberadas.
O Wald escolheu diminuir sua equipe. A decisão se mostrou acertadíssima e merece elogios.
Em um mercado no qual a expansão costuma ser celebrada quase automaticamente, é preciso visão empresarial para reconhecer que uma organização pode funcionar melhor com uma estrutura menor.
O Demarest decidiu abandonar o contencioso de massa para concentrar sua atuação em demandas estratégicas. A mudança reduziu o número de advogados e redefiniu o modelo de atuação do escritório.
Também merece reconhecimento. O escritório escolheu os serviços em que concentraria seus recursos e abriu mão de volume.
Os dois casos mostram o limite de qualquer ranking baseado em tamanho. Um escritório pode encolher em número de profissionais e ganhar foco e eficiência.
O resultado econômico dessas decisões exigiria dados de receita e lucro, que não temos. Conhecemos as escolhas feitas pelos escritórios, e elas mostram que reduzir equipe pode ser uma escolha de gestão.

O mérito de permanecer

Ricardo Tosto, fundador do Leite, Tosto e Barros, foi um dos personagens que ajudaram a transformar o mercado brasileiro de advocacia empresarial.
Surgiu como outsider em um ambiente de organizações tradicionais e conquistou espaço entre escritórios estabelecidos havia décadas. A banca que construiu passou a figurar entre as maiores do país.
Em 20 anos, o escritório perdeu posições relativas no ranking de tamanho. O mérito da trajetória continua de pé. Estar entre os escritórios de destaque da advocacia brasileira durante tanto tempo é sinal de sucesso.
O caso lembra um desafio comum às organizações construídas por empreendedores talentosos, o de preservar o dinamismo depois que o fundador consolida o negócio.
Parte dos grandes escritórios brasileiros nasceu da iniciativa de profissionais que reuniam qualidades raras. Eram advogados talentosos e também empresários. Tinham visão de mercado, disposição para assumir riscos, capacidade de conquistar clientes e habilidade para atrair pessoas.
Criavam oportunidades e mobilizavam equipes.
Com o crescimento, vieram estruturas mais complexas, departamentos administrativos, comitês de gestão e executivos profissionais. Era um movimento necessário. Organizações com centenas de advogados não podem depender só da capacidade de trabalho de seus fundadores.
A profissionalização trouxe outro desafio. Contratar um CEO não basta. É preciso que ele brilhe, lidere e conduza.
Administrar uma estrutura e liderar uma organização são tarefas distintas. O bom gestor organiza processos e controla custos. O líder faz isso e também aponta caminhos, toma decisões difíceis, mobiliza pessoas e cria condições para a organização avançar.
Há CEOs sonolentos, satisfeitos em manter a máquina funcionando, assim como há comitês que confundem prudência com imobilismo. A burocracia pode virar abrigo confortável para quem prefere não decidir.
Há novos gestores que não conseguem reproduzir a energia empreendedora que permitiu aos fundadores construir suas organizações.
A longevidade dos escritórios depende de lideranças capazes de preservar o que foi construído sem transformar a herança recebida em obstáculo à renovação.
A reflexão vale para a gestão de organizações profissionais em geral. Ela não diagnostica o Leite, Tosto e Barros nem qualquer outro escritório mencionado neste levantamento.
Cada banca tem sua história e seus objetivos. Algumas querem crescer. Outras preferem consolidar posições. Há as que buscam novas áreas de atuação e as que optam por concentrar suas atividades.
O ranking mostra o tamanho das equipes. O que acontece nas salas de reunião, e a qualidade das decisões tomadas lá, fica fora dele.

Quem mais perdeu posições

A maior queda no ranking é a do Emerenciano, Baggio & Associados.
Em 2006, o escritório ocupava a 11ª posição, com 151 advogados.
Vinte anos depois, aparecia na 253ª posição, com 39 profissionais.
Foram 242 posições perdidas.
Neste caso, a queda veio acompanhada de redução efetiva da equipe, ao contrário dos escritórios que cresceram e perderam posições relativas.
Os números, isolados, não permitem identificar as causas nem avaliar o desempenho econômico do escritório.
O levantamento mostra como se transformou a composição do grupo que estava entre os maiores em 2006. Apontar vencedores e perdedores empresariais exigiria outros dados.

Tamanho e admiração

A lista dos Mais Admirados mostra a mesma dificuldade por outro ângulo. Dos 3.643 escritórios citados nas 20 edições do ANÁLISE ADVOCACIA, os 80 que apareceram em todas equivalem a 2,2%.
Dos 38 maiores de 2006, 29 estão entre esses 80.
Mais de três quartos das organizações que já estavam entre as maiores há duas décadas preservaram o reconhecimento dos clientes, mesmo quando mudaram de posição no ranking de tamanho.
O BMA Advogados mostra a diferença entre as duas medidas. Em 2026, ocupa a 16ª posição no ranking por número de advogados e figura entre os cinco escritórios com maior quantidade de profissionais admirados.
Um indicador mede o tamanho das equipes. O outro registra o reconhecimento dos clientes. Lidos juntos, dão um retrato mais completo do mercado.

Chegar ao topo é difícil. Permanecer é ainda mais.

Os números mostram um mercado em que organizações consolidadas convivem com concorrentes capazes de crescer rápido e mudar a composição das primeiras posições. A expansão das equipes não garante a posição no ranking. A redução do número de advogados pode ser decisão bem tomada.
As trajetórias de Wald e Demarest mostram o peso das escolhas de gestão. A história do Leite, Tosto e Barros lembra o mérito de construir uma organização que permanece relevante por duas décadas. Os três escritórios que subiram mostram como é difícil crescer mais que os concorrentes por tanto tempo.
O número de advogados deixa de fora faturamento, lucro, rentabilidade e qualidade dos serviços. Ainda assim, mostra bem como o mercado se transformou.
Num universo de mais de 3.600 escritórios admirados em duas décadas, as posições de destaque mudam de mãos o tempo todo.
Chegar ao topo é difícil. Permanecer nele durante 20 anos é uma conquista ainda maior.

Como fizemos o levantamento

A Análise Editorial selecionou os 38 escritórios que declararam pelo menos 50 advogados, entre sócios e não sócios, na edição de 2006 do anuário ANÁLISE ADVOCACIA. Juntos, reuniam 4.870 profissionais.
A comparação considerou as edições de 2006, 2016 e 2026, com a posição de cada escritório no ranking geral e o número de advogados declarado em cada período.
A classificação usa exclusivamente o tamanho das equipes. As mudanças de posição refletem a evolução relativa dos escritórios dentro do universo pesquisado em cada edição.
Como informação complementar, em 2006, 21 dos 38 escritórios declararam o número de processos em carteira, somando 540.300 causas. Na edição completa daquele ano, 150 escritórios (163, considerados os empates de posição) declararam juntos 933.770 processos.
Os dados foram fornecidos pelos próprios escritórios à pesquisa ANÁLISE ADVOCACIA.
O levantamento compara a dimensão das equipes e a evolução das posições no ranking. Relações de causa e efeito entre tamanho e desempenho ficam fora do seu alcance.
Compilação de dados: Kauê Medeiros.
A Análise Editorial produz o anuário ANÁLISE ADVOCACIA.